Hoje não, mãe. Hoje não precisa vir até meu quarto pra fechar as cortinas porque eu sou nova demais e não sei fechá-las de forma que o Sol não me acorde de manhã. Hoje (amanhã) eu quero acordar junto com o nascer do Sol. Pode deixar, mãe, que só por hoje eu quero cair no sono observando a calmaria do universo. Que hoje tua criança não quer ser protegida do mundo lá fora. É que - eu não queria dizer assim tão cedo, mãe, mas - eu aprendi a fechar a cortina direitinho. E, principalmente, aprendi a querer deixar ela aberta. Você acreditaria, mãe, se eu dissesse que gosto de ser acordada com a luz absurda do sol invadindo meu quarto? Desculpa, mas hoje não, mãe. Hoje seremos eu, as estrelas e a Lua, sem nada pra me impedir de enfrentar essa iluminação fraca e distante que é o universo à noitinha. É que eu já sei fechar a cortina, mas eu quero saber muito mais! Eu quero que o vento me ensine a ventar, que as estrelas me ensinem a brilhar e que a Lua... Ah, mãe, quero que a Lua me ensine a ser! Assim, presente, forte, bonita e poesia. Quero que o universo me ensine a ser poesia. Desculpa, mãe, mas o mundo tem tanto a me mostrar e bater e acariciar e amar e se há um amor maior que o de mãe, esse amor é o do universo. Então, a gente faz assim: amanhã você pode vir fechar minha janela e entornar todo o seu amor pela sua criança nessa proteção desmedida. Mas hoje, me deixe apanhar um pouquinho, me deixe enfrentar um pouquinho, me deixe amar um poucão. O universo mata, mãe, eu sei - é por isso que você quer tanto assim fechar as cortinas bem fechadinhas. Mas, pensando como a criança sedenta que sou, posso te dizer convicta: não há vida sem morte. Então, mãe, só por hoje: não precisa. Só por hoje eu quero viver. Órfã, mãe: e viva.
Julia N, que tanto quer e-clipsar.














