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James Franco
Sam Weir <3
Meu amigo e eu costumávamos conversar tarde da noite trocando reflexões, experiências bobas e medos da vida que todo adolescente tem, é normal. Compartilhávamos vídeos e músicas, discutindo sobre seus sons e significados e, numa dessas, acabamos pairando sob uma das minhas canções favoritas: Por Enquanto. Apesar de ter sido composta e gravada originalmente pelo Legião Urbana, eu falo da versão interpretada pela Cássia Eller, mais especificamente, a gravada para o disco "Cássia Eller – Ao Vivo" de 1996.
Nessa performance, Cássia inicia com uma música incidental, "I've Got A Feeling" dos Beatles, vocalizando perfeitamente no seu timbre os versos iniciais. E então, após alguns segundos do toque suave e familiar do violão, começa...
Mudaram as estações
Nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
'Tá tudo assim
Tão diferente
Ouvir essas estrofes pela primeira vez foi como se finalmente tivessem encapsulado o sentimento de fazer quinze anos e, logo em seguida, tudo no universo observável se tornar um borrão; as lembranças se confundem, os sentimentos se esvaiem, a escola perde a importância e há uma ameaça iminente batendo em sua porta. A chuva caiu e liquidou a poeira do asfalto transformando-a em líquido, depois, em lama e, então, quando o sol surge, transmuta-se em pó novamente. Os mesmos dias dos mesmos meses em anos diferentes começam a se repetir e tudo se torna tão consciente.
A contradição da primeira estrofe está nesse fato, as estações realmente mudaram e, mesmo assim, nada mudou. E o mundo continua o mesmo, nós continuamos os mesmo já que o sistema não mudou, e mesmo assim, tantas coisas aconteceram e tudo está assim, tão diferente.
Mas isso é óbvio.
No entanto, é reconfortante ouvir alguém falando algo tão certo e tão paradoxal ao mesmo tempo, principalmente em um época onde a juventude melancólica compartilha desses exatos mesmos traços.
Se lembra quando a gente
Chegou um dia a acreditar
Que tudo era 'pra sempre
Sem saber
Que o "'pra sempre"
Sempre acaba
É com a sutileza dessas palavras que a música penetra no ser; "que seja infinito enquanto dure", tudo que permeia a mente são fantasias onde nada nunca acaba. Mas nós sempre sabemos.
Às vezes, você acorda e encontra-se deitado tentando absorver o peso das dificuldades sob os ombros; você olha para o teto e começa a ver as rachaduras que não estavam ali antes, percebe a distância, antes inexistente, mas que agora é preenchida só pela saudade, restos de amor repicados derramados no chão, que ninguém nunca voltou para buscar. Talvez seja mais doloroso quando não há motivo; quando há ferimentos, talvez seja mais fácil olhar para todo o afeto guardado para alguém nos armários e saber que não há merecedores daquilo, é mais fácil destiná-lo a outro lugar. Mas quando um para sempre simplesmente acaba, quando não há motivos, nem muitas mágoas ou decepções, simplesmente olha-se para cômodas inundadas de um amor que não se pode mais dar; e não se sabe o que fazer com ele.
A lindeza também está em como toda a música é cantada nesse tom de aceitação. Na voz de Cássia, não parece haver pesar ou arrependimento; encontra-se, na verdade, uma miúda e tímida aceitação que vai se firmando ao longo da música. É perceptível que o eu-lírico já derramou sua lágrimas e enxugou suas mágoas por que ele agora canta sobre algo que sabe que é inevitável.
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí, então, estamos bem
E tem vezes em que você está rindo, está andando, está perto daquelas pessoas e, de repente, o momento para um pouco. Você é atingido por aquela súbita percepção de que um dia irá sentir tanta falta daquilo. Tanto sentimento que seu peito começa a doer de antecipação. E mais rápido o tempo passa, já não há mais lembranças dos intervalos, dos pequenos instantes, tardes inteiras são engolidas pelas memórias; so há um vão entre aquilo que realmente foi e aquilo que sobra na mente. E são nesses restos que nós pensamos pelo resto dos dias.
Mesmo com tantos motivos
'Pra deixar tudo como está
Nem desistir, nem tentar
Agora, tanto faz
Estamos indo de volta 'pra casa
A casa, é claro, pode ser várias coisas. Talvez seja o nosso ser, talvez um conforto que deixamos para trás, uma idealização nostálgica ou a aceitação (como mencionei anteriormente, a música é um estágio final) de que as coisas do jeito que são. Não há nada o que fazer com todos esses motivos que não rodeiam, eles não servem nem mesmo para serem jogados no lixo, no final, tanto faz. Essas coisas não nos pertencem mais.
"Por Enquanto" é uma música pequena, utiliza de quatro estrofes que são repetidas apenas duas vezes, totalizando uma encenação de no máximo 4 minutos que parecem resumir e externar fielmente a sensação de deixar as coisas para trás; quando deixamos elas irem mas não olhamos para frente, nossos corpos estão na pausa da metade de um círculo, onde não se sabe se olhamos para o passado ou para o futuro, então apenas fitamos o chão.
A interpretação de Cássia é quase como um espelho, todos os versos são refletidos uns nos outros e a música termina da mesma forma que começa, a não ser pelo fato de que, ao recantar os versos de "I've Got A Feeling", há uma nova felicidade na voz, algo que parece ter sido catado pelo caminho, encontrado apenas no meio da melodia. A aceitação que permeia as notas dá espaço à esperança nos últimos segundos.
Acredito que, no fim, seja isso que me encanta tanto sobre a música. Quando o para sempre acaba, tudo o que posso carregar comigo é a esperança que derrama dos meus braços e pinga pelo chão, enquanto eu tento não olhar para trás.
🙄👆🏽Maicon vai varrer seu quarto. Primeiro ele senta,medita,faz ioga... até descidir se vai varrer ainda hoje😤😠😏 @maicok_ "Mães de adolescentes me entendem" #sermaee #faxina #filhos #aborrecentes #ajapaciencia https://www.instagram.com/p/BuO9DainA2H/?utm_source=ig_tumblr_share&igshid=183bziz0mm17e