Ele era tão lindo
E tão distante
Que tocar seu corpo era como tocar uma montanha
Tocar seu corpo e sentir seu perfume
Era como encostar em deus.

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@stop-endo
Ele era tão lindo
E tão distante
Que tocar seu corpo era como tocar uma montanha
Tocar seu corpo e sentir seu perfume
Era como encostar em deus.
Meu coração é uma escola de samba
Gosto de pensar em um trem que corta até as rochas das montanhas e segue e vai
Sobre os trilhos
Gosto de pensar nisso antes de dormir
Porque é o que me traz paz
Gosto porque desperto antes da paz do sono
Para o som do sinal fabril.
Gosto de pensar no trem, que o trem é um objeto fora do tempo
Que rompe, sem compromisso, para lugar nenhum, fazendo sulcos no inconsciente
Gosto de fabricar o sonho
Que quando sonho, sonho com um ônibus
Sonho com exames e boletos
Gosto de fabricar borboletas, fingindo que sonho
Antes do alarme que me põe de pé para vestir o uniforme.
Uma vez uma propaganda da TV disse que eu precisava de um plano odontológico para ser feliz
Eu pensei: Então sou triste?
Eu já coube uma vez no silêncio que cabe dentro da casca de uma árvore.
Foi estranho, voltei ao mundo menino, lambuzado de seiva
Logo depois me esqueci disso, de que as árvores também transam
E voltei a pagar boletos.
Me disseram que homem adulto não pode cavar buraquinhos na areia
Eu mostrei um dedo do meio bem grande.
O que é a vida se não uma alucinação feita de metal enferrujado?
Eu só estou te escrevendo pra dizer que eu estou bem
Eu sei que você não se importa, mas
Eu só tô te escrevendo pra dizer se eu melhorei
Eu sei que você não se importa mais
Eu não quero só transar
Eu quero alguém que cante Caetano comigo.
Cada vez que eu me olho no espelho, um homem me encara de volta
O tédio da vida me consome
É uma nostalgia
Uma vontade de escrever com rima
Uma saudade de Fernando Pessoa
De Clarice...
Eu tendo agora a escrever cru
Como diário de um viajante de navio.
Eu tendo agora a escrever eu
Como homem de bigode
Como meu avô soía tê-lo.
As meninas são uma poesia de valsa
Eu vou pra lá, eu vou pra cá com elas
De noite meu sono é de um homem maduro
Quer saber com o que eu sonho?
Eu sonho com um ônibus desgovernado
Eu sonho com um apartamento apertado
Eu sonho que estou trabalhando
E os papéis se misturam, também desgovernados.
Eu vivi, somei anos, desgovernado
Eu também amei como vocês
Um amor besta, meu deus
Com sabor de cigarro.
Vocês querem que eu lhes ensine uma sabedoria ímpar
Mas eu só sei que vocês precisam de beber muita água
Um trago de veze em quando também não faz mal,
Mas dançar e rebolar
Isso é fundamental.
Eu não danço.
Não sempre.
Eu só vivo durante o sonho.
Cada vez eu tenho sentido menos sonho
Mais ânsia.
Cada vez mais aquelas mãos ásperas me deixam
É como se fosse um vício delas.
Cada vez mais os sonhos me desenham
É como se eu fosse feito num dia de interrogações.
Inventaram um pentado bonito.
Me disseram que meu cabelo é coisado.
Existe uma propaganda na TV que o algoritmo desenhou para mim
E eu só queria que as pessoas entendessem
Que é normal dançar esquisito.
Cada vez eu valorizo mais meus amigos.
Cada vez eu eu tenho mais coisas para dizer
E menos do presente
Para me ouvir.
Eu tenho também alguns silêncios
Que se aglutinam em mim.
Tudo muda a todo instante
O Universo é inconstante
Nunca me deshice de los besos y abrazos que te di
Te veo como un niño grande
Que se olvidó de la vejez
Y que corre descalzo por las calles infinitas de América Latina
Que me perdone el lector
Pero el alvo de mi lira no tiene nombre
Tiene todas las bocas que jamás quise desatar los besos
Tiene manos de dedos finos y blandos
Y una inocencia que hiere mis ojos
Como el sol del alba.
Quisiera deshacerme de mis mañanas y compromisos
Para correr, niño del azul infinito
Contigo
Sin chanclas
Por ese mundo cielo.
Os tempos viram
E me botam de cabeça para baixo
Você vem na ventania desses versos
As flores se abrem para mim
As folhas se secam
Novos nomes de flores e aspectos mágicos para uma nova religião em mim.
Seu nome se torna uma religião
Como a firmeza de sua fala, sua voz, sua mão
Seu lábio que procura e acha
Abrigo no meio do meu furacão.
Eu rezo ao temporal
Os ventos viram de novo, eu no chão
Não quero mudanças, não entendo você
Nem as flores novas da estação.
Estou farto do tempo, das flores que nunca murcharão
Estou de olho no vento
Obstinado ao sim e ao não.
A vida é um estorvo
Eu nunca desperto do sonho.
O mundo é uma alusão a uma vida que ainda está sendo gerada.
Visual ecstasy from artist Gaëtan Henrioux on Supersonic Art!
Contemporary works from artist Greta Kresse on Supersonic Art.
O que nós somos... Nós somos dois
Não é brincadeira
Eu vou te ver depois
Pensando em fazer besteira
Nossa besteira é que é boa
Teu lábio grande que ecoa
Absorve a galáxia inteira
Eu na beira do mundo, teus olhos
Ainda aqui é terça-feira
Me perdi no tempo em teus atalhos.
Eu vou almoçar na tua casa
Conhecer tua mãe, tua tia.
A profundidade do mundo é que é rasa
Perto da nossa agonia.
Sua pele marrom tão cobre
Fazendo meu pôr do sol mais fotografia
E a minha vergonha menos freud
Não tem vinho que sobre
Na ânsia de nossa euforia
E tua língua que explode
Em beijos, em vãs filosofias
Não que eu não goste
De tuas verborragias
Não que mais brilho que a luz do poste
A tua noite de alegorias.
Eu morto, sobre a cama
Manhã cedo, casa nossa
Quem passou o café foi tu
Nunca vi pessoa que me ama
A ponto de lavar a louça
E me acordar num canto de maracatu.
Eu nunca vi cachoeira
Não com teu toque
Eu nunca perdi estribeira
Assim feito choque
Sua mão dura, seu abraço dourado
Sua fala-jura, seu despenteado...
Eu juro que sonho, estou inebriado
Acordo teimoso, para o trabalho
O coração é pedra que vibra, aqui do esquerdo lado
Seus olhos no caminho, pingando as gotas d'orvalho.
Eu quero, mas não quero tanto
Eu poderia ir, mas acabei ficando
Eu poderia ficar, mas fui sem querer
Eu me canso de trabalhar
Eu me canso de não fazer nada
É ruim estar envolto por muita gente
É ruim ficar só
Odeio o silêncio
Detesto barulho
Gosto de sair de casa
Gosto de voltar pra casa
Gosto de fugir
Gosto de ser o último a sair
Mas às vezes sumo no meio do movimento.
Eu me esqueci de perceber
Como as manhãs são belas
Com o vício de sofrer
Com medo de ser piegas
Nem me atrevia a abrir as janelas.
Andei me negligenciando
Mas por que é que a minha alma cansou de si mesma?
Onde eu abandonei minha criança
E parei de me ouvir?
Eu não quero mais ser medíocre
Mas também não quero ser grandioso
Só quero abrir as janelas
Com minhas angústias
E ouví-las lá de dentro
Acolhê-las
Só quero abrir minhas janelas
Em manhã de gratidão
E agradecer
Conversar com os bichos, os passarinhos
Os meninos correndo na rua
Dar bom dia aos transeuntes...
Eu quero abrir as janelas como quem respira.
É muito bom ser um louco.
Ver as águas correrem.
Você se lembra de quando era menino?
Que brincava na chuva
E subia em árvore
E pegava a manga mais rosa
E comia sem lavar...
Ver as águas correrem.
Você se lembra do medo que tinha do escuro?
E de ficar só?
Não tinha roupa que combinava
Com seu estado de espírito.
Ver as águas correrem.
Uma janela aberta para as aves
Ter árvores é como ter mais de dois olhos
Você se lembra de quando não pensava com palavras
E de quando nenhum ditado popular fazia sentido?
Ver as águas correrem.
Gosto da massagem que a cachoeira faz nas minhas costas
Antes eu era peixe e não tinha nem costas
Enterrar sementes e esquecê-las
A vida brota como surpresa
Um homem de jaleco era só alguém importante.
Ver as águas correrem.
Você se lembra de quando descobriu seu sobrenome?
Uma ave que morava no meu telhado
Não sei como era seu nome
Um canto que tinha cheiro de café
Foi na mesma época em que aprendi a nadar.
Ver as águas correrem.
Hoje você já não se lembra mais dela
Um banco traseiro de um carro
Um sereno
As flores davam o ano todo
E enfeitavam nossos cabelos.
Ver as águas correrem.
Empilhar pedras no rio e ler um livro embaixo das árvores
O tempo vai ressignifcando as amizades
Vale a pena entrar pela porta,
Mas também é tão significativo sair.
Ter uma opinião e não abrir mão
Pode até fazer chover.
Ver as águas correrem.
As águas vêm, parece, de todos os lados
Chove, desce morro abaixo
Minam e inundam.
As estações mudam
E as águas mudam a paisagem.
Aprender a boiar n'água.
Ver as águas correrem.
Ontem eu queria muito ver os olhos dela
Eram lindas jaboticabas
Eu iria escrever um texto sobre isso
Hoje eu gosto de ver as águas correrem.
Gosto de entrega, de um beijo que cala, mas diz o que o português não sabe expressar. Gosto do toque que faz chegar mais perto, tão perto que é quase fusão. Gosto das palavras de carinho, poucas, sem discursos ensaiados, mas sinceras. Gosto dos olhos que me leem, que me buscam; dos dedos que me despem; do sonho que chama meu nome. Gosto das brigas; não gosto das mentiras. Gosto do choro e do consolo. Gosto da nudez sem timidez, sem envergonhamento. Gosto de te chamar de vários nomes, meu preto, principizinho. Gosto da ansiedade que sinto quando você está vindo. Gosto de quando demora. Gosto de preparar tudo, de checar se está tudo no lugar, quando você chega, de devorar seu cheiro. Gosto de quando vai embora, porque gosto do gosto da saudade, quando seu gosto vai se esvaindo da minha boca, e eu sinto fome e quero te comer de novo. Gosto de quando você bebe mais uma taça por minha causa e fica engraçado, um pouco mais vulnerável e falante. Gosto de cuidar de você. Gosto das suas orelhas grandes, tentando me entender.
Não gosto de esquecer o seu nome nem da distância que nos obrigamos a estabelecer.
Sei que você pode voltar, corpo novo, nome de outra pessoa, mas sempre será você.
Sei que estou me protegendo da gente, que nos encontramos diversas vezes, confundindo abraços e cafungando cafunés ao acaso. Sei que você tem medo, assim como eu. Olho o abismo, lá em baixo deve estar você, e me jogo. Não posso evitar a queda. Não tem como ser diferente, não posso evitar o medo, a fragilidade, a minha nudez.
Eu já tirei minhas vestes. Estou esperando seus dedos trêmulos. Vem com sua vergonha, mas vem. Vem sem nome, sem forma, mas vem. Eu já sinto o seu perfume.
Invisible Connections: The world of Dennis Scholl on Supersonic Art.