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@springbreak-
é possível ensinar amor com adeus. mas antes você precisa fazer entender que algumas partidas só dizem respeito a quem partiu. antes você precisa repetir que nada tem a obrigação de ficar e que ir não precisa significar falta de amor - assim como permanecer não é excesso. você precisa se fazer entender que tá tudo bem, que é tudo tráfego, que vai ser incrível de novo. e então você vai. você olha pra trás sabendo que não feriu ninguém e apesar disso você dói porque ir também é tão difícil. é possível ensinar autoapreciação com adeus. é só você dizer, exaustivamente, que aquela outra pessoa já era imensa sem você e que ela vai continuar e que você é absurdamente grato por tudo que ela também te ensinou, por todos os bons momentos e manias que com ela você absorveu. porque o fim, esse sobre o qual a gente se desdobra, não precisa ser sempre tão doído e, caso seja, não precisa ser a única verdade que a gente conhece. porque é possível ensinar eternidade com adeus. a memória cuida disso. o universo vai te perdoar por você ter sido honesto ao desistir.
(Coisas para te dizer antes do fim do mundo)
1. Depois de você tiveram outros. Com gostos de gim na boca e hálito de quem por muito tempo se rebelou contra os sistemas e decidiu que era bacana bancar o marmanjo revolucionário às avessas - e eu sempre gostei dos caras que tinham na mente um ideal revolucionário. Marx, Nietzsche, Caio Fernando Abreu. Você, ao contrário deles, nunca leu nenhum desses três e mesmo assim teve e continua tendo uma parte minha que nenhum outro terá ou pressupõe ter. Eu queria poder te dizer o contrário e queria esbravejar em sinal de raiva por você ter sido tão único que nem a falta de literatura deu conta de me abster do que ce foi na minha vida: um caos, garoto. Um caos.
2. Depois que encontrei os outros, compreendi que minha vida tinha mais valor do que eu costumava dar. Você primeiro se machuca com qualquer um que não sabe tocar no seu peito; você se fere com aqueles que atravessam seu corpo sem o menor pudor; você se atira nas pontes das cidades e você escorre pelas ruas e no fim você se vê sozinho, sentado na estrada, chorando todas as vezes que a-coisa-toda não funcionou. De repente, quando o amor é subvertido na sua perspectiva e você encontra-se refastelado pela ideia do perdão, as coisas passam a ser mais inflamadas e você começa a se acariciar com amor. Depois de você, aprendi a tocar na minha própria pele sem a gasolina ou querosene: eu sabia que era frágil e por conta disso eu me acalentava em braços imaginários. Às vezes, é preciso se autorreconhecer sozinho para que o amor próprio seja fonte de alimento - puro e verdadeiro.
3. Há dias que você me dói feito um cometa que ninguém percebe. Enquanto caminho pela cidade ou enquanto mastigo uma broa de milho; nos atos corriqueiros e nas preocupações de quem se assola com muito pouco, cê ainda está em algumas partes que ainda não desvencilhei de mim. Evito resgatar qualquer memória colocando a mão na traqueia e apertando a goela até não restar ar, restar vida, restar você. Cê vai embora pela porta da frente, olha fundo no meu rosto, desaparece. E volta depois. E tem sido assim nos últimos meses: a dor do adeus é uma estação do ano que vai embora crente que volta na próxima temporada. Você é minha próxima temporada.
4. Não me sinto mais fraco por estar escrevendo sobre você. Sinto como se estivesse voltando pra casa depois de um dia muito atribulado, onde a cidade de São Paulo grita que tenhamos pressa. PRESSA. PREssa. pressa. Repito a palavra para causar o constrangimento da culpa: todas as minhas células se debatem de esperança no amor. Mesmo depois de você, meu tecido adiposo se contorce de esperança no amor. Mesmo depois do que você foi e da rachadura híbrida que se formou em mim, meus cromossomos exalam amor. E vou repetir: amor amor amor amor.
5. Depois de outros terem passado e de você ter passado e de toda a dor ter sido encoberta por textos e mais textos, a única pessoa que permaneceu fui eu. E permaneço, como uma obra de arte perdida entre Bélgica e Noruega que ainda não foi encontrada porque não quer ser vista por pessoas razoáveis. Eu tentei lamber outras almas, convencer a mim mesmo que os outros eram tão diferentes de você quanto escoceses e bretões mas, no fim, no fim de tudo, você e eles têm nada de diferente. Não importa se leem Marx, se gritam revolução, se pisam em jardins com os pés descalços, se machucam com uma palavra ou soco: todos, indissociavelmente todos, feriram uma parte minha que nem eu mesmo sabia que existia. E tô te escrevendo, sem culpas ou medos ou fantasmas ou melindres, porque a vida é maior do que as expectativas que você desconstruiu depois que nós nos chocamos. Nem toda literatura é sobre o amor que permanece e você sabia disso mais do que ninguém.
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