As palavras grudavam no papel, borrões que pareciam mapas de um território que eu não sabia como habitar. Escrever doía menos do que falar; ali, entre molhas e letras, eu podia controlar o rumo da minha confissão. “Parece impossível pensar que posso ser amada”, eu escrevia, e a frase vinha inteira, honesta, como um sapato gasto que finalmente calça no pé errado.
No entanto, quando a caneta parava, as vozes retornavam — sussurros antigos dizendo que eu não merecia, que tudo em mim era invenção de falhas. A ansiedade apertava o peito como um nó invisível. Respirar já era difícil. Fechei os olhos e contei até três como quem tenta convencer o corpo a seguir uma ordem absurda. Um. Dois. Três.
Foi então que alguém bateu na porta. Não era um estrondo, mas um toque leve, paciente, que parecia saber esperar sem cobrar. Abri. Ele segurava um guarda-chuva molhado e um sorriso tímido, como se também tivesse medo de ser aceito. Não perguntou aonde iam minhas lágrimas; apenas estendeu a mão e, no gesto, trouxe um pouco de luz para a sala.
A sombra não se foi num estalar de dedos. A insegurança continuou ali, como uma companhia fiel demais. Mas havia agora um outro som no quarto — passos que vinham de encontro, uma respiração que tentou se ajustar à minha. Ele não prometeu cura, só prometeu ficar. Aceitei o guarda-chuva, e por um segundo o mundo inteiro coube entre nós dois.
Aprendi que amar — ou ser amado — não é um salto imediato para o claro. É uma série de pequenas exceções à regra do medo: uma mão que não solta, uma palavra que não diminui, um olhar que insiste. Ainda escrevo em folhas molhadas às vezes, porque escrever é como abrir uma janela quando a casa está cheia de cheiro de chuva. Mas agora, quando as lágrimas descem, há a possibilidade de alguém as enxugar com cuidado, sem pressa.
Respirar continuou difícil, mas aprendi a medir o ar em pequenos pedaços. E, entre uma inspiração e outra, descobri que existir com alguém ao lado torna o peso um pouco mais leve. Não é cura total — é companhia. E, por enquanto, isso basta.