Mês passado eu descobri que tenho um problema, um baita de um problema. O médico disse que se eu não me esforçar posso morrer em alguns meses, que eu não posso deixar meu quadro se agravar senão será irreversível. Ele falou um punhado de termos técnicos e eu estava em choque, como se a ficha estivesse caindo lentamente enquanto ele falava, eu senti minha alma fora do corpo, e conseguia ouvir um grito de desespero vindo de dentro de mim implorando por ajuda. Enquanto meu corpo estava ali, inerte, naquela cadeira desconfortável. Depois de alguns minutos de muita explicação confusa eu o interrompi e disse: "Então eu vou morrer?". Ele, agora falando a minha língua, disse: "Só depende de você. Imagine que você está na beira de um precipício, bem na beirinha mesmo, mais um passo em falso e você cai". Eu gelei, minhas mãos começaram a suar. Ele continuou: "Você ainda pode sair desse precipício, estamos aqui para te ajudar nisso.". E lá estava eu em estado de choque de novo, pensando em mil coisas ao mesmo tempo enquanto o médico falava sobre morte, doença, precipício, família. E me deu um estalo. Faltavam poucas semanas para minha afilhada nascer e eu naquela situação. Eu não queria morrer sem conhecê-la. Foi naquele instante que eu decidi que faria o possível e o impossível para me manter forte. Eu precisava. Ela nasceu tem cinco dias, e ainda não pude vê-la. Pelo que disseram, ela tem dificuldade para respirar, está na UTI neonatal. Espero que ela queira me encontrar e esteja se esforçando também.