As Crônicas de Kat - Réquiem: Primeiro pov
Eu tenho uma pequena história (coisa boba) que eu posto no Quebrei a máquina de escrever chamada As Crônicas de Kat. Os primeiros 8 capítulos estão disponíveis no blog e a segunda fase da história começa no dia 28 de agosto, às 21 horas, lá no blog. Como parte da divulgação antes do lançamento, eu decidi postar o primeiro pov do capítulo 1 da segunda fase, Réquiem, aqui. Se você não conhece a história e prefere não receber spoilers, pode ler os primeiros capítulos, na página oficial da história no blog.
“Nós somos, afinal, monstros com um cérebro humano e um coração humano.”
- Lestat (Anne Rice’s Lestat Here)
São Francisco, Estados Unidos
1º de novembro de 2014
Olívia
A sineta da porta atrai minha atenção completamente. O som é quase imperceptível no meio da confusão de vozes da lanchonete, mas parece soar dentro da minha cabeça, como um grito em meu ouvido. Eu viro meu rosto para o som tão rápido que consigo ver o badalo atingindo o outro lado do sino e fazendo outro som estridente. Acho que eu nunca conseguirei me acostumar aos sentidos vampíricos.
Kat ri do bigode de chocolate de Ellie, mas antes que eu possa me virar para elas, eu percebo quem acabou de entrar. Juliana, Miranda, Charlottie, Sophie, Valentina, Anika, Louise, Naomi, Kaylee, Tatiana, nessa ordem, entram na lanchonete caladas, sérias e carregando suas pedras nos pescoços. Toco minha própria pedra de ônix, como sempre faço quando me sinto intimidada. O que acontece sempre que o Exército está completo.
- Não seja ridícula. – Sophie diz, quando chega à mesa e vê Ellie fazendo careta enquanto tenta apagar o bigode.
Sou cutucada pela unha de Naomi e abro espaço no banco para que ela, Sophie e as gêmeas se sentem. Outras três – Anika, Louise e Charlottie - se sentam com Ellie e Kat. Tatiana, Juliana e Kaylee colocam cadeiras em volta da mesa. Esse arranjo me deixa meio claustrofóbica.
- Sério, Ellie, pare de sorrir. – Anika reclama - Isso é assustador.
- Desculpe. – Ellie diz, tirando o sorriso do rosto, que continua nos olhos – Acho que estou num bom dia.
- O que, naturalmente, é um motivo para que todas nós estejamos em um péssimo dia. – Louise diz, apertando os olhos.
Ellie a encara, o olhar tomando uma expressão fria que faz com que seus olhos pareçam um caleidoscópio e a mesa inteira explode em uma gargalhada. Exceto por Ellie... E por mim.
- Bem... – Kat começa depois de um tempo. – Comecemos do princípio. - Coloca as mãos na bolsa e tira um pequeno pacote em papel de presente vermelho de dentro – Feliz aniversário atrasado, Tatiana.
Os olhos escuros da vampira faíscam e ela estica a mão até o embrulho. Kat tira outro embrulho parecido, porém cor-de-rosa, da bolsa e faz deslizar até o outro lado da mesa.
-...E feliz aniversário adiantado, Louise.
Eu sei que são pulseiras de prata com os sobrenomes delas gravados, mas sou a única que sabe disso. Kat parece estar me levando para todos os lugares ultimamente, o que provavelmente tem um motivo, como tudo que Kat faz.
Sinto um chute no joelho e percebo que é Ellie me encarando, com uma espécie de felicidade zombeteira no olhar. Ela apenas está me enchendo por estar nervosa na frente das minhas “irmãs” outra vez. Ela prefere passar tempo comigo quando está de bom humor. Sou a única que nunca conheceu a “velha Ellie” para sentir falta dela.
- Então... – Ellie diz, séria outra vez - Sem mais protelar o assunto, o que nós todas estamos fazendo mesmo que jamais admitamos isso, quando vamos começar a procurar o clã de Deyah?
- Será que dá para não dizer esse nome na minha frente?
Me encolho quando ouço essa voz, que chega de repente. Pierre sempre me causa arrepios.
- Você nem deveria estar aqui, Pierre. – Kat diz, com um olhar suave na direção dele. Que, por sinal, é bem atrás de mim.
- Não é minha culpa se o feitiço de Sophie é de duas vias e me diz onde ela está além de dizer a ela onde eu estou. – Ele resmunga enquanto pega outra cadeira e coloca junto às três que já estão na ponta da mesa. – Eu estava entediado, e como estou ligado a vocês, não é justo que se divirtam sem mim, certo?
Quando ele se senta, eu preciso olhar pela janela ao meu lado para não ficar sem fôlego. Não que eu precise respirar, ou seja realmente claustrofóbica; mas estar na mesma mesa com 13 outras pessoas faz com que algo em meu corpo peça socorro. Principalmente se duas e meia delas tem sangue humano nas veias.
- Respondendo à pergunta de Ellie: nós vamos procurar a família de Anika, assim que sua alma estiver completamente em seu poder. - Kat diz, com cuidado - Não há porque ter pressa agora. Nós já somos treze.
- Somos?
Levo um tempo para perceber que a pergunta veio de mim. Todos os outros olhos se viram para mim e eu me encolho.
- Claro, Olívia. – Kat diz - Resta alguma dúvida sobre isso?
- Eu só achei que ainda tivesse em probation.
- Garooota, é muito estranho quando você fala latim. – Valentina diz, revirando os olhos.
- Acho mais estranho quando ela fala português. – Miranda solta. - Que no caso é uma versão supercomplexa do latim.
- Vocês falam como se sérvio fosse uma língua simples. – Rebato.
As gêmeas sorriem para mim e eu me sinto agradecida. Mas claro, o resto da mesa ainda está focada na minha dúvida.
- Você não se sente como parte de nós, Olívia? – Sophie pergunta.
Acho que ela está fazendo um daqueles feitiços que servem para descobrir se estou mentindo ou não, mas não tenho certeza. Na dúvida, digo a verdade:
- Só não sei se já tenho com vocês o que vocês têm umas com as outras.
A mesa parece ser tomada de condescendência. O que vindo de vampiras, é quase compaixão. Que para vampiras, é um dos sentimentos mais desprezíveis.
- Só faz um ano e meio, Liv. – Kaylee diz. – O que nós temos foi construído com anos e com muitos problemas.
- Nós já confiamos nossa vida a você, ou você não estaria aqui. – Naomi continua, calma.
- Vamos provar. - Louise diz, terminando de prender a pulseira “Delacrois” no pulso alvo. – Eu encarrego você de organizar meu grande massacre de aniversário. E faça grande, estamos deixando São Francisco logo depois.
- Quem decidiu isso? – Sophie interrompe antes que eu possa dizer algo sobre a incumbência.
- Antes de começar seu discurso... - Kat diz, cruzando as pernas uma sobre a outra - Saiba que iremos para Nova Orleans.
Os olhos de Sophie brilham com a expectativa.
- Já é seguro?
- Desde que a gente não faça nenhum alarde sobre nossa chegada...
Ninguém diz mais nada, mas a mesa parece vibrar com a alegria que toma conta das garotas. Pierre, entediado, pega o cardápio e o encara por alguns minutos, depois, de forma estranha, desliza o cardápio no canto da mão... No que eu percebo tarde demais ser o prelúdio de uma brincadeira que ele chama de “advinha quem está com sede agora?”. Infelizmente, dessa vez, quem está com sede sou eu.
O chiado escapa dos meus lábios antes que eu possa controlar e como o Exército inteiro sabe o que ele significa todas olham para mim outra vez.
- Eu disse que você deveria ter ido ontem. - Tatiana reclama, franzindo as sobrancelhas.
- Eu não sei, eu realmente não estava no clima de invadir uma festa de adolescentes do ensino médio. A música alta.
- Certo. No seu aniversário nós invadimos um concerto de violinos. - Anika diz prendendo uma risadinha. Odeio quando meu gosto musical entra em pauta.
- Até lá, você vai precisar ser menos seletiva no que diz respeito a sua alimentação. - Sophie completa - Precisamos ficar fortes.
Fácil falar quando você não precisa fazer nada além de dormir para recuperar suas forças.
- Ok, eu vou parar com as exigências. - Digo. - Enquanto isso, alguém aí teria...?
Uma bolsa de sangue é atirada por Kaylee na mesa sem a menor cerimônia. Eu a alcanço e roubo a xícara de Ellie para enchê-la de sangue.
Essas são as novas regras no Exército, definidas depois que eu entrei no grupo: bolsas de sangue em dias normais, sangue direto da fonte em datas comemorativas, como aniversários. Nenhum assassinato a menos que fosse extremamente necessário ou muito seguro. Somos treze agora e não queremos correr o risco de ver esse número diminuir, por isso fazemos o máximo de esforço para não chamar atenção para nós. De vez em quando encontramos doadores e podemos aproveitar um pouco mais de sangue quente, mas eu já me acostumei ao sabor meio plastificado do sangue da bolsa que Sophie e Ellie trazem do hospital no qual trabalham como auxiliares. Sophie não precisa de sangue e Ellie precisa de sangue cada vez menos, então foram a melhor escolha para este trabalho.
- Nova Orleans significa doadores e nós bem longe daquele hospital. - Sophie diz erguendo a mão para compartilhar um highfive com Ellie - Eu sinto como se aquele cheiro nunca saísse de mim, mesmo depois de horas de banhos de banheira.
- Sei o que você quer dizer... - Ellie murmura. Seu olhar está estranhamente fora de foco, mas eu sou a única não animada o suficiente para perceber isso.
- Eu sou o único que não vê tantas vantagens assim em Nova Orleans? - Pierre pergunta.
- Sim. - Respondem todas ao mesmo tempo me fazendo rir enquanto bebo o sangue, criado bolhas que sujam meu nariz.
Pierre revira os olhos.
- Qual é, garotas? Aquela cidade é uma loucura. Tem bruxas em todos os cantos e até mesmo demônios vieram conversar conosco da última vez que estivemos lá.
- Você está com medo? - Juliana zomba.
- Vão dizer que vocês realmente quereriam perder a presença de espírito desse grupo para o Inferno? - Pierre pergunta, provocando.
- Se isso adiar a guerra por mais algumas décadas - Ellie diz, com sua voz gelada - Eu acho uma barganha aceitável.
- Infelizmente, - Tatiana diz, completando. - Você é mais uma devolução do que uma troca, vovô. Não tem valor comercial algum.
A mesa inteira cai na gargalhada, mas eu consigo ver a troca de olhares entre Tatiana e Pierre que confirma o que Sophie e Charlottie insinuaram para mim há umas duas semanas. Primeiro, eu fiquei chocada. Quer dizer, Pierre é tipo o bisavô de Tatiana... É uma situação extremamente bizarra e incestuosa, creio eu, apesar de não haver precedentes... Que eu saiba. Naturalmente, quando eu disse isso em voz alta as irmãs Hass me encararam por um minuto e meio até que eu me desse conta de que Sophie era fruto de um incesto. Eu gaguejei por alguns segundos até que as duas caíram na gargalhada e disseram que entendiam que incesto de bisavô com bisneta era muito mais bizarro que entre dois irmãos, mas eu não devia me preocupar, até porque Tatiana não podia se apaixonar e Pierre sempre teve uma queda idiota por...
A chegada da garçonete corta minha linha de pensamentos.
- Posso levar a xícara? - Pergunta, e eu levo um tempo para perceber que era para mim.
- Pode trazer a conta, por favor? - Digo, entregando a xícara para ela.
- Claro. - Ela responde saindo de cena enquanto olha para a mancha vermelha na xícara, surpresa.
- Sophie! - Kaylee reclama, quando a garçonete não pode mais ouvir.
- Desculpe, desculpe, eu esqueci.
Mesmo com todo o barulho dos lugares, sempre - bem, nem sempre, quando Sophie lembra - que vamos para algum lugar público tomamos a precaução de criar uma bolha mágica que impeça os outros de ouvirem nossas conversas que quase sempre envolvem assassinatos, às vezes incluem identidades falsas: invariavelmente o tema é crime e sangue. As bolhas também deveriam impedir pessoas de se aproximarem, a menos que nós queiramos isso.
- Aliás, porque você pediu chocolate? - Sophie pergunta para Ellie.
- Eu gosto de aproveitar os prazeres da vida agora que posso. E isso inclui beber coisas que não tenham gosto de ferro velho. - Apesar de ser alarmante a forma como ela se refere ao sangue, ela diz isso com uma voz sem sentimentos e com o rosto sem a mínima expressão, o que é uma prova do período no qual ela se encontra.
Kat o chama de “dominando os sentimentos antes que eles dominem você”: Ellie já pode comer se quiser, não se cansa com facilidade e sente algumas coisas profundamente, mas consegue matar sem sentir remorso depois. Sophie chama essa fase de “nem lá nem cá”, mas isso é só inveja porque ela nunca pôde aproveitar a transição.
- Ei! - Diz a garçonete voltando de repente - Foi só um chocolate, então é por conta da casa. Voltem sempre.
Levantamos quase em sincronia e saímos da lanchonete atraindo a atenção de algumas mesas para nós. Já está escuro lá fora e uma chuva leve cobre São Francisco. Fecho os olhos e me deixo aproveitar a garoa um pouco. Eu sou encantada pela chuva nessa nova vida, sendo que a odiava antes de morrer. Kat diz que a culpa é da minha transformação, naturalmente.
- Olívia! - Ouço a voz de Ellie me chamar depois de um tempo. Abro os olhos antes que ela complete: - Você não vem?
Suspiro e sigo o grupo de vampiras que hoje chamo de família, até o prédio que continuaremos a chamar de lar pelos próximos 5 dias.
capítulo completo














