Trecho do capítulo “Arrebatamento”, p. 45.
Comprei e li esse livro no ano passado; já estou relendo. Se tornou um dos favoritos da vida.
O que mais me chama atenção nessa ideia do Barthes é a curiosidade que ela desperta em mim. Se o amor começa por um quadro — uma imagem, uma cena, uma forma singular de aparição — então eu me pergunto qual seria o meu quadro para alguém, como eu surgiria no olhar de outra pessoa. Em que momento eu deixaria de ser apenas mais uma no fluxo comum do mundo para me tornar uma presença excepcional. E acho fascinante pensar nisso: que aquilo que alguém guarda de nós não é quem somos por inteiro, mas um instante. No fundo, o que Barthes nos mostra é que o amor à primeira vista opera por esse tipo de fetichização estética; para que alguém se apaixone instantaneamente, é preciso que nos recorte do mundo real e nos transforme em um quadro — seja através de uma imagem ou de uma frase marcante — para então consumir esse nosso recorte por inteiro, e de uma só vez.

















