Eu devo admitir que nunca senti um interesse particular pelo O Pequeno Príncipe, mas essa releitura para o cinema encaixou perfeitamente com o momento que eu me encontro na vida. Apesar do nome o filme não ser exatamente uma adaptação do livro de Antoine de Saint-Exupéry, na verdade vai muito além da obra original na minha humilde (risos) opinião. Na verdade a história do livro só aparece por metade da animação, e é contada de uma forma muito gostosa, como se estivéssemos em uma roda de contação de histórias na biblioteca.
Seguimos uma menina em uma realidade alternativa não muito diferente da nossa - uma visão distópica de um futuro próximo onde o nível de loucura e produtividade compulsória alcançou níveis absurdos. No início do filme somos apresentadas a ela e sua Mãe. A Menina tem uma entrevista para um colégio de elite que, em teoria, irá oferecer todos os meios para que ela alcance o sucesso profissional e financeiro durante a vida adulta e ambas parecem 100% sincronizadas em uma missão: garantir o sucesso profissional na vida adulta da Menina.
De cara parece que a Menina lida muito bem com todo esse contexto mas, rapidamente percebemos que não. A entrevista não vai também e as duas optaram pelo plano B: a Mãe pedir transferência e irem morar nas proximidades da escola, desta maneira não poderiam recusar sua matrícula.
Só que o plano B não envolve só uma mudança, mas também um regime de estudos e rotina rígidos durante todo o período de férias da menina - com direito ao painel de SCRUM mais assustador que eu já vi (e eu trabalho como Gerente de Projetos, veja bem).
O que não estava nos planos era que o novo vizinho fosse um senhor excêntrico, construindo um avião em seu jardim e com uma belíssima história para contar (se você conhece o livro O Pequeno Príncipe provavelmente já está adivinhando quem é a figura). É aqui que somos introduzidos à história do livro - uma história que o velho vizinho excêntrico escreveu e desenhou, e que vai apresentando aos poucos a Menina.
É como se as férias de verão finalmente tivessem chegado e a Menina passará boa parte de suas tardes lendo, brincando e ouvindo histórias no jardim do Aviador. Nós assistimos enquanto os dois criam um relacionamento fraternal, e ele se torna uma referência importante na vida dela.
Preciso dizer que discordo de como ele faz isso - não acho válido passar por cima das decisões de uma mãe na vida da filha dela - mas, ao mesmo tempo, essa mãe está privando a filha de seu direito à infância, então...
E isso é só metade da história.
A história que você conhece acaba um pouco antes da metade do filme, e seremos apresentados a uma versão do futuro daquele universo habitado pelo menininho irritante de roupa verde e concepções meio codependentes de relacionamentos (eu disse que não curtia muito o livro hehe). Nesse futuro o Homem de Negócios basicamente comprou o universo, deu emprego para todos os adultos e eliminou as crianças (não vou contar como), nos apresentando ao Sr. Príncipe - inseguro, despreparado e desesperado para agradar um patrão (gente eu quase gritei quando ele apareceu)
Ele me faz pensar em um Millennial; não os adolescentes, mas a primeira, segunda leva de filhotes da segunda metade da década de 1980 e primeira metade da década de 1990 (sim, gente, galera de 2000 ta fazendo 18, lembra? Eu sei, dói). Esta esquecido tanto da Raposa quanto da Rosa e se dedica constantemente a agradar o Homem de Negócios, ainda que isso signifique realizar tarefas desgastantes, subestimadas, mal pagas e em circunstâncias humilhantes. Ele claramente tem problemas de ansiedade, depressão e auto-estima. O Sr. Príncipe teve uma transição traumática e drástica para a vida adulta (eu sei, é sempre difícil ser adulto, mas vamos ser honestos, tem formas piores de isso acontecer do que outras) - e isso é a pior coisa que a Menina poderia encontrar na sua situação (sim, não contei qual o drama que a leva a encontrar o Sr. Príncipe - o filme vale à pena, vai lá ;3). Como muitos de nós, ele odiou crescer - a vida adulta tem muitas aspectos horríveis e angustiantes, e nós não podemos simplesmente pedir demissão e voar até um asteróide e voltar a ser criança, mas nossa geração parece estar desenvolvendo ferramentas para tornar esse processo todo menos destrutivo. Não estou falando de infantilidade, sempre foi difícil se adaptar ao contexto da “adulteza”, e sempre houveram pessoas ‘acusadas’ de não desempenhar bem esse papel; estou falando de aspectos positivos e prazerosos que a geração anterior acreditava ter que ser podado uma vez que se atinge a “adulteza”.
O filme fala muito sobre a capacidade da criança de ser resiliente, de mudar com as circunstâncias, de se adaptar a situações que não são necessariamente das melhores. Só que não fala de uma adaptação passiva - a Menina participa diretamente dos processos em que está inserida, é agente de suas decisões enquanto interage e se expressa para os adultos ao seu redor.
Talvez seja um pouco dessa resiliência, um pouco dessa capacidade de se distanciar de certos aspectos do macro e se concentrar no que está diante dela, ao mesmo tempo que não perde o contrato com o abstrato, da criança que esteja faltando pra você. Estou começando a achar que esse mutatis mutandis que está faltando em mim.











