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O Calar das Vozes [ouve-te!]
Por Lucas Dalenogare
I. denuntiatio
Eu não sei... É que está ficando muito difícil. Quando a gente não está angustiado, está com raiva. Quando não está com raiva, está triste. Quando não está triste, está indignado. E mesmo assim, seguimos — funcionais. Produtivos. Entregando. Cumprindo metas.
Mas a sensação é de que não faz mais sentido. Como se tudo estivesse ligeiramente fora do lugar. As coisas não se encaixam mais. Há uma tensão no ar. Uma pressão por todos os lados. E isso está começando a pesar demais.
Sinto que o nosso limite de tolerância se esgotou. E me vem a imagem do colapso iminente.
É como se, dentro do cérebro, a pressão aumentasse a ponto de faltar oxigênio — e bastasse um suspiro mal dado para causar um dano irreversível. Uma sequela. Uma fratura na consciência.
Tenho uma ansiedade profunda... Um medo íntimo de que a gente acabe se condenando — pela disputa de egos e vozes — a um destino de cabeças aturdidas. Incapazes.
Sonhei com isso. Um destino de... lembrei. Um destino de mentes parcas.
II. saturnia
(A Tragédia das Mentes Parcas)
A ganância degenerada e voraz de poder sobre o outro e sobre tudo tem efeito sobre as mentes distraídas para plantar-lhes a insensatez.
As mentes já insensatas, seduzidas, passam a servir ao propósito mesquinho do opressor — habilidoso e vil — incapazes de recobrar a consciência e a expressão de sua natureza única, plenipotente em transcendência e transformação.
Subjugadas pelo infame interesseiro, obstinado aos seus desejos imediatos e viscerais, as mentes viciadas e apaixonadas pela sua própria condenação impetuosa lutam ao seu comando, esbravejam, combatem e dilaceram aqueles que não reconhecem mais — em quem não se reconhecem mais.
Finalmente, a certa altura, esgotadas, aturdidas, tapeadas e inúteis, elas, as mentes, paralisam. E apenas caem.
Sucumbem ao vazio imposto a quem tudo lhe foi tirado — não de fora, mas de dentro.
Silêncio.
Desfiguradas, pálidas, abatidas. Só lhes resta assentar-se ali, na obra desastrada da sua distração — por vezes negligente, por vezes arrogante.
Agora, porém, sem impulso. Não mais empoderadas, nem convictas. Misturadas. Entrecruzadas umas às outras.
Irônico: juntas de qualquer forma, mesmo sem perceber-se. Conectadas, só que agora... não atrevidas. não relutantes. Só. Nada.
III. transfiguratio
Nasce aqui um convite honesto — talvez o mais honesto de todos: um movimento de transfiguração pessoal e coletiva, inspirado no amor como essência.
Um amor que não se afirma no grito da ideologia, mas se configura silenciosamente no produto de três práticas concretas: Humildade. Justiça. Coesão.
Este movimento deseja atravessar os dilemas do nosso tempo: a polarização, a lógica obsoleta do ser, a percepção binária da realidade e a tendência de selecionar respostas simples para perguntas complexas.
Mas ele não se impõe. Ele nasce no íntimo do indivíduo e cresce no corpo social como virtude aplicada — enfrentando a tríade corrosiva de sempre: Materialismo. Soberba. Poder.
É nesse contexto que se apresenta a prática do Viver Atento. Não como técnica. Mas como filosofia encarnada. Como método condutor para a expansão da consciência. Como gesto moral e existencial.
Um caminho para a reconstituição da riqueza da alma — território fértil para que princípios morais e éticos canalizem o amor essencial – da essência à materialização. Com ação. Sem ismo.
Os três princípios do amor essencial
1. Humildade
Não como submissão, mas como reconhecimento lúcido da própria condição humana. Dissipa a ilusão da soberba e abre espaço para o aprendizado, o vínculo, a verdade. É o solo fértil onde a consciência se inclina — não para se curvar ao outro, mas para acolher a vida como ela é.
2. Justiça
Não como lei fria, mas como alinhamento entre valor e ação. É a bússola do amor em movimento — força que repara, distribui, protege. Traduz o amor em critério: nem cego, nem frouxo — mas responsável.
3. Coesão
Mais do que coerência. Coesão é a integridade estrutural do ser. Não basta não se contradizer — é preciso ser inteiro. Unir o que se pensa, sente e faz.
Esses três princípios compõem o alicerce da transfiguração consciente. Eles nos conduzem do ontológico (modo de ser) ao axiológico (modo de valor). A partir deles, o amor se torna método, presença e ação.
O esgotamento da performance
No palco do agora, somos cobrados por uma atuação incessante. Não mais para interpretar, mas para performar até o esgotamento. Projetamos versões cenográficas de nós mesmos — chanceladas por uma lógica de aparência, onde bancas de desmantelo sorteiam critérios frágeis e pseudo-verdades decoram fachadas vazias.
É o reinado do olhar pervertido — que nos seduz a cultuar códigos de comparação e mais-valia.
O retorno ao Ser
Mas o Ser é um chamado. Um chamado que exige coragem: a coragem de romper com o conforto da fachada e de mergulhar no silêncio.
De reencontrar, na humildade crítica, um retorno autêntico à própria presença.
É o que nos permite destituir a dominação da estética sobre o que mais carece de densidade: o sentido, o afeto, a verdade interior.
Referência Viva — A Transfiguração
Há um chamado mais antigo que qualquer discurso. Um chamado que se encarna no testemunho do Cristo — não o institucionalizado, nem o dogmático, mas o Cristo vivo, humano e espiritual, que revelou, na montanha da Transfiguração, o sinal de um caminho: O Ser que se eleva sem deixar de ser humano.
Ali, a luz não oculta a carne — a revela. O rosto não se cobre com poder — mas com glória íntima.
Foi esse Cristo — compassivo, despojado, caminhante — que inspirou a origem deste chamado. Ele não ensinou fórmulas. Ele viveu a Verdade. Ele não apontou a caverna dos outros — rompeu a própria sepultura.
O Viver Atento nasce desse gesto. Não como doutrina. Mas como reflexo. Reflexo de uma consciência que não teme o silêncio. De uma presença que não deseja dominar — mas tocar, redimir, restaurar.
Reconstrução com lucidez
É preciso trilhar a via dolorosa — que nos quebra para nos reconstruir em significação lúcida.
O Viver Atento é esse método. Nele, a sensibilidade se transforma em prática. A alma encontra coesão. A verdade interior se refaz.
♾️ lux erit
(O Viver Atento como Episteme)
Do ideal à vivência
Este é o primeiro passo para converter a utopia do ideal em realidade vivencial. Um estado onde a razão e a emoção se entrelaçam. Onde o ego cede à sabedoria. Onde o Cordeiro acolhe — sem vaidade, com fidelidade.
O Viver Atento não é só um gesto. É um modo de conhecer o real.
Neste novo movimento, a episteme não é apenas teórica — ela é vivida. É escuta, presença e discernimento ético. Um saber que transforma percepção em sabedoria — e sabedoria em ação.
O primeiro passo do caminho
Se este texto te tocou — ou te confundiu — não importa. Este não é um manual. É um convite à experiência.
Comece assim: Diante de um incômodo, ruído ou notícia que perturba... Respire fundo. Faça perguntas:
Escute o que emerge. Este é o primeiro gesto do Viver Atento. E ele, por si só, já abre o caminho.
Lucas. A prática do Viver Atento - Um movimento pelo resgate da verdade que nos une!
Source: O Calar das Vozes [ouve-te!]
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