Às vezes eu sinto como se algo estivesse empurrando meu corpo para baixo; sinto-me exausta, esmagada. Obrigo-me a ir para a cama nessas circunstâncias. Ouvia canções melancólicas, para combinar com a fraqueza corporal e mental. O grupo do Whatsapp do nosso antigo quarteto ainda estava lá, exceto pelo fato de só ter eu no grupo agora. Nomeado de ‘Mor’, deposito todos os áudios dela nele, para que eu possa ouvi-los de maneira mais fácil, já que nossas intermináveis conversas fazem com que meu celular trave. São 2h09, meus olhos estão pesados e meus lençóis cobertos de ranho e lágrimas. Estava ouvindo seus áudios. Novembro de 2014, abril de 2015, agosto de 2015, agosto de 2014. Uma mistura de áudios, épocas diferentes, momentos diferentes, mas uma dor excruciante e incontrolável. E uma saudade que me açoita o peito, sem dó nenhuma de mim. “Não acho que há como recuperar”. “Recuperar o que?” “O que nós tínhamos”. E eu sinto algo se dilacerar aqui dentro. Eu a amo tanto, por que as coisas têm que ser assim? Por que as coisas não podem ser um pouco menos cruéis conosco? Uma série de fatos… Às vezes, a sensação de tê-la escorrendo pelos meus dedos se faz presente. “Mas vocês já terminaram”. Meu cérebro sussurra para mim, indelicado. Mas por quê eu ainda a sinto tão minha? Ela ainda não se acostumou a não ser minha namorada. E eu, idem. O anel ainda está aqui, mesmo que eu tenha me forçado a usá-lo em qualquer outro dedo, numa tentativa desesperada de fazer-me entender que havia acabado. Foda-se o meu entendimento que acabou. Num ato automático, seja após lavar as mãos ou terminar de secar-me após o banho, lá estava eu colocando o anel no dedo de noivado. E às vezes, dar-me conta disso era algo que me rasgava ao meio. A constante lembrança de que somos duas pessoas separadas, ainda assim, tão próximas, tão unidas. Mas não somos mais Rafaella e Luiza. Rafaella. Luiza. Um ponto que nos separa. Parece pouco. Gramaticalmente, uma pausa. Na vida real, um término, uma dor que aperta meu peito e faz com que eu tenha medo. Medo de vê-la com outro alguém, medo de que ela decida se afastar de mim, medo de que a distância que nos assombra a tire de mim. Medo de que ela ache que eu não a amo mais, que não a quero mais, quando a quero tanto… Tanto, Deus, tanto. Enquanto ouvia os áudios, The Blower’s Daughter na rádio. Quase como uma repetição “perfeita”, chorei praticamente da mesma maneira quando terminamos. “Você sabe que eu te amo e que sempre serei tua patinha, não sabe?“ Eu simplesmente larguei o celular naquele momento e pus as duas mãos na cabeça, senti a dor de uma espada sendo cravada em meu coração. Ela fez uso do primeiro apelido carinhoso que lhe dei. E doeu tanto ler aquilo naquele momento. Doeu tanto. Ainda dói. Eu me odeio tanto por não ter sido o bastante pra ela, por não ter sido o que ela merecia. Eu me odeio. Mas veja ela, tão linda, tão inteligente, a devoradora de livros, a menina do delineador impecável e das roupas estilosas. Ela é maravilhosa. Uma divindade. E eu não sei aonde pretendo chegar com isso, tendo total certeza que ela não irá ler… Acredito que seja melhor que ela não leia. Eu só preciso falar. Graças a Deus que ela pode desabafar com sua amiga, mesmo que eu arda de ciúmes, fico feliz que hajam pessoas com quem ela pode contar. Talvez eu converse com a minha mãe a respeito, só pra chorar mais um pouco. Às vezes dói muito desabafar pra si mesma. Eu tento me cuidar, eu parei de passar tardes me enchendo de vinho. Eu só bebo em urgências, tipo quando meu pai me irrita ou quando eu sinto que vou explodir de raiva. Só um gole… Só um gole. Eu disse que me cuidaria, morena… Eu disse.
São 2h37 e eu amo você.