Por motivos que a humanidade desconhece, “caras e bocas” é visto como um disco menor da carreira de Gal Costa, a fase pós “índia” da Gal é sempre associadas às novelas da Rede Globo e preenche as bacias dos discos que ninguém quer. Calhou do disco “soul” da Gal acabar entrando no cesto por estar no meio de discos medianos da cantora, acontece. E não é apenas culpa do universo, a própria Cantora parece despreza-lo, resultado: Em 2017 o álbum completou 40 anos sem festa, bolo e balão, não ganhou um brigadeiro se quer da mídia.
Quando conheci “Caras e bocas” o mundo estava na onda do hype do tropicalismo que agarrou o mundo no fim dos anos 90 e não largou mais. De repente os discos que Caetano, Gilberto Gil, Gal e Mutantes gravaram entre 1967 e 1973 estavam viajando o mundo através das malas dos artistas que vinham tocar no Brasil. Tudo foi relançado, surgiram discos perdidos, raridades, hype atrás de hype, mas eu estava em outra, eu só ouvia meus contemporâneos. Pra mim essas pessoas estavam mais ligadas as imitações do Didi no programa dos trapalhões que ia ao ar nas noites de domingo. E desta onda, Gal sempre foi minha favorita, a mais ousada, mesmo no período que ela fazia basicamente musicas para novelas (anos 80) é possível encontrar grandes momentos como “vaca profana”. Você precisa saber que a Gal fez versões definitivas para varias canções originalmente masculinas ao transporta-las para o universo feminino. Não sei dizer se ela fazia isso inconscientemente, mas ela parecia dar o troco no machismo das letras e dos cantores, ex: Gal transformou a grosseira “sua estupidez” de Roberto e Erasmo e a transformou quase em uma gentileza, um conselho para outra mulher.
A maré alta do tropicalismo ignorou completamente coisas como “Refavela” do Gil e “caras e bocas”, dois discos que vinham encharcados de musica negra vindo de diversos lugares no mundo. Pra mim “caras e bocas” é simplesmente o melhor álbum de soul lançado por uma cantora brasileira desde sempre, não existirá outro disco como esse no Brasil, aceite.
Assim, sem pensar muito o álbum tem 3 clássicos: Caras e Bocas, Me recuso, Tigresa e uma pedra preciosa: ali no meio do lado B está a 2ª melhor versão de todos os tempos para “it’s all over now babe blue” do Bob Dylan (a primeira é do Them & Van Morrison), vertida para “negro amor” por Caetano e Pericles Cavalcanti. No fim dos anos 90 os Engenheiros do Hawaii regravaram e foi ai que cai nessa música e, consequência, neste disco.
O grande trator de “caras e bocas” é “Tigresa”, canção escrita por um homem (Caetano) e que concentra todo o discurso feminino de uma geração. Tigresa parece ter sido feita ontem e fica maior e maior e maior a cada dia que passa, acompanhando a velocidade que as mulheres tomam conta do mundo, é quase uma visão do futuro. E olha esses metais!
Ela me conta que era atriz e trabalhou no Hair
Com alguns homens foi feliz com outros foi mulher
Que tem muito ódio no coração, que tem dado muito amor
E espalhado muito prazer e muita dor
Mas ela ao mesmo tempo diz que tudo vai mudar
Porque ela vai ser o que quis inventando um lugar
Onde a gente e a natureza feliz, vivam sempre em comunhão
E a tigresa possa mais do que o leão
O gênero musical que mais gosto deste mundo é o soul, precisamente o soul e seus derivados escritos entre 1960 e 1975. Entre esses 15 anos surgiram os maiores cantores e foram compostas as maiores canções da história. Como sempre, enquanto a musica branca está nas vitrines, a música negra corre por fora reinventando a roda da música década apos década, mas não vou escrever sobre a historia da música pop, existem livros pra isso. Quero contar como comecei gostar de soul: tudo começou com “um lugar chamado notting Hill”. Eu morava em coronel vivida e esse filme estava na moda, Julia Roberts e Hugh Grant viviam um romance impossível e a insuportável “she” com Elvis Costelo e Burt Bacharach tocava em todas as rádios. Tentei evitar esse filme o quanto pude, mas não deu. Assisti num almoço na casa de uma tia e não consegui esquecer a música que tocava enquanto rolava uma cena melancólica do filme. A música era incrível, até hoje me arrepio quando ouço a primeira troca de acordes no organ choroso, aquilo, foi aquele segundo ali em que “How Can you mend a broken Heart” e Al Green mudaram minha vida. Eu comprei a trilha por causa da música (que também me apresentou Bill Withers) e persegui “let’s stay together” por anos, eu ouvia simply red no rádio e dizia para os outros “vocês precisam ouvir a original!” que costumava tocar no canal de Fms da parabólica, eu era como um doutor do estilo que só conhecia duas musicas, acontece.
Duas décadas depois sou completamente obcecado pelos discos que Al Green lançou pelo Hi records. Ele abriu meus olhos para o gênero que eu não entendia muito bem, eu havia assistido commitments, filme sobre irlandeses que amavam soul music, mas não conhecia nenhuma das originais tocadas pela banda do filme e não havia onde encontra-las no interior do Paraná em 1999, nessa época a trilha dos filmes mudavam vidas. Foi lá que eu ouvi pela primeira vez “dark end of the street”, facilmente uma das 100 músicas que eu mais ouvi na vida na voz do homem de pouca sorte, James Carr. Na trilha de comittments também havia a música que Duckie dublava na loja de discos em “A garota de rosa choque”: “Try a little tenderness” do Otis Redding, você precisava procurar o nome do cantor nos creditos pois não estava no cd da trilha do filme, um crime.
Outro momento divisor de águas foi quando, já incluso no reino das coisaradas gratuitas da internet, ouvi “don’t give up on me” de Solomon Burke pela primeira vez. Solomon Burke Havia sido resgatado pelo hype do livro “alta fidelidade” de Nicky Hornby, onde “got to get you of my mind” é a canção principal da historia (infelizmente o filme baseado no livro estragou esse momento ao enfiar a famigerada e xaropissima “let’s get on” do Marvin Gaye) e o retorno triunfante completou-se com o Grammy que “don’t give up on me” levou em 2002. Um monte de gente importante havia se juntado para tirar o homem do ostracismo, “none of us are free” nascia como um clássico em pleno ano 2000 e eu suspirava quando o cantor, dono de funerárias e já com carteirinha de idoso, pedia pra você, por favor, não desistir dele. Então o resto é, como dizem, historia: Fui procurar por mais canções e cai numa coletânea de 14 discos (!) com singles de R&B lançados pela gravadora Atlantic entre 1947 e 1974. Está tudo ali, é como ouvir a bíblia, o antigo e novo testamento da música pop sendo escrito e evoluindo a partir da interpretação de cada um.
Sim, preciso dizer falar sobre a versão “Love the one your with” da Aretha. A canção do 1º álbum de Stephen Stills já era bonita, mas Aretha a transformou num monumento ao registrá-la no álbum ao vivo de 1971. Existe uma parte, precisamente no 3º minuto desta canção que a mulher termina de cantar o refrão e solta um “ahhh” tão feliz e sincero e se você fechar os olhos conseguirá vê-la sorrindo na sua frente, é um momento único entre ela e você.
Escrevi este texto para o Mondobacana há milhões de anos (2007, 2008, por ai) e ressuscitei para o aniversário de 20 anos de morte de Jeff Buckley. Nessa época escrevia compulsivamente e passava horas ouvindo esse homem cantar. Alias, tinha 5Gb de canções dele gravadas em seus shows que nunca foram lançadas e o texto abaixo lista algumas delas. Prometo um capitulo especial para esse rapaz que foi um das 10 pessoas que mudaram minha vida, para o bem ou para o mal.
10 canções sobre Jeff Buckley
Em maio de 2007, completou-se uma década que Jeff Buckley saía para nadar no Rio Mississipi – quando começaria a gravar o segundo álbum oficial da carreira, que se chamaria My Sweetheart The Drunk - e nunca mais voltaria. Desde então, o culto só tem crescido alimentado por discos póstumos. Há poucas semanas foi lançada (lá fora, apenas)So Real: Songs From Jeff Buckley, uma compilação com o que de melhor ele gravou enquanto vivia. A lista abaixo não é das melhores canções ou das mais importantes. Essas dez canções sequer são de autoria dele, mas dizem muito sobre quem era o cantor Jeff Buckley, dono de uma pequena obra, mas na qual cada canção guarda uma historia e fala por si.
10) “I Never Asked To Be Your Mountain”
Jeff sempre evitou falar de Tim Buckley com intimidade, raramente se referia a ele como pai. Chegou a dizer em uma entrevista que não conseguia tecer opinião sobre alguém que conheceu em uma semana na vida. Como reflexo do distanciamento, Jeff nunca gravou nada de seu pai oficialmente. No inicio da carreira musical quando ainda era o guitarrista de uma banda obscura, evitava cantar para fugir das comparações obvias. Foi assim até aceitar interpretar essa canção em um show-tributo a Tim. Foi a partir dessa canção que jeff começou a pensar em se lançar como cantor. Vale lembrar que Tim Buckley morreu com 29 anos de idade, de overdose; Jeff aos 30, afogado [sem qualquer vestígio de drogas ou outras substâncias na corrente sanguínea, embora no dia anterior fora diagnosticado com transtorno bipolar de humor].
9) "Je N'en Connais Pas Le Fin”
É difícil imaginar disco mais perdido no mundo do que Live At Sin-é, de 1993. Um pequeno EP de quatro faixas, duas delas covers, foi lançado no final do ano, logo após Jeff ser contratado pela grande gravadora Columbia (hoje Sony BMG). Jeff sempre teve mais afinidade com divas do jazz do que com astros do rock. Em 1994, com Kurt Cobain se matando e o tacho do grunge sendo raspado, Jeff Buckley gravava Grace (produzido por Andy Wallace, o cara que mixou Nevermind), seu único álbum de carreira. "Je N'en Connais Pas Le Fin” é uma daquelas canções que Edith Piaf eternizou.
8) “Beneath The Southern Cross”
Patti Smith estava há mais de 15 anos sem gravar. Praticamente desde que encontrou o amor nos braços de Fred “Sonic” Smith, lendário guitarrista, do MC5 não precisou de mais nada para expressar seu amor. Mas em 1994, com a morte de Fred (e logo após de um irmão dela), no ano seguinte Patti voltava a gravar. O álbum Gone Again foi lançado em 1996 e traz Jeff Buckley fazendo vozes, tocando guitarras e instrumentos indianos. Jeff viria morrer no ano seguinte, 1997.
7) “Song To The Siren”
Uma canção obscura de Tim Buckley. Uma das mais belas gravações do Cocteau Twins e do This Mortal Coil. É uma das poucas canções de Tim que Jeff tocou pelos pubs, talvez mais pelo relacionamento que tinha com Liz Fraser, ex-vocalista do Cocteau, do que pela ligação paterna. Além de “Song To The Siren” e “Once I Was”, covers de “Sefronia” e “Sing A Song For You” estão entre as canções de Tim que é possível encontrar pela internet.
6) “All Flowers In Time Bend Towards The Sun”
Os relacionamentos de Jeff Buckley sempre foram especulados pelos fãs após sua morte. De concreto mesmo, apenas Rebecca Moore e Liz Fraser. Com Liz ele gravou “All Flowers...”, que até hoje não sei se foi lançado em algum disco da cantora. Ele fez outros também covers do Cocteau Twins, mas eles nunca foram lançados em discos oficiais.
5. “Sweet Thing”
Van Morrison poderia ter pedido a guarda de Jeff Buckley quando este ainda era uma criança. Jeff nunca escondeu o fato de que se sentia particularmente ligado mais à carreira de Morrison que a do pai. As versões de “Sweet Thing” e “The Way Young Lovers Do” que estão em Live At Sin-é comprovam que Jeff se sentia a vontade nas canções do velho irlandês ranzinza.
4) “Be Your Husband”
Se Van Morrison seria o pai, Nina Simone pode muito bem ser a mãe. “Lilac Wine”, maravilhosa canção de Grace era do repertorio de Simone. Nina, Dylan, Morrison, Piaf e Nusrat Fateh Ali Khan (a quem Jeff se refere como “meu Elvis” em Live At Sin-é) são os artistas mais influentes na carreira do cantor, que também re-gravou, entre outros, Billie Holliday e Miles Davis. Há uma versão obscura de “Be Your Husband” rolando pela internet que nunca foi lançada, basicamente levada na marcação de compasso e de gaita de boca.
3) “I Shall Be Released”
Não apenas esta, mas também “Farewell Angelina”, “Lost Highway”, “Just Like A Woman”, “Mama You've Been On My Mind”, “If You See Her Say Hello”… A lista de covers de Bob Dylan é enorme. A influencia de Robert Allen Zimmermann nas letras de Jeff é tanta que Grace foi encarado como um livro de poesias musicadas por alguns críticos. Você pode achar na internet uma versão de “I Shall Be Released” gravada de um programa de radio, onde músicos no estúdio da estação tocam o clássico de Dylan e The Band enquanto Jeff canta (e toca gaita) pelo telefone. Esta versão nunca foi oficialmente lançada. Uma pena.
2) “Hallelujah”
No começo da carreira, Leornard Cohen competia diretamente com Bob Dylan pelo posto de bardo judeu da América. “Hallelujah” está emGrace e é possivelmente a canção mais conhecida na voz de Jeff Buckley. Também já esteve em trilhas de vários filmes (toca inteira em uma cena de Edukators). Alem das gravações de Jeff e de Cohen, há também o registro mais atual de Rufus Wainwright (incluída trilha sonora de Shrek 2) e a versão da qual todo mundo roubou o instrumental, de John Cale. Jeff admitiu que pegou “emprestado” de Cale.
1) “I Know It’s Over”
Jeff Buckley personifica o homem cantado por Morrissey nesta que é uma das belas e tristes canções dos Smiths. O relacionamento de altos e baixos com a mãe Mary Guibert, a beleza do cantor (que em 1995 ocupou o 12° lugar na lista das 50 pessoas mais bonitas organizada pela revista People) e a solidão refletida nas suas canções reforçam as frases de uma suposta conversa entre mãe e filho – como o verso “Se você é tão bonito, porque está sozinho está noite?”. O cover de “I Know It’s Over foi lançado somente neste ano, em So Real: Songs From Jeff Buckley, canção que fecha o disco que relembra os dez anos de sua morte. Triste constatação sem dramas maiores. Apenas “eu sei, é o fim”.
P.S.: O outro lado de Jeff Buckley
Quem ouve as canções de Jeff Buckley pode acabar acreditando que o bardo era uma pessoa solitária e triste. Basta uma olhada nos vídeos, na divertida apresentação de Live At Sin-é ou mesmo nos discos piratas ao vivo que circulam pela internet, contudo, para constatar que existiam dois Jeff Buckleys. Existia o poeta que escrevia canções como “Lover, You Should've Come Over” e “The Sky Is A Landfill”. Mas havia também o artista espirituoso e divertido nos palcos, que conseguia cantar “Last Goodbye” e “Ace Of Spades” (clássico do Motorhead) em um mesmo show. Jeff ainda fazia piadas sobre musica e cultura pop, imitava cantores e cantoras de forma bizarra e fazia todo mundo rir junto, para logo depois tocar “Grace” canção que fala sobre amor, morte e vida eterna.
Em 1977, todas as gravadoras estavam procurando duas coisas:
o próximo Sex Pistols;
o próximo Bruce Springsteen.
E ai calhou de alguém procurar as duas coisas ao mesmo tempo e assim acabaram surgindo gente como The Clash, o Elvis Costello e aquela que é uma das minhas bandas favoritas do punk, a Tom Robinson Band.
Tom Robinson foi uma aposta da EMI. A gravadora acreditou que Tom Poderia ser a resposta britânica ao papel que Bruce Springsteen estava exercendo com o jovem americano, falando da falta de perspectiva, falta de emprego, de sonhos que não se realizam, essas coisas. Mas Robinson era um pouquinho menos vendável: Robinson era gay e engajado com as causas LGBT, organizava protestos anti-racismo e anti-nazis - isso enquanto o punk inglês curtia posar como umas suásticas. É dele a canção “glad to be gay”, escrito para a Parada do Orgulho Gay. A música chegou a ser lançada no Brasil na coletânea “rising free” que é moleza achar nos sebos por ai simplesmente porque ninguém, absolutamente ninguém conhece.
A TRB conseguiu enfiar uns 4 hits no verão do punk 77 e o 1º disco “Power in the darkness” chegou ao top 10 na rádio da rua deles, mas também foi só.
Conheci TRB numa coletânea de bandas “menores” da primeira turma do punk inglês, aquelas que fizeram muito sucesso por um single, um disco e sumiram, gente como X-Ray Spex e a Generation X do Billy Idol. O single em questão era o rockão de bar de caminhoneiro “2-4-6-8 motorway” (está na coletânea rising free). Pra mim a TRB ficava bem no centro de um gráfico entre o folk de protesto (eles regravaram “i shall be release” do Dylan e the Band), o rock de boteco (repara no organ de churrascaria em quase todas as musicas), o pop e o punk inglês.
Musicalmente, TRB antecipou caras como Billy Bragg, Replacements, Against me e os mais recentes Gaslight Anthem e Frank Turner. O primeiro álbum continua extremamente atual (enquanto discos bem mais famosos desapareceram ou viraram pastiches) e muitas canções voltam a tocar toda vez que o mundo perde a direção. Achei o disco numa loja de um inglês que ficou com os olhinhos brilhando quando comecei a falar sobre os álbuns da TRB que ele tinha na loja, “sempre estiveram aqui, ninguém conhece, ninguém se importa, nem os punks do outro lado da galeria conhecem” o que de certa forma melhora o álbum, né? Não é um clichê punk.
O Álbum original vinha com um stencil do nome da banda com aquele punho emblemático. Ainda sonho era colocar aquilo numa jaqueta. Infelizmente o 2º disco, “TRB Two” foi extremamente polido o que deve ter ajudado a banda a naufragar. Tom Robinson se tornou radialista da BBC, seguiu gravando umas coisas (todas horríveis), sendo ativista e de vez em quando a TRB se reúne pra tocar.
Uma coisa bizarra: algumas das piores canções que Elton John gravou nos anos 80 foram escritas por Tom Robinson após o fim da banda, acontece.
Texto originalmente escrito em 2013 para o Scream & Yell
Nunca fui um grande fã de Billy Bragg, para ser exato tenho apenas uma coletânea dupla que cobre toda sua carreira “must i paint you picture” que comprei num saldão - e desta eu só gosto muito da canção “the price i pay”. Mesmo assim, sempre me identifiquei com a pessoa Billy Bragg, um ingênuo lutando pra não ser ingênuo. Além disso, via na carreira de Billy o que as pessoas viam nas minhas músicas: a eterna ausência de uma banda por de trás de um cantor. O uso de músicos de apoio era muito tímido, mesmo quando se tratava de um guitarrista do Smiths (Johnny Marr) ou dos caras do REM (Peter Buck e Michael Stipe), eles não eram nada perto da voz áspera do ativista cantor. Isso foi regra até o dia em que Billy chamou os caras do Wilco para gravar o 1º disco da série com canções perdidas de Woody Guthrie, “Mermaid Avenue” - o que deu inicio à uma seqüência de trabalhos fundamentais que eu encaro como “a vida do homem comum, segundo Billy Bragg".
Tooth & Nail foi lançado no macio e no gostoso dia da loja de discos e passou despercebido no meio de centenas de lançamentos românticos que comemoravam a data. Só fui descobrir o lançamento do álbum por meios obscuros, pelo fato de acompanhar a carreira de Joe Henry, cantor, compositor e produtor musical que carrega alguns grammys nas costas e produziu o disco que mais amo dos anos 2000: “Don’t Give up on me” – disco que resgatou a carreira de Solomon Burke. A sonoridade dos trabalhos produzidos por Henry nos anos 2000 se tornou uma obsessão a ser seguida e então volta e meia dou uma olhada na wikipédia do homem - o que me levou ao “tooth & nail” de Billy Bragg. Num disco gravado ao vivo que só levou cinco dias para ser feito e conta com a participação de músicos que acompanham gente badalada como Bon Iver (Greg Leisz) e Lana Del Rey (Patrick Warren), Joe Henry amaciou as canções de Bragg, deixando-as na linha entre o folk e o blues. Vale dizer que este disco tem a minha canção favorita de 2013: “Handyman Blues” – uma canção com Slide choroso sobre pais de família que não sabem trocar lampadas.
Descobri Tooth & Nail mais ou menos no momento eu precisava urgentemente aprender a ser pai, responsável e lidar com a vontade de continuar fazendo música pop tosca entre os horários em que um bebê dorme. É claro, não estamos no reino unido, onde qualquer um pode sobreviver de música, mas caras comuns são caras comuns em qualquer lugar do mundo e entre os caras comuns com guitarras, Billy Bragg é o maior deles. Outros artistas envelheceram e passaram a ver com dureza o relógio do tempo ou vender outras coisas além de música - Bruce Springsteen, por exemplo, passou a vender entretenimento puro e simples em seus shows. Billy Bragg chegou aos 55 anos, lançando um dos melhores álbuns de sua carreira vendendo sua verdade - mesmo que esta verdade seja o tempo que torna todos os homens frágeis e contemplativos para com o passado.
Os Verlaines é o típico caso de banda que nunca chegaria até a nossa casa não fosse a invenção da internet. Soube da existência da banda através de um disco novo que eles lançaram em 2012 e que alguns artistas americanos recomendavam como um retorno triunfal de uma banda lendária. O discurso era aquele “uma banda obscura que vendeu 10 discos para 10 caras que montaram 10 bandas, etc”. O tal disco, “Untimely Meditations”, não era lá essas coisas, mas com uma pequena busca no youtube cheguei à 1987 e ao disco “Juvenilia” – uma coletânea de singles e possíveis hits - caso as pessoas soubessem que um dia eles existiram.
Mesmo no “auge” da banda, lá nos anos 80, eles nunca foram grande coisa, nunca passaram de um time da 3ª ou 4ª divisão do campeonato europeu de bandas de rock cantando em inglês. Neste período dominado por U2, Cure e Smiths, os caras vinham da Nova Zelândia (um país com a mesma quantidade de moradores que a cidade onde a a sua avó mora), gravavam por um selo minusculo (hoje cultuado, o Flying Nun Records) e faziam um tipo de musica que só seria moda em 1991: o indie rock.
“Juvenilia” foi relançado em cd em 1993 com 15 músicas que incluía compactos e metade do álbum seria hit se composto pelos queridões do Pavement ou do Lemonheads, mas não em 1987. Em 1987 eles eram crus demais para um período cheio de timbres sintéticos e gente com síndrome de jesus. E eles tinham tudo pra ter feito muito sucesso: era um trio, o vocalista era metade galã, metade desengonçado, fizeram vídeos legais e uma menina tocando baixo.
Enfim, era a formula perfeita, mas infelizmente sofreram da síndrome da banda pequena com grandes canções e nenhum senso de direção musical, ex: Doomsday, uma das melhores canções da banda saiu em um single em 1986 pouco antes do lançamento do “Juvenilia” e quando o album saiu Doomsday não estava lá, acontece.
Existiu um tempo em que a humanidade movia-se pra frente através da escrita. Escrever (e ler) era tudo o que podia ser feito pra diminuir a sensação de tempo perdido, de estar só no mundo. Foi em algum livro que eu li que a única coisa que tornava as pessoas especiais era a capacidade (ou possibilidade) de se colocar no lugar dos outros e te transportar para outros lugares através das experiência delas. Depois vieram os filmes, os discos, tudo na cultura pop era basicamente feito sobre a dor e a delicia de ceder seu lugar ao outro e a comunhão de experimentar algo pela primeira vez. E desde então, venho repetindo esse processo de descoberta todo santo dia, todo santo mês, todo ano. Todo dia eu acordo e tento me apaixonar loucamente por algo que me faça me sentir com 15 anos novamente e isso nos leva à Angel Olsen.
Daqui do presente de onde escrevo não imagino o que o futuro reservou para Angel Olsen, não sei se nossos discos dela foram passados para outras pessoas, se estão riscados ou se simplesmente mudamos de ideia sobre o que amamos. Você só precisa saber que minha relação musical com ela começou um pouquinho depois da minha relação com você, alias, nós crescemos juntos. Sei o exato momento em que descobri Angel Olsen, foi no início de 2014, pouco antes do seu aniversário de 1 ano, no segundo mês de sobrevivência à nova cidade, desempregado, angustiado. Angel Olsen havia lançado um single e estava perto de lançar “Burn Your Fire For No Witness”. “Hi-five” era cantada por uma garota meio desengonçada segurando uma guitarra feia com uma voz não muito usual na musica alternativa, uma voz de uma cantora country da década de 50, uma franja estranha muito acima dos olhos e um espirito de época que lembrava uma personagem saída de uma cena do filme “As horas”.
Foi instantâneo, fui transportado novamente aos meus 15 anos e, assim como a idade, a aquela sensação enigmática de quem está olhando, mas não está pegando todas as informações do que está na sua frente. O que eu via era apenas uma casquinha de algo bem mais profundo, não era algo que estava nascendo, era algo seguindo o curso da vida, era como presenciar o exato momento em que uma coisa começa se transformar. Normalmente, a ascensão de Angel Olsen seria como um evento natural percebido tarde demais porque estávamos ocupados olhando para o lado errado. Talvez fosse apenas uma garota bonita, cantando do jeito certo a canção certa num momento certo que nunca mais se repetirá, costuma acontecer. Mas algo me fez parar, sentar, esperar.
“Burn Your Fire For No Witness” tornou-se quase que automaticamente um dos meus discos favoritos de 2014, o ano que sobrevivemos por um triz. 2014 foi o ano dos grandes álbuns femininos, uma paixão disputada acirradamente com “are we there” da Sharon Van Etten, outra cantora magnífica da mesma geração e com quem dividimos o mesmo amor por Bruce Springsteen. Você tinha 2 anos e provavelmente não se lembra de termos dançado Hi-five vendo vídeos da cantora na TV, mas isso aconteceu diversas vezes enquanto procurávamos vídeos ruins de shows em busca de músicas novas. E naquela vez que rolei por cima de um taxi indo para o trabalho (dia de um show do BRMC) era “Burn Your Fire” que estava tocando no repeat. Lembro-me de cair no chão ao som de “Windows”. Eu simplesmente não conseguia desligar a música e desde então toda vez que Angel canta “so wrong with the light?” sou transportado para um lugar quentinho enquanto algo me diz que ficar tudo bem.
E então Angel Olsen lançou “my woman” e eu me senti 100% recompensado por ter apostado todas as minhas fichas, desde que inventaram a internet esse momento parece cada vez mais raro. Acho que a magica aconteceu a partir do minuto 4'40 de "sister", quando Angel diz que passou a vida desejando mudar e você percebe que ela quis dizer algo que você também sente, estamos juntos. A voz da garota vai sendo envolvida em uma nuvem de eco e dobrando como se ela fosse um fantasma, uma Stevie Nicks ainda no auge. A música vai crescendo guitarras vão surgindo e é impossível não abrir um sorriso quando você percebe que a garota conseguiu o que queria, te levando a ter pequenas epifanias e dançar como dançam as garotinha de 3 anos, dando socos no ar no meio da estação do metrô enquanto um rolo de bateria se encaixa com um belo solo de guitarra. Ali no meio da multidão, eu fecho os olhos, eu percebo as coisas mudarem de cor, eu desejo ser menos homem e mais mulher, eu desejo dividir aquela sensação com todo mundo, mesmo sabendo que tudo ocorre dentro de mim.
Violent Femmes é uma banda muito difícil – a começar pelo nome nada gentil, as letras mal educadas e a voz de taquara rachada do vocalista Gordon Gano. Eles surgiram na 2ª ou 3ª leva de punks fabricados nos EUA (na mesma fornada que deu ao mundo o Replacements e o REM no inicio dos anos 80) e tocavam uma coisa que os estudiosos não conseguiram definir se era “country punk” ou “folk punk” – obviamente era tudo a mesma coisa na base do violão.
Não sou o maior fã da banda, na verdade acho que eles só acertaram a mão uma vez e logo no primeiro disco da banda – “violent femmes” de 1982. O disco tem um dos mais divertidos “lado A” que a música pop teve a manha de forjar e todos os “grandes hits” da banda estão na seqüência perfeita da primeira parte do disco. “Blister in the Sun”, “Kiss Off”, “Please Do Not Go”, “Add It Up” colam perfeitamente uma a outra de modo que o disco deveria vir com o aviso de que nunca deveriam ser ouvidas separadamente, é como uma suite progressiva feita por punks desengonçados.
Estava tudo caminhando para ser o único grande disco da banda, mas quando você tinha uns 3 anos o Violent Femmes voltou a gravar um novo álbum após 16 anos de muita pancadaria entre os integrantes. “we can do anything” resgatou um espirito de época que eles haviam perdido lá nos anos 80 quando alguém achou que era uma boa tocar instrumentos elétricos. Acabou que esse disco de 2016 é o melhor trabalho deles desde o 1º disco, acontece.
Os anos 2000, os anos zero-zero foram estranhos no sentido quase tangível do estranhamento. Quando a internet surgiu ninguém tinha ideia que ela comeria o mundo real e começaria logo pelos materiais de consumo cultural – como a música e os filmes. Num primeiro momento a internet facilitou a vida das pessoas, dando acesso à coisas que nem sabíamos que existia e aproximando pessoas que estavam longe. A coisa começou ficar pesada na 5ª ou 6ª geração de usuários on-line, foram esses que pensaram “mas porque eu vou pagar pelas coisas que eu consigo de graça?” e ai, tcharam: aqui estamos você, eu falando sobre discos expostos numa parede tipo um troféu de sobrevivência ao boom da internet. Preciso te dizer que a culpa nunca foi da internet, mas sim das pessoas. É bem típico da sociedade pegar qualquer coisa legal e passar um verniz de chorume.
Como uma boa parte da minha vida se passou nos anos zero-zero, gastei um bom tempo e um montão de dinheiro perseguindo a cultura pop da minha infância e da adolescência na qual eu não tinha acesso. Discos, livros, filmes, sua mãe, suas roupas, quase tudo está ligado ao uma época longínqua em que a música era gravada em fitas cassetes e eu sonhava com personagens da TV.
Existe um provérbio chinês que diz “a cada década, a civilização nega os últimos 10 anos e abraça os últimos 20”, exemplo: enquanto você era um bebezinho chorão no colo da sua mãe, o Grunge de 1990-1994 retornava dos mortos para assombrar a cultura pop e sua mãe usou uma coleirinha igual a da Winona Ryder. Minha teoria é que a década anterior-anterior volta porque as pessoas que eram adolescentes da época estão na crista da onda do poder aquisitivo, trabalhando e comprando coisas para completar espaços vazios que são incapazes de ser preenchido apenas com auto estima. Enfim, acho que um dia você irá entender.
BRMC
Nos anos 2000 foi a vez dos anos oitenta vir puxar nossos pés. Com raríssimas exceções os anos 00 foram povoados por novos artistas determinados à emular os anos 80 como um todo – o que inclui a parte ruim como as ombreiras. A impressão que eu tive vivendo nestes anos é que a música que durou foi aquela cujas referencias foram além do brechó dos anos 80, como o Black Rebel Motorcycle Club, Arcade Fire e o The Walkmen. foram as únicas bandas surgidas na virada do milênio que mantiveram uma temática honesta, por mais que o AF baleie no som de FM dos anos 80 (que vai de Talking Heads à Bruce Springsteen) e o vocalista do The Walkmen não arrede o pé do sonho de ser um Harry Nilsson pós punk.
Pra muita gente o BRMC acabará sendo citado como citado como apêndice do Jesus and Mary Chain, mas a banda é um dos poucos grupos que conseguiram sobreviver à década e manter alguma integridade, lançando discos relevantes na década seguinte.
Enfim, estou escrevendo porque precisava citar “Howl”, de 2005, do Black Rebel Motorcycle Club em algum momento. É o disco que mais gosto da banda que mais gosto entre aquelas que surgiram entre os formandos da turma da virada do milênio. Ao longo dos anos esse disco vem se tornando um amigão a ponto de achar que é um dos 5 melhores discos dos anos 2000.
Em “Howl”, o BRMC cruzou o folk e o gospel (e Bob Dylan) com as guitarras em tom bemol (que todo mundo falava que eram roubadas do Jesus and mary chain) e fez um disco denso, pesado e acústico. A cereja do disco é uma canção com arranjo ousado chamada “promisse” que é quase toda tocada em piano, baixo, bateria e trombone. “Howl” não é um disco fácil, é totalmente escuro como a capa, esfumaçado e todo feito em referência à música feita antes da invenção da indústria musical - bem antes dos Beatles surgirem e estragarem tudo. Alias, quem era a gangue rival de Marlon Brando e sua Black rebel Motorcycle club (de onde a banda roubou o nome) no clássico filme “O selvagem”, de 1953? Os Beetles.
PS: O BRMC tocou no Brasil em 2016. Eu havia ganhado um ingresso para ve-los e estava eufórico. Mas na manhã do dia do show estava indo para o trabalho e o que acontece? um táxi me atropela e eu não consigo ver o show deles, acontece.
Já que - obrigatoriamente - preciso citar algum disco dos Beatles, que seja Yellow Submarine – o disco da trilha sonora do desenho dos 4 fabulosos. Não é meu disco favorito do grupo, esse papel é desempenhado por Rubber Soul - pau a pau com Help.
Atualmente Yellow Submarine não está na nossa estante. Assim como todos os outros discos que tenho dos Beatles, ele mora na casa de algum amigo e nunca quis pega-lo de volta. Sempre achei que o trabalho deles foi feito para ser passado adiante de mão em mão, mas agora que sou pai, acho importante resgatar os álbuns perdidos por ai. Beatles é a banda perfeita para se ouvir quando se é criança e está descobrindo o mundo - principalmente a fase ie-ie-ie, que se estendeu até 1966. É uma aula de como fazer algo empolgante e capaz de mudar outras vidas. Passei anos, praticamente um décimo de século tentando descobrir quem tocava a música que Ferris Bueller cantava em “curtindo a vida adoidado”. não havia internet, não havia livros de cultura pop, todo conhecimento era passado através de métodos arcaicos (tv, rádio, parentes e amigos ricos). A tal música era lá do primeiro disco dos Beatles “please please me”, “Twist and Shout” está para a minha infância assim como Jesus está para a Biblia, simples assim.
Depois que o rock virou coisa séria os Beatles perderam um pouco da graça e coube aos Stones (e o Faces) se encarregar da diversão. Claro, todos os livros da historia humana dirão o contrario: que os Beatles foram gênios do inicio ao fim (verdade); que não tiveram fase ruim (verdade) e que acabaram antes de cometerem bobagens (obladi-oblada não conta). Mas a unica verdade que vale é aquela que diz que a gente passa tanto tempo ouvindo Beatles quando se é mais novo e quando cresce quer passar um tempo bem longe deles. Bem, você verá que é impossível se manter longe da influência dos caras.
Existia um professor da faculdade que costumava incitar a discórdia e a violência verbal de seus alunos dizendo que Beatles era a banda de quem não sacava nada de música (o mesmo dizem do Flamengo quando o assunto é futebol) e que bom mesmo era os Stones. Grandes discussões tão acaloradas quanto adolescentes foram travadas até que o cansaço nos fizesse concluir que não chegaríamos à lugar algum. Porem, hoje concordo totalmente com o professor.
Stones > Beatles.
Voltando ao Yellow Submarine, a trilha sonora do desenho dos Beatles era quase uma coletânea com músicas retiradas de grandes discos da banda, Rubber Soul (Nowhere Man é minha favorita até hoje), Revolver e Sgt. Peppers - aquele que dizem ser o melhor disco da historia humana. A historia também nos diz que este é o pior trabalho dos Beatles (o filme de 1968 também não é lá grande coisa), mas a edição remasterizada que excluía os diálogos chatos do filme (odeio trilhas com faixas de diálogos) e incluía canções que apareciam no filme é um brinco.
Comprei a nova edição de Yellow Submarine em uma viagem que eu e sua avó fizemos para Curitiba - na época estava rolando um festival de música organizado pela Rede Globo e eu tinha me metido a participar. O festival não deu em nada, mas rendeu o Yellow Submarine, uma camiseta do Pearl Jam do Túnel do Rock e um passeio traumatizante pela “Varca – tamanhos especiais”. Varca é uma loja que existe (ou existiu) em Curitiba, veste pessoas com “sobre-peso” e seu pai era um deles. Com 17 anos as únicas roupas que me serviam eram calças de Skatistas e roupas com elástico. Pra desviar o foco da obesidade havia umas três cores diferentes de tinta no cabelo. A adolescência é um período difícil, você deve/vai saber. A loja para “gente grande” me traumatizou de um jeito que logo após voltar pra Cidadezinha, tratei de fazer tratamento pra emagrecer.
Enfim, em todo este período (que já foi citado no disco do Radiohead e no disco Mutantes) os Beatles foram parceirões. Ouço os discos destes caras e me sinto em um filme destes que registram o espírito de uma época - Quase famosos, As Vantagens de ser invisível, Singles, Alta Fidelidade. Eles me ajudaram a superar a obesidade, a adolescência, a dor de cotovelo, justificar algumas bobagens feitas e o tempo perdido tentando ser uma estrela da música pop do bairro de uma cidade com 18 mil habitantes.
Não preciso escrever sobre quem foram os Beatles ou o que John, Paul, George e Scott Pippen* fizeram pela música. Basicamente eles inventaram a cultura ocidental e se você vive em uma casa e não em uma arvore (ou em uma caverna) é por causa deles. Talvez você viva bastante para ver o futuro e ele falará dos Beatles do mesmo modo que a civilização atual fala do Egito antigo, Roma, Jesus e todo lero-lero Cristão e não estarão exagerando por completo. Acontece que estes caras são atemporais e viverão para sempre pelo simples motivo de que todo dia tem alguém entrando na puberdade.
Mesmo assim quando chegar a hora, lembre-se apenas que: Stones > Beatles.
Eis minha teoria: se o Billy Idol não tivesse seguido numa carreira solo, o mundo colocaria o Generation X no Top 5 do Punk inglês, de rostinho colado com os caras do Clash, Sex Pistols, Joy Division e Buzzcocks.
Billy Idol foi uma estrela no pop cheio de laquê e gel dos anos 80 - um cantor cujo sucesso sempre esteve mais ligado ao fato de que era um loirão bonitão do que pela música que fazia. Sucessos mesmo, ele teve uns dois ou três que tocam até hoje por ai. Bem antes de diluir a formula punk rock em hits, dançadinhas, caras e bocas, Idol fez parte do Generation X – talvez a banda mais subestimada da primeira leva que o punk inglês produziu (que incluía os rapazes citados na minha teoria) e que hoje só é lembrada por arqueólogos da música pop. Na real, os integrantes pareciam modelos vestidos com roupas de Punks, punks de butique, tinham muito do Glam rock de David Bowie em suas canções e o pior de tudo: tocavam bem demais.
Os dois álbuns como “Generation X”, lançados em 1978 e em 1979, são bem legais – pelo menos eu ainda consigo ouvi-los com muita freqüência, ao contrario do Sex Pistols. O primeiro, “Generation X” é cheio de energia de época e palavras da moda como “jovem”, “rebelde” e “selvagem”. Já o segundo, “valley of the dolls” é um disco que poderia estar na discografia do David Bowie fase Ziggy Stardust com as guitarras imitando na maior cara de pau os solos do sideman do Bowie, Mick Ronson, sérião.
Depois disso aconteceu o óbvio: a banda virou Billy Idol bonitão e mais três faxineiros. Existe mais um disco, “kiss me deadly”, lançado em 1981 com o nome abreviado para Gen. X. “Kiss me” é basicamente uma colcha de retalhos costurada ao redor do sucesso de “Dancing With Myself” - que havia sido lançada como single no ano anterior com a cara de Idol na capa denunciando o que estava por vir. Tenho uma teoria de que Billy Corgan, do Smashing Pumpkins, escreveu o hit “tonight tonight” utilizando a introdução de “kiss me, deadly”, obviamente ninguém se reparou nisso.
No mesmo ano em que eu nasci, Billy Idol embarcou no trenzinho do sucesso como artista solo e usando uma versão light-papai-mamãe para “dancing with myself”. Quis o destino que a canção se tornasse o maior sucesso da carreira do loirão enquanto o mundo travava de apagar da memória a versão original e legalzona do Generation X.
O evangelho segundo Robert Zimmerman conta que a The Band se chamava “The Hawks” e era uma mera banda de baile (destas que acompanham cantores) nascida no Canadá até trombar com Bob Dylan - que tinha acabado de conhecer os Beatles e trocado o violão por uma guitarra e um amplificador.
Na lista de serviços prestados à humanidade por Bob Dylan (e seu empresario Albert Grossman, né) deveria constar o 1º emprego com carteira assinada destes rapazes. Juntos e devidamente elétricos, Dylan e a The Band protagonizaram a cena antológica da historia da música pop em que um menino inglês chama Dylan de “Judas” por ter largado o folk e ele o responde com “like a rolling stone”.
Mas como o que nos interessa no momento é a The Band, falaremos disso uma outra hora. A parceria com Dylan rendeu alguns discos de estúdio ( entre eles o lendário “Blonde on Blonde” de 1966 e aquele que parece o “Alucinação” do Belchior, “Planet Waves”), um disco de sobras (“The Basement Tapes”) e várias gravações ao vivo que viraram discos e bootlegs.
Em 1967, enquanto Dilão inventava um acidente de moto pra ficar em casa e dar um tempo nos shows, na casa ao lado, Robbie Robertson, Rick Danko, Levon Helm, Richard Manuel e Garth Hudson estavam na melhor das fases criativas e dariam à luz à dois grandes clássicos da música analógica: “Music from Big Pink” (“Big pink” era o apelido carinhoso da casa cor de rosa ao lado da casa de Dylan na cidade de Woodstock) e o fabuloso “The Band”. Vale lembrar que “The Basement Tapes” também cobre está fase dos caras com o Dilão.
Todas as listas e top fives deste mundo colocam “Music from big pink” como o disco definitivo da The Band, eu acho que é um disco todo pintado de rouge e batom por causa da ligação direta à Bob Dylan e é realmente lindo, está na nossa coleção.
Ok, “big pink” é um grande disco, basta dizer que tem “The weight” e “I shall Be release” - as duas canções se tornaram mais famosas que a própria banda, aquele tipo de música que todo mundo conhece, mas ninguém sabe quem está tocando. Enfim, até a capa foi pintada por Dylan e tal, mas foi em “The Band” que eles chegaram ao auge como grupo criativo com todos os integrantes cantando e tocando uma lista enorme de instrumentos. E tem o fato de que todas as canções deste discos são hits em potencial - incluindo as demos. O curioso é que a nossa cópia de “the band” é uma amostra invendável em mono fabricado uma unica vez nos porões de São Bernardo do Campo, é da época em que parte da musica no Brasil era feita na cidade dos seus avós.
The Band “acabou” de mentirinha em 1976 (eles voltariam em 1983), creio que só para fazer valer a historia do roteiro de “the Last Waltz” – disco e filme realizado pelo cineasta Martin Scorsese - vendido aos brasileiros como “o ultimo concerto de rock”. No disco (e no filme) a nata artística dos anos 70 da nossa estante de discos (Dylan, Van Morrison, Joni Mitchell, Neil Young, etc) desfila seus clássicos – vários deles melhorados pela campanhia da The Band. No final todo mundo se abraça pra cantar “I Shall Be Released” e dali em diante estão todos liberados para seguir com suas vidas.
Quando surgiu a ideia de escrever um blog para falar sobre música pra você, eu bem pensei “vai ser moleza, são só 50 discos”. 50 discos entre 500 soava como uma brisa perto da experiência de escrever sobre 1001 discos ou 100 melhores canções de todos os tempos. Mas ai o exercício de lembrar onde estávamos quando tal disco surgiu na nossa vida também incluía a necessidade de fazer as pazes com o passado e desenterrar passagens que não trazem boas lembranças. E, na medida em que os discos apareciam, também surgia o medo de expor demais minhas feridas pessoais e também o fato de que seu pai ainda não era um adulto bem resolvido. Enquanto os anos 90 soavam como lembranças românticas da adolescência, os anos 2000 regurgitavam a memória do tempo em que havia um futuro nebuloso marcado por um idiota decidido a viver o conto do rock. Vou escrevendo sobre 2006, 2007 e me sinto cercado de fantasmas e do medo de um dia ter voltar pra casa da sua avó e terminar meu dia sentado na porta de casa sonhando com outro lugar.
O fantasma do natal passado de 2007
2007 terminou o que 2006 havia começado. Havia vendido a guitarra para pagar o aluguel do apartamento que dividia com amigos em cima da antiga livraria do Seu Chaim e com o dinheiro que sobrou do aluguel comprei um violão numa loja de usados. A venda da guitarra era um evento simbólico tipo uma guinada que acontece nos filmes, mas que na pratica não significou nada, não havia nada pra ser aprendido. Alguns meses antes, seu pai havia brigado com um outro cantor da cidade que havia lhe dito para rever os vocais da sua bandinha de meia tigela. Tratei isso como ofensa, apenas porque ele havia dito a verdade e eu, no auge de minha imaturidade e adolescência tardia, era incapaz de lidar com a verdade. Moral da historia: larguei a música por um ano ou mais, vendi a guitarra e acabei voltando de carona no caminhão do seu avô.
When I sat down on the bed next to you
You started to cry
I said, maybe if I leave, you’ll want me
To come back home
Quando cheguei na cidade houve toda uma cena dramática de derrotismo típico dos Rufatto, vários deles haviam tentado a sorte vez ou outra e sempre voltavam para casa com o sorriso quebrado e as botas cheias de lama. Entre as poucas coisas que haviam ficado no meu quarto, havia apenas um violão tonante, revistas, caixas de cds velhos e entre eles um Cdr do “A ghost is born”, disco do Wilco, de 2004.
A Ghost is born era o 1º disco que o Wilco gravava após o sucesso de Yankee Hotel Foxtrot – disco que libertou a banda do rotulo de Country rock. Também é o 1º sem Jay Bennet - o nº2 na sucessão presidencial da banda. O vocalista Jeff Tweedy se sentiu livre pra tentar qualquer coisa e o resultado nem de longe era (ainda é) um disco fácil de amar - era torto, cheio de partes experimentais e coisas que não lembram a banda dos meus discos favoritos - Being There e Summeteeth.
O que mais gosto neste álbum é de pensá-lo como o conto do “Fantasma do natal passado” do Wilco, um disco que Jeff Tweedy fez pra dizer à alguém que ele sente muito pelo que rolou e que de agora em diante ela será uma pessoa boa aconteça o que acontecer. Pra mim, esse disco é sobre voltar pra casa decidido a se acertar consigo mesmo ou pelo menos juntar algumas partes para continuar seguindo em frente.
Quando penso nos dias que passei em coronel imagino mais ou menos como Bruce Springsteen voltando pra ver uma garota do passado em “Bobby Jean” e descobre que ela havia ido embora. Eu encontrei a minha “Bobby Jean” numa festa e, se ela não havia ido embora como a da canção, estava diferente e só foi preciso 15 minutos de conversa para entender que se ela havia mudado a culpa era minha - era eu quem havia ido embora e era ela quem havia ficado na cidade e se adaptado à outra turma. Foi a ultima vez que nos falamos e eu preferi guarda-la no passado, ainda a guardo lá.
Remember to remember me
Standing still in your past
Floating fast like a hummingbird
Foi a partir desta noite do paragrafo acima e de “A Ghost Is Born” que eu comecei de novo, escrevi a primeira canção com meu nome de batismo – “venha comigo” (roubada do final de Hell is chrome) e que definiu o norte do que eu faria da minha vida pelos anos seguintes – e que inclui conhecer sua mãe, você nascer, etc. Enquanto escrevo estas linhas, o Wilco está no Brasil para 3 shows e eu estarei em dois deles, meus amigos vivem uma pequena beatlemania com a presença da banda e eu me sinto como Danny Glover em Maquina Mortífera, sentado numa bomba instalada sob o vaso sanitário dizendo a mim mesmo “falta só dois dias para eu ver o Wilco, falta só dois dias para eu ver o Wilco”. :)
Ok, esse disco é bem ruim, mas foi bom para a versão adolescente seu pai que viveu intensamente 1999 - ano de grandes desilusões amorosas e nenhum bom senso estético.
Já contei anteriormente que em 1999 seu pai se encheu de drogas pra emagrecer e acabou com os cabelos brancos antes dos 20 anos de idade, acontece. Mas acho que, entre todas as coisas malucas que a adolescência me permitiu realizar, gostar do disco de covers de um dos artistas mais repugnantes da historia da música pop brasileira está entre as cinco primeiras coisas: Paulo Ricardo em “Rock popular Brasileiro”.
Quando lembro de 1999, a lembrança vem em forma de uma fotografia amarelada colada no guarda roupa que ficou pra sempre na casa de seus avós. É ali que este ano sobrevive, entre cadernos com frases de músicas, fotos de amigos que não vejo há mais de 10 anos e declarações de amor nunca entregue em mãos. Ali dentro, velho, cheio de bolor e comido pelas traças, mora uma cópia de “Rock popular Brasileiro” - um disco que ficou no meu “porta cds” por acidente, um suvenir de uma das festas que a “turma da parede” realizou ou do tempo que eu colecionava tudo que tinha à ver com Legião Urbana.
O disco tratava-se de uma seleção de canções do rock nacional dos anos 80 reformulado “modernamente” por Paulo Ricardo com a tecnologia de 1996. O ex-vocalista do RPM andava em uma “bad trip” lançando discos insignificantes que acabavam entrando como trilha de novela das 7 e não haviam muitas opções.
Existem dois caminhos óbvios para um artista que já foi grande, mas que atualmente encontra-se na valeta:
caminho número um: revisitar a própria carreira;
caminho número dois: um disco de covers. Resultado: Paulo Ricardo conseguiu patinar num jogo ganho que é gravar covers (eu bem que sei) como também instigou o ódio dos fãs ao mexer com “hits sagrados” do pop nacional e estragar vários.
Pensando agora, acho que gostei de “Rock popular Brasileiro” porque ele se parecia muito comigo no sentido em que as versões mascaravam a verdade, tanto Paulo Ricardo quanto eu, nós não tínhamos um grande futuro pela frente e tentávamos disfarçar andando no meio de uma turma cheia de gente promissora.
Era o auge da minha vida escolar no segundo grau e quando essa festa acabasse, muita gente iria para faculdade em outras cidades, poucos ficaram para terminar o ensino técnico. Eu fiquei porque simplesmente não havia outro lugar para ir e no final, tive de provar por A + B que nunca exerceria o que aprendi estudando eletrônica no CEFET para que me deixassem passar de ano.
Moral da história, tudo o que aprendi no 2º grau foi usado para gravar discos caseiros, soldar cabos de guitarra e entender como fazer música eletrônica “analógica” usando apenas osciloscópios.
Achava que o google tinha banido tudo que lembrasse ao mundo a existência deste disco, mas não, sobrou isso e fora isso, não há outro lugar pra ouvir além do CD. Por isso, use imaginação por sua conta e risco.
Não posso afirmar que, se Os Replacements não existissem, talvez você não existisse também, mas vejamos assim: conheci sua mãe através do gosto em comum pela carreira de Ryan Adams; Ryan Adams é um dos maiores plagiadores da mistura de country, punk e folk pelo qual os Paul Westerberg e os Replacements ficaram (quase) famosos. Então, podemos dizer que você deve um tiquinho à esses caras – mesmo que um deles (Tommy Stinson) tocado numa versão rodízio de churrascaria do Guns’n Roses.
(a capa de let it be entra no meu top5 capas favoritas)
Os Replacements lançaram discos durante toda a década de 80 e nunca foram grandes de verdades. A historia nos diz que eles eram uns tremendos pés de cana (gostavam de tomar uma cervejinha) e que morriam de medo de pegar a “síndrome da banda que se vendeu”. Desde o primeiro álbum “sorry ma”, eles tiveram aval de critica, fãs devotos e foram ingênuos o bastante para sustentar a bandeira daqueles que “nunca traíram o movimento” do underground como os punks legítimos costumam esbravejar. O problema é que eles seguraram a bandeira tempo demais e assim como varias bandas legais da época, o Replacements acabou segundos antes do rock alternativo ganhar o campeonato mundial pós-apocalipse do estouro do nirvana.
Todos as cartilhas roqueiras vendidas nas livrarias do futuro irão dizer que os melhores álbuns do Replacements são “Let It Be”, “Tim”, “Pleased to Meet Me” – grandes obras escritas sobre a ótica de ser jovem, suburbano, ingênuo e um pouco burro também. O lado B de Tim, por exemplo, traz duas das 5 melhores canções do grupo: “Left of the dial” e “bastard of young” – hinos do underground alternativo que teve sua vingança em 1991 quando o Nirvana, Pearl jam e a todas as bandas citadas no filme Singles - Vida de Solteiro dominaram o mundo.
E quanto à “Don’t Tell a Soul”? é simplesmente o disco fracassado da banda. Enquanto nos discos anteriores o Replacements batia o pé, xingava a mãe dos donos da gravadoras e gravavam clipes onde a ação resumia à um toca discos tocando uma música da banda, em “don’t tell” eles fizeram tudo certinho pra dar certo. O disco era polidinho, carregado de hits (“Achin’ to be” é lindona) que tocariam até na FM que pegava na região de Coronel Vivida e com vídeos bonitinhos com Paul Westerberg pagando de galã na MTV. Eles também deram um tempo na drogas e no álcool e compuseram canções que venderiam um milhão de discos em 1993, mas em 1989 não deu em nada. Os críticos acharam fraco, os fãs acharam pop demais e a banda simplesmente cansou.
“Don’t Tell a Soul” é o disco que mais gosto do Replacements por ser o primeiro que consegui ouvir após conhecer Westerberg como cantor na trilha sonora de Singles – Vida de Solteiro. “Don’t Tell a Soul” teve edição nacional com a capa preta e a cara do Paul Westerberg chateado, ouvi uma vez em algum lugar e me apaixonei de cara, gravei numa fitinha consumida nos tempos do 2º grau. O álbum já continha características do trabalho solo que eu conhecia. Levei muito tempo pra gostar dos primeiros álbuns da banda – “Sorry Ma, Forgot to Take Out the Trash” (ótimo nome) e “Hootenanny” – punks, sujinhos, adolescentes - e bem copiado pelo Green Day nos anos 90.
A edição em Mp3 (também conhecida como a versão remaster) tem mais 25 minutos de canções que haviam ficado de fora do álbum porque os discos não comportavam mais do que 40 minutos. Entre estas há três músicas que não dá pra acreditar que levaram 20 anos para serem lançadas: o punk “wake up”, a balada country e acho que a favorita da sua mãe “portland” e “date to church” com Tom Waits esmerilhando no orgão de igreja.
A banda nem tinha acabado (acabou em 1992) e uma penca de adolescentes surgiam com guitarras e violões se dizendo influenciada pelos Replacements - e por REM, Husker Dü, Violent Femmes, Pixies e X, né?
Alem de Ryan Adams, os senhores do Wilco (cujo vocalista era do Uncle Tupelo – uma lenda do country rock adolescente) também iniciaram as atividades lançando um disco irmão gêmeo de “Don’t Tell” - “A.M.”, de 1995. “sadly beautiful” do ultimo disco do Replacements é basicamente o que tornaria o wilco famoso.
Quanto à mim, se você leu o capitulo sobre a trilha sonora do Singles, já sabe qual a influencia dos Replacements e da carreira solo de Paul Westerberg, né?
Completamos a coleção de discos de Tom Waits na sua 3ª semana de vida. Na ideia original dos 50 discos, Tom Waits ficaria entre os 10 primeiros, mas uma duvida sempre me atormentava: qual disco do cara entraria na lista? o lendário “Rain Dogs”, “Closing time” – que tem "OI’55" minha canção favorita do homem – ou "Mule Variations" - que deu inicio ao meu relacionamento com seus discos? Realmente não sei, ex: fiz uma playlist de Tom Waits para “principiantes” e acabei colocando 70 músicas - o que mostra que eu tenho dificuldade e entender o significado da palavra principiante. Então aproveitando a deixa da coleção, vamos ao Tom Waits.
O conheci no fim da minha carreira pelo Cefet, na virada do milênio - conheci e odiei de cara. Tom Waits era o mesmo cara que aparecia estragando “i don’t wanna grow up” dos Ramones (não havia internet pra me dizer que a música era dele) numa seleção de clipes que um pessoal da escola havia gravado pra mim.
Ele tinha acabado de lançar “Mule Variations” - que estava sendo louvado como seu melhor álbum desde que eu ainda estava no primário. Havia uma copia deste disco que morava na sessão de discos que ninguém queria da CD e cia – a loja de cds de Pato Branco. Calhou que na mesma época sua avó havia decidido parar com o cigarro e doar todo o dinheiro deles para a compra dos meus discos (a historia não é bem assim, mas é assim que eu gosto de lembrar). Então, eu costumava comprar discos encalhados pela capa e a de “Mule Variations” lembrava à de um disco de heavy metal com Waits encarnando o diabo de sempre. E tinha aquela voz, aquela voz horrível, eu pensava: “como alguém podia se lançar como cantor com uma voz dessas???”
Resultado: não levei o álbum, mas outro amigo levou.
Quando conheci Tom Waits ele já tinha essa voz de monstro de filme de terror há pelo menos vinte anos. Foi com essa voz que ele gravou os discos que o tornaram famoso: “Small Changes” em 1976, “Heartattack and Vine” em 1980 e o “Rain Dogs” em 1985, discos praticamente inclassificáveis - é jazz? é blues? é rock? é só barulhos e grunhidos? Precisou passar algum tempo, precisamente até mudar pra Curitiba, conhecer lojas de discos com suas atendentes bonitas e gôndolas de discos importados pra descobrir que existia um outro Tom Waits que gravou apenas dois discos (e uns bootlegs), os dois primeiros de sua carreira, lá na primeira metade dos anos 70.
“Closing Time” e “The heart of Saturday night” eram descaradamente pops e acessíveis, a voz era limpinha (para os padrões do Waits - é claro) e o cantor flertava com o folk que estava na moda na época de gente como James Taylor, Jackson Browne e até com um Bruce Springsteen em inicio de carreira. Ai seu pai gamou e decidiu que queria ser como Tom Waits em inicio de carreira. Felizmente os tempos já eram outros, eu não era mais grunge, nem indie, nem gordo, nem virgem, nem roqueiro (não necessariamente nesta ordem) e Tom Waits soava como um amigo que dividia o balcão do Kitinete - bar que eu costumava ir toda noite antes de conhecer a sua mãe.
O único problema era aceitar que a fama de Tom Waits era culpa de uma das bandas mais coxinhas que já existiu: The Eagles. Eles regravam “OI’55” e acho que Waits se ligou no estilo Carga Pesada “é cilada, bino!” Os caras eram péssima influência ao cenário folk de FM dos anos 70 (e existe um documentário da BBC que prova minha teoria), já tinham conseguido corromper o talentoso Joe Walsh – e Tom Waits parecia ser a próxima vítima. É ai que começa o Tom Waits fase Hard se afastando da imagem de compositor folk, caindo no Jazz movido à cigarro e bebedeira e lançando uma seqüência matadora de discos que vai de “Nighthawks at the Diner” de 1975 até “Big Time” de 1988.
Teorias furadas porem divertidas, nunca procurei saber o que de fato ocorreu com Tom Waits quanto drástica mudança de voz e de estilo musical. Mas prefiro a versão da historia em que ele teve a visita do fantasma do natal passado que lhe mostrou uma visão do futuro como compositor de sucessos do Eagles e largou tudo – JD Southier, por exemplo, nunca se recuperou disso e ninguém mais lembra que um dia ele foi cantor.
Voltando ao Tom Waits, logo depois de conseguir Closing Times, comprei o disco que não quis em 1999, “Mule Variations” e saquei o que não tinha entendido com 17 anos: não tinha apanhado da vida o suficiente pra entender sobre o que o cara cantava. Ainda vivia na barra da sua avó e dormia na mesma cama em que costumava mijar quando era criança.
the piano has been drinking, not me.
Os outros discos foram aparecendo um à um na medida que a tecnologia avançava, os colecionadores de discos morriam e os discos de Tom Waits iam parar nos sebos. A Livrarias Curitiba também ajudou e fez o “favor” de vender algumas edições importadas à preços bem educados. No meio disso também teve a edição dupla e lindona de “bad as me” (de 2011) no formato de um livro.
Enfim, um belo dia você nasceu e três semanas depois consegui o vinil “Heart Attack and Vine” – o disco que Tom waits compôs para o cara que teve um ataque do coração após comer um cachorro quente com duas vinas. Com a aquisição “Heartattack” – o nº3 do meu top 5 - declaramos, para os devidos fins, a conclusão da discografia de Tom Waits da nossa estante.
Ok, ok ainda falta um box de canções que nem Tom Waits teve coragem de lançar “Orphans: Brawlers, Bawlers & Bastards”, mas essa parada eu nunca vi em lugar algum e deve custar bem caro - uns 10 pacotes de fralda, pelo menos.
E como eu escrevo do passado, não sei quantos discos Tom Waits poderá lançar até você ter idade para ouvir – e principalmente gostar – dos discos do homem. E se servir de referencia, tem uns discos que eu também não gosto muito ("Black Rider" é bem mais ou menos, "Alice", "Real Gone" e "bloodmoney" são insuportáveis!) mas te juro que você não reclamou da primeira vez que ouviu, só disse que parecia voz de monstro.
Qual sua opinião sobre as músicas do Tom Waits?
Um vídeo publicado por Giancarlo Rufatto (@giancarlorufatto) em Jun 1, 2016 às 6:07 PDT
meu Top5:
Rain dogs
Closing time
Heartattack and vine
Mule variations
Franks Wild Years
Uma foto publicada por Giancarlo Rufatto (@giancarlorufatto) em Ago 9, 2015 às 3:16 PDT
Tim Hardin é um nome quase perdido dentro do planetinha dos compositores pós-Bob Dylan deste mundo e a culpa é quase toda dele mesmo. A wikipédia nos diz que Tim afundou um talento incrível para compor no vicio em drogas e morreu bem novo em 1980, deixando uns 9 discos que ninguém sabe, ninguém viu onde foram parar e uma menção a participação dele naquele mitológico Woodstock de 1969. Resultado: tem um monte de músicas famosas tocando por ai e ninguém sabe que foi ele quem compôs, tipo “if i were a carpenter” que teve aproximadamente um trilhão de regravações de sucesso.
Mas eis que um dia sem querer achei num sebo uma copia em vinil de “Tim Hardin 1” a troco de bala. O “1” denuncia que este foi o primeiro disco que Hardin gravou e traz as versões originais de “it’ll never happen again” e “reason to believe” - que Rod Stewart regravou e a transformou num hit de FM. Esta edição nacional foi lançada pela Gravadora Copacabana lá no fim dos anos 60 e é uma edição promocional com release de lançamento de “novo e promissor artista”.
Gosto de pensar que estamos diante de uma raridade, quase um segredo bem guardado na família, mas é porque dificilmente chegaremos perto de outro disco deste homem. A discografia de Tim Hardin está praticamente perdida no limbo gerado pelas sucessivas vendas de catálogos das gravadoras, passados de mão em mão toda vez que uma gravadora vai à falência. Eu nunca vi em cd, mas a internet diz que existe e que nos anos 90 os 4 primeiros discos de Hardin foram relançados numa caixa “Hang on to a Dream: The Verve Recordings”. Foi através desta caixinha (em mp3, claro) que conheci o homem há uns bons oito anos e infelizmente continua perdido e dificilmente será encontrado, exemplo: tentei encontrar a versão original de “it’ll never happen again” no youtube e não achei! Não sei como funciona ai no futuro, mas “na minha época” a gente costumava dizer que se uma coisa não está no youtube é porque simplesmente não existe.