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Formely rofllehouse/besottedDemodex+sim, eu sou BR.
Thought it would be funny to do this.. But I might take a temporary break from posting anything kievnauchfilm due to the breakup I had to witness.
📚 LIVRO DO DIA 15/365 - CIRCE DE MADELINE MILLER
SINOPSE - Circe acompanha a trajetória da feiticeira da mitologia grega, filha do deus Hélio, que cresce se sentindo inferior entre os deuses. Ao descobrir seus poderes mágicos e desafiar figuras poderosas, ela é exilada para uma ilha deserta por Zeus. Lá, Circe aprimora sua feitiçaria e cruza o caminho de personagens famosos da mitologia, como Odisseu, Medeia e o Minotauro. Entre solidão, perigos e perdas, ela busca entender se pertence ao mundo dos deuses ou dos mortais, em uma história marcada por força feminina, amor, intrigas e autodescoberta.
CONSIDERAÇÕES - Sempre amei mitologia grega e, de tudo que já li, o que não é muito, considero essa a melhor releitura de uma personagem mitológica. Jamais gostei de A Odisseia, mas o olhar humano que Miller traz para uma personagem obscurecida pela história de Odisseu me conquistou de uma forma que há muito tempo uma personagem não me transformava. Fui ouvir o audiobook como um desafio e me encantei tanto pela forma como Juliana Máximo narra a história quanto pelo que a autora escreveu.
É sobre uma jornada de crescimento de um ser imortal. Circe vive primeiro em meio ao ostracismo na família e, depois, isolada em uma ilha. Ela passa por humilhações, provações e descobertas. É uma deusa humana: ela sofre, não sabe lidar com as situações, mas se desenvolve, aprende sobre seus próprios poderes, cria consciência e evolui, o que vai totalmente contra a realidade dos deuses, seres imortais que, como a própria Circe conclui: “No passado, já pensei que os deuses eram o contrário da morte, mas agora vejo que estão mais mortos que tudo, pois são imutáveis e não conseguem segurar nada nas mãos.”
📆 31 de maio de 2026. Domingo. 📓 Sobre Nada para ver aqui e A Sociedade de Preservação dos Kaiju 📖Leitura atual: Bem-vindos à Livraria Hyunam-Dong.
Oi. A última vez que passei por aqui, disse que estava lendo Nada para ver aqui. Vamos aos updates.
Nada para ver aqui não atingiu o nível de "CAMP" que eu esperava, mas recomendo mesmo assim. O livro explora aquele plot de uma babá que vai cuidar de crianças travessas em um lar desajustado e, no fim, todos passam a se amar. A diferença é aqui essas crianças pegam fogo.
O ponto alto nesse livro pra mim é a Lilian (babá) e Bessie (uma das crianças que pegam fogo). Sabe aquele dupla de mulher desajustada e criança inteligente, são elas.
A leitura flui bem, a escrito do autor é legal. Só que acho que ele foi bem comedido... Não tem muito drama e nem engraçado o suficiente.
A coisa boa é que ele não tenta explicar nada. Parabéns. Realismo mágico a lá sul-américa.
Próximo leitura finalizada:
Gente. A Sociedade de Preservação dos Kaiju supriu uma demanda literária que eu tinha de livros-com-godzilla.
É basicamente Jurassic Park com Godzillas. Tem até aquela sensação de descoberta do começa do filme e explicações biológicas-físicas-nucleares que achei super interessante.
O único defeito é o terço final. Foi bem clichê e, sinceramente, não queria sair daquele mundo.
Se você é nerdzinho, gosta de filmes do godzilla ou de Jurassic Park: LEIA AGORA.
E foi isso.
Para finalizar o Pokémon que peguei só pelo hyper dos Kaiju:
₊˚⊹ Resenha📖: Diário de 𝓐nne 𝓕rank ✡
Oie! hoje vim comentar um pouco sobre o que eu achei sobre o livro "Diário de Anne Frank" que eu li em abril de 2022.
"Diário de Anne Frank" - BestBolso (R$30,00), edição 2021.
1- O que me incentivou a comprar esse livro? Em 2022 foi o ano em que eu mais me joguei na história do mundo, e estudando por alguns vídeos de curiosidades eu cheguei na parte da segunda guerra mundial, e descobri a história de vida dela e me interessei e optei por comprar o diário dela, onde ela relatava seu dia a dia.
2- O livro na minha visão: Eu li o livro quando tinha 13 anos, e Anne quando escrevia no diário também, então me identifiquei com alguns relatos e pensamentos, Anne tinha poucas amigas, e relatou que acreditava não ter nenhuma amiga de verdade depois que uma menina chamada Jacqueline cometeu algum erro na relação entre as duas. E por Anne ser uma pré-adolescente, surgiam alguns garotos atrás dela, mas nunca era algo recíproco, ela achava todos bons como amigos, mas não como companheiros, ela comentava que apesar de não ter aquela amizade verdadeira com colegas, ela não sentia ausência de afeto, pois morava com sua irmã mais velha e seus pais. No dia 19/11/1942 ela escreveu algo que me deixou tão mal, e que era o sentimento que ela expressava, já que ela era uma refugiada em meio a guerra, estava "segura" no anexo, mas seus colegas e conhecidos não... "Sinto-me mal ao dormir numa cama quente, enquanto em algum lugar meus amigos estão caindo de exaustão ou sendo derrubados. Fico apavorada quando penso em amigos íntimos que agora estão a mercê dos monstros mais cruéis que já assolaram a terra. E tudo porque são judeus.". Bom, e com o passar do tempo dela convivendo com algumas pessoas no anexo todo mundo estava entrando em colapso, eles discutiam muito, inclusive tudo que acontecia ali, qualquer um culpava Anne, inclusive sua mãe, e ela se desentende diversas vezes com ela. E no dia 15/01/1944 ela cansou de tudo aquilo e percebeu que tudo isso era muito cansativo, "A guerra vai continuar, independentemente das brigas e do desejo da liberdade e ar puro", "Vou me transformar num pé de feijão velho e seco. E na verdade eu só quero ser uma adolescente.", essas falas mostram um pontinho dos pensamentos que ela tinha ali, o desejo de viver a vida, uma vida que não fosse aquela. Uma coisa que eu achei linda foi que ela estava profundamente apaixonada por Peter Van Pels, que era um menino um pouco mais velho que ela, eles compartilhavam a mesma fé, e também moravam no mesmo anexo secreto, o que fez que eles se vissem com frequência; Anne era jovem, mas não tinha dúvidas sobre o que era o amor, e em 02/03/1944 ela escreveu isso: "Amor, o que é o amor? Não creio que se possa realmente pôr em palavras. Amor é entender alguém, se importar, compartilhar as alegrias e tristezas. Isso pode incluir o amor físico. Perder a virtude não importa, desde que você saiba que enquanto viver, terá alguém que a compreenda e que não precisa ser dividido com ninguém mais.", Eu sinceramente acho que isso foi uma das coisas mais encantadoras que já li. Anne apesar de muitos sentimentos rodando sua cabeça, a preocupação era gigantesca, ela relatava que escutava sim as notícias que eram transpassadas através de amigos das famílias, que tinham acesso ao mundo exterior, e escrevia sobre o que ouvia, de invasões a países, quando se rendiam ou coisas assim, e em uma parte do livro ela infelizmente já estava pressentindo que algo iria acontecer, que os monstros iam invadir o anexo secreto, pois já havia ocorrido muitos acontecimentos que chamavam atenção de alguns funcionários que trabalhavam no prédio onde eles se escondiam, e que eles já estavam desconfiados sobre a possibilidade de ter um grupo de pessoas ali, às vezes esqueciam as luzes acesas, faziam barulhos, esqueciam a porta aberta... enfim, uma serie de acontecimento que deixavam eles sempre em uma preocupação constante, a ponto de qualquer ruído ser um susto para eles perderem o sono durante a madrugada. Anne porém teve um pingo de esperança, em 12/07/1944, quando ocorreu uma tentativa de "Desviver" o atual líder do partido que dominava a Alemanha e região, me dá nojo só de lembrar o nome horrendo!, assim como Anne, todos ali torciam para que aquela guerra acabasse o mais rápido possível, a última frase dita por Anne no diário foi: "E tento achar um modo de me transformar no que gostaria de ser e no que poderia ser se... se não houvesse mais ninguém no mundo.", após isso eu li: " O diário de Anne termina aqui.", e isso me desabou por dentro, eu sabia que isso ia acontecer, mas foi realmente um choque.
3- A parte que eu me neguei a ler: Depois de ler a frase, eu fiquei tão, mas tão pensativa, que fechei o livro e me neguei de ler tamanha crueldade, como se isso pudesse mudar o fato do que aconteceu no passado. E depois de mais ou menos 1 ano, peguei o livro para limpar a estante e abri as últimas páginas, porque mesmo que eu me negasse a ler aquilo o resto da minha vida, nada ia mudar o destino de Anne, aquela menina que eu junto de mais de milhões pessoas acompanhei evoluir, acompanhei a vida dela desde que ela começou a escrever em 42 até a última página em 44. Sinceramente, foram as 2 páginas mais pesadas e dolorosas que já vi na vida, contou qual e quando foi o fim de cada pessoa, de cada família que convivia com Anne e que ela compartilhava sobre a convivência. Da família de Anne, apenas o pai (Otto) foi sobrevivente, Anne e Margot morreram em poucos dias de diferença, Margot em fevereiro e Anne alguns dizem que em fevereiro também (após Margot) e outros dizem que foi em março, bom, é lamentável lembrar disso já que faltavam cerca de 6-8 semanas para aquele campo de concentração ser libertado, e nesse meio tempo apenas em março (naquele campo) faleceram 18 mil pessoas, 18 mil vidas inocentes... e lembrando que a situação de doenças e desnutrição era tão grave, que mesmo depois da libertação +15 mil pessoas morreram semanas após serem libertos, porque nem com ajuda médica a situação deles seria reversível.
4- Reflexão: Ler o diário, ver a 2º guerra acontecendo numa visão de uma menina de 13-15 anos que morava clandestinamente no topo de uma empresa... realmente é algo tragicamente memorável. Isso nos trás tantas e tantas lições de vida, de como reclamamos de nossas vidas sem parar para imaginar a dor do outro, dor de milhões de vidas que foram perseguidas desumanamente por conta de raça, religião, e por ser quem eles realmente eram. Esse tipo de ideologia é tratada nas mídias como se fosse algo passado, como se não continuasse existindo no mundo atual, mas infelizmente, há seres sem capacidade mental o suficiente que ainda apoiam esse tipo de ideologia, que apoiam essa violência contra o próximo, e isso vêm cada dia crescendo e crescendo... Eu não sei nem o que falar desses seres repugnantes, que não deveriam ser considerados humanos, porque se fossem um, entenderiam a dor do outro!, Hipócritas e seres sem ética, é isso que são todos aqueles que escondem seus preconceitos debaixo de "é zueira!" depois de contar a "piada" mais absurda que já presenciei, e aqueles que abraçam ideologias ridículas sem nem questionar o absurdo que defendem. O livro de Anne trás tudo isso a tona, ela sofreu na pele tudo aquilo que alguém hoje em dia faz piada, tira sarro. Entender a história é essencial para qualquer ser humano entender o que vive no contexto atual, história não é só um conto de fadas, é relembrando a dor de vidas passadas, para que tamanha crueldade nunca volte a acontecer.
" Se a dor do outro não doer em mim, eu desconheço o amor."
-13/09/2025, AL - Brasil.
Fontes de pesquisa: O Diário de Anne Frank, G1, Anne Frank house.
Breve comentário sobre os contos do livro Bazar dos Sonhos Ruins. de Stephen King.
Milha 81 (★★★★★) Para minha próxima viagem alguns avisos são necessários: Nunca chegar perto de carros abandonados em áreas desertas, as chances de ser um alienígena devorador de gente são bem altas.
Premium Harmony (★★★★) Qualquer momento pode ser o último, qualquer momento pode ser uma despedida, a morte paira sobre nós, sempre. Somos peixes em um lago, esperando para sermos pescados da vida pela dona morte. Pensamento animador.
Batman e Robin têm uma discussão (★★★★) Apesar da dor de lidar com uma pessoa doente, que em vida definha ao ponto de esquecer quem se ama, há algo no ser humano que nunca se perde, que fica em um cantinho da nossa mente, o senso de sobrevivência, de proteção, e no caso de Pop, de paternidade.
A Duna (★★★★★) Um vício macabro, um poder enigmático, uma certeza inescapável; são coisas que nem os ventos das piores tempestades são capazes de levar; e naquela ilha, naquela duna, uma verdade é escrita. A morte chega para todos, mas até lá, reze que seu nome não apareça naquela maldita areia.
Garotinho Malvado (★★★★★) O mal tem muitas formas, mas a de um menininho de sete anos é a que mais combina com essa força inexplicável da natureza humana.
Uma Morte (★★★) Alguns assassinos morrem dizendo que são inocentes; mas não há como fugir depois da morte. Ela põe fim a todos os segredos, mesmo aqueles que estão no meio de muita merda.
Moralidade (★★★★) Uma história sobre violência e prazer, sobre como nossa moralidade é facilmente corrompida e como essa corrupção nos invade rapidamente, até não sobrar nada visível, nem mesmo um olho roxo; e no entanto, em nossa alma, um negrume grosso, como piche vai transformando ovelhas em lobos.
Vida Após a Morte (★★★★) Desaparecer, abraçar o nada ou enfrentar o eterno retorno de Nietzsche, essa é a questão do pós vida de Stephen King.
Ur (★★★★★) Um conto da Torre Negra sobra novas tecnologias e o mundo da literatura, sobre amor e sobre viagem no tempo (ou quase), um blend de Stephen King extremamente saboroso.
Herman Wouk ainda está vivo (★★) Duas histórias, um acidente, nove vítimas fatais, entre elas sete são crianças, mas pelo menos Herman Wouk ainda está vivo e vai publicar seu novo livro.
Indisposta (★★★★★) É preciso mais que problemas olfativos para se dormir com um cadáver ao seu lado por uma semana. Para isso é preciso uma dose de psicose, com várias pitadas de dissociação da realidade e muita paranoia.
Blockade Billy (★★★) Uma história sobre beisebol, sobre assassinato e sobre como não existe remissão para almas corrompidas.
Mister Delícia (★★★) A morte é aquela visão de desejo inalcançável, incompreendido e animador antes do fim. É o Mister Delícia nos dando uma piscadela.
O Pequeno deus verde da Agonia (★★★★★) Em uma analogia a seu acidente e recuperação Stephen King da cor, forma e poderes demoníacos a algo tão humano quanto respirar. A dor faz parte da nossa natureza mesmo que façamos de tudo para não lembrar. E o pequeno deus verde da agonia vive em cada um de nós, esperando apenas um acidente para começar a se alimentar.
Aquele Ônibus é outro mundo (★★★) Quando paramos no sinal e olhamos ao nosso redor, cada carro, ônibus e caminhão são um mundo em particular, cada um seguindo seu caminho, cada um buscando alguma coisa, e em alguns desses mundos o apocalipse já começou e precisamos de responsabilidade social para agirmos da melhor forma possível.
Obituários (★★★★★) O poder sobre a vida e a morte pode ser tão viciante quanto heroína, é o que aprendemos com esse Death Note em um blog de fofoca.
Fogos de Artifício e Bebedeira (★★) Uma guerra de fogos de artifício entre famílias rivais que causou um desastre de grandes proporções.
Trovão de Verão (★★★★★) Um apocalipse nuclear, um mundo contaminado pela radiação, aos montes animais morrem nas florestas e o céu lentamente vai perdendo a cor, mas, em meio ao fim do mundo, três amigos tem a chance de se despedir de forma linda, calorosa e extremamente emocionante. A maldição do amor em meio ao inverno nuclear.
Ler Coisa de Rico, de Michel Alcoforado, foi como abrir uma janela pra entender um pouco melhor o Brasil e, ao mesmo tempo, olhar pra dentro da minha própria história. O livro não fala apenas sobre o dinheiro ou sobre os hábitos da elite; ele revela, com precisão desconcertante, como a consciência de classe no Brasil é um espelho distorcido, no qual ninguém se enxerga exatamente onde está. Michel, antropólogo de luxo como ele se define, mergulha nas sutilezas dos gestos, dos símbolos e dos rituais que definem o que é “ser rico” — e, principalmente, na negação constante desse status. Porque, no Brasil, o rico é sempre o outro.
Essa frase, que perpassa o livro, ecoa de forma muito pessoal para mim. Vinda de uma família humilde, cresci numa casa onde o salário de um mês era calculado até o último centavo — o suficiente para pagar as contas, nunca para o lazer. McDonald’s era o símbolo do inalcançável: o “luxo”. Meus amigos iam, ganhavam brinquedinho do McLanche Feliz, e eu ficava ali, com aquela sensação de querer e não poder. Era o retrato silencioso da desigualdade em sua forma mais cotidiana.
Michel fala sobre o modo como a elite brasileira constrói sua identidade em contraste com o outro, e, ao reler minhas próprias memórias, percebo o quanto isso se espelha também nas relações de quem vem “de baixo”. Quando minha família brinca que “a Camila enricou”, percebo o quanto as fronteiras de classe são tão simbólicas quanto materiais. Não se trata apenas de ter mais ou menos dinheiro, mas de ocupar um lugar novo que desperta estranhamento — tanto para quem ascende quanto para quem observa essa ascensão; e é engraçado (ou triste) como, pra quem sempre viveu no aperto, ter o mínimo pra viver com conforto já soa como riqueza.
O livro mostra como a elite brasileira vive numa espécie de teatro social, no qual se testa, o tempo todo, quem realmente pertence àquele grupo. Michel descreve com ironia fina como os ricos, em seus jantares e encontros, tentam identificar entre si quem é “rico de verdade”, através de referências implícitas, nomes ditos pela metade, gestos sutis e até pelo modo de segurar um talher. Essa tentativa de validação me fez lembrar das vezes em que, ainda criança, acompanhava minha mãe, empregada doméstica, nas casas de famílias muito ricas. Eu me encantava com aquelas casas cheias de brinquedos, piscinas e pianos, mas também me sentia uma visitante de outro planeta.
Uma cena que nunca esqueci: ver as crianças do condomínio me olharem como se eu fosse uma estranha, alguém “de fora”. Naquele olhar infantil já existia o filtro social que Michel descreve com tanta precisão: a ideia de que o pertencimento é herdado, não conquistado. E talvez por isso, no Brasil, o “novo rico” seja tão facilmente identificado: porque ele carrega, junto com o dinheiro, a vontade de provar que chegou lá, de se vestir, falar e agir como quem sempre esteve nesse lugar.
Michel diferencia o “rico de berço” — aquele que herda não só o patrimônio, mas também a naturalidade do privilégio — do “novo rico”, que precisa constantemente performar o status recém-conquistado. É impossível não me reconhecer nesse meio-termo, nessa travessia entre mundos. Depois de anos de esforço, educação e trabalho, alcancei o que se chama de “classe média”. Mas, ainda assim, há um incômodo quando alguém diz “a Camila ficou rica”. Eu não me sinto rica (e de fato, não sou) — sinto que finalmente tenho o mínimo para viver com tranquilidade. E talvez essa seja uma das grandes provocações do livro: no Brasil, ter o mínimo já é parecer rico para quem tem menos.
Michel também mostra o lado mais perverso da etiqueta e das boas maneiras: o poder de silenciar o outro. Lembro de um episódio descrito por ele, em que uma ricaça escolhe o prato dele sem consultá-lo — um gesto aparentemente gentil, mas que, na verdade, carrega uma violência simbólica sutil. Imediatamente, essa passagem me fez voltar ao tempo em que eu estudava, como bolsista, em um dos colégios mais caros de São Paulo. O colégio ficava longe de qualquer ponto de ônibus — o que nunca foi um problema pros alunos pagantes, muitos deles com motoristas particulares. Já nós, os bolsistas, às vezes andávamos mais de 25 minutos pra conseguir pegar o ônibus mais próximo.
Um dia, a escola decidiu criar um sistema de caronas pra ajudar. E eu nunca esqueci da vez em que o pai de uma colega me ofereceu uma carona num carrão vermelho, com teto solar, daqueles que chamam atenção. Ele insistiu pra que eu sentasse no banco da frente, tirando a própria filha do lugar. Eu fiquei vermelha, disse que não precisava, que podia ir atrás mesmo (porque eu mesma não queria ir na frente). Foi um gesto “generoso”, mas profundamente desconfortável. Parecia que ele queria me dar uma amostra do que era “andar como os ricos”, como se aquele momento fosse um favor inesquecível a uma menina que não pertencia àquele mundo.
E, de fato, quando desci do carro no ponto de ônibus lotado, senti o contraste cortante entre os dois mundos. Vi os trabalhadores cansados no horário de pico às 18h e me juntei a eles para esperar nossa Mercedes-Benz de 40 lugares. Naquele instante, percebi o que Michel quer dizer quando fala que a desigualdade no Brasil é performática: ela se expressa nos corpos, nos gestos, nos carros, nas roupas e nas pequenas humilhações cotidianas que parecem gentilezas.
Outra parte poderosa do livro é quando ele cita uma pesquisa em que 0% dos entrevistados de alta renda se consideraram ricos. Esse dado, tão absurdo quanto revelador, mostra o quanto a elite brasileira vive em permanente negação da própria posição. Sempre há alguém “mais rico”, “mais bem-sucedido”, “mais legítimo”. Essa lógica do “rico é o outro” é o que sustenta a ilusão de igualdade: se ninguém é rico, então ninguém é responsável pela pobreza dos demais.
Essa reflexão me levou de volta à minha infância, quando minha mãe dizia que os patrões dela “nem eram tão ricos assim” e, mesmo assim, viviam cercados de conforto. Era a mesma negação em escala menor. Tudo isso me faz pensar o quanto a nossa noção de “riqueza” é relativa e emocional.
Em Coisa de Rico, Michel Alcoforado mostra que o dinheiro, no Brasil, nunca é apenas uma questão econômica, é uma linguagem, um código cultural, um modo de estar no mundo. O livro é um espelho incômodo para quem viveu o deslocamento de mudar de classe. A gente descobre que ascender é, muitas vezes, viver entre fronteiras: é ter consciência do privilégio sem esquecer o peso da origem.
Ler esse livro foi como revisitar a menina que observava as casas ricas e tentava entender por que algumas pessoas tinham tanto e outras tão pouco. Hoje, adulta, percebo que o abismo continua lá — apenas mais sofisticado, mais educado, mais silencioso. E talvez o mérito de Coisa de Rico esteja justamente nisso: em nos lembrar que a desigualdade brasileira não se mede apenas pelo tamanho da conta bancária, mas pela distância simbólica que mantemos uns dos outros.
No fim das contas, Michel nos faz encarar uma pergunta desconfortável: se ninguém se considera rico, quem, afinal, é o pobre?