And I know that it’s complicated / But I’m a loser in love (LADY GAGA, Speechless)
O que estava escrito na carta: “a deriva parece melhor 08x04”.
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A distância é quase uma entidade. Conseguimos compreendê-la perfeitamente porque é algo que, pela ausência, é física no espaço tridimensional em que vivemos. Ela se faz extremamente presente na nossa vida assim como o tempo. A física ainda garante que o produto dela com ele resulta em velocidade. Mesmo assim quase não conseguimos entender porque algo tão calculável tem um efeito tão emocional na gente.
Estar distante de alguém que você quer perto mais do que tudo causa uma sensação, no mínimo, de desconforto. É que a distância não está sozinha nessa equação, já que uma trouxa cheia de emoções traz variáveis que alteram bastante o resultado, e a ordem dos fatores tem grande influência aqui. É como se a separação fosse um acelerador de partículas, pronto para fazer as coisas chocarem entre si.
Quando descobri que o Menino das Cartas ia viajar, a distância não foi a primeira coisa com que me preocupei. Em um dia, conversando com ele pelo chat do Facebook, eu o perguntei:
_ Como você conhece este menino? — e envie o perfil de uma pessoa que havia estudado comigo durante o ensino médio.
_ Ele estuda no mesmo prédio que eu. — ele respondeu.
_ Ah sim. — passeei um pouco pelo perfil do rapaz em questão e percebi que ele tinha feito alguns posts sobre intercâmbio, sobre passar um tempo longe da família.
Uma vez, há algum bom tempo antes disso, eu e o Menino das Cartas conversávamos sobre alguma coisa de idiomas e ele havia dito algo como “Nossa, pior que meu húngaro”. Na época, pensei apenas que tinha sido uma daquelas falas em que a aleatoriedade comanda. Como se quando visse alguém andando mal de skate, eu dissesse algo “Nossa, pior do que eu usando hashi”.
Mas no dia em que vi o perfil do menino que estudou comigo e li as postagens dele sobre viajar, quase automaticamente liguei os pontos. Eu só tinha essas informações e consegui captar no fundo da minha memória de quando o Menino das Cartas citou o bendito idioma. Perguntei para ele, retoricamente:
_ Você vai fazer intercâmbio, né?
_ Então, isso é uma coisa que eu queria ter falado há um tempo. — ele começou a se explicar. Foi a primeira vez em que eu senti o peso de que a pessoa que eu gostava tinha data e hora para ir embora. Perguntei de quanto tempo seria o intercâmbio, ele respondeu que seriam 12 meses e automaticamente eu quis me enganar dizendo que aquilo não era tanto tempo. Desde esse dia, eu sempre dei mais importância pelo tempo separado do que pela distância.
Alguns amigos meus já haviam passado por esse mesmo processo de fazer intercâmbio. Dois estiveram longe de mim por metade de um ano antes do Menino das Cartas ir embora e outra amiga se ausentou por seis meses depois que meus dois amigos voltaram. Esse cenário me deu a ilusão de que eu conseguiria suportar um ano longe daquela pessoa que gostava. Claro, me enganei.
O tempo de 12 meses foi sim decisivo para o desenrolar de todos os meus sentimentos, mas a distância entre nós dois colocava uma impossibilidade física de estarmos juntos. Havia um oceano inteiro entre nós; milhas e milhas de vida aquática, terrestre e aérea desconhecidas por mim e por ele. Não era como se ele estivesse em São Paulo e eu pudesse vê-lo se fizesse um esforço, guardasse algum dinheiro e conseguisse viajar de dois em dois meses para que olhasse novamente dentro dos olhos dele. Não, ele iria para outro continente, um bem longe e inalcançável para mim. E isso me doía demais.
Uma das minhas lembranças mais antigas é a que aconteceu ainda durante minha primeira infância. Em algum momento da minha vida, o berço em que eu dormia dividiu o quarto da minha irmã. Ele ficava relegado ao canto esquerdo do ambiente e havia um espaço entre ele e a cama dela, para que qualquer um pudesse transitar por ali sem maiores problemas.
Às vezes, motivado por alguma vontade — desde medo à apenas desejo -, eu pedia para que meu pai colocasse meu berço um pouco mais para a direita. Assim, por entre as grades de madeira, conseguia esticar meu braço e dar a mão para a minha irmã. Desse jeito eu me sentia ainda mais protegido por poder dormir de mãos dadas com aquela pessoa que me amava tanto a ponto de dividir seu quarto comigo.
Um dia pedi que meu pai fizesse isso e ele se negou. Pedi novamente e ele negou. Pedi mais uma vez. Outra negação. Pedi de novo. E de novo. E de novo. Pedi até o pedido virar uma chateação de criança, daquelas que dão nos nervos. Ele então negou novamente, em uma voz mais firme e metálica: “Não, Mauro! Você vai dormir no seu canto. Deixa disso”. Chorei pelo modo como ele falou comigo e também por não conseguir o que eu queria. A distância entre eu e minha irmã era pouco mais de meio metro, mas meus braços curtos não alcançavam os dela. Mesmo assim os deixei esticados, sabendo da ausência das mãos dela nas minhas e mesmo assim sentindo que ela estava ali.
Hoje, com minha capacidade de ir e vir aumentada, tenho a consciência que estar separado de alguém que você gosta por uma distância de 15 quilômetros também pode incomodar, claro. Estar longe sempre vai ser algo exposto bem na sua frente justamente pela ausência daquele corpo que você tanto deseja. E mesmo que seja complicado pegar dois ônibus e um Uber até a pessoa que você gosta, é uma ação que está dentro do mundo do possível. Mas no meu caso, era impossível me deslocar do meu país para outro. E mesmo que fosse, não seria realmente viável.
Vencer alguns quilômetros que podem ser contados pelos dedos das mãos e dos pés significa que sua vontade de estar perto é forte, mas quando esse número ultrapassa 10 mil km significa que o nível do seu desespero e da sua descolagem da realidade é bastante alto. Os filmes nos ensinam que você pode vencer qualquer distância para estar do lado de alguém que ama, mas a essa altura do campeonato sabemos que não é bem assim. Mesmo que seja possível você pegar um avião e estar em Tóquio amanhã porque seu amor por alguém é forte, as pessoas ainda vão poder olhar para sua cara e pensar “Ele realmente fez isso? Ele não tem noção?”. É loucura demais para a maioria delas aceitarem.
Mesmo que eu e o Menino das Cartas conversássemos diariamente, o peso da distância entre nós ainda seria sentido por mim. Por mais que tentemos nos enganar, não existe uma correspondência forte e inquebrável entre o real e o virtual. Sim, devemos aceitar que as relações humanas já não são as mesmas e estar fisicamente do lado de alguém pode ter ficado um pouco mais difícil porque colocamos impedimentos entre um encontro e outro, isso só reforça a diferença crucial entre um toque físico e um emoji de coração. Mesmo daquele gigante vermelho.
Relacionamentos virtuais não são vazios, mas são completos apenas em suas próprias maneiras de existir. Talvez nem devêssemos comparar uma relação mantida em sua maioria no virtual com uma sustentada no real, mas isso é impossível de não se fazer, ainda mais em uma espécie que apreende as coisas justamente por causa de suas diferenças. São tantas particularidades que envolvem manter algo apenas usando a nuvem, que eu não conseguiria mesmo manter qualquer tipo de relação somente assim. Aliás, é relativamente alto o número de amigos virtuais com os quais perdi contato. Eu simplesmente não consigo fazer com que aquilo dure por um tempo considerável.
Na minha relação com o Menino das Cartas seria impossível eu tentar encarar a distância e o tempo. Seria um ano que eu não conseguiria ouvir a voz dele sem ser mediada por algum aparelho. Doze meses sem poder captar o lubrificação natural dos olhos dele. Dois semestres em que eu ficaria incapacitado de sentir os mínimos pelos da mão dele encostando na palma da minha. Quatro estações apenas imaginando o calor que um abraço dele fosse capaz de irradiar para o meu corpo. Tudo isso agravado por uma distância implacável que fazia com que meu sentido táctil fosse o primeiro a esquecer de tudo. A pele, a textura, a temperatura dele, e depois o timbre da voz, a cor da pele e o apelido de seu nome.
Quando vi a imagem que Alice, que tirou a foto do trigésimo quinto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou, aquele mar pincelado com algumas cores laranjas do sol me deu uma pequena dimensão real da distância que existiu entre nós. Era de perder de vista e não havia como eu pensar em alcançá-lo de maneira alguma. Assim como o mundo físico se colocou entre nós, com seus mais de 10 mil quilômetros de separação, meus sentimentos também começaram a se afastar.
Como placas tectônicas que lentamente se desprendem com o movimento do mundo, assim eu fui. De milímetro a milímetro deixei a rotação do planeta me empurrar um pouco mais pra longe. Eu me sentia melhor por ter parado de nadar contra a corrente. Comecei a deixar que a distância me levasse para onde quer que fosse.
I thought I could forgive you, and I know you've changed / As much as I want to trust you, I know it ain't the same (BEYONCÉ, Resentment)
O que estava escrito na carta: "depois do que você fez, cada dia acaba mais 18/03".
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Tomar uma decisão sobre algo nunca é o produto final do que você tem que fazer. Na verdade, é só o começo. Parece complicado porque, por exemplo, até chegar na resolução de que não quer mais ingerir bebida alcoólica você provavelmente já passou por muitas e muitas coisas. Deve ter esquecido o que disse na noite passada, vomitado no closet de alguma amiga rica, lascado um dente porque perdeu o equilíbrio e parou com a cara no chão, beijado a boca daquela pessoa que tem mau hálito desde quando você a conheceu, contado para todos os seus amigos o tamanho do seu pênis mesmo que ninguém tenha perguntado.
Depois disso tudo, e muitas outras cenas deploráveis para a raça humana, você firma a ideia de que não vai mais beber. Uma outra etapa começa, porque agora sim tudo vai ficar mais complicado. Seus amigos não tão próximos não vão entender porque você decidiu fazer isso, as pessoas desconhecidas vão te achar antissocial porque bebida é uma grande carta nas rodas de conversa, seus pais vão acreditar que você está prestes a dar uma chance para outras drogas, você vai perceber que a maioria das festas são um lixo e a bebida escondia esse aspecto. Quando você precisa realmente colocar aquela decisão em prática, o mundo inteiro muda.
Depois que eu decidi que não queria mais ir atrás do Menino das Cartas para conversar, a primeira coisa que surgiu em minha cabeça foi uma dúvida: será que eu estava fazendo a coisa certa? A partir dessa, outras perguntas vieram e todas com o mesmo questionamento à frente, de que talvez eu estivesse tomando a decisão errada. Comecei a pensar no que havia me motivado a realmente tentar fazer isso - porque eu tinha minhas inseguranças quanto a conseguir ou não, é óbvio.
Já tínhamos vivido tantas coisas no mínimo não-boas depois que ele foi embora, e também antes, que esse meu veredito já poderia ter aparecido em côrte. Eu já havia sido chamado de imaturo inúmeras vezes, tido provas e mais provas que aquele meu amor por ele era grande demais perante ao que ele estava disposto a me oferecer, sentido como se eu fosse a única pessoa errada em vários pontos da nossa relação. Mas foi o sentimento de traição talvez que tenha sido o estopim para todo o meu cansaço emocional.
Sempre ficou extremamente claro para mim, desde nosso processo de se conhecer em 2014, que eu e o Menino das Cartas não tínhamos nenhuma relação amorosa oficial. Inclusive, me custou chamar aquilo que nós tínhamos de relação porque poderia parecer, em algum grau, que significava algo a mais e eu nunca quis rotular nada do que tivemos. Era uma besteira, eu sei, já que todo relacionamento entre duas pessoas que conversam e se gostam, ou desgostam, é chamado de relação. É só que quando tem um sentimento romântico crescendo no meio disso, as terminologias parecem significar demais.
A consciência de que nossa relação não era algo único, extremamente romântico e monogâmico estava sempre passando pela minha cabeça. Claro, isso não me impedia de não querer me relacionar com outros homens, coisa que não fiz nos seis meses que ele esteve no Brasil antes de viajar, mas eu não chegava a esperar isso dele. Continuávamos falando sobre os rapazes que apareciam por aí e eu até mesmo colocava na minha cabeça que ele deveria ter se relacionado com algum outro e tudo isso me ajudou a entender que nossa relação não iria ser rotulada nunca. Mesmo com todo esse cenário bem esclarecido por mim, quando ele me disse, meses depois de viajar, que estava gostando de alguém enquanto ainda estava no Brasil, me senti traído.
Eu já estava ciente que meu amor não era correspondido com a mesma intensidade, mas ainda acreditava que ele havia gostado de mim. De um jeito meio mascarado que só dava as caras quando ele realmente dizia as palavras que eu gostava de ouvir, mas ainda assim eu sabia que ele nutria um carinho e afeição grandes por mim. Isso ele sempre deixou bem transparente. Pensar que ele esteve tanto tempo com outra pessoa em mente, pensando nela de forma constante e não ter falado rapidamente comigo sobre isso para que meus sentimentos não se fortalecessem mais, foi demais.
Qualquer tipo de traição machuca porque ela tem o poder de conseguir acabar com a confiança que as partes desenvolveram. Ela funciona como uma grande virada no roteiro que está sendo escrito porque é como se o ato mostrasse para você que, por todo aquele tempo, sempre existiu uma sub-história que você não soube. Você foi cortado de toda uma linha narrativa gigante e complexa, porque alguém decidiu esconder isso de você. E não qualquer alguém, mas aquela pessoa para a qual você abriu seu coração e expôs suas maiores fraquezas e medos.
Ser traído é como sentir que o caminho que você trilhou por tanto tempo simplesmente não foi real, porque compraram balões e serpentinas para enfeitá-lo e deixar tudo mais bonito. Só que, uma hora ou outra, tudo aquilo é retirado e a festa apenas acaba. Você fica sem bolo e nem refrigerante, apenas com uma cama cheia de presentes que depois de abertos mostram que tudo não passava de caixas vazias enroladas em papel colorido. É no mínimo triste e desolador. Talvez eu não precisasse me sentir desse jeito, pode parecer a coisa lógica a se pensar, mas a verdade foi que eu me senti assim.
Quando Lucas, que tirou a foto do trigésimo segundo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, aquele coração partido em cima das cartas resumiu de forma extremamente assertiva o momento em que eu estava. A decisão de não querer manter um relacionamento tão frequente com o Menino das Cartas veio porque eu não conseguiria sentir que meu coração estava nas mais imperfeitas condições e simplesmente não fazer nada sobre isso.
Lembrei da única vez que o Menino das Cartas teve coragem de se abrir muito comigo e, antes mesmo dele viajar, me contar que às vezes não me tratava bem porque talvez assim eu ficaria com raiva dele e me afastaria. Eu teria que ser a pessoa responsável por fazer isso porque desse jeito tudo seria uma decisão minha e nesse cenário, segundo ele, as coisas poderiam se resolver de forma bem mais tranquila para uma das partes envolvidas.
Ainda recordo o quanto achei esse plano infantil e idiota, mas nunca falei isso com ele, porque, bem, eu não queria causar qualquer tremor na nossa relação. Covardia da minha parte, porque dessa forma eu também não fui sincero com o Menino das Cartas. Fazer o que, estamos todos suscetíveis ao erro. Só não podemos nos ater a ele.
Para mim, essa decisão dele nunca funcionaria, porque eu estava apaixonado demais para perceber que deveria ter cortado nossa relação precocemente. De qualquer maneira, depois de muitas semanas, o plano de me afastar por me tratar mal deu certo no fim das contas. Apostei todos os meus sentimento mais positivos nessa relação e tive que ter meu coração partido para perceber a hora de levantar e sair da mesa. Era hora de encarar um fato: não tinha chance nenhuma de eu vencer aquele jogo jogando sozinho.
Sacode tua vida como um guizo sobre a minha / E então deixe-me só / Fingindo que é de alegria que eu estou chorando (FILIPE CATTO, Ascendente Em Câncer)
O que estava escrito na carta: "eu me perco em PENSAMENTOS E SENTIMENTOS 11/02".
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É muito claro que, por diversas vezes, somos lembrados constantemente que o nosso lado emocional e o racional não se cruzam muito. Quando eles se encontram parece que é sempre para que um deles subjugue o outro e ganhe predominância sobre nossas atitudes e decisões, como um todo. No meio disso está a gente, soldado que foi intimado para a guerra e se encontra no meio de um fogo cruzado enquanto pensa por que diabos está ali sendo que fez de tudo para não se alistar no Exército.
Quando tentamos pensar nessa velha dicotomia da emoção e razão, somos levados a crer que o embate entre as duas formam o que nós somos. Contudo, às vezes parecemos tão distantes de nós mesmos que sequer nos reconhecemos nesse suposto ponto de equilíbrio. É quando sua persona emocional desafia completamente sua persona racional. Quando me apaixonei pelo Menino das Cartas não pensei que aconteceriam tantas discussões internas em mim. Quando tive certeza que comecei a amá-lo, então, realmente acreditei que talvez as coisas ficassem mais claras ao meu entendimento. Engano.
Por várias vezes eu me sentia completamente em controle de toda a situação. Conseguia entender o que acontecia à minha volta e fazer uma interpretação fechadinha daquilo para a minha vida. Nesses dias era fácil conviver comigo mesmo. Ir para o estágio, vigiar constantemente para não ser assaltado novamente, fazer todo meu trabalho diário, voltar para a casa, pensar um pouco no meu TCC mas sem cobrança, já que fevereiro ainda era um mês de férias, escolher maneiras de relaxar perante ao computador, conversar com algumas pessoas para manter um bom astral, jantar, escovar os dentes e dormir.
Quando se é racional as coisas seguem uma lógica muito natural, em que tudo o que fazemos tem como objetivo apenas passar pelo dia. Damos importância à coisas que nos fazem bem e continuamos nossas tarefas do cotidiano sem complicações. Com isso, conseguimos até dar um espaço para as emoções boas, justamente porque sabemos que elas também são essenciais para que aqueles momentos sejam tranquilos e descomplicados.
Algumas outras vezes, porém, não era fácil tentar lidar com as emoções que ainda estavam presas dentro de mim. Se fosse um tempo antes, bem antes, eu estaria feliz por estar perdido no meio de tanta ilusão com gosto de jujuba. Depois de um tempo, porém, tudo pendia mais para um lado de Feijõezinhos de Todos os Sabores: eu não sabia se sortearia um feijãozinho com gosto de alcaçuz ou de poeira de porão.
As emoções são muito selvagens quando tentam comandar nossas decisões. Mesmo aquelas que têm como meta nos deixar bem, caem em uma corrida desenfreada e batem em todos os cantos que estão pela frente. A questão principal é que sentimentos negativos também estão sempre à espreita e, quando tudo está solto, eles entram em conflito com os positivos. Se atraem e depois reagem, o que nos deixa meio sem chão diante a tudo que acontece bem na nossa frente. A sensação de impotência é grande porque você é apenas o vetor que faz com que as coisas aconteçam. As emoções podem te deixar neutralizados quando elas querem tomar conta do lugar.
Já é complicado lidar com o seu eu-racional e o eu-emocional quando eles sabem exatamente o que querem fazer. Quando essas suas personas estão perdidas, então, a coisa não é tão fácil de compreender. Depois de tantas conversas fracassadas que eu o Menino das Cartas tivemos após ele partir, tentei regular tudo o que acontecia dentro de mim, mas talvez, de tanto forçar, tenha trincado alguma coisa ou outra.
Quando você não sabe o que pensar das situações que estão acontecendo a sua volta, sua concepção de mundo fica extremamente prejudicada. Nada é uma base para que se entenda o que está acontecendo e fica cada vez mais complicado se apoiar em algo. É como se seus neurônios se recusassem a fazer sinapses e, assim que tentam, parece faltar a lubrificação natural dessas células, daí um processo de queimadura lento e gradativo se instala na sua cabeça. Não é nada divertido.
Se suas emoções, que já são um espírito livre por si só, também estão desgovernadas, a situação fica ainda mais complicada. Pense que, de uma hora para outra, tudo o que você sente começa a ser amontoado. Alegria que é posta em cima de tristeza que está embaixo de três camadas de amargura que divide espaço com esperança que quase empurra o medo pra fora que se agarra em desejo sexual que se espreme no meio de dúvidas. Todas bem compactadas enquanto estremecem por causa da sua natureza inquieta. Elas precisam correr e quando finalmente se veem livres, percebem que estão acorrentadas e daí uma puxa para um lado e outra puxa para o outro. Eu me sentia exatamente assim, sem parâmetro nenhum e apenas me cansando dia após dia porque já não aguentava mais viver com esse pandemônio dentro de mim.
Quando João, que tirou a foto do vigésimo sétimo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem, ele me mostrou, alguns dias depois, sua compreensão daquilo em palavras. “Noite passada sonhei contigo. Um turbilhão de sensações que a mim retornam junto à imagem do teu rosto. Eu só queria te esquecer. Queimar cada lembrança e deixar que as horas ao teu lado virem cinzas. De olhos abertos eu me perco em pensamentos e sentimentos. E parece que isso nunca terá fim. Não para mim”.
No cerne da imagem de João, reconheci um conforto no meio daquelas cinzas de uma carta de baralho queimada. Às vezes uma das únicas maneiras de colocar um fim nas nossas inquietudes é atando fogo. Não que assim elas sumam, porque sabemos que nada se perde, tudo se transforma. De qualquer maneira, dessa forma elas poderiam virar fagulhas, depois subir aos céus e desaparecer ao olho nu.
You got to start a love right from the ground / Cause when you start from the top you only come down [PALOMA FAITH, The Bigger You Love (The Harder You Fall)]
O que estava escrito na carta: "eu devo ser o MAIOR TROUXA 04-02".
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Janeiro finalmente tinha acabado e o ano estava começando a se desenrolar. Não completamente, porque isso só acontece de fato após o carnaval, segundo dizem. O primeiro mês de 2015 já havia me trazido muitas sensações em relação ao Menino das Cartas, coisas que eu achava estarem sufocadas dentro de mim por um bom tempo. É extremamente comum duvidar de si mesmo, mas talvez isso não deveria ser normal.
Penso que minha mania de guardar as coisas para mim dificulta este aspecto da minha vida. Quando você tem dúvidas, a melhor maneira de acabar com elas é tentar resolvê-las, obviamente. As coisas ficam um pouco complicadas quando você não se abre muito com outras pessoas, porque a única saída que sobra é a internet como maneira de resolver os problemas implantados pela sua cabeça. E todos nós sabemos que a resposta do Google para quaisquer sintomas é alguma doença terrível e que você, provavelmente, já deve estar em um estágio terminal. O ensinamento aqui é que não faz muito bem se fazer de Caixa de Pandora e guardar tudo de bom e de ruim que há no seu mundo.
Comecei a cair novamente em um vórtex criado apenas por uma pergunta de dois polos: conto para as pessoas como estou ou continuo segurando isso dentro de mim? O problema é que agora já começava a fazer tanto tempo desde que tudo já havia acontecido, que toda essa história iria ser tomada apenas como os sentimentos de alguém que não conseguiu abrir mão de uma pessoa que amou.
O fato é que tudo se resumia a isso sim, inegavelmente, mas talvez só quem tivesse passado por essa situação alguma vez, ou algo parecido, poderia se esforçar para entender um pouco tudo o que estava dentro de mim. Até porque nem mesmo eu sabia explicar a essa altura do campeonato. Tudo parecia tão embaraçado dentro do meu coração que comecei a pensar que só havia uma explicação para aquilo ter acontecido comigo: eu fui um idiota.
Fui estúpido ao pensar que conseguiria passar por um turbilhão de emoções e mesmo assim não continuar amando o Menino das Cartas. Fui ingênuo por acreditar que depois dos meus sentimentos tão certos, eu conseguiria apenas voltar a ser amigo dele, como tinha acontecido logo quando a gente começou a se conhecer. Fui uma pessoa sem senso crítico para perceber que desde o começo nossa amizade não era somente coleguismo, então seria difícil voltar para uma relação de apenas companheirismo quando as circunstâncias da forma como nos conhecemos já indicava que aquela deveria ser uma relação focada em outros tipos de sentimentos. Fui inocente ao deixar que meu coração falasse alto demais de uma maneira extremamente rápida. Fui irresponsável comigo mesmo ao tentar fazer com que qualquer coisa que um dia tivéssemos desenvolvido continuasse a crescer. Fui um idiota por não ter desistido mais cedo de tudo isso.
Quando Davidson, que tirou as fotos do vigésimo sexto post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem de um homem sentado no bar, desejei que algumas vezes eu pudesse apenas conseguir beber e esquecer tudo o que eu estava sentindo. Dói perceber isso, mas talvez eu tenha sido uma pessoa que teve muitas dificuldades em deixar meus sentimentos realmente irem embora de mim. Tudo era um pequeno motivo para que aquelas sensações voltassem a assolar meu corpo e minha mente, me roubassem a paz e perturbassem meu sono.
A gente que se apega demais simplesmente vira um ser vivo especializado em monomania. Esse sentimento, que já virou música a torto e a direito, traz uma verdade dura demais para alguns encararem e aceitarem como a sua. Em qualquer pesquisa rápida, em um “ok Google” displicente procurando por “definição de monomania” a explicação que encontramos não é nada bonita e sequer romântica: substantivo feminino. 1. Alienação mental em que uma única ideia parece absorver todas as faculdades mentais do indivíduo. 2. Forma de loucura em que um único pensamento ou ideia absorve a mente do indivíduo. 3. Por extensão: paixão, ideia fixa, mania exclusiva, obcecação.
Essas explicações fazem a gente repensar muitas vezes se queremos estar ligados com a ideia de paixão que encontramos em todo canto. Todo verso de canção ou poesia consegue mascarar muito bem essa sensação de que estar apaixonado pode ser algo tão perigoso e doentio. Pode até parecer, mas não é deslumbrante ficar com alguém na sua cabeça e não conseguir deixar que outras coisas ocupem seu tempo ou sua disposição.
O problema é que pode ser tarde demais quando você percebe que aquele sentimento começa a te causar muito mais mal do que bem. Pode ser ainda mais tarde compreender que talvez isso tudo seja muito mais culpa sua do que de qualquer outra pessoa. Afinal de contas, você se permitiu andar por um caminho cheio de cores enganosas e aromas conquistadores.
Até que ponto nossa paixão por alguém é despertada pelo que sentimos e pelo que o outro nos faz sentir? Quando nosso coração é roubado por aquela pessoa especial, não era o caso de termos sido mais conscientes com a segurança que colocamos em volta de nós mesmos? Confiar que alguém vai cuidar de você não é supor do outro uma ação que você não tem certeza de que ele pode, ou mesmo quer, cumprir?
Um copo de cerveja ou uma taça de vinho não parecem muita coisa para ajudar a compreender todas as dúvidas que cresciam dentro de mim. Eu não sou uma pessoa que bebe muito. Claro, já tive meus momentos de beber até esquecer, involuntariamente, e ainda não consigo tomar catuaba porque a memória do meu estômago é ainda melhor que a do meu cérebro e faz todas minhas entranhas se contorcerem apenas pelo cheiro dessa bebida em particular. Tudo porque uma vez ingeri uma quantidade razoável, sem comer nada e fiquei dançando exaustivamente, dentro da minha própria casa. Fraco, coloquei tudo pra fora e a gosma preta arroxeada que saiu de mim me deixou uma marca profunda.
Quando minha embriaguez é causada pela vodka fico sonolento e um pouco triste; quando a culpada é a cerveja, desatino a falar e meu sarcasmo aumenta de nível - a não ser que seja uma cerveja específica, uma que me deixa extremamente chato; já cachaça - e não pinga, muito menos aguardente - me coloca alegre e com o corpo meio mole. De qualquer modo, nunca consegui afogar as mágoas em nenhuma bebida. Confesso que algumas vezes já quis fazer isso. Há tantas cenas por aí sobre esse tema que eu não consigo me relacionar. E esse é o problema.
Todos nós, em algum momento, vamos romantizar aquilo que outras pessoas já fizeram. Aquele sentimento causado quando vemos um personagem dizer para o outro que ele é bonito quando chora. Isso não existe. Sofrimento nenhum deve receber uma camada de romance, porque nada disso é bonito. Não é porque cantam ou atuam por aí que se apaixonar é árduo e vale a pena no final, que devemos comprar essa ideia. Enxergar a dor como algo belo só nos leva para longe daquilo que temos que fazer desde nosso primeiro contato com ela: enfrentá-la.
This is the way you left me / I'm not pretending / No hope, no love, no glory / No happy ending (MIKA, Happy Ending)
O que estava escrito na carta: "Às vezes me sinto numb. É assim que se percebe que as coisas estão mudando? 10/12".
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Dormência é uma sensação muito estranha. Para começar, já é um pouco incomum chamar dormência de sensação, sendo que ela, justamente, é a falta disso. Lembro que a primeira vez que tomei uma anestesia local foi um grande momento da minha infância. Eu iria colocar aparelho ortodôntico, mas meus dentes de leite ainda estavam firmes e fortes dentro da minha boca. Ao menos os últimos, aqueles que ficam no fundo, os molares. Todos os outros - centrais, laterais, caninos e pré-molares - já haviam entendido que o tempo deles na Terra estava esgotado e tinham se bambeado para fora de mim. Menos os molares.
Por isso, foi necessário que eu fizesse extração deles de uma maneira manual e sem esperar eles ficarem moles. Meu dentista, então, aplicou uma anestesia local e alguns dos meus últimos dentes de leite tinham sido finalmente removidos e dado espaço para os eternos dentes permanentes. Fui para a casa com parte da boca dormente e assim que entrei no carro do meu pai, comecei a morder a parte externa da pele que ainda estava sob o efeito da anestesia. Minha irmã avisou:
_ Não fica mordendo, Mauro, que quando acabar a anestesia essa parte que você mordeu vai estar bastante dolorida.
_ É sério!? - perguntei, um pouco assustado.
_ Sim. E você já vai sentir dor porque o dentista arrancou seu dente. Então é melhor não ficar mordendo. - completou minha mãe.
O problema era que tão bom morder aquele pedaço da minha boca que não me causava dor. Ignorei os avisos e continuei ali, me mastigando, mas fora do campo de visão da minha família. Quase um auto-Hannibal Lecter. Então fui para uma parte da casa que ficava bem abaixo da sala de estar brincar de bola.
Era tão óbvio que eu estava ali por outro motivo - no caso, me morder -, porque eu nunca encostava naquela bola que meu pai havia me dado. Porém, o objeto me deu uma ideia: eu o chutaria na parede e quanto mais forte conseguisse chutar, mais forte eu morderia minha boca. Fiquei nisso por vários minutos. A bola era semi-profissional e feita de uma material tão resistente que eu conseguia chutar com bastante força para que ela fizesse cada vez mais barulho ao atingir a parede.
Durante a brincadeira houve um momento que mordi minha boca tão forte que juro que senti os meus dentes de cima se atritarem com os de baixo. Daí parei e pensei que não valia a pena continuar com aquilo. E se eu mordesse minha boca tão forte que meus dentes rasgassem a pele? Até hoje não sei se isso é possível - provavelmente sim, o corpo humano é um mistério -, mas por via das dúvidas, parei de me morder. Fiquei algum tempo ainda pensando se eu realmente sentiria alguma dor depois de tantas mordidas, mas à medida que a anestesia passava, eu não sentia nenhuma dor naquela região que mastiguei por minutos a fio. Pode ter sido o remédio que tomei para que a dor da extração não fosse forte, mas de qualquer maneira, mesmo com dúvida, confesso que faria de novo.
Após esse episódio outros dentes molares meus foram extraídos e eu sempre mordia a boca anestesiada. Eu gostava daquela história de ficar com parte do meu corpo dormente. Sempre amei aqueles acessos de formigamento na mão e no pé, por exemplo. Me sinto com alguma parte robótica acoplada ao corpo, como se eletricidade estivesse passando por ali para equilibrar os sistemas que comandam aquelas partes. Sempre que me acontecia isso na infância minha irmã já ordenava:
_ Bate o pé no chão, anda! Bate o pé pra passar o formigamento!
_ Mas eu gosto quando formiga.
_ Você gosta?! - ela perguntava, sempre incrédula.
_ Gosto. - respondia, com um sorriso no rosto.
Aparentemente não era algo para se ter gosto. Mas já estava determinado esse prazer por dormência em geral. Somente uma me incomoda, mais ou menos: aquela que aparece quando você tem um mundo de coisas para resolver mas não sabe nem por onde começar. Ela te deixa em um estado inerte e te afunda num ócio que não tem previsão de acabar. Essa dormência é péssima. Comecei a admirar ainda mais o estado de dormência quando consegui aplicar essa ideia aos meus sentimentos.
Quando estou triste demais é péssimo o desespero que sinto porque não tenho controle total das minhas lágrimas. Quando estou feliz demais sempre duvido da situação e tenho certeza de que algo muito ruim está prestes a cair sobre mim. Então por muitas vezes eu prefiro estar dormente. Na verdade, o que eu prefiro mesmo é estar um pouquinho feliz: não muito para que não possa ser arruinado e nem pouco demais para que a tristeza tome conta. Esse pouquinho te faz tratar as adversidades do dia com leveza, mas ainda te mantém ciente de que as coisas não estão da melhor maneira possível. Mas quando não tem jeito de ficar um pouquinho feliz, dormente sempre serve.
Estar dormente é se sentir neutro perante o que acontece em volta. Penso que é como olhar as coisas da forma como elas se apresentam e pronto. Sem caçar mais do que está na nossa frente. Sentir uma dormência de sentimentos não é não-sentir os sentimentos. Isso tem outro nome e não é nada bom. Quando você está dormente as coisas simplesmente não te desequilibram. Você escuta uma música dançante porque ela te causa sensações boas, mas não é compelido a dançar no meio da calçada. Você recebe alguma crítica negativa e só pensa em maneiras de não errar novamente, sem sentir seu trabalho atacado de alguma forma.
Em uma das primeiras vezes que conversei com o Menino das Cartas quis mostrar para ele um texto que estava redigindo para um revista digital. “Em/pa/tia” era um conto mórbido sobre uma pessoa que não entende muito bem o que é o sentimento do título. Na verdade ela até entende, mas se força a fingir que não se interessa com o mundo que a rodeia só para demonstrar de maneira trágica, ao final do conto, o quanto ela se importa com o peso da existência dela e das outras pessoas. O texto ainda passaria por alguma revisões e antes mesmo de eu enviar para o responsável pela revista, mostrei o conteúdo para algumas poucas pessoas darem pitacos. Eu havia conhecido o Menino das Cartas há pouco tempo, mas me senti muito seguro em pedir a opinião dele. Assim que acabou de ler, ele me disse:
_ Gostei bastante. Você escreve bem. E eu me vi muito nesse personagem.
Eu deveria ter ficado bastante preocupado porque a vida daquele protagonista não era nada feliz. Perguntei:
_ Sério? Mas você se sente assim ainda?
_ Hoje não. Hoje menos. Mas eu era muito parecido com o que você escreveu.
Talvez tivesse sido um sinal de que algumas pessoas levam a dormência de sentimentos para um lugar que eu ainda não sabia como lidar. Talvez eu devesse ter ficado mais atento aos pequenos e fracos sinais de alerta que apitavam bem baixo lá no fundo de mim. O problema é que acho que naquele pouco tempo de conversa eu já era uma pessoa apaixonada. Não deveria ter sido tão rápido.
Depois de meses dessa conversa, em dezembro daquele mesmo ano, era eu quem começava a sentir uma dormência parecida. Eu perdia a vontade de tentar qualquer coisa que tivesse relação com amor ou qualquer um desses sentimentos marcantes. Quando Pedro, que tirou a foto sobre o décimo oitavo post-it que colei nas cartas de baralho, me enviou a imagem dele, eu vi ali uma dormência que se mistura e embranquece a ponto de se confundir com os fundos que nos cercam.
Depois de tantos post-its e cartas de baralho, com a proximidade do final do ano, eu começava a ter vontade de não sentir nada. Eu não tinha certeza se as coisas estavam melhorando e isso me matava um pouco por dentro. Eu só queria passar pela vida. E desaparecer.