pelos deuses! aquele ali passeando na praia é 𝑷𝑶𝑺𝑬𝑰𝑫𝑶𝑵? ah, não, é só 𝑲𝑨𝑳𝑬𝑳 𝑪𝑯𝑹𝑰𝑺𝑻𝑶𝑷𝑯𝑬𝑹 𝑫𝑨𝑾𝑺𝑶𝑵, um 𝑫𝑰𝑹𝑬𝑻𝑶𝑹 𝑫𝑬 𝑺𝑬𝑮𝑼𝑹𝑨𝑵𝑪̧𝑨 nos agraciando com sua beleza nos halls do aletheia hotel. as moiras avisaram: mesmo com os 𝑸𝑼𝑨𝑹𝑬𝑵𝑻𝑨 anos nesse novo corpo, segue tão 𝑴𝑨𝑳-𝑯𝑼𝑴𝑶𝑹𝑨𝑫𝑶 e 𝑳𝑬𝑨𝑳 quanto na antiguidade. repararam também que ele lembra muito 𝑱𝑬𝑵𝑺𝑬𝑵 𝑨𝑪𝑲𝑳𝑬𝑺? a maldição levou tudo, menos sua beleza. que prazer tê-lo como 𝑯𝑶́𝑺𝑷𝑬𝑫𝑬/𝑭𝑼𝑵𝑪𝑰𝑶𝑵𝑨́𝑹𝑰𝑶 do nosso hotel!
𝑷𝑶𝑺𝑬𝑰𝑫𝑶𝑵: Ποσειδῶν, era o deus olímpico do mar, dos terremotos, das inundações, da seca e dos cavalos. poseidon e seus irmãos sortearam a divisão do cosmos após a queda dos titãs, e o mar ficou com ele como seu domínio. poseidon era filho dos titãs cronos e reia e neto de urano (os céus) e gaia (a terra). era irmão dos deuses zeus, hades, hera, deméter e héstia. casou-se com a deusa marinha anfitrite, filha mais velha de nereu.
Orphic Hymn 17 to Poseidon (Greek hymns C3rd B.C. to 2nd A.D.).
𝒈𝒆𝒕 𝒕𝒐 𝒌𝒏𝒐𝒘 𝒉𝒊𝒔 𝒔𝒕𝒐𝒓𝒚.
dawson nasceu no coração seco do texas, em meio ao pouco. os pais, mesmo sustentando a vida com salários modestos e jornadas que começavam antes do sol, sempre encontravam uma maneira de ensinar aos meninos, ele e seu irmão mais novo, que amor não dependia de abundância material. kal, desde cedo, entendeu o valor disso. era um garoto que amadureceu rápido demais, daqueles que aprendem a carregar caixas pesadas antes de saber resolver equações, daqueles que preferiam ficar perto do pai no galpão e entender seu ofício. uma lealdade bruta, instintiva, que o moldou muito antes que a vida pudesse lhe definir qualquer outra coisa. a adolescência passou como uma estação breve, marcada por responsabilidades crescentes e uma vontade inabalável de retribuir tudo o que recebia. enquanto muitos sonhavam com fuga, kal sonhava com sustento. aos dezoito anos, atravessou o portão de casa com a decisão cravada no peito; alistar-se. o serviço militar parecia o caminho natural… e ele se adaptou com facilidade à rotina rígida, aos treinamentos exaustivos, à hierarquia. mas, ainda assim, não permaneceu por tanto tempo. pequenas lesões, conflitos silenciosos com superiores e uma sensação insistente de que aquele não era o espaço onde queria envelhecer o levaram a dar baixa. saiu cedo demais para ser veterano, tarde o suficiente para carregar a postura, o olhar atento e as habilidades que abririam portas mais adiante.
com pouco mais de vinte e cinco anos, encontrou trabalho em uma empresa privada de segurança especializada em operações de alto risco, escolta e contenção. era um tipo de emprego que pagava muito mais do que ele imaginava ganhar tão jovem, suficiente para tirar o peso das costas dos pais e devolver-lhes a dignidade que tanto desejava oferecer. e ele o fez com gosto, enviando parte considerável do salário para casa, garantindo que nunca mais faltasse o que antes fora considerado luxo. foi nessa época que tessa entrou em sua vida. ela precisou dele durante uma das operações da empresa, e o encontro se tornou o primeiro capítulo de algo que queimou rápido. em um mês estavam juntos, em seis meses ele a pediu em noivado, em três meses estavam casados. a rapidez não assustou nenhum dos dois; havia uma facilidade milagrosa na forma como se encaixavam. durante anos, kal acreditou ter encontrado seu lugar no mundo.
entretanto, quando os dois começaram a questionar a ausência de um filho que ambos desejavam, veio o diagnóstico que mudaria tudo. uma forma agressiva de insuficiência ovariana autoimune, que mais tarde se revelaria o primeiro sinal de uma síndrome poliglandular rara. no início, ainda houve esperança. depois, luta. por fim, apenas o lento definhar de alguém que ele amava. kal cuidou dela como sabia, segurando firme quando ela já não tinha forças para segurar nada, assistindo dia após dia o corpo que amava se transformar em um campo de batalha. quando ela morreu, ele tinha trinta e cinco anos e a sensação de que o chão havia se aberto debaixo dos pés. foi nesse período que o pai adoeceu e, pouco tempo depois, também partiu. perder tessa já o havia quebrado; perder o pai foi o golpe que o deixou irreconhecível para si mesmo. ele se afundou na bebida, arruinou o prestígio que tinha no emprego e viu portas antes escancaradas começarem a se fechar. o mundo que construíra com tanto esforço parecia ter ido embora junto com as pessoas que mais amava.
quando recebeu uma oferta de trabalho temporário em nova york, aceitou sem pensar duas vezes. a função exigia que ele morasse lá por seis meses, e era exatamente disso que precisava. um pouco de distância, um pouco de fuga. alugou um pequeno apartamento, colocou a mãe em uma casa tranquila em nova jersey, e tentou convencer a si mesmo de que aquela seria apenas mais uma cidade de passagem. mas nova york tem o hábito de reter pessoas que chegam quebradas; a cidade o engoliu, e de algum modo também o sustentou. os trabalhos ainda continuaram surgindo. segurança privada, escoltas, operações discretas que pagavam bem o suficiente para manter a rotina funcionando. porque, apesar de beber mais do que deveria quando estava fora do turno, durante o serviço, kal permanecia impecável. os anos no exército, o treinamento constante e uma noção irritante de responsabilidade faziam dele alguém difícil de substituir.
foi nesse período que um antigo colega mencionou uma oportunidade diferente. um conhecido em comum tinha ligações com a administração do aletheia hotel, que precisava de alguém capaz de estruturar e comandar toda a segurança do estabelecimento. a recomendação foi forte demais para ser ignorada; seu nome chegou às mãos certas antes que ele tivesse a chance de recusar. e ele quase recusou. não era exatamente o tipo de trabalho que procurava. hotéis significavam rotina estável demais, proximidade demais com pessoas, menos da distância funcional que sempre preferiu manter. mas havia um detalhe que mudou o peso da decisão; seu irmão também estaria lá. então aceitou, com a promessa de que seria apenas temporário.
no início, tratava a posição como mais uma missão com data para terminar. apenas um casamento. organizou protocolos, treinou equipe, corrigiu falhas e assumiu o controle da segurança com a eficiência que sempre o definiu. estava pronto para voltar para casa na noite do evento. então houveram os acontecimentos. a investigação. o sumiço incapaz de ser explicado por ele, que costumava ser tão exímio em seu trabalho. e, no processo, o tempo simplesmente passou. semanas viraram meses. meses caóticos. hoje, kal ocupa a posição de diretor de segurança do aletheia hotel, cada vez menos temporário, e vivendo em um lugar que nunca teve intenção de chamar de lar. a mãe acabou sendo trazida para hospedar-se no próprio hotel, para que ele pudesse sempre manter um olho nela.
𝒂𝒏𝒅 𝒘𝒉𝒂𝒕 𝒊𝒔 𝒉𝒆 𝒍𝒊𝒌𝒆?
ele… bem, ele continua meio grumpy. não é um humor passageiro, mas uma condição permanente, algo que se instalou nele como as linhas discretas que vivem entre as sobrancelhas de quem passa tempo demais franzindo o cenho. kal sempre foi um homem de poucas palavras, mas depois de tudo o que perdeu, um amargor parece ter se instalado. ele escuta mais do que fala, observa mais do que participa, e raramente oferece opinião positiva. continua bebendo mais do que deveria. nunca durante o trabalho, nunca quando alguém depende dele. nesse ponto, sua disciplina permanece intacta, teimosa. mas fora do turno, quando não há mais tarefas imediatas para resolver, o copo aparece com facilidade em sua mão. não é um descontrole visível, é ligeiramente mais funcional. talvez você nem perceba. é só uma forma de amortecer o ruído constante que o passado ainda faz dentro dele.
kal não fala sobre isso, não dramatiza, não se permite grandes colapsos. mas quem presta atenção percebe nas pequenas pausas, nos momentos em que o olhar se perde. apesar disso, existe nele uma capacidade estranha de cuidado. é algo instintivo, mais presente nas ações que nas palavras. ele é excelente com cães e cavalos, uma habilidade que vem dos tempos em que ajudou a treinar unidades animais. com pessoas, porém, é diferente. demonstrações abertas de afeto são raras. não é que ele não sinta; prefere gestos menores, invisíveis. consertar algo antes que alguém peça, ficar por perto quando percebe que alguém precisa, garantir que tudo esteja funcionando quando ninguém está olhando.
fala pouco sobre o passado e quase nunca sobre o futuro. o passado ainda arde, e o futuro exige um tipo de esperança que kal não sabe exatamente se ainda possui. então vive numa espécie de presente estendido, resolvendo o dia de hoje antes de pensar no próximo. ele não sabe exatamente o que procura, e talvez nem tente mais descobrir. algumas perguntas perderam a urgência com o tempo. por enquanto, seguir parece suficiente. e ele segue. dia após dia. respirando fundo. observando corredores que não são exatamente seus, garantindo que as coisas continuem de pé, consertando o que ainda pode ser consertado. e aceitando que algumas coisas, como a morte de tessa, nunca terão reparo possível.
𝒕𝒉𝒆 𝒄𝒖𝒓𝒔𝒆 𝒘𝒊𝒕𝒉𝒊𝒏…
na mitologia, poseidon era mais do que apenas o deus do mar. era também o deus que reclamava cidades, que erguia terremotos quando era contrariado, que lançava tempestades contra reis e navegadores que ousavam ignorá-lo. poucas divindades são tão definidas pela ideia de território, que era mais do que o oceano, mas tudo aquilo que ele julgava ser seu por direito. suas histórias são marcadas por rivalidades, por disputas ferozes por cidades e por honra, como na antiga competição com atena pelo domínio de atenas. poseidon não era um deus que aceitava perder. mas kal... bem, kal não se importa.
há algo nele que parece faltar, embora nunca tenha conseguido nomear exatamente o quê. não é fraqueza, mas uma ausência estranha de reivindicação. homens como ele costumam dominar espaços, impor presença. kal não. suporta, absorve, deglute perdas. ele observa o clima mudar sem acreditar que tenha qualquer autoridade para interferir. por vezes, algo parece se perder. momentos de raiva, muita perda, parecem acordar o deus dormente, e lançá-lo na violência justificada pelo trabalho. mas então, no dia seguinte, retorna. algo contido, refreado, como se uma tempestade inteira tivesse sido comprimida dentro de um corpo.
kal perde lugares. perde pessoas. e, de maneira desconcertante, raramente luta para impedir que partam. desde a ida de tessa, quando o pai morreu, ele não tentou agarrar o que restava do passado. quando nova york apareceu como possibilidade de fuga, ele simplesmente atravessou o país e deixou o resto para trás. fez o mesmo com santorini. aquilo que ele ama acaba escapando por entre os dedos, e kal apenas fecha a mão vazia depois.
𝒋𝒖𝒔𝒕 𝒂 𝒇𝒆𝒘 𝒅𝒆𝒕𝒂𝒊𝒍𝒔 𝒎𝒐𝒓𝒆.
tem 1,89 de altura;
kal é conhecido por ser uma espécie de faz-tudo reserva para emergências ao meio da madrugada. já ajudou alguns pares de pessoas pelo hotel;
se ausenta por alguns períodos para passar alguns dias com a mãe. mesmo quando não vai, está sempre a atualizando de seu bem-estar, porque ela se preocupa… com razão;
guarda a aliança de casamento na mesa de canto ao lado da cama;
tem mania de checar tudo duas, três vezes antes de dormir, e chama isso de "deformação profissional", mas é claramente ansiedade;
sabe cozinhar alguns pratos do texas, mas raramente o faz. quando cozinha, cozinha demais;
tem um senso de humor extremamente seco, às vezes as pessoas só percebem que era uma piada horas depois;
apesar da falta de paciência, nunca ergue a voz ou é ignorante com mais velhos (e tem alguém mais velho que ele?). é sempre extremamente educado;
gosta de dirigir longas distâncias sozinho, ouvindo a mesma playlist de heavy metal há anos;
todo fim de ano compra flores para o túmulo de tessa, mesmo não voltando ao texas.
[Event: Carnival] — Barraca de flores w/ @poseidonstorm
Beatrice adorava flores. Plantas no geral. Vegetação, sendo mais precisa. No entanto, o motivo inicial de ter ido a barraca de flores era sem duvida, sua responsável e, o afeto desenvolvido pela mulher ao longo dos meses no hotel. Todavia, a loira parecia não estar presente no momento da chegada e assim, Bea se entreteve com os mais diversos arranjos enquanto aguardava, encontrando alguns rostos conhecidos por lá. Uma coroa bem decorada com fios dourados de trigo e algumas flores, ela se olhou no espelho e algo… acordou. Parecia familiar, ela não era exatamente vaidosa e, nem dona de uma péssima auto-estima mas, se sentia… Ótima com aquilo. Virou-se para Kal, mais uma pessoa com quem havia feito amizade, especialmente ao descobrir conhecer suas irmãs de NY. — Ei, você acha que eu deveria levar essa? Eu não sei quanto tempo é possível conter uma coroa de flores mas… Eu sinto que foi feita para mim.
kal estava apenas passando. não era como se a barraca de flores lhe despertasse qualquer interesse particular; não tinha ninguém específico para quem comprá-las. e mesmo quando teve, nunca foi homem de gestos delicados com frequência. fizera algumas vezes, sim, para a esposa, mas eram exceções, não hábito. com os dias de hospital, ambos passaram a detestar o cheiro de flores. ele caminhava de uma barraca a outra com o único objetivo real de alcançar mais uma cerveja quando o reflexo no espelho o fez parar. a imagem. os movimentos cessaram como se o corpo tivesse reconhecido algo antes da mente alcançar. conhecia aquele rosto. era beatrice. ainda assim, por um segundo, teve a impressão de que procurava outro nome. aproximou-se sem pressa, passos firmes até posicionar-se atrás dela no reflexo. ficou ali um instante, avaliando, o maxilar tensionado. “ela definitivamente parece ter sido feita para você.” a voz saiu baixa, sem floreios. as sobrancelhas ergueram-se de leve, em constatação. o olhar percorreu a imagem dela com a calma. “está muito bonita, beatrice.” disse simples, e era até estranho da parte dele. por um momento, pareceu considerar algo mais, mas as palavras não vieram. o canto da boca se inclinou num quase sorriso. “se não levar, vai acabar me obrigando a comprar para você.”
"a recompensa é conseguir vencer o desafio...? cara, você é tão materialista assim?" fez uma careta, não conseguindo acreditar que havia alguém tão apegado a ganhar coisas. a verdade era que não se importava tanto assim com a resposta; só estava reagindo ao que escutava. max observou a fila, assim como o mais velho, negando devagar com a cabeça. "bem surpreendente. tomara que tenha um velho com bafo ruim no meio disso... e que usa dentadura." abriu um sorriso maldoso, só imaginando o quão inconformado guillermo ficaria com isso. só de ter a cena na cabeça, sentia vontade de rir. porém, quais as chances de um daqueles velhos ricos realmente se expor assim? só depois de muita bebida. "pretendentes?" conteve um riso, sem humor. "se depender daqui, vou morrer sozinha. a única mulher sáfica é crush do meu amigo e os caras daqui são muito estranhos. já conversou com o maluco religioso?" só de lembrar da conversa que tiveram... sentia calafrios. nunca viu alguém tão alienado quanto o italiano. olhou novamente ao outro, sorrindo. "pego depois de você. quero ver o nível do seu desafio" e o quanto ele iria resmungar sobre isso.
“não classificaria assim.” ele prensou os lábios, como se o adjetivo também não lhe servisse completamente, os ombros erguendo-se num meio-gesto que era quase uma rendição contida. ausência crônica de motivação para precisar de desafios, ou para se animar genuinamente com a ideia de cumpri-los. havia coisas que simplesmente não lhe despertavam impulso algum. “seria um bom karma… e finalmente um bom motivo para gastar dinheiro. doar os cem euros para algum idoso de dentadura…” para pequenos atos de maldade, kal encontrava energia que normalmente lhe faltava. ao menos da boca para fora. sabemos que ele não gastaria cem euros por uma travessura. “não sou o maior conhecedor... mas tenho certeza de que devem existir outras... hãm- sáficas? … ou caras da sua idade que não sejam malucos religiosos. e talvez seja mais interessante que eu o evite.” houve um tempo em que o próprio kal fora um homem consideravelmente religioso. outra vida, praticamente. ele suspirou, e pegou uma das flechas. leu a instrução com atenção, o cenho se fechando brevemente antes de relaxar. deite-se na grama com alguém segurando um copo de bebida. simples. virou a flecha para que ela pudesse ler também, erguendo uma sobrancelha em expectativa silenciosa. “sua vez.”
O balançar de ombros foi um gesto breve e sutil, pouco perceptível aos não atentos. — Eu teria dito diretamente, se fosse o caso. — Ainda não conhecia o homem bem o suficiente para alegar algo daquela maneira. Sim, ele parecia um tanto “carrancudo”, como parte dos personagens de romance clichê costumam ser inicialmente mas, ela não poderia se basear apenas por isso, inclusive porque ele já havia lhe prestado um favor. — E o que seria algo útil para você, nesse festival ao ponto de investir o seu tempo e dinheiro? — Não era uma pergunta irônica, embora as vezes Esther não tivesse muita certeza se não soava corriqueiramente irônica. — Ah é? E sabe porque é medium ou porque ceticismo? — Perguntou, parando os passos em frente a barraca e, cruzando os braços, virando-se para ele.
“boas cervejas. um lugar para sentar.” ele deu de ombros, como se resumisse o auge de qualquer expectativa para ali. sempre fora um homem de exigências mínimas. na prática, viera muito mais pela primeira opção. era a primeira folga em muito tempo, e para um pseudo-alcoólatra-funcional como ele, qualquer evento servia de justificativa para beber sem parecer que estava apenas… bebendo. “evidentemente que sou médium. o que me entregou?” devolveu, enquanto deixava o olhar percorrer o rosto dela. preferia sustentar a brincadeira... era mais leve do que admitir que, se fosse falar sério, seu suposto futuro provavelmente envolveria um fígado falhando em algum quarto de hospital ou alguma fatalidade no trabalho. em qualquer cenário, o desfecho parecia invariavelmente o mesmo. além de rabugento, era também um pessimista convicto. mas nada disso apareceu na superfície. apenas o canto da boca erguido, o olhar atento, a ironia confortável. “você vai entrar, esther?” perguntou, já meneando a porta da tenda com dois dedos, deixando escapar um riso baixo.
encarou o mais velho sem dizer uma única palavra. a graça era exatamente fazer algo inesperado, então, por que ele estava resmungando tanto sobre isso? poderia ser coisa da cabeça de max, mas tudo o que conseguia ouvir era um velho rabugento. então, veio o comentário sobre a barraca do beijo, arrancando um sorriso discreto de si. queria rir, na verdade, principalmente por conhecer a figura nela. "é igual um desafio, ué. a graça é precisar fazer independente se você quer ou não." deu de ombros, dando uma resposta mais educada. "nojento, mas nem ficaria surpresa se ele tivesse herpes." franziu o nariz. "ah, qual é! eu não falei sério sobre a cartomante. é o que menos gostei, na verdade... prefiro as flechas. vai! pega uma, vê o que pede. no pior dos casos, você vai precisar dançar com alguém ou coisa assim."
ele definitivamente era um velho rabugento. “pagar para receber um desafio? esses não costumam vir com recompensa?” talvez fosse menos rabugice e mais o traço persistente de alguém naturalmente somítico, avesso a qualquer despesa que não apresentasse utilidade concreta. observou a fila com um misto de ceticismo e incredulidade. “se não tiver contraído ainda, acredito que hoje o fará. a fila esteve assim por um bom tempo… o que é…. surpreendente.” e nada o embasbacava tanto quanto a capacidade humana de se aglomerar por qualquer promessa vaga de entretenimento. estava maravilhado, sim, mas no sentido mais negativo possível da palavra. “pensei que você estava ansiosa para saber seu futuro. uma predição sobre seus pretendentes, talvez?” ergueu uma sobrancelha, a provocação leve. por fim, ele coçou a cabeça, avaliando novamente a barraca das flechas como se pudesse, por pura análise visual, determinar o grau de absurdo envolvido que viria em sua flecha. soltou um suspiro longo, rendido mais à companhia do que à atividade em si. “certo, certo. mas você vai pegar uma também.” apontou para ela com falsa severidade. e que ela soubesse desde já: havia uma probabilidade considerável de ele simplesmente não cumprir o desafio, caso o considerasse ridículo. o que, sendo honesto, incluía uma lista extensa de possibilidades.
As reclamações de Kal fizeram Sawyer soltar um riso curto, quase como um sopro de alívio também: não era o único que estava reclamando naquele lugar. As flechas, no entanto, não soavam como uma ideia tão ruim assim. Pelo menos eram como um desafio a ser seguido, o que poderia o inspirar a realmente se divertir naquela festa e conhecer alguém novo. Quando esteve no hotel pela primeira vez, tudo que fez foi trabalhar, e continuou trabalhando quando retornou para Nova York. Agora, na festa, ele sentia que podia tentar relaxar um pouco. "Não acredito muito em cartomantes, mas não parece tão ruim. Pelo menos ela não está envolvida com herpes bucal por cem euros ou algo do tipo." Deu alguns tapinhas no ombro do amigo, como se ajudasse a incentivá-lo a aproveitar algo. Era o famoso caso de se você for, eu vou. Então Sawyer queria que Kal fosse para acompanhá-lo. "Por que não tomamos uma bebida primeiro?"
kal odiava, porque odiar era seu estado padrão. mau-humorado por vocação, as linhas na testa denunciavam anos de cenho franzido como expressão fisiológica permanente. ainda assim, naquela ocasião específica, como parecia que ele e sawyer estavam em bom pé, havia um sorrisinho pequeno, instalado no canto dos lábios. “mas não me deixe te impedir se a herpes for seu desejo.” disparou, com uma leveza que não estaria ali meses antes. talvez até tivessem ido à cartomante, só pelo prazer de ele fingir desdém durante todo o processo, mas a oferta seguinte caiu como uma luva. pela primeira vez em muito tempo, ele estava genuinamente satisfeito por estar ali, e, melhor ainda, de folga. folga significava justificativa. justificativa significava bebida. “ou só tomamos alguma coisa. parece válido.” concedeu, já começando a andar em direção à barraca antes mesmo de terminar a frase, a decisão tomada há muito mais tempo do que admitia. ao se aproximar, o cenho voltou a se fechar por reflexo. todos saíam de lá com copos exageradamente coloridos, líquidos que pareciam ter sido inventados em laboratório. “não tem bebida normal aqui?” resmungou, olhando para os lados com desaprovação genuína. era um homem simples. queria uma cerveja. talvez um whisky honesto. precisava mesmo se contentar com algo azul fluorescente servido num copo que provavelmente brilhava no escuro?
— Porque as pessoas precisam do sabor da aprovação. Seja de um conselho amigo ou do destino. Ou, porque elas são a favor da diversão. — Ou porque, para pessoas com Esther, cem euros não era exatamente um absurdo a se pagar pela própria sorte e, ela era a favor de estimular o comércio local em viagens. Ou, simplesmente porque gostava de gastar dinheiro, que fosse. Esther rolou os olhos… Céus, para a sorte do homem ele era bonito, porque claramente deveria ser um mão de vaca. — Não se preocupe, eu não estava contanto que você era o tipo disposto a gastos.
“está querendo dizer que eu sou contra a diversão?” ele apontou para si mesmo, cenho franzido por um segundo, ainda que o gesto viesse carregado de ironia. porque, no fundo, era exatamente isso que muitos diriam. e mesmo que estivesse num universo em que cem euros fossem apenas uma fração irrelevante da própria conta bancária, que, aliás, vinha melhorando consideravelmente nos últimos meses, kalel dificilmente pagaria por algo daquele tipo. ser mão de vaca não tinha relação direta com seus fundos; era mais estrutural. princípios, criação. “eu não sou.” retrucou, exemplificado no fato de ainda usar a mesma calça jeans de anos atrás e uma blusa que só era nova porque alguém a presenteara. “ao menos, não com nada inútil.” acrescentou, cruzando os braços, mas já começando a ceder no canto da boca. “não é suficiente que eu tenha me disposto a te acompanhar? ademais…” suspirou, um brilho zombeteiro atravessando o olhar. “eu já sei meu futuro.” dessa vez a risada veio mais nítida, breve, enquanto fazia um gesto com a mão indicando a tenda. estava bem-humorado naquele dia, ou quase isso.
starter aberto ⸻ todos os públicos.
onde: carnaval do horace.
“me explique novamente: você paga por uma flecha e ela te diz o que fazer? por que só não fazer o que você quer desde o princípio?” kal inclinou levemente a cabeça, como se ainda estivesse tentando entender a lógica por trás daquilo. plena futilidade? “fica difícil escolher qual é a pior. essa ou a que estão pagando cem euros para contrair herpes bucal.” a ironia vinha seca, mas havia um fundo legítimo de incredulidade ali. ele se interrompeu por um instante, soltando um suspiro. passou a mão pelo queixo, ponderando como se realmente estivesse considerando a proposta. “de qualquer forma, se você está falando sério sobre a cartomante, podemos ir. parece a menos pior. se você acredita nessas coisas... só não espere me ver gastando dinheiro com isso.”