take me back to the start {michay
resilience-z:
Michael fora puxado de seus pensamentos por um grito animado e um punhado de areia sobre o rosto “Seu filho da mãe” Riu, sacudindo a cabeça para dispersar os grãos de sujeira dos cabelos “Sou muito bonito para me parecer com aquele velho monarca” Brincou, dando uma piscadela.
“Mas você ainda parece uma garota” Afirmou com o que poderia se passar por seriedade, não fosse o brilho travesso nos olhos verdes. O cabelo de Lacey, ou melhor, o comprimento exagerado dele (na opinião de Mike), era um ponto recorrente de discussão entre eles “Seria um ponto fraco durante uma luta” Continuou, incapaz de manter a fachada de sobriedade por mais tempo.
Sem avisar, saltou como um gato pra cima do amigo. Logo estavam rolando pelo chão, roupas nobres e status esquecidos em nome de uma boa e velha luta de garotos.
Na realidade, a questão do cabelo de Lacey não era algo tão simples. Ou era. Mas acabava se complicando quando colocado no manual dos garotos, onde estava escrito que admitir que gostava do corte de cabelo do seu melhor amigo era estranho. Apesar de não dizer o motivo. Logo, Michael afirmava sempre que possível o quanto o cabelo de Lacey era engraçado, enquanto fazia o impossível para tocá-lo sempre que possível.
O que geralmente resultava em ambos rolando pelo chão como selvagens.
Após longos minutos de gritaria, risadas e alguns socos lançados sem real vontade, Michael proclamou-se campeão ao ter Lacey pressionado contra o chão pelos pulsos e o peso do próprio corpo “Viu? Não é prático” Gabou-se, apanhando um punhado do cabelo do mais novo para puxar de leve.
Lacey revirou os olhos dramaticamente, deixando explícito que aquele era um assunto do qual já se cansara. Ele não se importava em parecer com uma garota. Na verdade, aquela observação fazia cócegas no âmago do menino. Uma coisa que não podia admitir nem mesmo à si próprio. Laurence adorava seu cabelo, desde pequeno sempre fugira de sua mãe quando era lua nova. Algo sobre suas madeixas lustrosas o fazia se sentir bem com sua própria aparência de forma que mesmo que os outros garotos zombassem, ele não se importava. Além do mais, muitos aristocratas usavam perucas compridas, com talco e tudo mais. Tanta gente escondia a calvície, por que Lacey haveria de esconder sua fartura? Ele partia os lábios para dizer justamente isso quando foi interrompido por Michael, o peso do menino o derrubando no chão.
Resistiu ao outro com toda a força que tinha. Os cantos dos lábios curvados, divertido e concentrado. Lacey gostava de lutar, testar sua força física. Tentou chutar e investir socos sem piedade, mas suas lutas eram sempre injustas. Michael era mais velho, tinha mais força nos membros. Lacey reclamava disso sempre que possível mas não o suficiente para parar de enfrentar o amigo. Após rolarem pelo chão o suficiente para que o laço do cabelo de Lacey fosse perdido pra sempre o garoto bufou, derrotado. Não gostava de perder, mesmo que já estivesse acostumado.
“Puxar cabelo é sacanagem,” disse teimoso, ainda tentando mover as mãos. “Só trapaceiros fazem isso.” Encarou o outro com olhos acusadores, como quem diz: se a carapuça servir e finalmente desistiu de tentar se soltar. “Além disso, minha mãe diz que homens de respeito resolvem as coisas por diálogo.” Só de pensar nela Lacey sentiu gelar sua espinha. Suas roupas estavam cobertas de poeira, seu cabelo estava solto, de certo aquele dia não chegaria ao fim sem que Laurence tivesse que escutar mais um sermão sobre como meninos de bem não saíam por aí rolando pelo chão com párias. “Agora saia de cima de mim,” reclamou, tentando novamente se libertar.
Não conseguia parar de sorrir enquanto encarava a figura carrancuda debaixo de si “De onde eu venho, honestidade não tem muita serventia” Debochou, usando de condescendência para inflamar ainda mais o humor do mais novo “Sua mãe também diz que sou má influência" Pontuou, ainda segurando uma mecha dos cabelos escuros entre os dedos “Não que ela esteja errada nesse ponto” Deu de ombros, sem aparentar preocupação. Estava ciente da fama que ganhara ao longo dos anos, de filho da prostituta à promíscuo, kept boy ou pária, Michael escolheria sempre a certeza de que nunca mais ficaria faminto.
“Todos os homens que se dizem respeitáveis resolvem suas sujeiras por debaixo dos panos ou compram o respeito com dinheiro, e assim ficam livres para fazerem o que bem entendem com qualquer um sem medo de julgamento” Aos poucos o sorriso havia deixado as feições de Michael, substituído por uma sobriedade severa demais para alguém de tão pouca idade.
Levantou-se com a mesma agilidade de quando se jogara sobre o amigo “Vamos, já pode parar de reclamar, bebezão” Segurou Lacey por uma das mãos, ajudando-o a ficar de pé “Eu consegui uma garrafa de vinho para nós, e adivinhe só, me custou apenas duas moedas de respeito” Deu uma piscadela, sorrindo enviesado “Interessado?” Não esperou por resposta, arrastando o mais novo pela mão até a cesta esquecida perto das árvores, onde finalmente se lembrou de largar a mão do outro.
Sentou-se no chão próximo a cesta, de onde tirou a falada garrafa de vinho. Fez um trabalho rápido da rolha, jogando-a para o lado. Bebeu um longo gole, diretamente da garrafa, assumindo uma postura mais relaxada ao apoiar as costas na árvore atrás de si. Só então voltou a encarar o amigo, com um brilho estranho nos olhos, arqueou uma das sobrancelhas, estendendo a garrafa para Lacey “E então?”
















