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É a primeira vez que divulgo este projecto — Matéria Negra —, com Walks With Ego🤘

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@sofiafreireblog
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É a primeira vez que divulgo este projecto — Matéria Negra —, com Walks With Ego🤘
Hoje atrevo-me a dizer um poeta, dos que mais me marcou até hoje: Al Berto, com o poema Inferno.
Missiva
Em cada uma de nós e sob as capas espessas deste mundo, repousa, latente, o respirar de uma deusa. Que sintas sempre esse sopro quando suspiras e olhas para dentro.
Envio-te amor. O amor dos desconhecidos que te abre para o mundo e dilui as fronteiras do teu peito.
Ciber título
Eu sinto que tu ainda tens guardas e eu também
Forma como se modifica automaticamente e que descanses. Enter intro é muito interessante o que digo e o que aparece escrito. Parágrafo este que se reflecte na relação entre o descritor que neste caso é o que fala e a máquina de escrever o resultado deste diálogo mas sempre a dualidade que se sintetiza criam-se palavras da escrita automática que não estavam na ideia original do poeta.
Esta é a autor determinação apaga apaga esta é a autodeterminação da escrita virtual. OK
Do infinito
Moves-te no silêncio das horas
tanto, que não te perscutas
e voltas a casa
para comer o pão
que os dias amassaram.
Não sabes de ti.
Não avistas o teu ninho do topo das árvores.
Voas sem saber do vento.
Nem sabes porque se abrem tanto as tuas asas.
Ora abraçam, ora se movem destemidas
no prenúncio de uma tempestade que não vem.
Tudo isto, porque não soubeste dizer que sim
ao amor.
Passa como uma brisa na tua direcção
sem que tivesses adivinhado essa presença em ti.
Não sabes nada, nem para que vives.
Compras carro e casa para te moveres
sem saber aonde. Para ficares
sem saber com quem.
A consequência
é uma eterna paciência.
Quero ver, por detrás do teu sorriso,
O que te lateja no centro do peito
Quando a sombra te consome.
O que te traz à luz dos dias?
Quero saber de onde te vem a força
E como colocas tudo o resto
Dentro de um rasgo de vida
Para sorrir, apesar do que fica aquém.
Quero deixar que me queime
Isso que tens para lá da pele.
E, no entanto, só quero ter palavras
Para o que o tempo por si nomeie.
Linhas tortas
Quando não sei, vou para dentro. Para o silêncio do lar, o calor do fogo interno que crepita fragmentos da minha essência.
Quando não sei, não busco respostas. Procuro apaziguar a pergunta. E entrego o meu corpo ao tempo, afinal, o único lugar onde reside, uma casa na distância, lá até ao ponto de fuga.
Quando não sei, percebo que a pergunta já não faz sentido. A distância e a perspectiva deram-me outras noções de como me sinto.
Quando não sei, esqueço-me de tudo o que é preciso saber. E nesse momento, abro a porta da casa e vejo que o caminho está ali.
A origem do som
São vozes, as colinas do monte
Címbalos que ondulam na margem semicerrada dos olhos distantes
São vozes, se pudermos ouvir no silêncio Cem ocos que ocupem o pensamento e rumores que acabem de cessar no centro do peito.
As colinas do monte são sinos de um templo interno que reverbera no torpor da pele.
As colinas do monte são o anfiteatro da tua origem.
Diário aberto
I
Comecei a gostar dos teus beijos
Quero descobrir se o descolar dos lábios
Nos projecta. Até onde?
Órbitas azuis celeste enrolam olhos,
Tamanhas ondas no embalo
Comecei a pensar se afinal há amor, se ainda existe, se ainda é possível. E, claro, não concluí nada.
Órbitas azuis celeste voltam-se para dentro
E misturam sensações com ilusão. Confundem memórias e desejos. Esconde-se, na pele, um toque em tua busca.
Até onde vão os teus beijos entre realidade e ficção? Quão longe estão as palavras da experiência? Não quero fazer mais perguntas.
A cama vazia está cheia de cafeína.
Nocturno em mim
Até à noite sou só mãe. Depois, enquanto estiveres a dormir, ouço, no fundo da casa, a tua respiração. Só aí, no fundo do peito, mora uma tranquilidade. Só então, me liberto para ir em busca de um pouco do pó das estrelas e embeber a ponta dos dedos em farinha para te fazer bolos.
Enquanto dormes, cheira a casa. Faço as coisas que só faço sozinha. Procuro a voz interna. Procuro ouvi-la atentamente e até proferi-la em tom sensitivo para que possa ter a certeza de que a escuto desde o centro do universo. Mais infinito, menos infinito: assim nos atravessa a existência, de um só golpe!
Até que tu cresças, meu amor; até que te lances nos teus voos de pássaro noturno, embalo-te nas minhas noites em que resvalo para um universo onde sei que respiras profundamente.
Post Póstumo
Um prognóstico.
Às vezes, há coisas demasiado intensas para que consiga transpô-las para palavras. Só o tempo as vai traduzindo.
Um mês depois. O sucedido desenrola-se numa história. O tempo vai permitindo que que o olhar se debruce nela.
É uma histeria quando estes meios-irmãos vêm de visita. Todos os momentos são raros, mas estes sabemo-los tão inusitados: é todo um Atlântico a percorrer.
São músicos. Chegaram em forma de Humanization Quartet. Vêm do Texas para unir-se a outros dois portugueses com quem dão forma ao projecto. Segui-os por todos os concertos possíveis. Despertam-se memórias de décadas. Vivências infinitas que ficam estendidas na corda do tempo. Uma espuma cósmica traz-me à saliva sabores de vida e de morte. Rasgam-se risos à prova das horas. Rebolam-se em palavras rebeldias celestes. E a razão de ser de tudo isto és tu, Dennis. Só tu. Apenas a tua forma astronómica de amar poderia tornar tudo isto coeso e materializável em experiência humana. Tu sempre estiveste no pano de fundo do cenário de cada abraço, de cada toque, de cada onda sonora que nos libera, de cada vez que não pudeste atravessar um oceano, onde secretamente procuro a tua presença. Perdoem-me: eu amo-vos a todos como apenas a um.
O primeiro concerto foi na SMUP, na Parede. A minha amiga, que os ouvia pela primeira vez, dizia : — Mas isto é como hard core punk em forma de jazz!! É a tradução literal do caos interno! — E como nos liberta, como aquele soco sonoro nos silencia os pensamentos mais inquietantes e nos limpa as profundezas da alma, porque, em todo o tempo em que decorre, não há nada que se possa pensar, não há nada que se possa fazer senão ouvir o impacto.
Para o segundo concerto, segui-os até ao Barreiro. Mandei fotografias ao Dennis, para ele saber que estava a cuidar dos seus filhos e a apoiá-los em todos os momentos em que posso. Mal sabia eu que trocávamos as últimas mensagens, as últimas palavras com aquele amor de sempre a saber a universo.
Dias depois, recebi a notícia. Há precisamente um mês. Se já sentia saudades naquele momento e a expectativa de ainda nos podermos ver… talvez até fosse em breve… Hoje essa palavra não cabe em nenhum recanto do meu ser. Não há saudades possíveis. Só um aperto desmesurado que nenhum abraço pode conter.
Só hoje consegui contar-vos, em forma de história.
O silêncio invadido
Tenho a sensação que os velhos tempos de covid estão a ficar para trás. Pelo menos no que toca reabertura de concertos. Ainda bem. Todos: músicos e público, estávamos a precisar desta lufada sonora.
O palco desceu à plateia. E assim ficámos prontos para receber frente a frente a parede compacta de som que foi avançando como uma onda até ficarmos todos submersos.
Os intrumentos foram explorados até ao limite daquele momento. Os músicos fundiram-se nas memórias do espaço centenário, fundiram-se entre eles, e com o público.
O momento foi uno, cíclico. Completo. A perfeição da música encontra-se, às vezes, no respeito absoluto do espaço interno e da clareza da sua materialização que se vê reflectida nos rostos de quem ouve.
Não poderia ter sido um frente a frente mais franco. Aquela onda sonora continuou a invadir o meu silêncio pelo resto da noite.
Os responsáveis:
O Toque Alquímico
Também eu encontrarei uma forma de dizer que não há outra forma de dizer a verdade que a poesia.
Também eu encontrarei uma resposta incerta para quem me perguntar: Só no vagar das letras poisa a borboleta pensante.
A verdade não é uma coisa concreta, nem algo exclusivo deste mundo e da linguagem humana. Mas a poesia detém um tal diluente que permeia o Universo; A poesia está além das palavras que a escrevem.
É nesse toque alquímico que o universal se apropria das palavras para brincar com elas. E o escritor nada sabe, só pressente que há algo inexplicável no que vê acontecer e na voz interna que acabou por ouvir, quando adormeceu a consciência.
A encomenda
Este livro chegou-me às mão como se fosse quase de mim própria. Como se escutasse uma voz irmã que toca o meu íntimo.
Teve algo de mágico, abrir o embrulho tão cuidado e cheio de ti.
E percorri o silêncio interno que ainda me atravessa. Recordei os cheiros de cada memória, os sons da casa com chão de madeira onde eu pudesse ter sido pequenina.
A escrita de Sandra Santos tem um rasgo que desperta a intuição, fragmentos de memórias que irrompem do texto como fotografadas pelas palavras.
A sua obscuridade apaixona-me. Compadeço-me de uma certa dor que tinge um desejo interminável de liberdade de Ser.
A edição bilingue, em espanhol toca-me em especial. Acorda muitas memórias de Madrid.
Foi uma surpresa muito boa conhecer esta jovem autora. A escrita é muito delicada, torna-se translúcida às imagens que desperta e toca no íntimo, tornando-se, incontornavelmente, companheira de quem a lê.
Pelos ares
Tinha saudades daquele sótão. O ponto de partida para tantas coisas.
Lá fora, de certeza que o marulhar do arvoredo deslizava até tocar no mar. E lá dentro, os músicos começaram. Logo se entrelaçaram em altos voos. Como se fechassem os olhos e se lançassem para um fundo invisível.
Guardo a sensação de uma progressão quase indelével. Subtilmente, foram aumentando os níveis de intensidade e de expressão. Puros diálogos internos. E fomos projectados para o espaço abstracto.
Curioso que há tempos as ideias sobre pássaros povoam os fios de alta tensão do bairro. E de repente, encontro-me aqui, a ouvi-los a sair pelo telhado e a levantar o derradeiro voo que o comum mortal só tem em sonhos.
O trio:
José Lencastre / Raoul van der Weide / Onno Govaert
Vamos voltar ao ponto de partida?
A Língua Primordial
Aqueles músicos, se é que alguma vez abrem os olhos para ver o público…
Será que eles nos vêem, ou olham em frente e só têm diante de si a visão de um mundo interno, naqueles instantes traduzidos em Som?
Como seria para eles se vissem aquele público, inerte, mudo, cada um metido dentro da sua máscara, sem sequer segurar uma cerveja na mão, agrilhoado naquela fileira de cadeiras estáticas?
Aquele som pedia para dançar… Damn…
Estariam eles a ver-nos, meio atados, a reverberar para dentro, para dentro onde cada uma das visões se solta e estilhaça nas feridas do mundo?
Que agressividade era aquela, a reclamar vida em bruto, diante dos nossos olhos, se não podíamos responder a não ser para dentro?
Aquele som… aqui prefiro dizer Som em vez de música, para ir à raiz da questão e da origem do Universo… Aquele som pedia para falar sobre tanta intensidade aprisionada no silêncio, que só aquele momento poderia soltá-la no éter, no espaço em branco, no regresso ao silêncio.
No reverso da medalha de tudo o que é volátil, há a poderosa urgência de dizer o ser; de revelar os movimentos internos da alma e de comunicar com o outro; e de traduzir a força bruta do viver, do pensar e do sentir numa linguagem intuitiva.
A música é uma reflexão sobre o som. É uma construção, assim como a palavra remete para um conjunto de sons pré-definido. Libertemo-nos então de todas as regras e grilhões. E deixemos de acomodar o pensamento, o sentir e o impulso a palavras já existentes; a uma fonética já cheia de normas. E deixemos que o puro som reencontre a originalidade do que o ser humano tem para dizer.
Foi um concerto de puro Som, de falas internas, de processos de uma comunicação que rasgou o ar para se afirmar, num dizer constantemente reinventado.
Foi um reencontro com a língua primordial, um aceno à essencia da linguagem. Entretanto, nós mudos, numa plateia de mascarados, escondidos cada um na sua subtil mordaça, éramos voluptuosamente atiçados por aquele magistral plano de fuga sonorizado.
Desconfio que a saída era por aquela bola de espelhos, pendurada no tecto… ou não estaria ali. Tenho a plena convicção que era por ali. Não há dúvida que fazia parte do plano, mal o silêncio recuperasse de tamanho rasgão, a saída era por ali.