A criação da personagem Ana Terra [drops de bastidores nº 6]
Na peça Ana na Árvore, as amigas Mariana e Ana Maria, que sonham em construir uma casa na árvore, conhecem Ana Terra, uma personagem que adora ler e planeja escrever um livro. Juntas, elas passarão por um processo de transformação no qual a troca de ideias é fundamental para o aprendizado e para a diversão.
A atriz Elaine Belmonte, a Ana Terra do espetáculo, conta um pouco do processo de criação e preparação desta personagem, que é uma menina cadeirante.
"A Ana Terra nasceu do próprio livro do Tistu (O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon, 1957). O livro narra a visita de Tistu ao hospital e seu encontro com a menina doente. A princípio, Ana Terra seria essa menina doente, que se curaria, quando tivesse vontade de ver o dia seguinte. Sendo assim, Tistu enche seu quarto de flores e ela se cura. Ana Terra, também se curaria, ela teria apenas uma cena na cadeira de rodas. Amadurecendo essa idéia, decidimos olhar para essa menina com outros olhos, pensamos em todas as crianças que estão na cadeira de rodas e provavelmente jamais andarão. Quais valores humanos essa menina poderia trazer para a peça e para nós mesmas? Assim, a idéia da personagem foi pensada em conjunto. Nós 4 (Eu, Vanessa, Dani e a diretora Vancllea), discutimos muito sobre o assunto e decidimos juntas, assumir a criação de uma peça em que umas das personagens estaria na cadeira de rodas, e eu com um certo receio, assumi o papel dela.
A princípio o que queríamos era mostrar que independente da cadeira a menina poderia brincar, como as outras. Uma das primeiras cenas imaginadas foi a final, onde essa menina seria virada de ponta cabeça e brincaria na terra, como a Mariana e a Ana Maria adoravam fazer. Não tocaríamos no assunto da cadeira de rodas. Ana Terra, entraria na história, brincaria, dividiria seus sonhos, contaria histórias.., a peça falaria sobre sustentabilidade e a cadeira seria apenas mais um elemento. A intenção com isso, não era ignorar, mas sim mostrar Ana Terra como uma criança igual a Ana Maria e a Mariana.
Em uma das cenas criadas eu falava de uma história escondida debaixo do meu pé. Na sala de ensaio, a cenógrafa e a preparadora corporal questionavam essa frase, não entendiam. Nos defendíamos:
- É apenas uma frase poética.
Mas um dia Vancllea chegou e disse:
- Talvez esteja aqui, a poesia da peça. Debaixo desses pés, que quantas histórias não devem ter?
A personagem começa a ganhar força e não dava mais para ignorar a cadeira, era hora de assumir nossa escolha e tocar no assunto. - Mas de maneira leve e delicada, disse Vancllea.
Levantar a cena 3, onde a Ana Maria diz que Ana Terra não é como todo mundo, não foi nada fácil, naquele momento acho que me dei conta da força que Ana Terra tinha e tem tido na minha vida. Me dei conta que ela não andava e realmente era diferente e que o preconceito estava em mim mesma em querer não olhar para aquilo.
Hoje, depois de mais de 2 meses com a peça, percebo que o preconceito é muito mais de nós adultos do que das crianças. Sim, Ana Terra está na cadeira de rodas, mas antes da cadeira ela é uma criança. Como diz a diretora: - Para as crianças a personagem vem antes. Elas se apegam à Ana Terra, sem ignorar que ela é cadeirante. Falam abertamente sobre o assunto, sem nenhum preconceito, querem me abraçar, beijar, tirar fotos, andar de cadeira de rodas no colo. Me sinto até um pouco ridícula quando penso em ensinar às crianças sobre inclusão social. Aprendo muito mais com elas do que elas comigo. Ouço coisas comoventes, teve uma criança que quis me ensinar a andar: - É fácil! ela dizia, outra disse que também queria uma cadeira de rodas para brincar, outra disse: - Quase todo mundo anda de cadeiras de rodas, né?! Isso não é um problema. E ainda teve uma que cantou música de ninar para as minhas pernas, afinal elas só estão tirando um cochilo. Sinto que elas tem um carinho muito especial pela personagem, muitas se identificam porque por algum motivo se sentem ou já se sentiram diferentes."
Elaine Belmonte
O espetáculo Ana na Árvore tem mais 4 apresentações no Teatro Aliança Francesa até dia 20 de outubro. Sábados e Domingos às 16h.













