Ajoelhada no chão do dojo, em uma postura firme e perfeita, a Natsume mais velha encarava o retrato de seu irmão apesar do vento gelado que, além de soprar de fora para dentro, farfalhava as folhas de árvores próximas e provocava um som que era perfeitamente captado, com toda a plenitude, por seus ouvidos treinados. Cabelos brancos, médios, pouco abaixo da altura dos ombros, e que tinham crescido desde a batalha final contra Susanoo-no-Mikoto, roçavam contra seus trajes brancos. Nenhum som, excetuando a brisa noturna e o cricrilar melancólico de um coral de grilos, penetrava sua residência, pois, assim como acontecera em todos os dias há pouco mais de dois anos, sua atenção estava totalmente voltada para alguém que já não habitava o mundo dos vivos.
“Você está bravo comigo...” permitiu-se murmurar. “... Aniue?”
Shin Natsume, fundador do Katana e ex-líder do Clube Jyūken, sorria na fotografia pendurada logo acima do altar sagrado dedicado aos ancestrais da família. Não havia nada de doentio em seu olhar, apesar de suas últimas ações enquanto vivo, e ele conservava um ar inocente em suas feições; quase como se fosse o garoto assustado, porém feliz, que sempre demonstrou ser enquanto estava ao lado dela.
Muitos o chamaram de monstro, pisotearam seu corpo fraco — resultado das longas e inúmeras batalhas internas que travou consigo mesmo para não ser dominado pelo poder do Ryūgan e do Demônio que habitava seu coração —, sequer o compreenderam, mas ela, apesar de tê-lo temido diversas vezes, de ter tido receio sobre o que ele era capaz de fazer para protegê-la, nunca deixou de acreditar nele. Em momento algum, por mais vil que ele tivesse se tornado, deixou de pensar nele. E não houve um momento, um dia, um minuto, em que deixou de amá-lo.
A presença de Shin sempre foi forte dentro da prateada e, em suas batalhas mais difíceis, iluminou e conduziu seu caminho. Foi só quando tomou conhecimento do significado de sua própria existência, como o Portão do Dragão de Amaterasu, cujo principal poder era a neutralização total de qualquer forma de Ki, que ela passou a compreender o real sentido por trás do relacionamento que tiveram, das razões que o levaram a atos tão extremos e de seu desejo aterrador de mantê-la a salvo do resto do mundo.
“Maya, eu vou continuar vivendo para sempre dentro de você?”
Um aperto no peito fê-la abaixar a cabeça e esconder, por puro instinto, as lágrimas que tentavam romper seus olhos. Nunca quis demonstrar fraqueza diante dele, pois seu desejo sempre foi que ele a admirasse, que ele a apoiasse, que se orgulhasse de seus feitos. E mesmo ali, diante do retrato de um irmão que já havia partido, a mulher era incapaz de se permitir fraquejar rente às memórias dele.





