tem gente que vê coisa onde não tem nada assim é quem inventa histórias.
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tem gente que vê coisa onde não tem nada assim é quem inventa histórias.
gesto nao se desfaz gosto nao tem volta
labilidade que se ganha despida miúda na noite longa na cama dura. coisa que dói feito o cão mulher feita para dançar! dentro das fendas da escuridão, sob o estalar dos chicotes mulher dança em cima do seu amado morto mulher dança dentro do fogo passa pela porta da frente transparente visita o fim e retorna, triunfante mulher que se dobra mulher que enrola! ouvi sim dizer que tem em cima dessa terra o único ofício santo: eu danço.
são densos estes pântanos em que me pões, são densos os cerrados entre nós imensos territórios inconquistáveis. entretanto nos cantos esquecidos nos quais me toco, noto dobras quinas cantos frestas passagens trilhas. enquanto não vens e me tocas também, eu sou eu sou, a despeito de tudo sou eu, sou senhora das terras minhas: onde me toco, tudo aprendo, de tudo sei, a mim tudo pertence.
são densos os meus sonhos mas foram leves ventanias e foram lentos.
nota en post-it (no olvidar) esta vida es un trocito de tiempo muy pequeño demasiado pequeño al contrario que los idiomas.
1. quem organiza uma festa, organiza outros mundos. 2. quando alguem se diverte, manifesta-se um corpo. 3. onde está a multidão, está Deus.
a tia da escola tá profética exorcisando sensata as criança tudo constrangida tias-cabeça dispositivo compacto e leve ou tias-cabeça-drone mirando multidões; sua cabeça novo design aerodinâmico! ou sua cabeça novo acessório para sentir que você está dentro do drone! ou sua cabeça é sua censura, ou seu piloto automático, ou sua cabeça aplicativo acoplado no corpo entidade baixada na ponta da língua ou arma engatilhada até o oco da alma.
1. corre furtiva pela minha boca a língua úmida de maresia ou como maré enchendo o mangue eu falo!
2. dizer é uma força soprar ventos e versos dispara facas da garganta não é por acaso todo idioma pode ser indomável pelos homens vingar a morte e o silêncio árido da morte.
3. quando ela falava, eu ouvia ela falava em tempestade, trovejava: arreda homem! eu sou mulher faladeira.
tudo quanto é a natureza chamarei pela palavra Deus tudo eu descubro pelo que chamo de palavra alma. de onde vem a gente falar a palavra amor?
1. possuir é um incidente no tempo acidente de percurso emoldurado entre dois rasgos ou dois rompimentos. possuir é sempre um intervalo no espaço na história ou um (parêntesis).
2. desejar possuir reverbera para fora do parêntesis para fora do tempo do respiro, portanto não se inscreve na espiral do fim de todas as coisas mas vibra pulsa explode pelo infinito incalculável impossível: pelo espaço entre os ossos do meu crânio maxilar mandíbula escápulas caixa torácica tórax bacia cristas ilíacas pelos dedos dos meus pés rebate em meu esqueleto, refrata em minhas cavidades oca de ou pelo desejo dói.
chegando em salvador enquanto o sol nasce quebrante no fim da estrada o sol que tudo ofusca e queima a mata sagrada do recôncavo era como eu havia lido ou havia sonhado os vidros as gentes os olhos os óculos as latarias as janelas os faróis as palavras o que eu achava no aqui estou de novo. queimou-se a noite sem dormir pensando nesse desencontro e emerge súbita do silêncio, a brecha a dúvida.
me calo com confiança e percebo o encontro é um corte. uma ferida que, delicada e brutalmente, alarga o possível, o presumível e o provável, sinalizando outros mundos – outros mundos para se viver junto – e ao mesmo tempo subtrai passado e futuro com a sua emergência.
o encontro só é encontro verdadeiro e real quando o acidente da colisão é percebido como oferta, aceite e retríbuída. o encontro, então, só se efectua de fato – só termina de emergir – se for reparado e restribuído, isto é, cuidadosamente assistido, singelamente manuseado refeito a cada vez interminável.
o acidente, pra cumprir seu potencial de encontro, não deve ser precipitadamente decifrado, anexado às coisas que já sabemos e às respostas que já temos. o acidente que se torna encontro abala o que permeia nossa existência no seu movimento infinito: é necessário senti-lo como inquietação, agitação involuntário e incontrolável, oportunidade para reformular perguntas, modos de operar.
para encontrar é necessário reverter a necessidade da certeza pela espera, a expectativa pela confiança, a acusação pelo questionamento, a rigidez pelo rigor, o abandono pela comparência, a competição pela cooperação, o poder pela potência, o abuso pelo uso, a manipulação pelo manuseamento, o descartar pelo reparar.
requer reencontrar naquela palavra velha, quotidiana, naquele som pelo qual aprendemos a nos insensibilizar, reencontrar aí, no comparecer junto, recíproco, todo um universo de caminhos vias trilhas traços tramas ramas rios riachos desaguando na luminosa brecha.
quando se explora as brechas, há que se abdicar das respostas. nada é, nada significa, nada quer dizer e nada representa. enquanto seguirmos obsessivos a procura de causas, motivos e razões, buscaremos insustentavelmente os culpados, tecendo infinito lamento.
a única possível razão do encontro é a razão mesma da distância.
se nos dermos esse tempo, esse silêncio, essa brecha; se suportarmos o desconforto da ferida aberta, então, eis que o encontro se apresenta e nos convida, na sua complexidade embrulhada em simplicidade.
encontrar é ir “ter com”. envolve dobrar, desdobrar e redes dobrar o fato, na certeza e na destreza do silêncio. desdobrar o que o outro tem e, ao mesmo tempo, o que nós temos a lhe oferecer em retorno.
desfragmentar, nas suas miúdezas, as pedras preciosas, pérolas de diferença inesperadamente postas em relação.
relação: encaixe entre possibilidades coincidentes. relação de relações: cascata, desencarrilhamento de trens, um acontecimento que só dura enquanto não “é”, que só dura enquanto re-existimos com ele, e nele, somos ele.
solícita quem sabe amável atendi a chamada no telefone confiante ele me disse amor. o homem (quando) me chama de amor, estou certa eu respondo sempre este nome senhor não é meu nome: é este outro amor amor outro?
dedo a dedo, agora ela é minha de novo. minha amora molhada, cheia de boca. ela nao anda mais tao longe, escorre inteira pelos meus dedos faço amor com o vento. eu ainda estou aqui debaixo da árvore na qual você subia emprensada entre os galhos.
olhe essa noite, por exemplo em que todos os amores se encontram num giro coreografado entrelaçando mãos, dedos dos pés digerindo e se expulsando.
meu corpo saiu daquela forma contorcida agora me extendo agora me entendo. minha amora amorzinho foi o que você disse eu me lembro.
vejo uma mulher com o corpo molhado saindo do mar, vindo na sua direção sem vergonha na boca língua de gaita. ela te agarrava como uma se tivesse fome eu me parti ao meio feito uma fruta feito uma pedra. deixei seu livro e seu isqueiro na calçada em frente ao meu apartamento vi que você se casou.
meninas e meninos são uma coisa só, sempre desabotoam suas blusas abrem suas calças tiram seus sapatos e apagam a luz. as pessoas sao cheias de mentiras se comem mutuamente, bem saciadas. eu me também me como e me sacio.
carta de amor
em qualquer um dos lugares dentre todas as gentes eu moraria contigo de novo
ele é um rio que não corre ele corroe por dentro de mim hoje sonhei que me escondia debaixo do lençol para que o homem não me visse fiquei contente eu não fui descoberta.
amola-se alfinetes tesouras facas
da palavra dos homens
tenho o mais profundo asco quando conforma meu corpo em dobrável objeto o dito é dizer-me sempre usável manuseável manobrável. para ti, eu escrevo tu, que comigo és duas e uma, no mesmo tempo eu falo para ti. no oco morto, cabaça do princípio da tua cabeça neste ponto estarás viva manterás teu peito mais aberto tua porta ainda mais escancarada das ondas sairás ilesa nem capturada nem presa serás trovante trovadora trovoada.
sobre a construção civil
concreto na cabeça dos outros é isopor.