‘’ Nem a própria Polícia Federal está sabendo lidar com a questão dos refugiados no Brasil. ‘’
Adel Bakkour é refugiado Sírio no Brasil e atualmente cursa Química na UFRJ e é professor de Árabe na ONG Abraço Cultural.
É difícil conseguir a permanência sendo um imigrante ou refugiado?
Conare (comitê nacional para refugiados), o principal órgão dos refugiados tem o dever de, após pedir refúgio na Cáritas, ser responsável pelas entrevistas e avaliar os refugiados, depois desse processo a Policia Federal é responsável por legalizar os documentos. Esse processo é considerado demorado e o refugiado tem que correr atrás, mesmo com dificuldades na cultura e língua.
Como foi a sua chegada ao Brasil e houve dificuldade com a parte burocrática?
A chegada ao Brasil não foi tão difícil por motivos de ter familiares no Brasil e por isso foi mais fácil de conseguir estadia, nesse caso não precisou recorrer à Cáritas, que é a porta voz dos refugiados com o governo, a ONG responsável pelos imigrantes no Brasil; e ter sido à quatro anos atrás, não tinha tantas pessoas no brasil pedindo refúgio, logo o processo foi rápido (6 meses), geralmente é entre 6 meses a 1 ano. Além disso, é mais fácil para um refugiado conseguir documentação do que um imigrante, pois ele não tem por causa da condição do país de qual veio.
O governo ajudou em algo?
Os documentos assinados diziam ajudar financeiramente, no valor de 350 reais por mês, porém não houve ajuda por conta que eu não soube do que se tratava o documento, eu não falava português ainda, então só fui atrás dos meus direitos depois de cinco meses. Eu ganhei uma cartilha de orientação para refugiados no Brasil, que se encontra em português, inglês, espanhol, francês e árabe.
Você recebeu algum benefício pelo governo durante os 4 anos no Brasil?
O governo não se responsabiliza para ajudar, a não ser que o refugiado corra atrás da Cáritas em busca de benefícios ou trabalho.
O MEC tem algum tipo de ajuda para facilitar a entrada de imigrantes ou refugiados em universidades?
Eu tive ajuda para entrar na Universidade por que eu tive conhecidos que me ajudaram e a UFRJ me deu uma matrícula facilitada, além de ter um curso de português para estrangeiros. Mas em questão da entrada em universidades, para refugiados é tratada como ampla concorrência.
Você conhece outros casos de pessoas que estão na mesma situação que você estava, tentando refúgio no Brasil ou que estão esperando documentação e não estão conseguindo?
A polícia federal não dá mais o prazo de seis meses para conseguir documentação. Pois agora está muito complicado, o sistema está mudando toda hora.
Esta mudança se da por conta da nossa atual gestão?
Provavelmente. Por que estava fixo até um certo tempo e está mudando agora. E isso está sendo ruim para a gente, não por conta da mudança da lei, mas por que nem a própria Polícia Federal está sabendo lidar com a questão dos refugiados no Brasil, nem o responsável por isso da polícia federal sabe o que fazer. Então, temos que entrar no site deles e ler e depois ir lá falar pra ele o que fazer. Eles não sabem como trabalhar. Um amigo foi pedir permanência, levou todos os documentos que constavam na lei que o site apresentava e o agente da Polícia Federal negou o seu pedido. ‘’ Não pode, você tem que ficar quinze anos aqui e depois pedir permanência. ‘’ Então, meu amigo apresentou a lei e o agente conferiu no site e voltou dizendo que o meu amigo estava certo.
Teve uma vez que eu fui na polícia federal com meu pai para resolver a sua documentação e o nome dele seria o primeiro a ser chamado, além do fato de ele ser idoso, ter oitenta anos, mas mesmo assim passaram quatro pessoas na frente dele. Esperamos mais uma hora e fomos pedir informação sobre o que estava acontecendo e não nos deram resposta. Mais umas uma hora e meia depois, fui lá dentro e reclamei que isso não poderia estar acontecendo. Então chegou um homem muito agressivo falando que eu não poderia estar lá dentro e começou a gritar comigo. Finalmente depois da confusão resolveram atender meu pai. Outra vez, me cobraram de ter escrito uma carta pelo meu pai dizendo que eu sou responsável por ele, onde dois brasileiros tinham que assinar e eles não tinham me avisado sobre isso antes. E depois que fizemos e levamos, disseram que a carta tinha que ser da Cáritas e quando levamos, não aceitaram dizendo que tinham que ser pela Conare, pois a lei mudou.
Você já sofreu algum tipo de xenofobia?
A questão de xenofobia ou racismo ainda é presente, principalmente por parte das autoridades. Com a chegada no Brasil e busca dos direitos na polícia federal, existe xenofobia ou desrespeito das autoridades, como aconteceu com um amigo que quis seus direitos e ainda assim a polícia federal não quis atende-lo por não falar a língua local. Eu não sofro muito preconceito por ter um português já muito bom e pelo ambiente que eu vivo.
Eu conheço casos como o do meu irmão, Hadi Bakkour que também é refugiado sírio, onde em uma ida ao hospital a médica pediu para ele levantar a blusa fazendo uma piada relacionada a bomba.
Na sua opinião, o brasileiro já está preparado para conviver com essa diferença cultural?
Grande parte pode estar preparada para a convivência com outras culturas, porém ainda não devo generalizar.