fala uma coisa
pensa outra
e sente uma terceira.
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Cosimo Galluzzi

Janaina Medeiros
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⁂
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@ruamoliveira
fala uma coisa
pensa outra
e sente uma terceira.
algumas roupas para dobrar, um café requentado pra beber. e eu aqui, esperando a hora de chegar atrasado. um chão para varrer, um texto para escrever, outros três para ler. e eu aqui, escrevendo mensagens que não serão enviadas. relendo panfletos de utensílios que não comprarei. não sei se preciso. meus amigos me esperam na porta enquanto eu termino de me enfiar e uma roupa parcamente passada. eles avisando que vamos chegar tarde, eu já sabendo isso desde o momento que combinamos de nos ver. eu aqui deitado. eu olhando o teto. e a vida escorrendo. não por entre os dedos, mas lá no mundo, como uma água que não molha nem arrasta, mas que passa feito corredeira. o mundo lá e eu cá. sem querer, mas querendo um pouquinho. um pouquinho só. querendo sair, e não me deixando. na verdade me deixando, sim, quando deveria estar nesse rio. que não molha, já disse, mas escorre. e depois que passa a gente sabe que passou. passou.
eu ouço o ruído da chuva caindo no chão. molhando meus pés enquanto caminho. transformando areia em lama. mudando o status das coisas. não sei se pode durar.
assim como as chuvas não duram, a característica etérea deste momento, agora, também varia. pode um instante durar uma eternidade?
depois que a chuva passa, ela ainda existe. só que de uma maneira diferente.
ela ainda está no chão que eu piso. nos meus pés. na lama que talvez volte a ser areia depois que a água evaporar.
e seguirá seu curso. existirá em mim. existirá nessa lembrança que não era, mas que agora é. eu vou fechar os meus olhos e lembrar do cheiro. e do barulho. e de ter os pés secos antes deste breve acontecimento.
eu já não ouço a chuva cair no agora. mas meus ouvidos recordam. sim, meus ouvidos fazem uma função que é totalmente cerebral. do som, da queda, da mudança e do silêncio.
uma vez que as coisas existem há de se ter uma nova realidade para as impedir de continuar sendo. inexistir é um processo.
i have a song in my heart
a breath in my lungs
a dream when i'm asleep
and a road to run
vai passar
Tenho reparado quantas cartas nos chegam de pessoas que morreram há muito. Sendo elas, ainda assim, dignas de se pensar e refletir. Então eu gostaria de escrever essa nova carta, com intenção de encontrar alguns jovens aí pelo futuro. Pessoas que no meio de seus muitos processos conseguem se sobressair, valorizar a si próprios, encontrar seu propósito - tão sonhado e tão buscado. Que essa carta lhe encontre sempre bem. E se mal você estiver, saiba que com o tempo isso vai passar. Tudo tudo passa, entenda isso. E se nada dura para sempre, nem mesmo essa sensação que você tem agora de que nada pode dar certo vai persistir. Ela também vai passar. Como quando as águas correm soltas em direção a outros rios. Ou como quando o vento balança as folhas nas árvores e depois vem tocar você. Eles passam. Nada é eterno. Somente a realidade e a responsabilidade de se saber e perceber em mudança - isso continua. E se tudo muda, então esteja tranquilo porque você não será o mesmo para sempre. Não estará no mesmo lugar para sempre. Você vai caminhar, querendo ou não. Você vai avançar e mudar e não vai estagnar completamente. Até mesmo a pedra quando encontra repetidas vezes a água deixa de ser dura. Até mesmo o sol quando passa por detrás da lua fica também escuro. Tudo passa. Esteja certo disso.
é possível se cansar de nossa própria tragédia? essa que levamos no peito como grilhões enferrujados, presos e atados a algo que não se consegue mudar. eu tenho no meu coração uma dor que não cessa, não some, não apaga. uma dor que se aprofunda e feito vírus vai consumindo, vaso após vaso, veia após veia, meu sentido de existir. nem todo peso pesa tanto quanto a dor desconhecida que a gente sente tão profundamente e não consegue nomear.
eu sou alguém. essa constatação me espanta. eu não sou um projeto ou um plano, um arremedo de ser humano. eu sou alguém. com qualidades, defeitos, preocupações. que canta, escreve e escuta o outro. não sou um apanhado das minhas frustrações ou incertezas, nem tampouco os rótulos que criaram para mim. eu sou meu próprio eu. completo na minha incompletude. refeito 365 vezes 28 e somando. eu não sou o meu futuro. eu não sou o meu passado. mas também fui e serei. eu sou aqui e agora. e, por ora, isso me basta.
eu me sinto começando sendo feito de começos como costumava dizer aquela autora, aquele autor do qual já não me lembro o nome. eu vou sendo enquanto vivo, aprendo que posso e que devo e que a minha existência pode ser poética, mesmo que ninguém entenda. o que é isso de entender a poesia?
faltam-me sim dois parafusos ou seis.
como é isso de se sentir feliz enquanto o mundo desmorona? enquanto leio nos jornais manchetes que me causam revolta, repulsa e indignação? porque sim, essa dualidade da vida entre enxergar as atrocidades e não se sentir confortável com elas e ainda assim observar pequenos aspectos, vitórias pequenas do cotidiano e ficar contente com isso, parece nos puxar em direções completamente opostas, sendo impossíveis de ocupar o mesmo espaço, tal qual a física fala sobre um corpo.
está tudo bem se sentir feliz com a entrega feita, com a conclusão de um projeto. mesmo que - e apesar de - o país esteja deixando de ser um país. mesmo que a ignorância pareça ser a regra geral. a indignação e a coragem, filhas lindas da esperança, devem caminhar juntas. próximas mesmo desse ente materno - que por vezes é a única coisa que temos.
o sentimento é conflitante. existe o pequeno mundo, centrado no pequeno eu, com razões para felicidade que só são compreendidas no microcosmo que ocupam. e existe o grande nós, descentralizado, ocupando diversos espaços, resvalando em mais de uma situação. esse, sim, tem sido fonte de muitas incertezas e tristezas e inquietações. que afetam o microcosmo do pequeno eu, mas que raramente se altera num caminho contrário.
nosso dever é continuar. essa vida é um pêndulo.
eu ainda não sou, se é que quer saber, mas me entendo. sei que caminho no meio dessas tantas pedras como quem não sabe para onde vai, como quem é facilmente ludibriado pelo pouco. mas não sou. meu caminho é longo, minhas dores são muitas, minha esperança também. é muita e esbanja. ela é como um norte que faz meu coração ser bússola e meu olhar agulha. a passos lentos, porém constantes, eu sei que ainda não sou de se chamar atenção, de levantar a cabeça no meio de uma distração qualquer. quero isso? sei que não sou, mas caminho. caminho como quem sonha.
untitled, may 2021
It is like sometimes a powerful force embraces me. Takes the whole control. Inspiration and despair takes place. Is there something we can do to avoid this feeling? Can we be focused on the things we do not understand at all and what we understand but don’t know how to act? - this is my prayer for tonight: may my dreams do no wake my burdens.
hope is the new compass of my soul
all i know is that i do not know nothing at all it makes me worried
autorretrato, novembro de 2020.
pandemic is outside.
deixe-me caminhar viver é descobrir
O pêssego
Quando eu era garoto, mordi um pêssego diferente. Ele era macio como os outros, adocicado e firme. Os pequenos pelos que o envolviam eram claros e ralos, mas me traziam uma sensação boa de quietude.
Este pêssego era diferente porque trazia dentro de si vida que eu não conhecia. Enjaulada dentro da carne, numa semente dura e feia.
Perguntei à minha mãe, o que aquilo era capaz de trazer, ela então me respondeu que aquilo que era pequeno, poderia crescer enorme, enorme, até cobrir a casa.
E então guardei aquela sementinha. Aquele pequeno projeto de vida. Esperando ansiosamente que ele crescesse, subisse alto em direção ao meu telhado laranja já escurecido.
Esperei muito, até que me esqueci completamente dela, abandonando-a no fundo da gaveta.
Encontrei alguém, apaixonei-me, arrumei as malas e fui viver com ela. Mas me faltava algo, eu sabia disso, e então fui revirar todo o meu antigo quarto, a procura do que poderia estar perdido. E lá estava a sementinha, frouxa, seca e pálida.
Encarei-a por breves instantes, relembrando de que esperava que ela crescesse. Minha pequena vida projetada, permanecia intacta, parecendo morta.
Minha mãe esqueceu de me dizer que eu precisava plantá-la. Colocar o projeto em ação.
Então arranjei um espaço no quintal de minha nova casa, abri um imenso buraco - torcendo para que minha vida pudesse brotar em algum momento - e lancei lá dentro o que antes era um pêssego.
Fiz um plano de construir um balanço para meu filho – ou neto – quando aparecesse a planta. E fui atrás de um pneu velho que aguentasse o meu peso, e o peso da espera da árvore.
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