AmarElo
Eu sinto falta do sol.
Pouco a pouco os dias passam, pouco a pouco a vida avança e pouco a pouco não sei mais falar, não sei mais ser, não sei mais sentir.
Eu sei que eu sinto falta do sol.
Minha parede é amarela, eu escolhi o quarto que pega o sol da tarde, porque é mais quente, porque é mais amarelo, porque é o meu quarto. Em todas as fases, foi meu quarto. Antes dele eu só lembro de brincar de leão, que era amarelo, mas era no quarto da minha irmã.
Os momentos difíceis foram de noite, a roda infinita do tumbrl, Inglaterra, a implosão interna do desespero. Nada disso foi no amarelo. As alegrias foram. Sentar na secretaria pra conversar, esperar o ônibus perto da grade, deitar com ela depois do trabalho pra rir, deitar com ela depois do almoço pra cochilar, o braço em baixo na costela, assim não.
Aqui tem sido frio, a cozinha não pega mais sol, o prédio de 3 milhões e meio barra tudo. Não achei que seria tão difícil sair, desmontar meu forte, me desmontar. 25 anos de uma extensão física de tudo que eu era, as pelúcias da minha avó que nunca foram doadas, porque eu choro pela morte dela até hoje. A vontade de nunca ter jogado nada, dado nada, porque a angústia de esquecer me consome, a angústia de ser esquecida talvez...a angústia de não ser vista como ela me via, na verdade.
Atualmente ser esquecida parece bom. Não quero ser lembrada assim, não quero ser vista assim. Eu sinto falta do sol. Sinto falta da vida; da beleza oculta e colateral que habita e significa a vida na sutileza do momento. Não gosto de dizer que é amor, mas talvez seja, outro tipo de amor. Prefiro outra palavra...cultivo? É aquele poder da terra, que é feminina, que uma noite de luar na montanha permeada pela menstruação proporciona. O Everest pode ser o topo do mundo, mas o que importa vem do centro da terra, núcleo como eu expliquei pros alunos esses dias.
Eu sinto falta do sol. Eu sinto falta da vida. Eu quase sinto falta de mim, mas eu sem isso quase não existo. Cada vez mais eu existo em menos espaços, com menos potência.
Eu existo na minha casa, mas não sei bem como, porque ela não é amarela. Ela não é amarela e madeira, ela não é minha mãe, meu pai, minha irmã e a Mel. Ela sou eu, uma eu sozinha, que imagina alguém me encostando quando deito pra dormir, uma eu que conversa com o vazio da cama porque não tenho mais minha parceirinha, uma eu sem cacarecos, sem memórias, sem vida. Eu perdi a beleza oculta. Cada vez mais.
Como construir um novo espaço? Como desistir de tentar recriar minha vida? Como voltar a sentir amarelo em uma casa que não tem mais sol? Como existir no mundo sem o eco das conexões? Do que é em si a beleza oculta e o núcleo da terra? Aceitar que sentir o calor do centro da terra ao lado delas, vivenciando fertilidade e potência ficou no passado. Que agora é subida no Everest, 60 dias de vai e volta, ciclos de aclimatação, frio, e o silêncio. Se tirar o oxigênio a gente morre. O mais difícil é a descida. Eu to cansada. Minha perna precisa mexer. Como processar tudo isso?
Como processar tudo isso?
Deus, você existe?








