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@redatarcomecos
Quando o coração aperta.
Se viemos do pó e ao pó retornaremos,
Não vejo a hora de ser areia.
Se existe paz no vazio,
Não vejo a hora de ser o silêncio que rodeia.
Se somos tudo,
Não vejo a hora de abraçar o nada.
Nessa dualidade eu caminho.
Me metamorfosio;
Entre ser e não ser, eu me desfaço,
Pois a paz não ocupa espaço.
A textura aveludada do silêncio
É como uma pele espessa que abafa um grito.
É linho que envolve o pensamento,
Tem consistência do que é mudo.
Reverenciar o silêncio também é cura,
É ouvir o que vem de dentro.
E dentro de mim há uma voz que grita,
Urge,
Se agita.
Se há muito eu fui quebrada e silenciada,
Hoje reverencio a sabedoria em mim despertada.
Acolho minha criança,
Faço das cicatrizes lembranças.
Onde havia dor,
Hoje mora esperança.
"Atotô, meu pai Obaluaê"
— "Minha ferida é terra onde minha força nasceu...
— Eu entendi que a cicatriz não era meu fim, era porta de entrada pra cura do outro através de mim".
Existem aproximadamente 7.000 línguas diferentes no mundo. Só no português, temos mais de 120 maneiras de dizer "adeus". Mas a pior delas, sem dúvida, é o silêncio. A indiferença.
Eu me considero uma pessoa muito legal, menos quando começo a perceber que minha presença se tornou um incômodo. Durante muito tempo, fui deixada de lado, negligenciada. Hoje, porém, conheço minha importância e o tamanho do coração que carrego. Só eu sei das lutas que travei para chegar até aqui.
Talvez essa busca pela clareza venha do que observo nas crianças. Existe algo lindo nelas: a verdade. Elas são viscerais e honestas; sentem profundamente e demonstram tudo, mesmo que de uma forma bagunçada. Uma criança aprende dez palavras por dia e usa cada uma delas para se fazer entender. Com elas não tem jogo de ego. Não existe o "se não falar comigo, eu também não falo". Elas te conquistam com um simples inclinar de cabeça.
Às vezes, as crianças são um caos — choram e gritam porque sentem demais. Mas é o caos mais bonito de se ver, pois é o mais fácil de acalmar; só precisa de paciência e afeto. Quem dera se nós, adultos, fôssemos assim. Em vez disso, nos tornamos orgulhosos, vivendo em uma disputa velada sobre quem está mais certo.
Esquecemos que movimentamos mais de 100 músculos apenas para falar. Se empenho minhas palavras, é porque julguei que aquela conexão valia a minha energia. O fascinante é saber que existe uma verdadeira tempestade neuroquímica quando conversamos com quem amamos: milhares de sinapses e uma chuva hormonal ativando o sistema de recompensa, trazendo conforto e segurança.
Por isso, hoje não desperdiço minha biologia com quem não sabe ler minhas entrelinhas. Meu sistema de recompensa agora tem critérios. Não ativo meus 100 músculos por quem não move um dedo para me ouvir. Guardo minha química para os encontros que curam, onde o diálogo é a mais pura homeostase. Se te ofereço minhas palavras, é porque você é um porto seguro. Caso contrário, prefiro o meu próprio silêncio — que, para quem aprendeu a se amar, deixou de ser solidão e virou santuário.