“— E eles viveram felizes para sempre. — Disse a mãe da Alice, terminando sua história favorita que se tornara a favorita de sua filha também — Hora de dormir, pequena.
— Mamãe? — Chamou a garota.
— Acha que um dia eu vou achar alguém que nem a Bela achou a Fera? — perguntou, apreensiva.
A mulher deu uma risada, uma risada tão suave quanto uma brisa de verão, que, para Alice, fazia todo o mal do mundo desaparecer.
— Ah meu amor, você é tão nova para pensar nisso.. Um dia, sim, você encontrará alguém, mas por enquanto, não pense nisso. — Enquanto falava, cobria a filha com um edredom.
— Eu e seu pai nos gostamos, Alice, e isso é o suficiente. — Falou, ríspida, mas logo em seguida soltou um longo suspiro e deu o sorriso mais lindo que a criança já tinha visto — Você não precisa seguir meus passos, minha filha, você pode ter alguém ao seu lado que a respeita, que te olhe como se fosse a coisa mais preciosa da terra e que te ame, mas não quero que pense nisso agora, afinal, você tem a vida toda pra achar alguém, mas se lembre que antes de amar outra pessoa, você tem que se amar primeiro, certo?
Ela deu um beijo na testa da menina de 10 anos, colocou o livro na cabeceira e saiu de cima da cama, indo em direção da porta do quarto, mas parou na porta do quarto e fez uma brincadeira que era hábito entre as duas: Soltou um beijo no ar e assoprou, e do outro lado do imenso quarto, Alice fechou a mão no ar, como se pegasse o beijo, e levou ao coração, sorrindo. Depois desse gesto, a mulher saiu e Alice se ajeitou na cama para dormir, mas não conseguia, já fazia, pelo menos, quatro anos que não conseguia dormir direito, ela falava para a mãe e para todos que era por conta de todas as aulas que fazia – Francês, Espanhol, Italiano, Etiqueta, Piano, Violino e as aulas normais da escola – mas não era, minutos depois ouviu o barulho que mais temia: A porta de casa se fechando com certa violência e passos incertos, que significava que seu pai tinha voltado para casa bêbado, outra vez. O barulho da porta a fez se encolher e fechar os olhos bem forte, torcendo para que, dessa vez, sua mãe não o ajudasse, mas essa não era a índole da sua mãe, e ouviu a conversa que se repetia quase todos os dias da semana
— John, você bebeu de novo?
— Claro que bebi, Kyra, como acha que devo aguentar essa rotina da elite londrina?
— Eu aguento e não bebo. Vá direto para o banho, sim? Vou preparar algo para você comer.
A conversa sessou e Alice sentiu seu corpo todo relaxar, hoje não haveria briga, não haveria gritos ou choros, graças a alguma força divina hoje seria uma noite tranquila, mas ela não poderia estar mais errada. Quando estava prestes a adormecer, a porta do seu quarto se abre e seu pai cambaleia para frente, Alice se senta rapidamente na cama e vê que ele está com a camisa desabotoada aleatoriamente e o cinto na mão, o pavor brotou no sistema da menina
— Ai você está, docinho, o que fez hoje? — Falou enquanto se aproximava — Não vai me falar?
— P-Papai... Por favor... O senhor está bêbado..
— Quem está bêbado aqui? — Pegou a criança pelo braço, com força, e a tirou da cama a força, a jogando para o corredor fora do quarto — Sabe, garota, antes de você nascer, eu e sua mãe éramos felizes, nos amávamos... Mas foi só você nascer que tudo mudou, VOCÊ É A CULPADA DE TUDO.
E com essa mudança de humor repentina, ele deu o primeiro golpe com o cinto, que, ao erguer o braço para se defender, pegou no seu pulso, fazendo uma dor lacinante passar pelo seu braço, abrindo uma ferida que no futuro se tornaria mais uma de suas outras pequenas cicatrizes, Alice tentou conter o grito mordendo o lábio inferior, mas um gemido de dor saiu mesmo sem querer, e nesse instante veio o tapa na cara, que a fez cair no chão e sentir o gosto metálico na boca, o gosto de sangue.
— Cale. A. Boca. Você. É. Uma. Ingrata. — A cada palavra era um golpe de cinto.
— JOHN! — E como um anjo salvador, a mãe da menina impediu o outro golpe, empurrando o homem para longe e amparando a filha — Alice, ah meu Deus, filha!
— Sua vadia. — O pai da menina se levantou, pegou a mulher pelos cabelos e arrastou pelo chão, parando perto da escada, dando-lhe murros e tapas.
Alice já tinha visto seu pai bater na sua mãe antes e tinha ficada horrorizada, mas nada como isso que estava acontecendo, dessa vez era diferente, era como se todos os músculos do seu corpo tivessem sido mergulhados em ácido, ela sabia que a mãe precisava da sua ajuda, e nem ligando para seus machucados, levantou-se e correu até o pai, o empurrando e pagando o corpo de sua mãe nos braços.
Não existia palavras para descrever quanto o rosto da sua mãe fora deformado, tinha muito sangue e em nada aquele rosto parecia com aquele rosto angelical que havia dado boa noite para ela.
— Mamãe, mãe, fala comigo... — Ela balançava o corpo inerte de sua mãe, desesperada — Por favor...
Não demorou muito para Alice entender que nunca mais ouviria a risada da sua mãe, ela estava morta, mas demorou alguns minutos para ela entender que também não veria mais seu pai. A ultima coisa de que Alice lembra é de olhar para o andar de baixo da sua amada casa e ver seu pai mergulhado em uma poça de sangue, com os olhos vidrados. Morto.”
Quando Alice acordou, estava totalmente enrolada no lençol, seu cabelo estava grudado na testa e no pescoço, devido ao suor e estava com a respiração acelerada. “De novo o mesmo pesadelo” ela pensou, respirou fundo, afim de desacelerar seu coração, que parecia que ia explodir, e olhou as horas: 3:28 da madrugada.
Desde que aconteceu, ela tinha pesadelos sobre isso praticamente todas as noites que não a deixavam dormir, era ótimo ouvir a voz da mãe mais uma vez, a ver tão claramente, mas ao mesmo tempo ela lembrava dos golpes com o cinto, do tapa na cara, do empurrão que deu no pai e da mãe, já morta, no seus braços. Era dilacerante, mas ela sabia o por que sonhava isso, afinal, a culpa é dela.
E ela nunca conseguiria se perdoar por isso.