tinder é a nossa maçã farinhenta diária
sabe quando você vai no mercado, vê uma maçã perfeita, vermelhinha, brilhante, que realmente chama tua atenção a ponto de você realmente ir até ela e ver a textura dela? e você apalpa, ela tá perfeita. essa maçã é o amor da tua vida. aí você chega em casa, ou não, enfim, as vezes a vontade de desfrutar a maçã é maior que o medo de comer fruta sem lavar, acontece, e você vai devorar a dita cuja no carro mesmo. só que quando você coloca a língua na maçã pra sentir o território, você já sente que pode ter algo errado. e você morde. e a casca tá mole. e não faz crock. faz fronk. você leva o conteúdo mais fundo na boca, e ela vai deixando aquela trilha de desgosto que só uma maçã farofenta é capaz de deixar. e você, depois de passar pelas 5 fases do luto em milésimos de segundo, enfrenta a realidade de que aquela maçã maravilhosa que você comprou, e depositou expectativas e esperanças de ser a a melhor refeição do teu dia, ou a melhor maçã que você já comeu na vida, é, na verdade, uma maçã farinhenta.
tinder te proporciona essa mesma experiência, mas com pessoas. pessoas farinhentas. você cria uma conexão com aquela pessoa perfeita, se você é igual eu, começa a imaginar até um futuro com ela. aí você dá um like, a pessoa dá o match, e o seu interesse é tanto que você chega a realmente encontrá-la, para prová-la. você, assim como a maçã sem lavar, você se sujeita a sair de casa no meio de uma pandemia, se expor a todos os riscos de sair à noite em uma cidade movimentada (a gente nunca sabe se o uber não é um sequestrador, se a pessoa não vai te assaltar, a gente nunca sabe, mas assume o risco). e você encontra a pessoa, em algum lugar x. a aparência pode até ser bem condizente com a foto que você viu. mas quando você vai sentir o território, você já vê que a personalidade da pessoa é genérica (isso quando tem personalidade, não me refiro aqui, necessariamente aos homens cis héteros, a superficialidade não é só mais um dos privilégios dessa raça). e você leva esse conteúdo mais pro fundo da boca, pra mastigar mesmo, e você sente o rastro de farinhismo que a pessoa deixa.