Felizes para sempre - capítulo 5
Ship: Lutávio (Luccino/Otávio)
Sumário: Virgílio ameaça Luccino para que o leve para São Paulo enquanto Otávio se pergunta o que aconteceu com Luccino.
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Capítulo 5 - Noite estrelada
Luccino sentiu o mundo voltar a clarear a sua volta aos poucos, piscando lentamente enquanto seus sentidos voltavam, seu estômago embrulhado e sua mente confusa e atordoada.
A confusão não durou muito, combatida com um tapa contra sua bochecha esquerda, que o fez grunhir e seus olhos arderem.
- Acorda desgraçado – ele ouviu alguém dizer, mas não reconheceu a voz imediatamente. Piscou os olhos de novo, dessa vez turvos por conta do tapa, antes de sentir outro tapa do outro lado do rosto, gemendo baixo e olhando para o chão. – Acorda!
A voz agora lhe parecia mais clara.
- Vir... Virgílio? – ele murmurou, abrindo seus olhos e piscando lentamente, sua visão clareando enquanto ele levantava a cabeça. Aos poucos, sua visão foi clareando, e ele se viu dentro de um galpão que não conhecia, com Virgílio logo a sua frente. – O que...
- Quieto! – Virgílio grunhiu, se abaixando e pegando Luccino pelos cabelos, levantando sua cabeça e o fazendo gemer de dor novamente. – Você não vai falar nada aqui. Ouviu? Tudo que você vai fazer é ir comigo até a sua oficina, pegar o carro do seu amigo Brandão e me levar direto para São Paulo. Ouviu bem?!
- O único lugar que eu vou te levar é pra cadeia – Luccino respondeu por entre os dentes, tentando mover seu corpo, e somente ali percebendo que estava todo amarrado contra a pilastra. Virgílio grunhiu, não gostando nada da resposta de Luccino, e deu-lhe um soco no estômago que o teria derrubado se ele não estivesse amarrado.
- Escute aqui, verme – Virgílio sussurrou, puxando Luccino pelo cabelo enquanto ele ainda arfava por conta do soco – Você vai fazer o que eu mandar, ou se não, vamos nós dois direto pro inferno. Entendeu?
- Já não basta matar nosso pai, vai me matar também Virgílio? – Luccino perguntou, respirando forte enquanto cerrava os olhos. – Ou seu objetivo é ser o único Pricelli de toda a terra? Vai sair atrás de Fani e Ernesto depois daqui?
- Eu mato qualquer um no meu caminho se me atrapalhar – Virgílio respondeu, se afastando de Luccino – E se você não quiser colaborar, eu acho outro que queira.
- Pois então vai ter que matar o Vale inteiro! Ninguém vai querer te ajudar, nem mesmo por meio de ameaças! Não depois de tudo o que você fez, com todos, à mando de Xavier! – Luccino exclamou, tentando se soltar das cordas que o prendiam. – Você é desprezível, Virgílio! Você sim é o desertor que papa falava tanto sobre! Sempre foi e sempre será você!
- Quieto! – Virgílio gritou, se virando para Luccino com a arma apontada em sua direção. Ao se ver cara a cara com o perigo, Luccino se calou, seu corpo tenso e tremendo um pouco. – Não ouse usar nosso pai contra mim. Aquele tiro não era para ele, e você sabe muito bem disso.
- Era para Ernesto. Seu irmão. Muito pior do que ser para nosso pai – Luccino murmurou, respirando rápido. – Você ia matar seu próprio irmão... pra quem você ensinou tudo...
- Mataria e matarei, se preciso – Virgílio disse, sua voz fria e olhos vazios. Luccino sentia mais medo daquele olhar do que da própria arma. – Ernesto, Fani, você... todos traidores da família. Todos desertores nojentos, desgraçados, que destruíram tudo que poderíamos ter sido... A culpa é toda de vocês.
- Foi você que destruiu sua própria vida! – Luccino gritou, cheio de ódio e tristeza dentro de si. – A culpa de tudo isso é sua de se manter do lado de Xavier! Aquele crápula, aquele... aquele sádico, maldoso-
- Chega! – Virgílio disse, alto, puxando o tambor da arma e fazendo Luccino de calar novamente – Nem mais uma palavra contra Xavier! Isso não é sobre ele. Você vai me levar para São Paulo. Hoje.
- Eu não vou te levar pra lugar nenhum – Luccino grunhiu, e Virgílio abaixou a arma, acenando e se virando.
- Ah, Luccino – Virgílio disse, bem mais calmo, e Luccino sentiu um arrepio pela sua espinha. Era quase como se visse Xavier, ali, à sua frente, no corpo de seu irmão. O que aquele homem tinha feito com Virgílio? – O único problema é que você vai sim.
- Eu não vou – Luccino grunhiu – Pode me bater, me amarrar, até me matar. Eu só te levo pra cadeia Virgílio, que é aonde você já deveria estar.
- Vai sim – ele riu, sádico, e se virou, com uma sacola na mão. Luccino franziu as sobrancelhas, confuso, e Virgílio se apoiou contra a mesa, tranquilamente tirando o que tinha dentro da sacola.
Ao ver as primeiras peças da roupa, Luccino se sentiu confuso, sem entender. Mas ao ver Virgílio tirar uma farda do exército e coloca-la sobre a mesa, o plano começou a entrar na cabeça do mecânico.
- Virgílio... o que é isso? – ele perguntou, confuso e extremamente preocupado. Virgílio jogou a sacola para longe e pegou o uniforme, o observando.
- Eu roubei isso aqui de um dos guardas do exército – ele explicou, colocando o chapéu sobre sua cabeça. – É tudo que eu preciso para adentrar o quartel durante a noite sem desconfiarem.
- E-eu não estou entendendo – Luccino murmurou, e Virgílio largou a roupa, andando até Luccino e o segurando pela gola de seu paletó.
- Pois então entenda, seu verme – ele gritou, pressionando o irmão contra a pilastra – Se você não me ajudar, amanhã quando acordar, não haverá coronel Brandão, não haverá capitão Randolfo, e muito menos major Otávio pra comandar o quartel – ele disse, seus olhos demonstrando raiva e nojo, fazendo o coração de Luccino acelerar. – Entendeu?! E se não me ajudar de novo, será a vez de Mariana, e aos poucos, eu vou matar essa cidade inteira, até que você decida parar de bancar o justiceiro, ou até que não exista mais ninguém aqui para me prender. Entendeu?!
- V-Virgílio, você está louco, você... – Luccino tentou, sua voz fraca, mas Virgílio o empurrou contra a parede novamente e grunhiu.
- Eu sei muito bem que tipo de homem você é, se é que pode até se dizer homem – ele disse, o nojo em sua voz consumindo todas as suas palavras – Se você não fizer o que eu mandar, eu vou fazer o povo do Vale matar seu querido major à pedradas, ouviu?! ENTENDEU?!
Luccino somente assentiu, fechando os olhos e sentindo seu coração desesperado quase pular para fora de seu peito, enquanto tudo doía e machucava, especialmente dentro de si.
- Nada do meu bambino? – Nicoletta perguntou quando o grupo de busca de aproximou, e Ernesto balançou a cabeça, suspirando.
- Nada mama. A boina estava no rio mas não tinha nada mais de Luccino nas redondezas, nem mesmo ele – suspirou, enquanto Fani se aproximava de Edmundo.
- As vezes ele está realmente querendo ficar sozinho – ela sugeriu, segurando o braço de seu amante.
- Eu ainda não estou gostando nada dessa história – Brandão murmurou, balançando a cabeça, mas Mariana segurou sua mão e sorriu.
- Nada de mal deve ter acontecido. Daqui a pouco ele aparece. Ou a polícia vai acha-lo. Nós temos que ir para casa e descansar agora. Amanhã podemos voltar a procurar, se é que ele não vai voltar – ela piscou para Nicoletta, que sorriu, mais calma.
- Obrigada minha filha – a italiana disse, sua voz um pouco trêmula, e tanto Ernesto quanto Fani se aproximaram dela.
- Mama se preocupa muito com o bambino mais novo – Fani riu, abraçando sua mãe. – Mas tudo vai ficar bem. Já já ele volta.
- Sim, e nós vamos. Com licença – Mariana assentiu, e Brandão também.
Otávio, que estava mais distante de todos, acenou para a família Pricelli antes de seguir Mariana e Brandão em direção ao Vale. Ele estava quieto, até demais, e seguiu sem palavras pela estrada. Mariana tentava até pensar no que dizer, mas nada lhe vinha à mente.
Quando chegaram na bifurcação para a casa de Brandão, ela pegou a mão do major e sorriu quando o viu virar.
- Boa noite Otávio. Durma bem – ela disse, sua voz suave, mas ele somente acenou e apertou sua mão.
- Boa noite Mariana. Coronel – ele bateu continência e saiu, reto, sem qualquer palavra.
Mariana suspirou, mas Brandão a convenceu de entrar e deixar Otávio com seus próprios pensamentos. Assim, Otávio seguiu em silêncio pela estrada, parando na próxima bifurcação.
Suspirando, ele se virou para a direção contrário ao Vale, se dirigindo para a oficina de Luccino, na esperança de encontra-lo lá. O sol já tinha se posto á um tempo, e a estrada era um breu só, iluminada pela lua e pelas estrelas.
Ali, sozinho, andando devagar pela escuridão da noite, Otávio se deixou pensar no que estava acontecendo. Afinal, não tinha reagido à praticamente nada. Não reagiu ao comentário de Ofélia, não reagiu à fuga de Luccino, e nem ao seu desaparecimento. E nem ele mesmo entendia porque.
Ele sabia que, por dentro, estava desesperado desde que Luccino soltara sua mão para entrar em casa, e não tinha voltado. Sua mente estava a mil por hora, seu coração disparado, ansiedade em seu pico, mas por fora, estava apático.
Sereno, até. Como se nada daquilo fosse importante, ou não lhe preocupasse.
Mas como preocupava. Ele sentia como se todo o ar do mundo tivesse desaparecido depois do desaparecimento de Luccino. Como se tudo estivesse mais pesado e todo barulho fosse motivo de alarde.
Ainda assim, não demonstrava nada.
Em silêncio, ele foi até a oficina, a encontrando fechada e com as luzes apagadas. Sua esperança se foi e seu coração continuou disparado de medo que algo tivesse acontecido com Luccino, embora o seu lado racional dissesse que não havia o que temer.
Ele cogitou sair e voltar para a cidade, para o quartel, mas logo despistou a ideia, pegando sua cave reserva e entrando na oficina. Ele ligou as luzes, fechou a porta, e se sentou no carro de Brandão, olhando para o volante, as marchas, os pedais, e lembrando das primeiras aulas que Luccino tinha lhe dado.
De fato, ele não tinha aprendido nada de como se dirigir um veículo. Mal sabia ligar o carro em que estava.
Suspirando, ele deixou seu corpo relaxar e se deitou no banco, olhando para o teto e contando as tábuas como quem conta carneiros para dormir. Não havia como ele dormir, não naquele estado de nervos, mas estar na oficina já o acalmava. Assim, ele sabia que se Luccino voltasse para casa, para a mansão de Brandão ou para a oficina, ele estaria amparado de qualquer maneira.
E Otávio se sentia melhor na companhia dos utensílios de trabalho de Luccino. A oficina já tinha se tornado sua casa, o lugar aonde eles sempre se encontravam, ficavam juntos, trabalhavam juntos, e tudo mais. Era o lugar deles, um cantinho do paraíso, como Ernesto tinha dito.
Otávio suspirou, balançando a cabeça e fechando seus olhos tentando se distrair.
Ou dormir.
Até que Luccino voltasse.










