A presença de Jaehwan lhe proporcionava um oceano de sensações e, não fosse pelo vinho, Seunghyun provavelmente já teria começado a afundar-se naquele caos. Jaehwan era um ótimo amigo, alguém que representava conforto e segurança ao seu subconsciente, e tais emoções se tornaram raras após ter adquirido a fama. Já havia até mesmo sido envenenado em uma ocasião, afinal. Normalidade era tudo que não possuía em sua vida, e, talvez por isso, Jaehwan tivesse se tornado ainda mais atrativo aos seus olhos. Entretanto, com tais observações inocentes, Seunghyun também lembrava-se do amor que sentia pelo mais velho, a paixão que fazia seu corpo se aquecer, e os momentos íntimos que compartilharam em algum ponto surgiam esporadicamente em seu raciocínio. Tomou mais um longo gole do vinho, seu copo ficando vazio. E, além daquilo tudo, ainda era obrigado a encarar que, embora o visse de tal forma, Jaehwan nunca o enxergara como mais do que uma irritação. Sentiu seu peito se contrair, suas próprias costelas parecendo sufocar sua respiração. Amor não correspondido não deveria doer tanto após ter cicatrizado, mas Seunghyun sempre sentia suas mãos tremendo ao pensar na rejeição sofrida. E, então, pensava na namorada dele, é claro. Ela era bonita. Deveria ser uma mulher incrível. Deveria ser muito melhor do que Seunghyun um dia chegaria a ser. Mordeu seu lábio inferior, conseguindo sentir que tal trilha de pensamentos o levaria às lágrimas a qualquer instante. O apelido, que já não ouvia há tantos anos, foi o que lhe despertou, fazendo com que Seunghyun o encarasse, confuso, por longos segundos, logo forçando-se a abrir um sorriso. — Não precisa agradecer. — murmurou, tomando a garrafa de vinho em mãos para despejar mais deste em seu copo. Era um verdadeiro idiota. — Hospitais nunca são uma boa ideia. — comentou, rindo, após outro longo gole. Seunghyun já fora internado algumas boas vezes, fosse por sobrecarga de trabalho, excesso de treinos, algumas doenças causadas pela baixa imunidade proporcionada pelo estresse… Hospitais eram sua segunda casa, mas ninguém além de seus companheiros de grupo pareciam se importar com aquilo. Sua solidão o entristecia, e tal coisa era visível em sua expressão. Entretanto, ao continuar a beber, palavras e sorrisos fáceis começavam a surgir de seus lábios. Riu das palavras de Jaehwan, seu corpo mais relaxado. — Não muito. Eu sempre fico doente… E eu tenho a maioria das fãs doidas. Ou seja, acabo envenenado de vez em quando. — explicou-se. A situação era deveras trágica, mas Seunghyun aprendera a não levá-las tão a sério (apenas se entristeceria mais se o fizesse). — Hongbinnie…? Ele é sempre muito gentil comigo, e evita que eu acabei sobrecarregado. — respondeu, um sorriso bobo em seus lábios, incerto do que mais poderia dizer sobre o líder, o álcool já subindo por seu sangue. Ao ouvir a reclamação feita por Jaehwan sobre sua família, porém, Seunghyun o encarou, confusão clara em sua expressão, sua cabeça tombada para o lado. — Está tudo bem, Jaehwannie? — perguntou, levantando-se para se aproximar do mais velho, tocando seu ombro em um sinal de preocupação. — Você quer conversar? — ofereceu um sorriso sincero, mais solto graças às bebida. — Kyungsoo… — demorou para ligar o nome ao amigo, rindo de sua lentidão. — Ah, sim! A gente se conversa por chamada de vídeo, quando dá… — acabou apoiando-se no corpo alheio, sentindo sua cabeça mais leve. — Eu estou honrado por estar aqui com você.
Com os olhos pousados sobre a figura de Seunghyun em sua frente, Jaehwan tentava analisar cada expressão que se contraía na face alheia em busca de tentar compreender o que se passava na mente dele. Será que as lembranças passadas deles também inundavam a mente do homem? Será que ele também sentia saudades da relação que possuíam? Assistia ao líquido roxo desaparecer do copo alheio, mas antes que fosse capaz de servir mais a bebida, a garrafa fora apanhada. "Não” parecia ser a resposta para todas aquelas questões que surgiam em sua mente em frações de segundo; precisou se controlar para não deixar escapar nenhuma expressão entristecida. Por que era tão estúpido? E foi sua vez de finalizar o vinho em seu copo e buscar enchê-lo novamente com o álcool que tanto o confortava. Seu corpo já estava bem menos tensionado após mais alguns goles e sua mente, nublada. Ao ouvir a réplica do mais novo para sua pergunta de cunho puramente zombadeira, seus olhos esbugalharam e se engasgou com o pouco de vinho que ainda engolia. — Envenenado?! — foi a única coisa que conseguiu dizer e os efeitos iniciais da bebida começaram a levá-lo para um lado mais sombrio. A ideia de ver alguma notícia trágica do Seunghyun passou a assombrar sua mente e sua garganta apenas queria fechar acompanhado de lágrimas; respirava fundo para que não deixar ser dominado por aquele estranho sentimento e acabar parecendo um maluco sem muito sentido. Entretanto, a irritação que acabara por se instalar em seu peito não conseguia ser evitada completamente, sobretudo por vê-lo tão sereno ao falar do Hongbin. Não podia se queixar, pois havia seguido em frente após a rejeição, mas era duro ver que outra pessoa dominava o coração do mais novo. O que ele tinha de especial que o Jae não tinha? — Ah ta, entendi... — decidiu encerrar o assunto antes que buscasse saber mais informações sobre os sentimentos do Seung. Sua respiração cessou por um segundo com a aproximação do cantor e, por mais que desejasse andar pelo menos um passo para trás, seu corpo não respondia. — E-está sim, eu acho... quero dizer, meus pais com certeza vão adorar te reencontrar e ver o quão você está boni-... crescido e popular. — se desconcentrou ao ter a mão masculina sobre seu ombro. Por que tinha que ser assim? — Eles só se tornaram mais duros comigo por eu não ser um filho perfeitinho que não terminou os estudos em direito para fazer “coisa de vagabundo”. — riu baixo sem humor. Abandonar o curso que seus pais tanto sonhavam para si foi uma decisão difícil e libertadora, mas precisava lidar com as consequências da sua escolha sempre que precisava interagir com sua família. — É-é bom saber que vocês ainda são próximos, o meu irmão gosta muito de você — abriu um pequeno sorriso sincero. — Honrado? Eu que deveria dizer isso, o artista famoso aqui é você — falou com divertimento precisando respirar fundo pela proximidade de seus corpos e o álcool que viajava por seu corpo. — Sou só um pé-rapado que coloca quadros legais na parede para esconder as rachaduras.