Klaus sentia como se não se recordasse mais como respirar. Quando jurara seu amor por Vasilisa na cama em que repousava tão fraco, pensou que nada doeria tanto quanto aquele adeus. Depois, pensou que esconder-se por um ano tão longe da jovem permitindo que esta pensasse que ele havia falecido era oficialmente a situção mais dolorosa que já havia passado. Mas oh, a vida parecia sempre decidida a surpreendê-lo, a se superar e mostrar ao conde que não importava o quanto doesse, sempre podia ser pior. Por isso seu coração parecia se quebrar em pequenos pedaços, as mãos tremiam mesmo que se esforçasse em controlá-las e os olhos ardiam enquanto ordenava a si mesmo que não se atrevesse a chorar. Como seria capaz? Onde encontraria as forças necessárias para agir, enquanto ela corria em sua direção, como se não recordasse dos momentos que preenchiam seus sonhos todas as noites? Que não se recordava da maneira que seus dedos outrora passearam pelos fios macios e loiros, ou de como dividiram planos e metas? Queria ajoelhar-se e pedir perdão pelo tempo que ficara distante, por ter permitido que alguém entrasse no caminho dos dois quando jurara que ficariam juntos e seriam felizes. Ou apenas retribuir o abraço, mantê-la aninhada em seus braços para sempre, o aroma doce o envolvendo como se estivesse no paraíso e finalmente se permitir chorar tudo aquilo que guardava dentro de si nos últimos doze meses. Mas não, ele não podia. Por mais que tivesse sobrevivido, ele seguia na mira de quem quer que tivesse ameaçado sua vida, e simplesmente não poderia trazer a jovem consigo. Enquanto não resolvesse o assunto, ele não tinha o direito e mesmo se tivesse, jamais se permitira colocar Vasilisa em perigo. Morreria de verdade antes disso. Teria, portanto, que ser forte e agir como planejado. O médico disse que foi o tempo sem oxigenação. Memórias de três anos foram apagadas. Não me lembro de nada nesse período de tempo. As notas mentais pareciam ser feitas em cortes dolorosos na mente, enquanto respirava fundo e lutava contra a insensatez dos braços que teimavam em devolver o abraço que por tantas noites havia sonhado. “Senhorita Badica.” Conseguiu falar enfim, ainda sem mover os braços. Delicadamente, segurou a figura menor e a afastou, sentindo que com aquilo parecia arrancar o próprio coração. “Bom vê-la outra vez.” Foi apenas o que pôde dizer, estendendo a mão em um gesto formal que não parecia combinar.
Já havia esbarrado com a mais nova Badica algumas vezes, o suficiente para saber um ou outro aspecto de seu jeito e também reconhecer a inegável beleza que, por mais que corresse nos genes de toda a linhagem, parecia ter sido esplendidamente destacada na loira diante de si. Tentava não pensar naquilo, é claro, considerando que a jovem era a irmã caçula de seu grande amigo e a última coisa que queria era qualquer espécie de problema com a família que fazia parte de seu dia a dia. Além do mais, não era como se Klaus tivesse tempo ou mesmo interesse em dedicar sua atenção àquele tipo de coisa - preferia focar no trabalho e em seus objetivos, sem qualquer pretensão de adicionar qualquer pessoa àquela equação. “Não sabia que gostava de cavalos.” Comentou, o que na verdade era bem óbvio. Como ele poderia saber seus hobbies? Era a primeira oportunidade que tinham de realmente conversas a sós. “Você vêm apenas para vê-los, ou gosta de cavalgar também?” Indagou, enquanto buscava a escova para pentear os belos fios da crina macia do cavalo mais próximo de si. Um grande e forte, com pelo marrom tão escuro que quase parecia preto - era seu preferido. “Sabe, sempre que pensamos em alimentá-los logo vem em mente maçãs e cenoura” Comentou, enquanto ainda acariciava o alazão. “Esse cara aqui, por outro lado, tem um gosto refinado demais.” Sua voz continha um tom de brincadeira, enquanto ele dava alguns tapinhas bem leves no pescoço do animal, em um óbvio carinho. Esperou que ela se aproximasse e mostrou então um pequeno saco que tinha em mãos, cheio de pedaços alaranjados de aroma doce. “Se você dá uma maçã, ele vira a cara. Dá um desses aqui e ele vira seu melhor amigo.” Explicou, ainda em um tom jocoso, estendendo a ela o saco de damascos como que a convidando a oferecer as guloseimas ao tranquilo cavalo. “Ele é meio interesseiro, mas é gente boa. Não é, Bolik?” Ainda acrescentou, a última parte dirigida ao animal.
O entorno da Badica pareceu perder o foco, seus sentidos pouco a pouco roubados pela presença masculina. Nada mais importava que não o calor do corpo robusto contra o seu ou a sensação da pele alheia contra os dígitos da bailarina. Os nós dos dedos femininos adquiriram uma cor esbranquiçada, tamanha a força que empregava naquele aperto. O receio de que ele se desfizesse frente a seus olhos era tal que Vasilisa parecia pronta a jamais soltá-lo. Os olhos foram fechados e os soluços que evidenciavam meses de angústia alcançaram sua garganta, prestes a irromper em um misto de alívio e melancolia, não tivesse Niklaus quebrado aquele momento. O afastar do homem se deu em um golpe mais violento do que a queda de uma macieira — e, acredite, Lisa tinha experiência o suficiente para conhecer a intensidade daquela dor. E esta não chegava a um centésimo da aflição que cruzou-lhe as feições ao dar-se conta de que havia algo de errado. Era possível que estivesse se precipitando, era evidente. Não era como se Klaus tivesse dito algo para trazer-lhe aquelas dúvidas. No entanto, era justamente essa a questão. O desespero que sentia para manter-se perto do homem era equiparável à saudade que vinha cultivando durante todo aquele tempo, quiçá maior. Assim sendo, como ele era capaz de manter-se tão calmo? E... formal. A expressão feminina contorceu-se em desapreço, como se o tom excessivamente educado e distante fossem capaz de realmente ferir sua pele. “Hum... Sim.” Darya respondeu lentamente, analisando-o com maior atenção, a procura de qualquer sinal que lhe indicasse não ser o Beriya. A tonalidade âmbar calorosa de suas iris, os lábios perfeitamente desenhados, acompanhados de uma barba um pouco mais espessa do que ela estava acostumada, mas não o suficiente para acobertar inteiramente a pequena cicatriz em seu queixo. E, claro, o misto de lavanda, cedro e cravo que virara seu cheiro favorito em todo o mundo. Era Niklaus. Tinha que ser. “Bey... O que aconteceu? Onde você esteve?” A loira indagou por fim, precisando cerrar os punhos para conter a necessidade que sentia de tocá-lo. Seu olhar acompanhou a mão que lhe foi estendida, o erguer da sobrancelha contendo mais perguntas do que ela seria capaz de externar naquele átimo. Antes que pudesse ponderar a respeito das razões que o guiaram àquele cumprimento, os dígitos femininos pareceram ser atraídos à pele alheia, roçando suavemente por sua palma antes de firmar o aperto de mão.
Por se tratar de uma figura ainda pouco conhecida pela duquesa, era natural que a presença do Beriya suscitasse alguns questionamentos na mais nova, a qual parecia ansiosa em desvendar os mistérios que rodeavam sua pessoa. Não era necessária uma análise profunda para perceber quão distinto o nobre era dos demais, esse fato sendo suficiente para capturar a atenção da Badica. Porém, como culpá-la? Viver em uma realidade impregnada em falsidade não era exatamente agradável. Poderia, então, julgá-la por apegar-se a esperança de encontrar pessoas semelhantes a si? A loira diria que não, frisando seu interesse unicamente nos pensamentos de Niklaus — apesar dos diversos protestos de Damyen para que ela se mantivesse distante do conde. Uma objeção, diga-se de passagem, que parecia mais fervorosa do que aquela destinada a Isidora e Alya. “São criaturas dóceis e velozes, como não apreciá-los?” O comentário veio acompanhado de um sorriso singelo, hesitante antes de optar por aproximar-se do homem. Um riso baixo denunciou seu divertimento, imaginando o horror de sua mãe caso a visse admitir o gosto pela sensação de liberdade. “Eu não conseguiria resistir a uma boa corrida. A imensidão de uma paisagem que parece não ter fim e a sensação do vento sobre os cabelos, quase como se pudesse voar... É incomparável.” O olhar deslizou ao cavalo de pelugem clara, não muito distante do homem. Tykhon era seu fiel companheiro, um dos mais rápidos do palácio e por isso seu favorito. “Ah, sim?” A satisfação brilhou nas íris castanhas, logo recolhendo um fruto do saco. “Simples assim?” Confirmou, alternando sua atenção entre o animal e o conde. O curvar dos lábios acentuou-se ao tocar a crina do cavalo, ao passo que estendia-lhe o damasco, um muito bem recebido. “Parece de fato.” A loira riu, continuando a lhe acariciar. “Pergunto-me se o mesmo pode ser dito de seu dono. Conquistarei sua amizade com um damasco?”