Meu menino,
eu sei, sua pequena caixa de cartas amassadas já deve estar imensamente lotada de palavras contraditórias, ininteligíveis e irracionais que te escrevo a cada dia cinza. Eu te peço desculpas por isso, é claro, mas eu poderia te explicar dizendo que eu não consigo, simplesmente, não olhar para a ponte quebrada que deixamos para trás. Antes dela, meu bem, há uma cidade apaixonantemente vermelha, a qual abandonamos há alguns anos. E esse vermelho chama minha atenção toda vez que me canso do cinza, e é aí que te escrevo.
Hoje, eu estava deitada olhando para o céu. Era dia, e eu não costumo admirar o céu diurno, você sabe. Mas a nossa música tocava nos meus ouvidos, e os pássaros voavam lá em cima de maneira tão livremente ingênua que, por um segundo, eu desejei que seus dedos estivessem entrelaçados aos meus. É engraçado, não é? Ficar tanto tempo sem dirigir uma palavra a você e, abruptamente, escrever que queria sua mão na minha. Meu rosto no seu peito. Minha boca na sua. Eu queria, sim. E, por mais inacreditável que pareça, imaginar nossos lábios trocando um beijo doce não exalou saudade de todas as vezes que nos beijamos, mas uma vontade gostosa de estar com você.
Se eu te dissesse que lembrar de você não dói mais, você acreditaria? Dessa vez seria verdade, menino. Você pediu que eu não te deixasse ir embora e, até ontem, eu cumpri a minha promessa. Hoje, porém, eu te deixei ir. Sem mágoas ou dores. Eu, simplesmente, assisti ao seu voo livre e rápido ao mais alto do céu e sorri. Você foi desengonçado voando, menino. Parece que nunca voou antes... Parece que se esqueceu de como era a sensação de voar, como um pássaro confinado numa gaiola por anos suficientes para que se extinguisse sua memória sobre a liberdade de alçar voo.
Eu sorri ao te ver voar: é o que importa. Eu sorri porque não era só você quem se libertava. Era eu quem estava voando, mesmo sem tirar os pés do chão. Era eu quem soltava uma parte de mim que esteve presa por tanto tempo e, com ela, desprendia-me de uma dor que parecia ser inacabável.
Nesta última carta a você, portanto, eu quero te agradecer por ter pintado minha vida de vermelho. A culpa não foi sua se a ponte quebrada transformou-a em cinza, e, hoje, eu posso ver isso. Obrigada por vir e ficar, mesmo sem que eu pudesse te tocar. Hoje eu te deixei voar, voei com você, mas nossos destinos não foram os mesmos. E eu não me arrependo, menino. Eu apenas sinto muito por ter te aprisionado a um coração cinza por tanto tempo... Pode voar, menino. Voe, desengonçadamente. Voe, porque eu gosto do seu voo de quem está reaprendendo a abrir as asas. Voe, porque seu voo me faz sorrir, e sorrir me faz voar.
Sua, por fim,
Alice.