Não havia aula durante aquela sexta inteira, entretanto, ainda sim, Nari acordara cedo. Não só ela como seu clã inteiro - o salão dos Mortiferum estava lotado e barulhento às oito da manhã. É que aquele era, finalmente, o dia do Festival Florum e não havia uma alma - morta ou viva - naquela escola que não estivesse animada. Apesar de grande parte dos preparativos já estarem prontos, os alunos e professores corriam pra lá e pra cá ajeitando os últimos detalhes. Enquanto observava toda a movimentação, os olhos de Nari brilhavam em admiração e seus lábios ostentavam um sorriso animado; além de ser a primeira vez da garota no festival, ela nunca havia visto seu clã tão animado e, ironicamente, cheio de vida. Rindo sozinha com seu último pensamento, ela se aproximou das garotas do seu grupo de dança e também companheiras de clã, com as quais teria uma "parte" no desfile de apresentação. "Ei, Nari, estava te procurando. Aqui está a sua roupa." Uma das veteranas falou, entregando as peças a mais nova. "A gente vai se encontrar na entrada do castelo em 30 minutos, ok? Não se atrase." Terminou antes de sumir entre os outros alunos, deixando para trás uma Nari, agora, nervosa. O desfile estava cada vez mais próximo e real, não havia mais como fugir.
Meia hora depois, já vestida nos trajes de cor escura, a bruxinha se reunia com as colegas novamente. Na ordem do desfile, o Mortiferum ficava logo em segundo, atrás somente do Herbae. O que era meio engraçado, porque a imagem de apresentação de ambos era completamente oposta. A primeira vista, não havia muito a se mostrar. No centro estava algo semelhante a uma carruagem - para representar o tempo da guerra - entretanto, era aberta e de forma circular, estando completamente rodeada por uma longa cortina preta, tornando-se impossível de ver seu interior. Também não havia cavalos, motor ou algo assim, a estrutura de madeira era movida por somente uma coisa: magia. Quando o desfile deixou oficialmente os portões da escola e alcançou o caminho que levava até o vale, as cortinas começaram a descer, dando visão a quatro ou cincos alunos - todos do último nível - que estavam sentados em círculo, sobre a estrutura de quatro rodas. Entre eles, Nari reconhecera Cassidy e Ricky. Ao redor dos alunos, havia um círculo feito com giz, e entre os mesmos, havia cristais coloridos e ervas espalhados ao redor de um incensário grande, recheado de incensos. A fumaça que deixa eles era fina, porém comprida. Logo que ficara visível as pessoas acompanhando o desfile pelas laterais da rua, os veteranos sobre a estrutura circular começaram a dizer algumas palavras em latim de forma repetida, como em um mantra; era baixinho, mas se você prestasse atenção o suficiente, era capaz de ouvi-los.
Quando Nari deixou de ouvir seus seniores, virou-se em direção a eles e pode ver o exato momento em que, da fumaça que deixava os vários incensos, começou a surgir várias formas. Elas começavam pequenas e indecifráveis, mas logo tomava forma de homens e mulheres. Eram espíritos, e por suas vestimentas, eles foram soldados. Não literalmente aqueles soldados que levam isso como uma profissão e usam fardas, eles eram os soldados de Baltimore - bruxas e bruxos que lutaram contra o Nefastus, 70 anos atrás, para proteger a magia que se conhecia hoje. Era possível até identificar os espíritos de cada clã. Os Mortiferum usavam capas longas e escuras - como as que a maioria dos alunos usava no desfile -, os Herbae usavam as de cores mais claras, os Potentia carregavam vários instrumentos de luta e os Scientia se tornaram claros quando alguns dos espíritos sentaram-se junto aos alunos, sobre o círculo, e carregavam poções, livros pesados e varinhas mágicas. Naquela época, o Astrum ainda não havia sido reconhecido como um clã, mas a garota sabia que eles estavam ali também. Logo após as criaturas pararem de surgir da fumaça, uma encenação de batalha, como a que ocorreu naquele mesmo dia, anos atrás, se iniciara. Não havia outra palavra para descrever aquilo que não fosse incrível. Era como estar vendo um filme 3D; você tem convicção que não é real, mas em alguns momentos sua mente se esquece disso e é como estar dentro do filme - ou, nesse caso, da guerra.
Nari podia assistir aquilo por horas, se algo à sua frente não tivesse chamado sua atenção. Hallak - outro sênior e um de seus amigos - estava abaixado com ambas as mãos sobre o chão. Então, alguns segundos depois, de todo local onde o chão era terra, começara a surgir dezenas de esqueletos. Não, na verdade, eram centenas. Eles estavam por todos os lados e carregavam espadas e escudos, logo tomando a frente do desfile. A garota deu outra olhada ao seu redor, analisando como o clã de apresentara. Todos os alunos e professores vestiam roupas de cores escura e longas capas que variavam entre tons escuros de azul, roxo, cinza e, é claro, preto. Cada um fazia algo, desde invocar espíritos a usarem magias para mudar totalmente a aura sobre o clã, fazendo com que, por pode passassem, o clima ficasse alguns graus mais frio e o ambiente alguns tons mais escuros. Apesar de toda essa aura obscura, não era como se o Mortiferum passasse medo aos que observavam ou algo assim, pois os sorrisos e risadas animadas dos alunos deixava tudo mais ameno, mostrando como era divertido para eles também.
De tão dispersa observando o desfile que estava, a garota quase não ouviu quando uma das colegas do grupo de dança a chamara. Instantaneamente, voltou a ficar nervosa; era a hora de sua apresentação. Respirando fundo, Nari se aproximara das garotas e se abraçaram, em círculo. Ouviu uma delas falarem para ficarem calmas, afinal, não era nada que não já haviam feito antes, a diferença era que era pra mais pessoas. Então, em uníssono e de olhos fechados, elas ditaram um feitiço. Quando se separam, a bruxinha não sentia mais nervosismo. As únicas coisas em sua cabeça eram os passos da coreografia e a música - que não tocava para todos, só para aqueles que quisessem ouvir. As garotas se dispersaram e instantes depois, dançavam ao redor de todo o local de desfile do Mortiferum. Do início, onde os esqueletos marchavam, até o final, onde os professores do clã fechavam uma linha com seus corpos e carregavam longas velas. Qualquer pessoa que olhasse para as garotas e seus movimentos de dança, veriam muito mais que somente elas. Era como se, acompanhando todos os movimentos delas, houvesse outra coisa. Não tinha realmente uma forma, era como se fosse um vulto branco e dava a impressão que elas dançavam em pares. As roupas das bruxinhas eram de um tecido leve e preto, cheio de pontas que balançavam junto com elas, tornando a imagem algo realmente bonito de se assistir. O desfile do Mortiferum era um contraste; enquanto, de um lado havia espíritos fortes e decididos encenado a batalha de uma guerra, do outro havia jovens garotas deixando a magia fluir através de seus movimentos de dança, com belos sorrisos nos lábios. E isso, no fim das contas, representava bem o clã como um todo. A magia que, assim como sai da vida, sai da morte também.