O atritar da mordaça não era nada se comparado à dor dos pulsos erguidos acima da cabeça, seguros por uma corda que ia até um gancho preso na parede, cujo propósito inicial era segurar alguma peça de roupa, como um chapéu ou um casaco. Isso fazia com que Lotus tivesse de ficar meio sentado numa posição terrivelmente desconfortável, os braços se cansando de tanto ficarem erguidos e nunca conseguindo encostar completamente os glúteos no chão. Olhava ansioso e irritado para a porta do escritório de Balthasar, de dentro do cômodo, esperando que ele terminasse aquela festinha horrorosa. Sabia que ele odiava receber visitas, então por que chamou aqueles dois nerda imbecis para sua casa? Para torturá-lo, é claro. Só podia ser. Para ensiná-lo uma lição por arruinar sua cozinha (de novo), bagunçar suas anotações, irritá-lo tanto. E ai se tentasse gritar, ai se pedisse por ajuda. Faria pior, faria mil vezes pior. Aquilo na verdade era uma boa ideia, a de experimentar os limites do médico; mas não daquela vez, que ele tinha lhe tirado as drogas de novo. Não podia ficar sem muito tempo, a abstinência chegaria nele primeiro (corpo humano frágil nojento!) e o deixaria naquele estado horrendo que era o de implorar por migalhas. Então esperou. Ouviu cada hora, cada minuto, cada segundo daquela conversa insuportável porque simplesmente não poderia fazer nada mais. Ao menos não sentia-se com tédio, porque a dor e o incômodo não o permitiam. Que bondoso Balthasar era, ao menos o livrando daquele sofrimento que fora o principal motor para impedir Lotus de ir embora. Ah, ele devia saber disso, que precisava entreter o homem gato, ou ele iria embora. Ainda bem que as formas de entretenimento dos dois se encaixavam tão bem. ❛❛ —- !!! ❜❜ exclamou quando a porta finalmente se abriu, revelando o psiquiatra. Balthasar andou até Lotus, um sorriso satisfeito ao admirá-lo na mesma posição que o havia o deixado. Provavelmente aquilo já era o suficiente para estimulá-lo. Não a visão em si, apesar daquilo colaborar, mas a sensação de poder sobre uma pessoa, o fato de ter uma vida em suas mãos. "Pronto para pedir desculpas? Eu vou retirar sua mordaça agora." ajoelhou-se na frente de Cheshire, as mãos indo até a parte detrás da cabeça para afrouxar o nó da mordaça, que caiu no pescoço do mais baixo. ❛❛ —- Vá se foder. ❜❜ foi a resposta rouca, entredentes. Frederick franziu o cenho, não gostando daquele desafio. Suspirou, e se ergueu. Não, oh, não, não aguentaria mais um minuto sozinho. ❛❛ —- Acha que isso aqui é o suficiente? Por favor. Você sabe que se quiser que eu pare de arruinar suas coisas, não é assim que vai conseguir. ❜❜ viu o cenho de Balthasar se franzir um pouco mais, e percebeu que estava o deixando irritado. Ele levou as mãos ao cinto para retirá-lo, e por um instante Lotus se encolheu, pensando que ele o usaria para bater em si ou enforcá-lo. Todavia, a dor nos pulsos e a irritação o faziam continuar falando. ❛❛ —- Eu fui bonzinho o suficiente por não ter gritado, mas sabe o que mais? Talvez eu comece a gritar mesmo. Será que algum dos seus vizinhos viria prestar socorro se eu começasse a berrar? Eu também tenho amigos. Eu vou sair daqui, eu vou contar tudo à polícia, e então você nunca mais vai-- ❜❜ não soube quando exatamente Frederick expôs seu membro e o estimulou o suficiente para forçá-lo a engolir e impedi-lo de continuar falando. Lotus se engasgou fácil, não só pela boca subitamente ocupada mas pelo susto; e não conseguia se afastar, com o mais alto segurando com tanta força seus cabelos. Ficou naquela posição até que fosse solto, respirando fortemente e puxando desesperadas golfadas de ar. "Fique quieto." ordenou, enquanto o cartomante tossia. "Não ocupe o meu tempo com ameaças que não vai cumprir. Por que deixa tudo mais difícil para você?" e enquanto pegava mais ar, Lotus sorriu. É, era por aquele tipo de coisa que continuava ali. Não tardou a ter a boca invadida outra vez, o sorriso sendo considerado uma insubordinação, de certo. Então Balthasar continuou repetindo os movimentos até finalmente gozar na boca do latino. Só então deu-se por satisfeito, percebendo também que havia finalmente o cansado o suficiente para não ter mais forças de sorrir ou retrucá-lo.