Betty Faria como Salomé em "Bye Bye Brasil" (1979).
dir. por Cacá Diegues.
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Betty Faria como Salomé em "Bye Bye Brasil" (1979).
dir. por Cacá Diegues.
Bye bye Brasil (1980) dir. Cacá Diegues
Hoje é aniversário de 76 anos de Chico Buarque. Esse é o tradicional post de todo ano, de agradecimento por viver no mesmo espaço-tempo que esse homem, onde sempre escolho uma ou duas músicas dele para declarar meu amor por ele.
No isolamento social, ouvi muito sua discografia. Não é uma novidade, ouço Chico Buarque dia sim e dia também, mas há três anos escrevi sobre “Iracema”, uma canção de exílio, e volto a falar dela porque fazer quarentena numa cidade que não é a minha intensificou ainda mais essa sensação de exílio, como se eu precisasse me esconder - e não foi isso mesmo? Fora a solidão, semanas nas quais fiquei incomunicável, uns dias afoita e doida pra ligar a cobrar - para quem? Deve ser a terceira ou quarta vez que falo sobre essa música, pois todo ano “Iracema” renova em mim seu significado: com os sonhos que a personagem tem, os planos que coloca em prática, os amores que conhece e até mesmo a não-vontade em retornar.
Ano passado, quando eu podia ler no ônibus sem ficar tonta, sem me sentir sufocada entre o óculos e a máscara, o livro de Wagner Homem, que narra as histórias das canções do Chico, me contou que “Iracema” foi uma canção encomendada para um filme, mas não ficou pronta a tempo: “o filme foi finalizado em três ou quatro meses, a música me pediu sete”, disse Chico.
Há três anos gostei de falar sobre essa ligação telefônica que continua as narrativas de “Bye bye, Brasil” e “Anos dourados”, observação muito bem feita por José Miguel Wisnik. Daí que hoje me lembrei de algo que Caetano disse sobre Chico, provavelmente no documentário Coração Vagabundo, algo que nunca entendi antes de VIVER o disco As Cidades: “Chico Buarque é mais São Paulo que Rio de Janeiro”. É verdade, faz sentido. Tem uma coisa no Chico que é muito cosmopolita e muito do mundo todo, mas você só percebe quando se encontra fora do ninho, da sua zona de conforto e de tudo que já conhece. O disco As Cidades é meu favorito do Chico e, junto com algumas canções do Belchior, é o que me fortalece aqui em São Paulo.
Dia 26 é aniversário de Gilberto Gil, volto para falar sobre “Back in Bahia”. Em agosto, mês do solar Caetano, “Vaca profana”. Junto com “Iracema,” essa é minha tríade de canções sobre não-pertencimento, sobre quem não sabe voltar para casa.
Parabéns, Chico.
Bye Bye Brazil (1980) is one of the New York Times 1,000 Best Films.
There are no full critical reviews to be found for the film on Metacritic or rotten tomatoes. The New York Times says only “picaresque and entertaining,”
My rating - above average.
The film was co-written and directed by Carlos Diegues who was born in Maceio, Brazil, and has 24 director credits from two shorts 1960-61, to 2018. None of his other films are notable.
Meu professor de música, uma vez, apareceu de violão na mão e cantando “Trocando em Miúdos”. Mais tarde, ele admitiria que “Bye Bye, Brasil” foi a música que o fez desistir de uma viagem para fazer carreira no exterior. Só considera loucura quem não entende o que é a aflição de estar longe de casa. Eu mesma, na época.
Estar longe de casa me tornou mais emotiva: agora eu choro escutando uma das canções (que julgo ser) mais que cafonérrimas do Chico Buarque. Para mim, As Cidades foi seu último grande disco - já se passaram exatamente vinte anos. Porque ele tem a atmosfera de estar em qualquer lugar. Ao mesmo tempo, na minha cabeça, pelo menos com relação as três primeiras músicas, conta uma só história - que vai continuar no próximo disco, o Carioca. E “Carioca”, curiosamente, é título da canção que abre As Cidades. “O poente na espinha das tuas montanhas / quase arromba a retina de quem vê”: é alguém passeando pelo Rio e narrando o que tateia, escuta, enxerga e prova (“gostosa, quentinha, tapioca...”). Quem é essa pessoa? Provavelmente Iracema.
“Iracema Voou” é narrada por um amigo. Ela partiu do Ceará, provavelmente conheceu o Rio de Janeiro e rumou para os Estados Unidos, levando roupa de lã. “Vê um filme de quando em vez, não domina o idioma inglês” e, enquanto lava chão numa casa de chá, planeja estudar canto lírico. Ao luar, sai com “um mímico”, a evidência de que desconhecer outro idioma não impede relações. Esperta, não dá mole pra polícia, sente saudades de casa, mas não em excesso, ela quer ficar. E a “Iracema da América” (o nome fazendo jus ao destino em anagrama), do Buarque de Hollanda, faz companhia para a “Ana de Amsterdam”, “Joana Francesa” e a Nina da Rússia - aquela que Chico conheceu pela internet. Mas Iracema, na sua singularidade, pretensiosamente representa todos os imigrantes do mundo - “a história de milhões contada em três minutos”.
Os dois amigos se reencontram em concepção onírica na próxima faixa, “Sonhos Sonhos São”.
(Alguma coisa em toda essa história montada na minha cabeça lembra outra, improvável: o romance Sputnik Sweetheart, de Haruki Murakami, tanto quanto as idas e vindas de Budapeste, do próprio Chico.)
Na interpretação de José Miguel Wisnik, “Iracema Voou” e “Bye Bye Brasil” puxam “Anos Dourados” pelo mesmo fio: o do telefone. Iracema seria, então, empregada doméstica que conta suas aventuras em solo estrangeiro ao ex-patrão, assim como “Bye Bye, Brasil” é a saudade daquele que migra (sobretudo quando obrigado) e “Anos Dourados” é uma provocação entre amantes. Esse texto de Túlio Ceci Villaça explica que “Nina” então seria o salto direto do telefone para a internet, sem passar pelo aparelho celular e embarcando na diferença entre gerações - Nina, bailarina jovem, faz mapa astral e ensina o outro lado a usar o Google Maps.
Ainda vou montar minha playlist do exílio: começa com “Iracema Voou”, termina em “Back in Bahia”, do Gil.
E falando na Bahia: tenho saudades, mas não muita. A aflição não pesa pela distância, mas por inadequação. Para isso, serve um verso do Caetano e a minha marra até o pescoço: “e eu, menos estrangeiro no lugar que no momento / sigo mais sozinho caminhando contra o vento”.
Baixando a guarda do orgulho, fragilizada por São Paulo: uns dias, afoita, te ligo a cobrar:
"Bye Bye Brasil" (idem) - cinema.
Cópia restaurada em exibição no cineSESC. Um amigo convidou e fomos juntos. Acho que nunca vi esse filme por inteiro, somente algumas cenas. Já era hora de assistir de verdade.
depois de ver: filmaço! cheio de cenas lindas. poesia e também crueza. José Wilker dá show. filme de 1980 e o Brasil mudou pouco.
Fonte na imagem.