Ele se sentou de frente para o computador.
Olhou as pastas.
…
07.01.2012
11.08.2013
26.04.2014
Abriu as pastas. Haviam milhares de fotos. Fotos repetidas, embaçadas, feias, com ele em poses estranhas e horríveis, completamente assustadoras. Nelas haviam pessoas também completamente assustadoras, que um dia Amplexo classificou como dóceis e amigas. Porém, depois de tanto tempo, olhar novamente para aquelas fotos, observar os sorrisos, os abraços e simplesmente as pessoas, e encontrar algo parecido com o conceito de amizade era praticamente impossível.
Era como se tivesse aberto um velho baú, daqueles que ficam nos porões dos filmes estadunidenses, e que quando são abertos levantam uma nuvem de poeira. Essa nuvem se levantou, irritou seus olhos e por um instante de distração ele quase chorou, mas não permitiu tal coisa, já bastava estar ali vendo seu passado fotografado, e imediatamente começou a limpar o baú.
Com certeza fazer essa tarefa em décadas passadas era bem mais emocionante. As fotografias eram reveladas, muito provavelmente também ficavam em baús e se desejasse livrar-se delas deveria rasgá-las ou queimá-las, dependendo de sua criatividade e raiva no momento. Entretanto, Amplexo só deveria clicar em “excluir” e elas sumiriam. Ele só não entendia como até isso poderia ser doloroso.
Delete. Delete. Delete. “Amigos”. Delete. Viagem. Delete. Primeira namorada. Delete. Colégio antigo. Delete. Professor. Delete. Colegas. Delete. Aniversários. Delete. Brincadeiras. Delete. Almoços. Delete. Corridas. Delete. Beijos. Delete.
Algumas fotos ele demorava apagar e ficava alguns minutos observando-as como se quisesse saborear o gosto da lembrança por uma última vez. Já em outras, ele passava o cursor o mais rápido que podia, pois sabia que o sabor delas eram muito amargos para provar-lhes outra vez.
Amplexo sentiu-se velho, observou a passagem do tempo nas fotos e o anos se acumularam em suas costas. O peso das memórias o incomodou, estava cansado de carregar aquilo para todos os lugares e por isso, ele não queria somente deletar as fotos de seu computador, queria deletar as imagens da sua mente para sempre. Todavia, ele sabia, tinha certeza, que se esquecesse completamente do seu passado, ele esqueceria de si mesmo. Aquelas fotos, por mais indesejáveis que algumas fossem, pertenceram à sua vida e se todas aquelas memórias se desfizessem, ele próprio iria se desfazer.
Com essa ideia ele sorriu, por mais que soubesse que suas lembranças por mero acaso às vezes ainda lhe apareceriam em qualquer lugar do universo, dizendo: “Ei, Amplexo, eu ainda existo, certo?”. Então, ele somente as responderia: “Certo, vocês existem, eu existo, e nós vamos existir juntos. Não quero desmerecê-las, já que se hoje me importunam, com certeza eu tive minha parcela de culpa, mas quero dar lugar a novas lembranças e espero que elas sejam melhores que vocês, porque eu também quero ser melhor.”
Restaram 1176 fotos. Essas fotos eram as que ele queria guardar para sempre em sua memória, as que ele nem se importaria de carregar por todos os lugares que fosse e seu peso nem o incomodaria, pelo contrário o ajudaria a continuar andando. Pois eram fotos de pessoas que ele amava e que ele tinha certeza que também o amava, já que depois de passados os anos nunca o abandonara, não importava o que acontecesse. Essas pessoas eram sua família e amigos que já eram irmãos, enfim, sua família, seja de sangue ou não. Ele sabia que ainda encontraria outras pessoas para entrar para sua concepção de família, por isso aquelas memórias não poderiam o assustar para sempre.
Então, ele criou uma Nova Pasta.
30.06.2015
“Lá vamos nós”, ele pensou e, mais uma vez, sorriu.