Delilah tinha um pensamento repetindo em seu cérebro desde que começaram aquela discussão; que não importasse o que viesse, ela não iria chorar. Quase descumpriu isso quando ele acabou. — Você não sabe o que eu quero, Shane. Você não faz a menor ideia — seus olhos doíam, ela quis chorar, fraquejar, mas não iria continuar. — Você só está chateado comigo porque eu fiz exatamente o que eu sei que você já fez um monte de vezes. Tomei distância quando tudo começou a ficar confuso demais, mas se eu não tivesse feito isso, não teria percebido que a grande merda de tudo isso é que eu também quero você, mesmo sabendo dos defeitos, de tudo de ruim que pode acontecer, eu quero você, eis o que eu descobri sendo contraditória nos dois encontros e nesse meio tempo até com um travesseiro do meu quarto que não perdeu a merda do seu cheiro. Só que eu acho que o que você quer é a caçada, e não aproveitar o final dela. Porque, a verdade é, eu passei esse tempo te evitando porque queria saber se aguentaria o risco, e a verdade é que eu ainda não sei, mas algo em mim quer tentar — resolveu que agora iria imitar o que ele fez no começo, mas agora em passos rápidos, segurando seu braço para deixá-lo ali, na sua frente. Queria que ele olhasse para seus olhos marejados e visse que ela estava falando a verdade. — E você me deixa apavorada por conta disso, ao mesmo tempo que me deixa muito segura, o que é esquisito para um caralho — falou se afastando alguns passos e se sentindo desprotegida, quase como sua em uma noite gelada. — Do you still see me as a fool for wanting this? for wanting you? Because I do — usou de novos as palavras dele contra ele, um argumento para mostrar que ele não estava fazendo algo tão inútil assim. — E no final… eu quero saber o que você quer, porque você se for a mesma coisa que eu, que seja nós dois e sabe-se lá o que isso pode se tornar, you better be fucking sure, porque eu estou quebrando todas as minhas regras por você, e eu vou enlouquecer de vez por conta disso, mas eis a verdade — respirou fundo segurando as lágrimas, aquilo estava doendo muito, de verdade. — Eu posso ter arruinado tudo te evitando, e sinto muito se eu te machuquei, não era a minha intenção, eu precisava pensar, e sozinha, e ficar olhando para você me dava uma vontade desgraçada de te beijar, e isso não ajudava em nada, quando eu ainda tinha que decifrar o que estava sentindo, então eu precisei fazer isso. Seu plano funcionou no final das contas. Eu só… eu queria que fosse os dois, que eu pudesse ver esse tipo de coisa como você vê, e também ter o que eu acho que eu preciso, mas eu não sei, eu realmente não sei. E você tem razão, eu não deveria pedir para você algo que deveria vir de mim. Talvez seja o melhor mesmo, esquecer essa tentativa de vez, ou, talvez, eu não sei se eu vá conseguir esquecer, porque o que eu tanto tenho medo já tenha acontecido, e é por isso que eu quero chorar agora porque eu achei que poderíamos funcionar.
Shane conseguia ser duro e distante quando queria, exceto quando ele sentia ou percebia que sua postura machucava a outra pessoa. Ele agia indiferente para não demonstrar vulnerabilidade, e quando essa o confrontava, era como se internamente ele se desfizesse em mil pedaços. Foi o que aconteceu quando Delilah caminhou até ele e segurou em seus braços, forçando-o a manter sua atenção nela, seus olhos marejados, a expressão triste e as palavras que saíam tão rápido de seus lábios, dando a impressão de que se ela não falasse tudo naquele instante, não falaria nunca mais. O conflito interno se instaurou naquele momento. Ele queria sair dali, pois não tinha a menor condição de lidar com isso, com a raiva por ter sido ignorado, com as precipitações e suposições de Delilah sobre o que ele queria, ou o que era melhor para ele, e muito menos com o seu ego levemente ferido. Em contrapartida, algo dentro dele começava a ficar inquieto, sentia a agitação do próprio corpo, o cérebro mandando impulsos para os braços, pedindo que simplesmente a acolhesse, abraçasse e dissesse que tudo ia ficar bem. Mas o Snoball seguia sem mover um músculo. — Você sabe bem, não é? Somos parecidos até nisso. Mas eu não me afasto quando as coisas ficam sérias, Delilah. Não quando eu tenho sentimentos reais. Eu posso tentar, mas eu nunca consigo por muito tempo. Seria justo se dissesse que eu me afasto quando fico entediado. É algo que você também costuma fazer, não é? — talvez fosse culpa de como eles cresceram, Arthurian não oferecia muitos perigos, oferecia regras de etiqueta, postura e educação. Suas mães queriam que os filhos fizessem bons casamentos, enquanto eles só queriam um pouco de liberdade e diversão. Quantas vezes Shane não ouviu Anna perguntar quando ele pediria a mão da menina Crystal, referindo-se a Cornélia? Os dois andavam juntos demais, ela dizia. Talvez fosse a hora de oficializar algo, ela dizia. Mas Shane nunca foi assim, e imaginava que de todos, a mãe fosse a que mais pudesse compreendê-lo. Não foi Anna que se apaixonou por um completo estranho, e decidiu que iria casar com ele? Bom, Shane só não falava em casamento em vão. Mas se apaixonava com alguma frequência. — Jeito muito estranho de dizer que me quer, Delilah Hopps — se viu amolecer por um instante com as palavras dela — Quando eu disse que queria tentar, eu fiz seu chá favorito. Você entendeu isso como uma prisão, como se eu quisesse por um anel no seu dedo, ou um colar com o nome ‘Snoball’. E você correu, tão rápido, e para tão distante que... — suspirou pesado, os ombros acompanhando o movimento ao subir e descer — agora quem não tem mais certeza alguma sou eu — tornou a desviar o olhar e suspirar mais uma vez. Acho que se sentiria confortável quando Delilah se afastasse, mas surpreendentemente, sentiu exatamente o contrário. Enquanto estava ali com as mãos em seus braços, ele podia sentir a presença dela, o calor, o conforto. Mas sua distância trouxe de volta a brisa fria dos jardins, e nem mesmo com aquela fantasia ele se sentia quente, não como sentiu quando estava perto. Soltou um riso fraco, sensível e de cumplicidade quando a ouviu repetir suas palavras, e resolveu fazer o mesmo. — A romantic fool — disse o mesmo que ela, sorriu até mesmo de forma parecida. Mas resistiu ao impulso de se aproximar e repetir a cena. Resistiu ao impulso de selar seus lábios nos dela, pois tudo que ela disse a seguir, fazia sentido. Ele havia se machucado, mas talvez não fosse culpa de Delilah, talvez fosse sua intensidade que fizesse isso. Os dias que buscou por ela no dormitório, as mensagens não respondidas, o fato que não conseguir encontrá-la nem mesmo nos seus lugares favoritos. Ela poderia ter feito tudo isso na melhor das intenções, para evitar o maior dos desastres. Mas, como dito, Shane conhecia essa história e a o que mudava era o roteiro. Ele viveu isso, não muito tempo atrás. Ser evitado por alguém que ele gostava, se importava e queria por perto. Ironicamente, o mesmo alguém que ele deveria encontrar em instantes. — Você vai precisar de muito mais do que isso, para me fazer deixar de sentir o que eu sinto por você. Não digo que seja impossível, eu posso acordar amanhã ou daqui uma semana, eu não sentir mais nada. Assim como você também pode. Mas por hoje, e por agora, senhorita Hopps — ele não sabia exatamente o motivo, mas escolheu ceder aos seus impulsos, dando alguns passos na direção dela para retomar a proximidade de antes — Tentaremos não definir o que isso é. Pois claramente não chegaremos a um ponto saudável. Eu não quero você presa, cedendo ao que imagina que eu queira, por medo de me perder, seja como amigo, seja como outra coisa. E também não quero deixar de ser eu com você, pois seria uma droga. Então, talvez seja melhor fazermos o que viemos fazer aqui. E conversar com calma depois, quando eu não estiver vestido de super-herói sanguinário — sorriu fraco novamente, antes de inclinar o rosto a frente e dar-lhe um beijo na testa, um sinal claro de carinho e respeito, pois ele passaria a respeitar mais o espaço de Delilah.