Apegada às memórias de um passado tão distante, um longínquo não verbal e nem um pouco estrutural, sem sequer uma viga para sustentar.
Na espera de quem parece nunca voltar.
As lembranças de um céu azul bem claro, irradiando cor de ouro, ainda me encontram. É estranho como algumas memórias se tornam refúgios, mesmo que frágeis.
A gente foi amor, calor, fogo e dor.
A gente foi e não voltou.
Ah, mas quando éramos, éramos mais amor do que qualquer circunstância ou obstáculo. Era isso que parecia quando estávamos, quando nos olhávamos.
Insisto em te buscar nos meus sonhos e no nosso lar, que me deixou resquícios ou até mesmo migalhas do que a gente um dia foi.
Parece que, para mim, só existir sem você não basta. E, para você, nem sei se ainda existo.
Mas, afinal, qual história tenho para contar?
Como foi que deixei de assistir você? Por vezes, me sinto viva, apesar do estrago.
E eu me lembro, lá pelas últimas, enquanto eu cozinhava na sua casa, você deitada no sofá estudava. Eu, parada junto à bancada, vi nossa vida passar diante dos meus olhos e perguntei se você se casaria comigo. Você disse que sim, depois de muito pensar, mas não naquele momento.
Seria mais uma promessa vazia? O que restou dela são vagas memórias, que aos poucos vão se perdendo aqui dentro.
E, a cada dia que passa, mais longe você está, e eu ainda espero.
Um quinto; um quarto; um terço; um meado, um segundo.
“De acordo com estudo feito em 2021 na Universidade Syracuse, nos Estados Unidos, se apaixonar pode levar um quinto de segundo.”, é o que dizem os cientistas.
Um quinto de segundo; ou menos, foi o que precisei para me apaixonar por você.
No instante em que a vi, a cumprimentei com um abraço e um beijo em sua bochecha e por fim me afastando poucos passos; ou quase nenhum para te olhar; reparando em cada detalhe que só via por foto: seu cabelo liso, nitidamente penteado, o verde em contraste com um punhado de castanho perfeitamente organizado nas íris de seus olhos, um olhar de análise convergente e recíproco, e o mais notavél: o vermelho rubi que adornava seus lábios
A timidez que é minha inimiga de anos pareceu acolher-me em seus braços até a primeira dose de cachaça. As palavras fluíam, espontâneas e contínuas.
Seu olhar penetrante exclamava desejo, e as pupilas se dilatavam, a tensão e o desejo eram palpáveis na distância de uma cadeira a outra, onde somente a mesa nos separava.
O toque macio e leve de suas mãos, as taças de vinho rose que você degustou com prazer e o jantar que nem pedimos, por não lembrarmos de comer, saboreando cada assunto que surgiu, com detalhes, expressões, surpresas e risadas. O retoque do batom e a volta do banheiro com seus cabelos devidamente penteados no espelho de Babel.
A chegada da conta e a saída.
A saída como entrada.
A entrada como encontro.
O encontro dos nossos lábios e o frio na barriga que se contraiu num segundo.
A delicadeza do contato, a aproximação e o encaixe entrelaçado, repassado de dias de reagendamentos, desmarcações e desencontros que se dissiparam sem tardar.
Amiúde das especificidades.
O seu corpo colado ao meu enquanto seu cheiro me aguçava avultadamente.
Segredos confessados em seus ouvidos que a arrepiaram por inteira, gerando ofegantes suspiros.
A dança de nossos corpos em dessincronia com a música que tocava ao fundo, onde a nossa dança não tinha espaço para marca-passo, somente o anseio na reciprocidade de não acabar.
O parecer de outras vidas, com sentimentos repartidos e a contentação em te ter por hora, bem de-va-ga-ri-nho.
E te procurei, entre copos e corpos;
nos seus bares favoritos, em cada mesa e calçada;
no mar de gente nas ruas;
no mar de águas salgadas e na vasta areia da praia;
por todos os cantos, beiras e vielas da cidade.
Subindo a avenida Amazonas, parando em cada memória que a gente foi, sentindo em cada lembrança a epifania de vidas que não vivem mais.
Não restou nada de sua presença, além das minhas lembranças; um princípio de taquicardia em um capítulo de caos.
A correria matinal para não se atrasar, o suor de mãos dadas em pleno verão, a despedida sem beijo para não perder o ônibus e de lá notificar que conseguiu entrar.
Outrora nós íamos e vínhamos para tantos lugares, do começo; na Augusto de Lima com a Bahia, gelo e limão não podiam faltar. Na Curvelo com a Contorno a gente se via, sem parar. Sentamos em bares por toda BH, fizemos compras e batemos perna, do Milionários ao Asteca.
Mesmo depois de tantos “eu te amo” no vigésimo quinto andar, no epicentro de Belo Horizonte, quase chegando aos céus, você manteve seus pés no chão.
Em pré despedidas na Amazonas; até o adeus sem você olhar para trás. E foi de lá, da Amazonas na esquina com a Contorno, o desencontro; nunca mais nos encontramos.
A grande brincadeira do mundo dar voltas e eu sempre cair
Cheguei a achar que você me odiava, por dias e noites fui prisioneira desse pensamento que me consumiu vitalmente, não tive coragem de ir direto a fonte e perguntar “você me odeia?” por medo da resposta e da dor que viria se fosse um “sim” dito por vós.
Matutei relutantemente sobre você, sobre eu e você até a óbvia conclusão de que o “nós” já não existe há tempos e há tempos que eu não consigo parar de pensar em você, me assombra em meus sonhos, me ilude em meus próprios pensamentos e acaba que por fim você mesma não falou um A, enquanto eu fico aqui remoendo pensamentos e criando mil versões irreais de mim, de você, de nós, completamente apegada a um “nós” passado, sem pensar nas brigas e discussões, lembrando das carícias, dos cheiros, dos pequenos agrados e prazeres de te ter.
Uma amiga disse que é necessário ressignificar esse sentimento e desejo que tenho por você, mas a verdade é que há tempos que já ressignifiquei e não entendo como ele ousou voltar à tona de forma tão abusada, não sei como conseguiu escapar se estava trancafiado a mais de sete chaves, passando por onde hoje só se tem cacos, estilhaços e desconfiança.
“Se for de vocês voltarem, a desejo de Deus, universo, destino ou o que quer que seja, vai acontecer.” – Me disse você, ou eu disse a você? A grande brincadeira do mundo dar voltas e eu sempre cair, há mais de vinte anos aprendi a andar e ainda assim tropeço na atmosfera que me despreza enquanto ser humano, fazendo-me parecer tola.
E tola realmente estou por insistir em ouvir meu coração que grita por você, pouco falta para eu gritar para você, o que falta?
O que falta? Coragem? Não é coragem.
É claro, toda história de amor tem uma pedra no meio do caminho, e se por deus você for minha história de amor, seu novo amor é a pedra no caminho e o problema é que eu não quero atrapalhar, mesmo tendo absoluta certeza que ela não é o amor da sua vida, e que se não for eu, não sei quem é, porque eu tenho certeza absoluta que ela não te causa contração ventricular prematura, mas claro, é uma escolha sua.
“Amor é onde eu queria estar com você...” se eu fechar os olhos consigo te sentir num abraço entrelaçado e um sorriso de gengiva com os olhos semifechados, mas ainda assim olhando pra mim enquanto a gente dá umas “balançadinhas” o mais próximo possível do ritmo que conseguirmos, eu consigo te ver comigo, meu bem.
Meu bem, “meu” bem.
Duro encarar a realidade que já venho falando desde o segundo parágrafo, “nós” não existe. E você não é meu bem, não mais, não como quando você acordava assustada de madrugada e se acalmava sabendo que eu estava ao seu lado, como nossos olhares sempre se cruzavam gerando megahertz e do seu beijo que me arrepiava o corpo inteiro.
E isso são apenas histórias, sem equívoco algum, como eu te amei ninguém vai amar, porque nosso amor foi único no mundo. Mas isso não te impede de amar outro alguém, e que egoísta eu seria para ser contra.
Depois que soltei sua mão não teve cola, grude ou chiclete que lhe fez querer segurar a minha novamente, eu sei disso. Eu fui um erro, como você mesma disse e eu sei o quanto é difícil acreditar em mim porque o primeiro amor é único, e fui o seu, o primeiro grande erro também afinal, né?
Pensei que tinha superado isso a mais de um ano e eu que tanto me orgulho de não mentir, cai na minha própria mentira. Eu sinto que não resolvemos tudo mesmo tendo conversado tanto.
A dor irracional que grita no peito até a noite que cai com o vazio que fica na mesa da sala amontoada de saudade.
As músicas que tocam no aleatório sobre casais que se separaram com detalhes das vivências diárias às que contam sobre alguém que chega até a se parecer comigo levando tempo para superar sem nem saber ao certo se um dia será possível superar o insuperável.
O desconfortável espaço que sobra na cama e a solidão de fazer tarefas simples sozinha, como dobrar o lençol e o cobertor sem ter você para segurar uma das pontas e me contar de seus sonhos da noite passada ou dos planos para o dia que vinha.
Sem falar na falta matinal do cheiro de café coado e o não te ver tomando aquela xícara de café amargo. Sempre tão perceptível a minha não apreciação por café morando com você que além de tomar, fazia receitas: tortas, bolos etc., e até para skin care usava.
Os pelos de seus gatos que uma vez ou outra encontro em minhas roupas mais guardadas que vem à tona em uma noite gélida com a chegada de outubro depois da dispersão do sol que quase não se via em céu nublado.
Ficaram alguns livros seus para trás e nem mais raiva sinto pelas páginas com orelhas dobradas. Folheio às vezes suas anotações no rodapé com claras observações que você jurava que o autor reconheceria a melhoria.
Também tem seu cheiro que insiste em fazer parte do guarda roupa, mesmo com sua parte vazia que agora uso para colocar as roupas que compro sem necessidade, apenas por um prazer instantâneo de gastar que não dura mais que minutos, em minha defesa, é uma enorme parte vazia, não mais vazia que uma casa feita para duas com somente um eu caindo aos pedaços.
A memória olfativa me faz sentir o cheiro do seu creme pós-banho, banho qual noto seus inúmeros frascos de cremes para pentear seus cachos que ficaram postos na janela acumulando certa poeira com o único papel de existir, porque afinal, não há uso para mim que não possuo cachos.
Há um pedaço de você em tudo e mesmo que mal tenhamos fotos juntas, cada objeto que compramos ou você por indiferença/ descuido deixou para trás quando foi embora, cada canto, ladrilho e até o aquário vazio do nosso peixe que você levou é um retrato seu, assim como os diversos vasos de cactos e suculentas penduradas na janela com emaranhados pedaços de barbante é um retrato nosso, uma fotografia salva em memória com risadas e cheiro de terra recém-molhada com a chuva que invadia a varanda nos deixando enxarcadas.
A falta de sua chave com 245 chaveiros pendurada atrás da porta e a porta da varanda que há tempos não fica aberta porque só você deixava.
A escada que subíamos cambaleando de bêbadas aos amassos até a porta se fechar atrás de nós que acabávamos fazendo um tour “artístico” pela sala, jogando as roupas pela casa com seus seios colados aos meus e nossos dedos se revezando com gemidos e suspiros constantes, extravasando o fogo que pingava em suor entre beijos e tapas na cara que acabavam também na bunda, gerando olhares em órbitas que explodiam excitação com suas mãos no ponto de tirar-me a vida; no pescoço, no ápice do viver que acabava em orgasmos com sua língua aonde o sol não chega a bater, mas os vizinhos com certeza acordavam na trilha sonora que vinha a recíproca do gozo, faltava ar e as palavras ofegantes que se entendiam era para não parar.
As suas garrafas de vinho pela metade que deitadas mal se encostam à tampa de carvalho estariam envelhecendo para você melhor saborear um dia? Foram tantas garrafas de vinho: rose, branco, doce, tinto, suave... Diferente de mim, você amava degustar todos e não importava o dia ou horário, sempre era hora para tomar uma taça de vinho.
Nem aquele tapete horrível que você amou e trouxe do bazar da vizinha ao lado que mudou para o interior, que no mesmo dia você derrubou meia garrafa de vinho por rir de mais de uma piada, caindo no chão às gargalhadas... Eu não tive coragem de me desfazer dele, porque vai que você volta e não tenha trago chinelo, não pode ficar com o pé descalço pela casa, como sua mãe mesmo dizia: “Pode adoecer andando com o pé quente no chão gelado!”, ai se dona Rosa sonhasse que o chão pálido da cozinha já vira tantas vezes nossos pés nus em compasso entre danças e abraços entre preparos de cafés, almoços, lanches e jantares. Mas não se preocupe se esquecer dos chinelos, ficou algumas meias furadas que você amava usar porque são estampadas no cesto de roupas para lavar que eu até passei para guardar.
Tem você em cada passo pela nossa casa, tem você em cada verso, prosa e poesia, no meu coração e na mancha de vinho daquele tapete de textura duvidosa.
Tem seu riso no ar e quando fecho os olhos, vejo seu olhar delirante de encontro ao meu, acompanhado de um largo sorriso que sou capaz de ouvir junto a paz que ele traz consigo.
É a presença em si que falta, porque de resto você está em tudo e não é fácil não te ter aqui e tudo ser sobre você.
Só porque levo um pedaço seu comigo e compartilho nossos acasos com amigos e conhecidos, que conto a eles sobre como nos apaixonamos perdidamente e por fim nos perdemos, como você fica bem de amarelo e como era o tom da sua risada vs sua cara de brava quando emburrava, nem um milhão de batatas fritas cobertas com ketchup lhe tirariam o riso nessas horas. Mas é claro, não é sobre você que falo quando perguntam como vai no trabalho, porque essas horas você já estaria na porta me esperando para me acompanhar até a esquina do ponto de ônibus, que sempre chegávamos atrasadas e eu corria mesmo sabendo que o motorista me esperaria. Meu fim de semana no parque não é sobre você ou como quando sentamos em meio às árvores comendo chocolate e demos pedaços de pão aos patos no lago. Nem mesmo minha roupa de saldão que compramos na liquidação da coleção passada após ficar boas 3 horas dentro de mesma loja experimentando tanta roupa que a vendedora já não aguentava mais ver a nossa cara, minha impaciência nos seus 117 looks que ficava boa em 110 e você simplesmente não levava nenhum... Até eu chegar ao caixa, tudo recomeçava.
E também não é sobre mim.
Não é sobre mim que minha amiga conversa contigo e pergunta quando vamos voltar e eu rio para não deixa-la sem graça. Sobre como passo noites em claro esperando uma mensagem ou uma ligação sua, quem sabe até um sinal de fumaça. Não é sobre eu acordar e te procurar do meu lado, levantar e não ter café coado, porque eu nem gosto de café, mas gostava do cheiro, da forma que suas mãos circundava a xícara e o vapor embaçava completamente as lentes do seu óculos, quando você se aproximava apenas para sentir a fervura e o cheiro de café recém passado. Não é sobre como meus olhos brilhavam quando você chegava. E uma parte de mim partia quando você se ia.
Não é sobre nós.
Não é sobre um pedido de namoro no breu noturno na primeira noite dormindo juntas. Sobre dar a volta de bicicleta na lagoa da Pampulha ou na Av. Santos Dumont até a Praça da Estação. Sobre sabermos de cor os nomes das lojas que beiram a Rua São Paulo. Sobre mãos dadas e bochechas coradas na Espírito Santo. Sobre olhares trocados e caminhos cruzados numa esquina qualquer com uma Araújo do lado. Sobre deitar na praça para desfrutar das músicas ao vivo de um bar. Sobre amar.
A dor do coração partido e a falta que ela faz chega à boca do estômago, sempre assim, na hora que deito.
Não que a vida parou e não tenha maiores preocupações com o trabalho, faculdade, amigos e família. Mas parece que meu cérebro programa um horário diário para pensar nela, seria para não esquece-la?
Hoje a reflexão foi sobre quantas portas tem em sua casa e porque eu saber disso. No meio de um isolamento social causado pela pandemia não temos vivências juntas em botecos, restaurantes, museu ou parque de diversão. E não sei qual lado da mesa amarela do boteco ela prefere sentar ou qual seria o nosso bar. Não sei quanto tempo ficaríamos olhando roupa na Marisa ou C&A. É engraçado né? (Modo de dizer.) Nem sei ao certo seu lugar favorito no cinema e se comeríamos um BK ou compraríamos pipoca antes da sessão começar.
Basicamente pulávamos uma para casa da outra, revezando mais aos fins de semana.
São 11 portas se você quer saber e também há um taco solto assim que sai do quarto para o corredor. Pequenos detalhes que não notaria nem daria atenção se não ficássemos a maior parte do tempo lá.
É ruim não ter feito o circuito da praça da liberdade ou aproveitado um festival na praça da estação e também nunca fomos a shows ou boates, mesmo que eu odeie boates.
Daqui a 2, 3 anos quando já nem lembrarmos mais da existência da outra e por acaso esbarrarmos lá no bar da Cássia, tomaríamos um litrão e conversaríamos sobre isso? Sobre uma paixão na quarentena?
Se não fosse essa confusão e fosse em outra época; ocasião, será que nos encontraríamos? São tantas perguntas não respondidas.
Hoje em dia o isolamento só existe para quem tem condição, quem não tem segue a vida "normal", pegando ônibus cheio e trabalhando na rua até tarde da noite. Há quem se arrisque a ver um filme numa sala de cinema completamente fechada ou sair para jantar, não que a vacina tenha saído e que a doença não seja altamente contagiosa.
Inclusive nem sei como ela está, chego a pegar o celular e procurar seu número que havia salvado em algum lugar caso precisasse, porque não daria certo ter seu número a mostra na lista de contatos e a ver on line no WhatsApp numa situação como essa por exemplo.
Já se passaram semanas ou meses, sei lá. E essa dorzinha chata no peito parece nunca passar, a metacognição é a raiz da auto sabotagem. Quanto mais queremos parar de pensar em algo, mais pensamos, nosso cérebro é extremamente jocoso.
A gente tentou, sabe? Ou pelo menos eu tentei. Se ela quisesse o mundo eu facilmente pedia três para viagem, colocando um laço para presenteá-la.
Mas o mundo também já foi nosso ou algo do tipo.
Se estivéssemos em época de DVD seríamos clientes VIP’s das locadoras, mas em tempos de internet os sites não nos da “olá” nem perguntam: "Gostou do filme? Chegou um novo ontem, vai levar?". A gente assistia pelo menos cinco filmes por semana ou alguns episódios de séries, mesmo que distantes; cada uma em seu canto, sincronizávamos o filme e comentávamos por ligação.
Chegava a ser também um web namoro. Regressão para pré-adolescência e adaptação para atualidade.
Às vezes também dava pra sentir saudade, uma tosse ali ou uma rouquidão evitávamos contato por segurança, porque além de nós duas havia nossas respectivas famílias, nem todo mundo pensava assim o que ainda é péssimo porque nos obriga a ficar mais tempo isolados.
Certa vez fomos ao parque municipal quando reabriram seguindo protocolos de segurança, estava vazio e silencioso, tirando as crianças que por vezes rodeavam. Era bom esses pequenos momentos que tínhamos contato com a natureza porque na maior parte do tempo trancafiadas em casa mal víamos árvores ou conseguíamos escutar o canto de um bem-te-vi. Da saudade desse dia. Conversamos bastantes sobre historias do passado; nada acontecia de novidade, mal mal uma mexerico do trabalho ou fofoca da internet. E depois de tanto falarmos só ficamos em silêncio ouvindo os pássaros e vendo os enormes patos rebolando pelo parque. Tudo foi ótimo mas aquele beijo que demos na hora de ir embora foi inexplicável de bom, se soubesse que não teria outros logo mais pediria replay sem hesitar.
E aqui está toda confusão aleatória que penso antes de dormir, falando em dormir, é péssimo não tê-la deitada aqui no canto roncando, e também é péssimo saber que vou acordar e ela não vai estar.
Maldita dor do coração partido que não se resolve com uma dipirona ou dorflex, quem sabe neosaldina?
Enfim, aqui em casa são dez portas, será que ela notou? Não faço ideia e também que diferença isso faria?
Agora o mal mesmo é revirar a galeria.
Eu preciso dormir.
E se eu contar para vocês quem sempre aparece em meu sonhos? Nesse caso parece que ela também sonha comigo, uma espécie de conexão paranormal? Ou apenas meu cérebro idealizando o que quero ver?
Pois chega.
Vou ver mais nada.
Questão de milésimos de segundos depois, fiquei sem reação. Teve uma rápida chamada. Dois toques, nem deu tempo de pensar e ela já havia desligado.
Devo retornar? Ou apenas sonhar? Fingir que já estava dormindo também é uma opção, como saberia que era ela? Ninguém mais decora o número dos outros, bem, ninguém da minha idade que eu conheça além de mim.
E se for alguma urgência? Não é normal ligar para as pessoas de madrugada.
Tá! Vocês estão certos, eu retornei.
Que os sonhos esperem e que o sono se desfaça, loucura ir para lá às duas da manhã? Só vou descobrir se for, não é?
Começou com um: "Tá tudo bem?" e acabou em:
— Vem pra cá, vamos conversar.
— Agora? São duas da manhã.
— E?
...
— Isso é uma boa ideia?
Houve um silêncio como se ela estivesse analisando a situação.
— É uma péssima ideia.
Então eu simplesmente fui atravessar a cidade para vê-la. E depois de horas de choro, lavando as roupas sujas, calcinhas e colocando botões em seus respectivos lugares sem nenhuma falácia.
Ela me beijou, ou eu a beijei? A gente se beijou, e se encarou. Ela alisou meu rosto por segundos e eu segurava sua mão, absorvendo o momento.
De repente lá estávamos nós despidas cientes que quando acordássemos não encontraríamos algumas peças de roupa. Reconectamos da carne a alma tentando por em dia os dias perdidos e saciar a vontade que tínhamos uma da outra, rolavamos na cama entre gemidos, tapas e arranhões, sem mais caricias.
Deitadas cobertas por um leve lençol para não sentir frio quando o corpo esfriasse, novamente nos encaramos enquanto ajeitávamos em uma posição anormal, porém super confortável e quando notamos a claridade vindo de fora, já era dia.
O sol já invadia as frestas da janela, ela se levantou e puxou a cortina numa falha tentativa de escurecer o quarto.
Nos ajeitamos de novo e minhas mãos junto às dela pairavam sobre seus seios, conseguia sentir cada batida de seu coração até que os meus aparentemente sincronizaram com os dela. Com um beijo em minhas mãos me desejou bom dia como se fosse noite e eu retribui. Assim fomos dormir enquanto o mundo acordava.
Mas o que eu tenho a ver com o resto do mundo se meu mundo estava bem ali nos meus braços? O resto não importava.
São apenas três palavras formadas por sete letras, há quem prefira em duas palavras, formada por cinco letras... Seja como for, eu considero uma das, se não A frase mais difícil de falar. Em tese é um vocábulo básico, mas carrega um peso enorme na pronuncia e no sentimento que vem embutido, parecendo um arame farpado que me corta a garganta e a transforma em nó.
Isso me lembra de um episodio em que uma ex minha gritava no meio do shopping: “EU TE AMO, GABRIELA! EU TE AMO!”, após uma tarde de dr comigo tentando reconciliação por sabe-se lá qual vez. Enquanto ela gritava, minhas bochechas coravam e eu só queria me enfiar dentro de um buraco. Ela só parou de gritar quando eu com muito custo consegui fazer o mesmo, porque realmente a amava e ela sabia, só foi difícil de falar.
Hoje em dia cansamos de ver rasas declarações de casais que em poucos dias já se separam e de certo modo, isso vem se tornado cada vez mais banal.
Conseguimos banalizar o amor, dizem: “eu te amo” por ai como se fosse um “bom dia” qualquer, sem mais nem menos.
Outra vez em que ouvi o mesmo “eu te amo” por outra pessoa demorou algum tempo para perceber que não era amor e sim paixão. E entre o amor e a paixão, a paixão e o amor há uma grande diferença. Nesse caso em especifico fica obvio que o amor não trai, não mente, não te usa ou te esfaqueia pelas costas, não que a paixão faça isso, mas vocês entenderam.
Apaixonar é fácil, a paixão platônica está aí como referência. Olhares se trocando ou não a paixão vem à tona. Só que o problema é que a paixão acaba. Não estou falando por falar, é comprovado cientificamente, ela dura apenas alguns meros meses e olhe lá.
Já o amor... O amor não acaba, ele se transforma, mas isso é assunto para outro texto.
O amor é mais complicado, envolve os dois, envolve escolhas, um abre a mão de um teco ali e o outro de um teco lá. Amar dá trabalho de juntar dois mundos e concilia-los, mas também não é pra ser tão difícil, é pra ser leve e prazeroso. Amar às vezes dói, mas só às vezes, porque amar não é pra doer tanto, é pra ser companhia, ser presente, ser ombro e amigo, dar puxões de orelha quando precisar e também dispor de colo, amar é planejar, é construir, deixar rolar, amar é compreender, ouvir e ajudar, é crescer junto e respeitar. Amar é tudo isso e um pouco mais, cada um com suas peculiaridades.
E o amor romântico qual tanto falo, não cai do céu nem vende em loja, posso contar pra vocês onde o encontrar? Ele vem nas entrelinhas da paixão. A paixão está lá descarada e o amor envolto a ela, como se fosse uma criança escondendo atrás da saia da mãe, e aos poucos vai dando a ‘cara’, vai crescendo até aquela hora que você simplesmente sente no peito, não tem como explicar, é particular.
Mesmo não gritando: “EU TE AMO!” no meio de um shopping ou para os mais de quatro continentes no mundo, eu amo ela e ainda tem paixão, vocês vão ver... Eu amo seu sorriso e a forma que ela sorri com os olhos, seu cheiro, seu toque, seu cabelo quase sempre bagunçado, seu jeito engraçado de ser, amo seu riso e quando a faço rir, quando me explica algo arqueando as sobrancelhas; ficando séria, quando me ajuda a ser melhor ou quando enfia o que quer que seja que esteja comendo na minha boca, amo seus beijos e quando acompanho sua respiração ficando ofegante, me puxando pra mais perto de si, quando faz chantagem por algo bobo me chamando de neném com uma entonação específica, inclusive, das vozes estranhas que ela faz e até como conversa com seu gato como se ele entendesse tudo, e no fundo, parece que entende. Em suma, eu a amo como um todo, mesmo que aqui exaltando apenas as partes boas, todos temos partes ruins que fazem parte do pacote.
Amo ela e cada detalhe.
Você enquanto leitor, o que espera do final dessa historia? Um final feliz? Se for, ficarei devendo.
Mesmo a amando, sabendo que ela acorda mau humorada e é extremamente difícil de lhe tirar da cama de manhã, ou que sua cor favorita é verde e ainda assim combina com todas as outras cores, em específico o azul.
Mesmo olhando em seus olhos e eles brilhando, não mentem, mas infelizmente para mim, também brilha para outra pessoa.
Talvez eu seja antiquada e/ou egoísta em querer ter aqueles olhos brilhando apenas para mim, ser a única companhia para dar-lhe prazer na cama, ser sua confidente e única amante. Será que entre esse meio tempo em que pedi honestidade e deixamos rolar, fui à única que ela levou a cozinha e preparou café? A única que ela teve completamente despida de corpo e alma e viu conforto nos olhos, acariciando o rosto antes de dormir?
Mesmo com tudo dito e muito sentido, o amor não é e nem mantem tudo.
Ainda que ela pareça ser tudo para mim.
O que fui para ela?
E não esperem que eu diga aquela baboseira de: “espero que ela seja feliz”, certo que no fundo espero, mas preferiria se fosse comigo, mas não é sobre mim, é sobre nós, demanda de duas pessoas para fluir.
E também não vou dizer que espero que ela encontre alguém que a ame e a faça rir, prepare um jantar a luz de velas, que descubra a música perfeita de sua banda favorita para tocar ao fundo, alguém que a leve flores, café na cama ou faça massagem nos seus pés, alguém que atravesse a cidade pra vê-la nem que seja por algumas horas ou poucos minutos, alguém que de bom dia e boa noite todo dia, alguém que esteja presente quando ela não conseguir conter lagrimas e procurar um guardião para um segredo ou alguém para papear quando não conseguir dormir.
Não serei hipócrita em desejar-lhe alguém que faça tudo isso, porque eu já fiz. Mesmo que ela não tenha pedido nada.
E se for para encontrar alguém, espero que me re{encontre e queira me ter com ela.
Espero que se ela um dia mudar de ideia não hesite em me ligar, as três da manhã ou às onze da noite, no meio da semana ou no fim dele e quem sabe até que daqui dias ou semanas. Que essa distância e aperto no peito causada por divergências sejam apenas páginas que viraremos em nossa história que acabou de começar.
No fim, fiquei só por ouvir um: “acho que te amo”, que foi um achado e tanto, e não tive a oportunidade de dizer: “eu te amo!”. De achismo bastava eu achando que teríamos algo a mais. Em suas palavras banalizadas, não tínhamos “nada”. Parafraseando Parmênides: “para nada existir, nada tem que ser algo”, e era bom o algo que tínhamos.
É sobre essa liquidez no amor que tanto falam? Somos uma geração perdida em desamores e decepções, somos e estamos fardados ao fracasso no amor, porque afinal é tão fácil de falar, mas não sabemos amar. Como diria O Pequeno Príncipe: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”. Há quem desista rápido de mais. Há quem se acomode e não queira tentar ou mudar. Há varias versões que se encaixem no "há [...]".
E quer saber? Eu não quero mais paixões, nem amores, nem histórias para contar. Porque acaba que me perco, que me entrego e mergulho de cabeça em águas rasas. Acaba que eu sempre amo sozinha, acaba que eu sempre fico sozinha. Mas a quem eu quero enganar? Um dia sei que alguém vai escolher ficar.
E no mais tardar, queria ter tempo para dizer: "eu também acho que amo você!".
Por Gabriela Souza, e para ela: meu delírio radiante.
Tenho pensado sobre como o olhar fala, tirando o fato em que vivemos em tempos de uso contínuo de máscara, onde é claro, só vemos olhos às espreitas.
Desde sempre ele fala por nós, quando somos tão puros, pequenos e inocentes, incapazes de comunicar com palavras ou gestos, quem nos dá colo sabe se estamos atentos, tristes, com fome antes mesmo de berrar... E quando somos crianças e já sabemos falar, andar, mas ainda assim nos faltam palavras depois de uma briga boba na escola, a vó te olha e já sabe que algo ruim aconteceu. Não poderia ser diferente quando crescemos e vamos de jovens meramente iludidos a adultos terrivelmente frustrados e/ou apaixonados, e quanto aos idosos? Ainda não sei bem, mas assim como nossas avós nos entendiam sem uma palavra se quer, agora também sabemos ler aqueles olhares demasiadamente cansados.
E se cada olhar esconder um universo dentro de si? É interessante aprofundar nesse assunto.
Sabe quando você acorda cedo indisposta e precisa de uma água no rosto para desapertar? E por alguns milésimos de segundos se vê atônita? Bem, esqueça-se das espinhas, de seu cabelo bagunçado e das olheiras de noites mal dormidas, foque naquele instante em que você chega tão próximo de seu reflexo no espelho e nota aquela pequena “grande” imensidão castanha, também conhecida como íris.
Então, eu vejo a íris como um “universo” e seguindo esse pensamento, carregamos universos, certo? A probabilidade de uma íris ser idêntica a outra é aproximadamente 1 em 1072. Ou seja, seguindo essa matemática de probabilidade temos certa garantia que não haverá nenhuma íris idêntica à outra no mundo.
Voltando aos termos leigos, diga-me o que acontece quando diferentes universos (metaforicamente) se encontram? Spoiler: não tem fuga.
Naquele triz em que o olhar de duas pessoas se cruzam e os universos explodem ofuscados pela expansão das pupilas perdidas em breu é que se percebe: “fodeu!”. Não é o linguajar mais apropriado, porém não há outra palavra no vocabulário português para descrever tão bem quando se percebe que não tem como correr, que já perdeu tudo, ficou completamente exposto; desarmado, e sem nem querer ou perceber estar envolto de uma nova conexão. Seriam as almas se conectando? Há quem acredite que sim, porque não tem explicação, não tem como prever ou se prevenir, simplesmente acontece. De fato que: se a eletricidade que corre pelos fios e ilumina a cidade fosse da energia emanada pela conexão da troca de olhar, com um milésimo daquele segundo teria energia suficiente para a cidade inteira ficar iluminada por horas ou quem sabe? Talvez dias.
Os ponteiros do relógio não hesitam em continuar, assim como o eixo terrestre girando, mas para as duas pessoas em coalisão, o mundo parece parar e eu sei que se tivessem asas, estariam voando, de tão leves, encantadas, apaixonadas, sem nada mais no mundo a importar.
O coração acelerado como dizem: “saltando pela boca”, e também há quem fale que já tenha sentido “borboletas” no estomago, aquele incomodozinho de ansiedade e claro que o peito berrando, feito bobo; apaixonado. A boca chega a ficar seca, as palavras parecem difícil de serem formadas na primeira vez que isso acontece, dá um nó na garganta. E agora?
Se os “divertidamentes” deles estivessem sendo filmados aposto que estariam em pânico; desesperados, correndo em círculos com o alarme estridente disparado junto à luz vermelha cintilante e claro, todos gritando: “FODEU! ALERTA VERMELHO!”. Puro caos.
É literalmente assim, a paixão chega do nada nos desestabilizando, pegando-nos desprevenidos; como um tiro a queima roupa.
Entenderam a forma que o olhar fala? Não teve palavras, mas você simplesmente sente e sabe o que é, isso que importa, porque o olhar não mente.
Todas as vezes que meu olhar se cruzou com o de alguém no acaso; no momento, o mundo parou. Subindo-me a sensação de desejo; vontade, de “quero mais”, por ora na rua, calçada, sala de aula, no serviço ou que fosse na subida de uma escada, do nada.
Agora, deixando o passado e histórias a parte para lá, toda vez em que nossos olhares se cruzam e acontece àquela explosão sem aviso prévio que falei, meu coração acelera, meu peito se aquece e me falta fôlego, porém não me faltam palavras, emanando desejo e vontade de você. Tenho conforto e sinto um ar de casa, o que não impede minhas bochechas de corarem, afinal, se como falo não parecer, eu me acanho com seu olhar fixado em mim, e estando sem barulho ao fundo juro que sou capaz de ouvir as engrenagens do seu cérebro funcionando, tomando notas sobre cada detalhe expresso por mim. É nesse exato momento em que uma de nós sorri primeiro; de forma pura e quando seus lábios começam a formar o sorriso você nem percebe, mas seus olhos sorriem junto e diante de Deus, se tiver alguma forma de me perder mais em você, eu me perco sem mapa, relógio e hora pra voltar.
Após o sorriso e mesmo não me vendo, sei que minhas pupilas continuam dilatadas junto as suas, nossos lábios se tocam, criando uma faísca para uma nova explosão: “BUM!”, voltamos à estaca zero e tenho a certeza que estou perdidamente apaixonada por você, que me olha de volta de forma serena, sem querer nada, enquanto só estamos ali nos encarando em completo silêncio, e isso basta. Você vê que gosto de você, assim como vejo que gostas de mim. Nem teria como esconder.
Assim tenho à falsa sensação de que vai durar para sempre e vontade de congelar o tempo para que dure… mas tola como sou esqueço que o “para sempre” sempre acaba, em culpa, em incerteza, em nada, simplesmente acaba.
Se você quer ouvir, eu vou falar! Por mais que core minhas bochechas e eu fique num tom completamente avermelhado, extremamente sem graça e sem jeito como estou agora, eu vou falar.
Mas o que você quer saber? É, o que você quer saber que ainda não sabe? Ou você sabe e ainda assim quer que eu diga? Não está claro? Sim, eu gosto de você. Mas prepare uma lista, porque gosto do seu cheiro, seu beijo, abraço, de suas piadas horríveis que me tiram o riso apenas pelo seu sorriso moldado e lágrimas espontâneas quando começa a rir desesperadamente, ficando sem fôlego, gosto do seu desespero em tentar contar uma piada em meio ao desespero para parar de rir antes de ficar sem fôlego, e caso a parte, também gosto de ficar sem fôlego e te deixar sem, mas não por rir, porém agora não vem ao caso.
Onde eu estava mesmo antes de perder o foco com você me analisando a cada palavra que falo de maneira estabanada, gesticulando como se fosse um palestrante? Gosto de sentir seu cabelo ralo, de sentar na beirada da cama e te encarar até você jogar o travesseiro em mim e me fazer deitar, o prazer que é ficar do seu lado, por horas sem falar nada até pegar no sono com você acariciando-me o dorso, se não o rosto, com essa pele macia que nem faz questão de se entupir de cremes e produtos quais nome não sei falar, gosto disso também, o básico que você tem para tudo, não mais que um perfume, sabonete e toalha, sempre tão bem organizados, aliás tudo sempre bem organizado, fica até difícil de falar que você me deixa bagunçada, porque onde é que você esteja, inquietamente arruma tudo.
Se tem mais? Você acha que não? Mal comecei, ainda não falei de como gosto de você de quatro, quando estamos inteiramente a sós e nem um quartel inteiro conseguiria apagar o fogo do quarto, da sala, cozinha, apagar o fogo que queima e você me bate, me xinga, me fode, me faz gozar e eu nem falei ainda de como gosto de te fazer gozar, de selar seu corpo, sentir você se arrepiar de cima abaixo, ameaçando-me a vida se ousar parar, segurando seus braços, sua garganta, ou melhor, em palavras formais, como você mesmo diz, sua traqueia, penetrando seu corpo e depois do cessar fogo, vem a segunda melhor parte, você levanta, me puxa pro banho e depois de nos secarmos, você sem falar nada, sai pelo quarto geralmente com um blusão e tirando a calcinha do meio de lá, vai até a cozinha e pouco tempo depois, quando já estou jogada no sofá assistindo tevê, você vem trazendo um prato maravilhoso após fazer mágica com a geladeira quase vazia, senta do meu lado, joga sua perna em cima da minha enquanto comemos em silêncio assistindo um filme ou em outros dias conversando fiado sobre nosso dia.
Acho que por hoje é suficiente e nem precisa se gabar com esse sorriso de lado, agora é você quem está corada, pode parecer que eu tenha falado muito, mas se você parar para analisar com seus cálculos malucos, foi pouco, ficaria dias contando cada detalhe.
O fato é claro, ou melhor, transparente. Eu te amo e amo intensamente esse olhar, esse olhar em específico que você me olhou agora, assim como me olha sempre que fala que me ama ou escuta o mesmo, desde a primeira vez que nossos olhares se cruzaram. Não precisa falar o quanto clichê foi o que acabei de dizer, aliás, pode falar o que quiser, porque eu não dou à mínima. Me perdi neles de novo. Daria qualquer coisa do mundo para guardar esse momento, fosse num vídeo, foto ou frasco? Não sei, não sei mais o que falo, pode acrescentar a extensa lista: eu gosto de quando me perco olhando para você e ficamos assim, nos encarando imersas numa coisa nossa.
Sim, eu sei.
É bom lembrar porque estamos nessa juntas e o quão bom é escutar{falar{sentir o óbvio.
De tempo em tempo me deparo comigo, mas não eu, alguém que me traz interesse e talvez certo desejo, porém em pouco tempo mostra não saber ser; estar só, e poderia ser eu, bem, meu antigo eu.
Nas curvas da vida que fiz para além de demasiadas estradas, que segui a pé por um longo caminho, tropeçando; caindo… sempre tentando levantar, nem que fosse ao menos a dobra de um joelho, recusando a ficar inerte no chão.
A viagem é claro, fui só, mas quem pode andar só por tanto tempo? Vez ou outra deparava com alguém, algum amigo; paixão, até mesmo conhecidos que não importei em gravar o nome.
No começo confesso que foi difícil, nos primeiros dias, até mesmo semanas e meses, não conseguia ver sentido em ser minha própria companhia, incomodava a ideia de não ter um ombro para encostar a cabeça quando o cansaço chegasse ao fim de uma tarde perambulando vazia, vazia por dentro, e não é de fome que vós falo.
Um vazio desconfortável que fazia o estômago embrulhar pela falta da projeção de ‘borboletas’ que ali outrora passaram. Um incômodo de não querer mais me contentar com migalhas que eram servidas, mas me mantinham satisfeita, apegadas, num falso e súbito calor de estar incondicionalmente apaixonada, flutuando sobre o perigo de perder a sanidade, agindo por impulso e justificando que tudo “é por amor.”, o spoiler não vedado é claro, não era por amor, era apenas para tapar o buraco da necessidade de estar com outro alguém que não fosse eu. Primeiro como eu poderia amar outra pessoa se não me amasse?
Durante o percurso, me submeti a esmo, me contentei com o pouco que me era oferecido e assim bastava. Parava cansada e procurava abrigo; morada podia ficar algum tempo, mas incessantemente parecia melhor estar lá fora, no fundo sabia que não valia a perca da vida, levando meros tapas na cara que traria um peso extra na bagagem, atrasando o encalce.
Hoje digo com certeza, pode haver calos, cansaço, vez ou outra uma queda que rala, sangra, dói… mas o curativo é feito e é preciso seguir a jornada.
Jornada de autoconhecimento, onde aprendi a me amar e sempre me colocar em primeiro lugar, não aceitando mais farelos; metades, nem mesmo sentindo necessidade, apenas eu já me completava.
Logo, voltava a por o pé na estrada.
Me vi inteira e deslumbrada com o fardo que tirei das costas, a bagagem de mão nunca esteve tão leve, assim como eu que agora seria capaz de voar, se provisses de asas.
Enfim, me vi, meu antigo eu em outro alguém e fui embora.