fire meet gasoline || sleeping hook {flashback}
Suas mãos trabalharam rapidamente nos últimos retoques de sua capa, costurando com toda a paciência que lhe era permitido, ainda que nunca teve paciência para tais trabalhos, pois necessitavam de paciência, coisa que Aurora nunca pareceu ter, principalmente quando precisava ficar quieta. Seu trabalho não foi perfeito, o que a fez pensar que poderia ter usado alguma desculpa e pedido para uma das criadas fazer o remendo- já que conseguiu fazer com que uma delas lhe emprestasse. Por nenhum momento temeu que elas fossem comunicar ao rei, ele nunca desconfiaria de coisa alguma e muito menos teria tempo para ouvir um criado falar sobre a filha ter pedido uma capa. As pessoas costumam pensar que Aurora não é nada além de um belo rosto e sorriso simpático, um modelo de dama a ser seguido, porém a realidade esta muito longe de tais pensamentos.
Aquele era, de fato, o momento que colocaria em prática tudo o que Aurora aprendera apenas na teoria, seus olhos estavam abertos e atentos a qualquer momento que pudesse ser prejudicial a si. O mundo sempre pareceu grande demais em sua fortaleza, podia ver o horizonte se formando e o seu reino estendendo-se em terra, as pessoas andando, correndo, trabalhando, tantas vidas que estavam sob os cuidados de sua família, que dependiam deles. Mas ainda era jovem, e não entendia muito o significado de cuidar de alguém, afinal sempre fizeram isso por e para ela. Imprudente, Aurora ignorava os avisos de seu pai quanto aos perigos que podem ser encontrados se um dia ousasse sair, e a jovem julgava-se inteligente o suficiente para conseguir ultrapassar tudo o que viesse ao seu caminho. Era tola de pensar de tal maneira, mas como culpar além que só viu a “realidade” do mundo em palavras?
Seus pés percorriam a floresta com gosto, seus olhos tão azuis quanto o céu na primavera não paravam um segundo sequer, sempre captando algo diferente, um animal qualquer passeando, um pássaro em seu ninho ou simplesmente o sol fraco iluminando alguns pontos do local, devido a quantidade de árvores tão juntas umas das outras. Seu primeiro contato com o exterior não poderia ser descrito, era uma mistura de prazer e libertação, como um pássaro, explorando o céu pela primeira vez depois de observá-lo durante tanto tempo. Não prestava muita atenção para onde estava indo, mas com certeza saberia voltar se fosse necessário- criara um sistema preciso de identificação que logo colocaria em prática- observando e absorvendo tudo o que poderia.
Ao ouvir passos vindos em sua direção, Aurora alarmou-se, imaginando que fora descoberta e seu pai mandara seus soldados para buscá-la. Já imaginava o olhar que lhe daria, e o semblante de sua mãe, preocupada, mas o pior não seria isso, e sim que as chances de conseguir sair novamente se tornariam impossíveis. Ou pior, poderia ser algum ladrão ou assassino o que, com certeza, eram mais assustadores do que o seu pai. A princesa tratou de se esconder atrás de uma arvore próxima de onde estava, tomando cuidado para que seus passos não fossem ouvidos. Seus olhos fecharam-se momentaneamente, desejando que a pessoa fosse embora, e seu coração batia forte, de tal maneira que Aurora achou que pularia para fora de seu corpo. Nunca sentira tal sensação, a de perigo, e uma crescente curiosidade, que venceu o medo, por fim, quando o som pareceu distanciar-se.
Saindo de seu esconderijo, Aurora olhou em direção ao som, que parecia mais longe do que antes. Suspirou, aliviada, mas tal alivio dissipou-se ao perceber que não estava sozinha. Pulou de susto ao esbarrar no homem, afastando alguns passos, apenas por segurança. — Quem és tu?— conseguiu perguntar, depois de recuperar-se do choque. Ele não era um dos soldados do pai, conseguiu perceber, e não tinha a pose de um ladrão- pelo menos não aqueles poucos que viu e leu sobre- então restava apenas a suposição de que ele era um assassino. Sua respiração estava desregular e logo sentiu a necessidade de algo em suas mãos. — Não se aproxime, eu tenho… — rápido Aurora, pense, sua mente a alertou. — Uma adaga, e a usarei se for necessário. — sua voz não pareceu muito segura, mas pelo menos a sua expressão não a abandonou, colocando a sua típica expressão de deboche. Era a desculpa que tinha, pelo menos até conseguir pegar algum objeto para defender-se, ou gritar, se fosse necessário.










