Véu de escombros
Hoje, é preciso que haja algum céu. Uma fresta apenas, nada mais que isso de anil em ferrugem nos basta por hoje. Estamos aqui, sob um véu de escombros, na fila do banco, no banco da praça, enquanto sorrimos antes do disparo, nos dentes trincando por não dispararmos, no nosso mais íntimo e velado sono, nas nossas famílias e despretensões. Não serve de alívio este fio de azul que estamos pedindo. A tragédia está posta em nossa mesa e não há mais nada que nos alimente. Ainda não se trata de juntar as forças para levantar ou juntar as mãos por misericórdia; o que precisamos desta frincha sobre as nossas cabeças é menos que um lance de uma pipa voando para que se guardem em nossos ouvidos o pouco que resta das crianças correndo no barro batido.
do livro bívio, 2023












