You promised the world and I fell for it
I put you first and you adored it
Callidora tinha quatorze quando conheceu Logan, alguns anos mais velho que a semideusa. Recém-chegada no Acampamento Meio-Sangue e brigada com o pai, a loira tinha zero propósitos para o que fazer. Sonhos? Vários, mas ao seu ver era impossível realizá-los após descobrir sua verdadeira identidade. E quando conheceu Logan, o sorriso mais encantador que ela havia visto e com palavras fáceis e promessas, que mais tarde ela descobriria serem falsas.
Quando se deu conta, estava presa em um relacionamento infeliz, com um homem que não a amava de verdade. Não, ele amava seu corpo, o sexo que era magnifico. Mas dizer para uma criança, praticamente, que a amar sóbrio era difícil e ele não sabia como fazê-lo. Mas ele amava as drogas que o sorriso bonito dela conquistava por um preço mais barato. E depois, amou mais ainda quando a filha de Deméter descobriu como criar suas próprias e cultivar as outras.
Naquele momento Calli entendeu que o amor que ela tinha por Logan teria que ser suficiente pelos dois. Mas era difícil lembrar disso quando a mão dele a apertava os pulsos ou chocava-se contra sua face. Quando estavam tão chapados e ele jogava na cara da menina que ela não prestava para nada. Aquilo que era amor? Ela não sabia, não teve os melhores exemplos quando se falava de amor. O pai e a madrasta tinham uma relação complicada e a menina não tivera nenhum namorado na escola, antes de decidir ficar tempo integral no acampamento. Logan era seu primeiro tudo. Inclusive o primeiro que quebrou seu coração.
Set fire to my purpose
And I let it burn
As coisas entre os dois começaram a melhorar, embora seus amigos -Ash e Miles- acreditavam que aquilo não passava de mais uma das artimanhas de Logan, mas ela não ligou. Eles não sabiam do que estavam falando e com a guerra surgindo, Calli queria estar o mais longe dali. Então rapidamente pegou suas sementes modificadas, um pouco de dinheiro e uma muda de roupa. Iria para Nova Iorque com seu grande amor e tudo ficaria bem.
Mas não durou muito, é claro.
As drogas que eles vendiam faziam muito sucesso e Logan começou a pedir por mais, ganancioso só pensava em seu lucro. Depois dizia que compensaria a Fortescue com encontros que ele só pensava em terminar rápido para pularem para o sexo. E quanto mais chapados os dois estivessem, melhor seria a foda. Como sempre.
Não demorou muito para as agressões voltarem a acontecer. Primeiro foi por ciúmes, um cliente havia flertado um pouco com Callidora e a menina, no final de sua adolescência, adorou a atenção que ganhou -ela flertou de volta. Aquilo lhe rendeu um olho roxo e duas costelas fraturadas. E Logan estava chateado com o acontecimento, implorou por perdão. Disse que foi um relapso e que nunca mais faria isso.
Ela acreditou.
I gave my all and they all know it
You turned me down and now it’s showing
Mas como todas as outras promessas, aquela não durou mais do que algumas semanas. Ele achava motivos para descontar todas as frustrações nela. Se as vendas não haviam sido boas naquela semana ou se ele não havia gostado do novo produto que ela havia inventado. Ou se o vestido que ela havia escolhido para ir em uma balada com as amigas fosse curto demais, mesmo que aquilo fosse fazer as vendas melhor.
Quando a decisão de fugir surgiu na cabeça de Callidora, ela não sabia o que fazer. Entrou em pânico. Ela nunca esteve sozinha, não de verdade. Até os onze anos morou sob a proteção dos pais, depois veio o acampamento meio-sangue. E quando estava sem rumo, achou Logan, um príncipe. Só que não. Ela não sabia se conseguiria. E o amava tanto, era difícil respirar sem ele. Ela estava disposta a fazer tudo por ele, mas não aguentava mais sofrer. Não conseguia mais limpar o sangue de seu rosto. Não queria mais ter que sorrir e bancar a boa namorada. Não queria mais nada dele.
Então quando juntou suas coisas no meio da noite, lágrimas caindo de seu rosto, deu o último beijo no rosto de Logan, que a ameaçava aos gritos, ele queria mata-la. ‘Como me matar se eu já estou morta por dentro?’ disse enquanto fechava a porta atrás de si. Demoraria algum tempo até o homem perceber que ela havia o roubado, e quando ele viesse, estaria pronta. Ou não.
This dancing was killing me softly
I needed to hate you to love me, yeah
Não demorou duas semanas para ele a encontrar, em um loft que ela havia alugado no Brooklyn. Após anos no acampamento meio-sangue e no apartamento de Logan, ela já não era mais acostumada com tanto luxo. Quando o filho de Hermes a encontrou, um olhar sombrio marcando seu rosto, Callidora tentou não demonstrar todo o medo que ela sentia. Em seu pescoço descansava uma gargantilha com um pingente de adaga -sua mais nova arma. Logan não estaria preparado para isso, ela havia comprado de um filho de Hefesto depois que ela fugiu do ex-namorado.
Ele não pediu licença ao entrar, empurrando-a para longe da porta. Os punhos fechados e a loira não teve tempo de se defender quando ele a atacou. Um belo soco em seu nariz e sangue já jorrava. ❝ Cadê meu dinheiro? ❞ ele murmurou no pé do ouvido da semideusa, que estava caída no chão. A parte corajosa de Callidora queria gritar que o dinheiro era dela, afinal, ela havia cultivado, criado e montado todas as drogas que eles vendiam, tudo o que Logan fazia era a negociação.
❝ Ora, meu bem. Está pisando nele. ❞ Fortescue usou de toda coragem que tinha para retrucar. Sim, ela havia usado o dinheiro roubado para comprar o apartamento em que pretendia morar enquanto estivesse em Nova Iorque.
Aquela resposta não pareceu agradar o filho de Hermes, que aproveitou a posição que os dois estavam para deferir mais um golpe contra a loira que, pela primeira vez em anos reagiu: usando as pernas, a menina conseguiu o chutar na altura do estômago e o fez cambalear para trás, dando espaço e tempo para a semideusa se colocar de pé. ❝ Sabe, eu nunca entendi como eu deixei você encostar em mim por tanto tempo, eu sou muito melhor do que você em todos os aspectos. ❞ ela disse, tirando o pingente de adaga de seu chocker e girando em suas mãos. Agora quem tinha um sorriso sinistro no rosto era ela.
O outro semideus também estava armado, mas todos sabiam que Logan nunca havia sido o melhor com armas de curto ataque, se ele estivesse com um arco-flecha, ela com certeza estaria morta, mas aparentemente o ex-namorado ainda era burro demais comparado com ela.
Usando o braço direito, fazendo o braço em um movimento de dentro para fora, ele tentou acertar a pele alva da menina com a parte afiada da adaga que ele usava, mas Callidora era mais rápida, conseguiu desviar dele e acertar um chute na parte de trás de seu joelho.
❝ Você ainda não entendeu, Logan. Dessa vez eu não vou deixar você ganhar, nunca mais. ❞ apesar da voz controlada, a menina sentia a garganta queimar -estava a um ponto de chorar ali, mas ela não daria aquela satisfação para ele. ❝ Aproveita o resto de dignidade que você tem e vai embora, me esqueça. ❞, mas como sempre as palavras pareciam causar o efeito contrário, pois ela podia jurar ver fogo nas íris escuras do rapaz. Ódio, ela sentia emanar dele.
A semideusa conseguiu escapar de outro ataque dele, mas o segundo a pegou de surpresa. Ele havia conseguido cravar a adaga na cintura da menina o que a fez emitir um grito de dor. Enquanto ele estava despreparado, retirando a adaga da cintura da filha de Deméter, a menina o deu uma cabeçada e com muita dificuldade se levantou, sentindo toda a raiva e tristeza de todos os anos que passou junto daquele traste.
Com a cabeçada, Logan já estava no chão e isso facilitou a vida de Callidora, que o chutou no estômago O grito dele, pela primeira vez naquela noite, trouxe prazer para a loira. E isso não a impediu de o chutar duas, três e quatro vezes. O rapaz já estava tossindo sangue quando ela desceu no nível dele, deixando seus rostos a centímetros de distância. ❝ Eu disse que você não encostaria em mim novamente. ❞
Em uma última tentativa de dominar a menina, Logan a puxou pelo pulso -a fazendo perder o equilíbrio. Ela não queria estar em uma posição desfavorável novamente, nunca teve uma boa tolerância a dor e sabia que se ele estivesse um pouco mais confortável que ela, iria a dominar novamente. Sem pensar, a semideusa passou a própria adaga no pescoço dele, indo para o lado do rapaz ao invés de ficar em cima do mesmo.
O som dele se engasgando era horrível e finalmente a ficha caiu: Ela havia o matado.
A menina ficou alguns minutos em choque, e ainda estava quando realizou a mensagem de íris para Shinya, pedindo que a encontrasse em seu apartamento. Ele era a única pessoa que ela confiava, sabia que ele não a julgaria por matar Logan, mas ela passaria o resto de sua vida se culpando.
And now the chapter is closed and done
and now it’s goodbye, it’s goodbye for us
AVISO ━ o texto a seguir contém menção de abuso infantil, luta, sangue. ash não teve a melhor infância, então não leia se isso te deixar desconfortável.
Shinya não teve boas memórias de sua infância.
Na verdade, ele não tem boas memórias de quase nada em sua vida.
O mais próximo que o garoto chegou de se sentir feliz nos seus vinte e cinco anos foi quando sua irmã, Ritsu, nasceu, e ele prometeu não só para si mesmo como também para os deuses que iria protege-la com a própria vida se preciso. O pequeno Shinya tinha por volta de quatro anos nessa época, já sendo obrigado pela própria mãe a passar por incansáveis treinos para se tornar um dos guerreiros mais poderosos já nascidos, para ele conseguir destruir o Olimpo do jeito que Lissa havia ordenado. Miru não permitia que Shinya se aproximasse da recém-nascida, dizendo que o garoto precisava focar nos treinos, mas foi em uma tarde fria quando a mãe foi até a cidade que ele desobedeceu às ordens pela primeira vez em sua curta vida e entrou no quarto onde ficava o berço improvisado, tomado pela curiosidade de ver o bebê que chorava sempre durante seus treinos.
Ele não esperava encontrar uma garotinha enrolada em uma manta vermelha lhe encarando. Sentiu seu coração se encher de felicidade pela primeira vez naquele momento, sorrindo enquanto sua irmãzinha brincava com os próprios dedos curiosamente. Ela tinha os mesmos grandes olhos negros de Shinya, e ainda gargalhava despreocupada com sua boca sem dentes ao olhar o mais velho, um som melodioso que ele nunca escutara antes. Ainda era só um bebê, sem ser corrompida pela loucura de Miru Ichinose, e Shinya rezou para que Ritsu continuasse daquele jeito para sempre, rezou para ela poder escapar da vida de dor e loucura que ele precisava enfrentar diariamente. Queria poder ficar ali o resto do dia, aproveitando o momento na companhia da irmã que estava vendo pela primeira vez e do sentimento bom que havia tomado conta de seu coração, mas pôde ouvir os passos pesados da mãe se aproximando do quarto onde estava. Shinya sabia que ela estava com raiva só pelo som dos seus passos atingindo a madeira velha do chão.
“O que está fazendo aí?” a voz de Miru Ichinose dava calafrios no corpo frágil do próprio filho, e ele rapidamente se afastou do berço, escondendo as mãozinhas nas costas e encarando os próprios pés sujos. Seu corpo inteiro tremia de medo do que ela pudesse fazer, podendo sentir o olhar assassino sobre si. “Fique longe dela!” as unhas afiadas da japonesa apertaram o braço do garoto, deixando marcas vermelhas na pele sensível enquanto o puxava para fora do quarto violentamente. “Você não tem permissão para entrar ali. Se quiser ver sua irmã novamente, é melhor começar a me obedecer e levar os treinos a sério, garoto imprestável.” ela gritava, fazendo a cabeça de Shinya latejar de dor e seu braço arder com o aperto. Ele odiava os gritos da mãe, odiava ser tocado por ela e, mais ainda, treinar. Miru o levou para o lado de fora da cabana em que moravam, jogando-o no chão duro sem se importar se o garoto pudesse ou não se machucar na queda. “Pegue a sua espada, agora, e me mostre o que sabe.”
Correu para pegar sua arma de madeira e ficar em posição, encarando a mãe enquanto aguardava o próximo movimento ou ordem dela. Miru sacou uma adaga de sua bota, a lâmina de ferro afiada brilhando friamente na fraca luz do dia, refletindo o olhar assustado de Shinya e o sorriso sinistro de Miru. Ele odiava aquela adaga. “Ataque!” e com a ordem, o garoto de quatro anos levantou sua espada e correu na direção da mulher, tentando acertá-la de alguma maneira, porém Miru foi mais rápida, desviando com facilidade e cortando o braço do próprio filho com sua adaga. Shinya gritou de dor, mas se impediu de chorar por saber que aquilo só alimentaria ainda mais a loucura da mãe. Segurou o choro o máximo que conseguia enquanto seu sangue escorria pelo ferimento e manchava ainda mais suas roupas já sujas. Miru se alimentava da dor e fraqueza do garoto, e ele não queria satisfazer aquele desejo doentio da mais velha em ver seu próprio filho sofrer.
Respirando fundo e usando o resto de suas forças, o garoto atacou novamente, conseguindo desviar da lâmina da mulher com um pouco mais de facilidade. Ele levantou sua espada de madeira com os braços trêmulos, mirando acertar os joelhos da mãe e fazer com que ela perdesse o equilíbrio para, então, colocar a arma contra sua garganta, porém o choro escandaloso de sua irmã chegou aos seus ouvidos e o distraiu, fazendo com que ele não notasse a adaga indo na direção de sua perna, cortando sua coxa com ainda mais profundidade. “Preste mais atenção na luta da próxima vez, idiota.” Shinya caiu de joelhos no chão enquanto a mãe guardava novamente sua arma, indo na direção do choro para ver o que sua filha mais nova queria naquele momento.
Seus ferimentos ardiam enquanto o garoto se arrastava para perto das árvores, encostando-se na sombra de uma e tentando parar o próprio sangramento com suas mãos pequenas e trêmulas. Ele estava distraído, tentando não chorar e ficar atento ao choro da irmã e os passos da mãe ao mesmo tempo, e acabou não notando uma jovem de longos cabelos castanhos encaracolados se aproximar, usando um vestido verde fino e carregando uma cesta com flores.
“Deuses, o que fizeram com você, garotinho?” sua voz era melodiosa e doce, dissipando qualquer medo que o Ichinose sentiu com a súbita aparição da mulher. Ela foi até o garoto rapidamente, ajoelhando-se ao seu lado e revirando sua cesta até encontrar um pano branco macio e um vidro com água cristalina para limpar os ferimentos dele. “Quem foi o monstro que te machucou assim?” queria responder que foi sua própria mãe, mas o medo de Miru escutar e o punir por isso era maior, então apenas ficou em silêncio enquanto a mulher misteriosa limpava o sangue que lentamente estava coagulando, sem falar que, pelo olhar da estranha, Shinya podia sentir que ela já sabia quem havia feito aqueles ferimentos. O garoto observou as ações dela com cuidado, ainda atento a qualquer som vindo do quarto onde sua irmã ainda chorava.
Mais uma vez a morena procurou por algo no meio das flores que carregava, tirando de sua cesta um pequeno frasco de vidro contendo um líquido dourado estranho. Ela destampou o frasco e o levou até os lábios rachados do garoto, que virou o rosto acreditando que aquilo era veneno. “Está tudo bem, querido. Isso ajudará você a melhorar mais rápido.” sua voz calma e carregada de amor o acalmou, e Shinya aceitou beber alguns pequenos goles do líquido estranho. Não tinha gosto de nada, mas ele podia sentir os cortes em seu braço e coxa gradualmente cicatrizando com a ajuda do que quer que aquila bebida fosse e, sem ele saber ainda, das sombras.
“Quem é você?” sua voz saiu baixa e um pouco fraca, já que não estava acostumado a conversar com ninguém. A mulher abriu um sorriso radiante e lindo, que ficou marcado na mente de Shinya até os dias atuais, e tocou seu rosto com delicadeza, deixando ali um carinho inocente. Ele não estava acostumado a receber toques tão gentis como aquele. “Sou uma amiga.” e mesmo que ainda não soubesse o significado daquela palavra, o garoto se sentiu bem e seguro, encarando os brilhantes olhos verdes da morena desconhecida. Olhos esses que Shinya nunca iria se esquecer.
Com o fim do choro de Ritsu e os passos pesados da mãe indo em sua direção, Shinya temeu pela vida da mulher que havia dito ser sua amiga, virando-se assustado em sua direção para alertá-la, só então notando estar sozinho novamente. Só o frasco com o líquido dourado ficou para trás, junto de um bilhete com letras delicadas. Beba um gole sempre que se machucar demais. Ele guardou o frasco no bolso de suas calças largas antes que Miru notasse, levantando-se o mais rápido que conseguiu e pegando a espada de madeira novamente.