Pra falar sobre Neil Young preciso contar como o conheci: indo à casa do meu pai de sangue, acho que tinha 15 ou talvez 16 anos.
Eu fui pouquíssimas vezes na vida até sua casa e somando todas as horas que passei na companhia dele não chegaremos à duas semanas de convivência. Era pequeno e ingênuo demais pra entender a historia sobre como eu nasci. Também demorei pra sacar o quanto eu era super protegido destas tretas e havia todo um esquadrão de gente trabalhando para isso, meu avô, minha vó (sempre exageradamente italiana), um novo pai na área e minha mãe preenchendo toda e qualquer necessidade da presença paterna no recinto. Resumindo: seu pai foi extremamente mimado e superprotegido. Mesmo assim fiz algumas coisas que todo menino tem de fazer, exemplos:
Se arrebentar de bicicleta e esperar o sangue secar/parar pra voltar pra casa;
Fazer um lança-chamas com Spray de cabelo e quase botar fogo na casa (não tente fazer isso em casa ou em qualquer lugar, ok?);
Quase morrer afogado na piscina do clube – dizem que é assim que se aprende a nadar.
Enfim, gosto de pensar que mantive tudo que poderia ter gerado uma surra à segredo dos meus pais, mas acho que eles sempre souberam de cada coisa que eu fazia sem eles por perto.
Durante muito tempo me senti mal, quase sempre retornava da casa do meu pai com coisas legais, guitarras, violões, discos, talvez porque raramente o visitava. Eram coisas que meus pais não tinham acesso, não se interessavam ou não tinham dinheiro para se dar o luxo. Mas naquele momento, no meio dos anos 90, a música pop (e um nintendinho) era tudo o que eu tinha.
Meu pai não havia superado o fato que a vida havia seguido, nem sei se superou, não importa. Ele vivia de bicos, aulas de músicas, showzinhos aqui e ali. Ele havia gravado um disco em 1980 e desde então só havia andado pra trás, era o conto do rock, o conto do Belchior. Para cada artista mediano que você ouvir, saiba que outros mil ficaram para trás e ele era apenas mais um que haviam caído no conto do Belchior. A melhor lembrança que tenho desta época é de seu Comodoro – um carro símbolo de sucesso dos anos 70 e 80 - e toda vez que vejo um carro desses na rua lembro diretamente dele e como ele fazia o percurso de 30 km em menos de 10 minutos.
Apesar de tudo, ele tinha alguns bons discos guardados em casa e toda vez que íamos para lá, eu metia alguns na mochila. Tomava “emprestado” seria o termo ideal, mas gosto de pensar que foram furtados como um Payback - um troco pelos anos perdidos.
Entre os discos “emprestados” estava um disco ao vivo da formação clássica da “Jimi Hendrix Experience” e “Neil Young, Unplugged” - um disco ao vivo e acústico que Neil Young havia gravado em 1993. Até então, tudo o que eu sabia sobre Young era que ele havia recém gravado com o Pearl Jam - e que todo mundo o amava. Pouco importava, naquela época era o disco favorito da casa do cara que engravidará minha mãe e isso já bastava para que eu roubasse seu disco. A ultima vez que o vi meu pai de sangue foi em meados de 2003 e, incrivelmente, ele mencionou o álbum – eu disse que não estava comigo - lamento, nunca estará.
Provavelmente quando você ler este texto Neil Young já terá se ido - ele, quase toda a nossa lista de discos e provavelmente a tecnologia te impedirá de ouvir seus discos na estante. Young foi um dos primeiros artistas a enfiar o violão em tudo quanto é estilo musical, ele inaugurou o Grunge e o folk lo-fi (baixa-fidelidade) – coisa que seu pai faz até hoje (2012). Nesta parada de mudar de estilo, Young pegava pesado, tão pesado que chegou à ser processado por sua própria gravadora por gravar discos que não pareciam discos do Neil Young.
Neil Young também inventou o clichê do cantor “prolífico” – aquele que lança vários discos ao mesmo tempo, deixando os fãs pobres e confusos. Acho que ele deve ter gravado uns 100 discos entre trabalhos solos, com Crazy Horse ou com o Stray Gators. Também participou do Bufallo Springfield e do Crosby Stills Nash and Young – uma superbanda do fim dos anos 60.
Os trabalhos mais celebrados do velhinho foram lançados entre 1969 e 1975 – aquele período de ouro da historia da música pop em que quase tudo foi inventado.
“Everybody Knows This Is Nowhere”, “After the Gold Rush”, “Harvest”, “On the Beach” e “zuma” são todos pequenos pilares da historia da música, mas não é só isso, também tem umas músicas bem bonitinhas – se você ignorar as letras tristes, é claro.
Meu preferido desta fase é “After the Gold Rush”, é dele a música que mais gosto do homem: “only love can break your heart” é de partir e juntar corações.
“only love can break” inspirou uma música gravada pela banda Hotel Avenida (RIP) em
“Só o amor pode partir seus joelhos” – era uma piada sobre um senhor gigantesco (devia pesar uns 150 quilos e medir 2 metros, juro!) que subia a rua onde eu morava segurando um bastão de Baseball e vestindo uma camiseta escrita “amor”.
“Unplugged” foi gravado pela MTV em 1993 e traz a base de um disco bem legal que Neil Young havia gravado em 1992, “Harvest Moon” - uma espécie de continuação do “Harvest” de 1972. No disco acústico, Young fez as pazes com seu passado, tocando varias canções que não tocava à um bom tempo, como “Long May You Run” da banda que montou com Stephen Stills, a Stills-Young Band.
Falando sobre fazer as pazes com o passado, em 2009, uma moça me procurou na internet dizendo ser minha meio-irmã, outra filha perdida do meu pai de sangue – definitivamente o cara era profissional na arte de perder filhos por ai. Ela estava passando por aquele momento em que as pessoas buscam a compreensão das cagadas da vida para fazer as pazes com o passado, veio atrás de seu pai de sangue e acabou sabendo que tinha um meio-irmão. Então, neste capitulo, você ficou sabendo que existe uma tia sua morando no Rio Grande do Sul.