✗。º◂—— Amor. É o nível ou grau de responsabilidade, utilidade e prazer com que lidamos com as coisas e pessoas que conhecemos. Uma das muitas palavras que continua a mesma do latim para o português, e uma das únicas com um só significado em todo o mundo. O amor é o principal objeto de desejo de garotas e garotos que lutam desesperadamente para sentir um pouquinho da deliciosa perversão restrita à sortudos do mundo. Ou nem tão sortudos assim. O amor também é o grande causador do ódio, da dor, da desilusão e algumas vezes até de guerras. Amor é algo que doí e machuca como nada mais pode fazer. Dizem que o amor e a morte são parecidos, mas às vezes a morte pode ser doce… Já o amor é feito para apenas ser cruel e frio, como uma lâmina afiada entrando no seu coração e ficando por lá por dias, semanas, meses, anos… Até que um dia você para de senti-la e começa a se conformar com ela, encontrar conforto, se acomodar.
Não era por amor que Kyle havia escolhido a Corte de Luz — talvez tenha sido até mesmo por obrigação. Tendo sido criado em um lar aonde existiam muitas pessoas para amar, aprendeu a não deixar mais ninguém entrar, aprendeu que as coisas não são exatamente como nos contos de fadas e quanto mais pessoas você ama mais fácil é de ser derrubado. Privou-se de deixar outros entrarem, construiu uma barreira impermeável e impediu que retirassem suas camadas de proteção. Apenas sua família o conhecia como ele realmente era. Vivenciou então, a queda quando os pais se foram, o ápice de sua indiferença e barreira emocional sendo criados naquele instante. Era independente, autossuficiente. Não precisava de uma companheira ao seu lado naquele momento. Mas, oras, todos os seus amigos compareciam aos eventos acompanhados e alguns lhe atormentavam com questões sobre quando se casaria ou se as mulheres não o atraíam. Era um ultraje, e aquilo serviu como motivação para seguir para em direção à Adoria.
Uma mulher que sorrisse e acenasse, que o acompanhasse e fosse perfeita quando ao seu lado. Era o que queria, e se bem conhecia o local sabia que ali a encontraria. Quando recebeu os formulários das garotas em seu primeiro dia em Wisteria Hollow, escolheu de forma racional aquelas que desejava conhecer. Havia há muito definido o padrão de esposa que desejava ter ao seu lado, e por mais simples que parecessem as respostas, foram o suficiente para que através delas Kyle identificasse aquelas que se encaixavam nos requisitos e quais seriam perda de tempo conhecer. Àquela altura, Laoghaire Byrne e seu formulário com teor aventureiro e selvagem foram alocados na categoria perda de tempo. Pelas respostas a julgara como uma moçoila, e precisava de uma mulher mais séria, objetiva, adaptável, madura e responsável ao seu lado. No momento passado não era capaz de prever, contudo, que seriam justamente os trejeitos espontâneos de Byrne que o fariam abaixar as barreiras e deixá-la entrar — fato inédito em sua vida, afinal, muito embora gostasse da ideia do amor, evitava vivê-lo e isso implicava em deixar terceiros de fora de sua fortaleza.
Com o perfil ideal em mente, mesmo antes de as conhecer pessoalmente, deixou claro aos organizadores por quais tinha preferência — queria ser rápido e voltar o quanto antes para Ícoris, afinal, tinha assuntos importantes para tratar por lá, não que seu próprio casamento não fosse importante para o embaixador. Acordado então com os irmãos Thron, e definido que poderia desembolsar além do preço da joia em determinadas situações, aguardou o baile para que finalmente as conhecesse. A beleza era algo à se admirar em todas, mas os cabelos ruivos que ofereciam à Laoghaire — àquela altura, apenas a observando, ainda não sabia seu nome — uma visão selvagem, lhe chamaram a atenção. Uma dança e boa conversa, foi o que pedira a garota, que com sua simplicidade o fez se tornar mais falante do que normalmente era. Ao descobrir se tratar da jade, contudo, aquela que dizia adorar a obra As viagens de Gulliver em seu formulário, decidiu que não estava interessado. Mas, bem, não deveria ser inocente à ponto de pensar que uma decisão era o suficiente. Sentado na escrivaninha de seu quarto, tendo a vista da lua à sua frente, escreveu a primeira carta.
Viu-se boicotado por si mesmo ao requisitá-la para um momento à sós. Não tocava desde a morte de sua mãe, e por algum motivo que lhe fugia da lógica, o fez acompanhado por ela. Ainda assim, insistia para si mesmo que não era nada demais. Não seria ele capaz de desenvolver sentimentos por uma criatura como ela, ou como qualquer outra. Tinha plena consciência de quão frio aquele pensamento poderia parecer aos olhos e mente daqueles que tinham sido programados e moldados para achar o amor a coisa mais pura e boa do mundo, mas todo o resto da sua vida parecia viver em chamas. Ele deveria e iria proteger seu coração da sensação de ardor descrita por tantos apaixonados, mesmo que o fizesse de forma inconsciente. Todo dia pensava sobre novos jeitos de afastar-se emocionalmente daqueles que o rodeavam, alguns era fácil, outros não. Laoghaire deveria ser uma das fáceis de se afastar, mas o encontro posterior, na feira de artesanato provou para ele que estava enganado. E mais duas cartas foram escritas.
Ela não era o tipo de garota com a qual se envolvia, e mesmo assim ele se viu afetado. Ela o instigava a ser alguém que usualmente não era, a ser alguém melhor. Ademais, algo na ruiva despertava essa vontade de dar atenção, de interagir e principalmente de provocar. Naquela tarde fizera uma confissão que o acompanhou pelos dias seguintes: Passei muito tempo em sua terra, e só lamento não tê-la encontrado lá, antes de tudo. O que diabos aquilo queria dizer? Que se afeiçoava pela dona dos olhos verdes que insistiam em aparecer em seus sonhos? Não poderia pressagiar que aquilo aconteceria consigo, e só pensava nos amigos dizendo que foi em busca de uma noiva e encontrou um amor. Imaginar que sentia-se enfeitiçado pela ruiva, contudo, o fizera recorrer à mais encontros com as outras garotas. Não era isso o que procurava ali, e embora fosse considerado uma dádiva por muitos, a possibilidade de ter sentimentos pela garota assustava Kyle.
Para tirar a prova em relação à sentir ou não algo por ela, convidou Laoghaire para um tempo sozinhos no baile seguinte. No vento frio da beirada do lago e abaixo da chuva de fogos, fizera confissões que evitava fazer à si mesmo. E sentiu-se bem com isso, em deixar a Byrne ciente de si. Revelar à ela seu maior medo era a maior prova de que ela havia o conquistado. Talvez, contudo, fosse tarde demais para realizar a descoberta. Contar então... não havia momento menos propício. E mesmo assim, despejou o que sentia sobre ela. Não importava ser correspondido, por mais que a ideia de rejeição o deixasse preparado para se fechar novamente. Aquelas paredes deveriam se manter erguida, e ele estava muito bem sucedido em sua tarefa. Isso até a moherniana chegar, e sem querer, derrubar tudo o que ele lutou anos para erguer. Com a invasão sem aviso prévio da outra, Kyle encontrou-se fadado à sentir.