Ela deveria ter algo entre 1,60 e 1,70m, ninguém sabia ao certo; uns diziam que seus olhos eram de um castanho tão escuro e denso como a noite, enquanto outros, afirmavam ter visto lampejos de um doce mel naquele par de olhos tão grandes. Ninguém reparou na garota de cachecol vermelho que estava bem ali.
Ela passava horas sentada nos cantos de uma livraria qualquer, apenas observando a movimentação pela mais pura e simples forma de diversão. Passavam homens, mulheres, crianças, idosos e, os tão intrigantes, jovens. Por entre prateleiras, beijos, brigas, sorrisos e choros soluçados graças a histórias tristes, vividas ou relidas, se encontravam os jovens; eles eram uma espécie estranha para a menina, estavam sempre em grupos mas, ao mesmo tempo, tão sozinhos, envoltos nos mais diversos pensamentos; usavam roupas parecidas, uniformes ditados pelo cultuado deus que chamam de "moda"; se diferenciavam em assuntos mas, de maneira irritante, soavam tão semelhantes na euforia com que se deliciavam em parecer sempre saber mais.
Um arrepio percorria o corpo da garota sempre que ela se levantava; quando ela saia de seu pequeno refúgio, ela se identificava com eles, era um deles. A ideia de ser igual, apenas mais um em meio a multidão, a assustava; quando ela saia de seu pequeno reinado ela não era nada para ninguém. Ela pensava assim, que era um nada na vida de todos os outros mas, por mais que ela nunca vá admitir, ela estava errada. Na vida de um certo garoto de olhos azuis, ela não era a "segunda opção", era unica, exatamente como gostava de se sentir.
Ele sabia que ela tinha exatos 1,73m de altura, era apaixonada por bandas pouco conhecidas, erguia o nariz por trás de uma caneca de café para parecer indiferente e esconder que, por dentro, era um gatinho assustado de olhos brilhantes (e que fique claro que eram olhos amendoados com um leve brilho dourado); ele sabia de tudo isso porque a desenhava todos os dias. Sentado atrás de uma arara de livros de bolso, ele tinha um campo de visão perfeito: ele a via sem ser visto.
Eles eram perfeitos desconhecidos, se negavam a serem iguais, moldados pela sociedade; tinham gostos muito parecidos, hobbies semelhantes e mentes distantes, ambos passaram a vida se perguntando se havia, em algum lugar fora de seus esconderijos, alguém como eles, talvez até mesmo aquela palhaçada de "alma gêmea" que viam tanto na TV. Ele sabia a resposta; ela não.
Em uma certa sexta-feira chuvosa, ele decidiu que precisava vê-la mais de perto, por outro ângulo; ele já desenhava seu perfil com perfeição e a necessidade de tocar as linhas daquele rosto estava ficando incontrolável. Esperou até que ela se distraísse com a movimentação típica do horário de almoço, ela seguia aquela rotina todos os dias então era fácil para ele levantr e passar despercebido. Pela primeira vez, ela se sentiu entediada e ignorou a presença das pessoas que entravam ali; eram sempre os mesmos rostos afobados de olhos cegos, viciados nos ponteiros do relógio; com um longo suspiro, ela correu os olhos pela loja até encontrar o ponto fixo perfeito: os livros de bolso.
Ele se levantou, ajustou o óculos; ela arregalou os olhos e sentiu as bochechas queimarem. Ele a encarou e corou também, decidiu ir em sua direção; ela desviou o olhar e um nevoeiro cobriu seus pensamentos. A resposta que procurava era saber quem ele era mas tudo em que pode pensar foi: "então não era mais uma bobagem da TV".