Dolezal é branca
Rachel Dolezal está na moda. Ela era presidenta local da NAACP (Associação Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor), possui uma vida inteira dedicada a academia e a defesa das minorias, é professora de estudos afro-americanos, possui quatro irmãos negros adotivos, etc. Mas ela acendeu um debate fortíssimo nesses últimos dias por ter assumido identidade negra. Aí amigo, fudeu.
Numa sociedade tão acostumada com a definição precisa de brancos, negros e nativos americanos, uma pessoa de diversas raças (?) está procurando sarna, só pode. Não é suficiente uma vida dedicada ao estudo e compreensão de minorias, não basta ter experiências próximas relacionadas às mesmas, não adianta mudar a cor da pele e o estilo do cabelo. Nasceu branca, é branca. Nasceu preta, é preta. Michael Jackson sabia disso, vamos lembrar daquele momento histórico quando foi lançado o clipe de Black or White em 1991 onde ele apareceu mais branco que o papel A4 da impressora de casa e todo mundo teve um ataque por 18 anos. Lá estava ele, a galinha dos ovos de ouro da família Jackson, obviamente negra, completamente transfigurado em uma versão mais amigável para o mundo trazendo a mensagem-hino de sua vida. Depois dali, Michael não conseguiu mais sair desse debate polêmico, virou chacota e, depois de anos levando porrada da mídia e de todos, não aguentou a quantidade de remédios que tomava pra aguentar essa vida. Não estou querendo dizer que foi o debate que o matou, nunca saberemos pois nunca seremos ídolos pop mundiais sob pressão constante como ele foi.
Mas aí aparece uma mulher que nasceu branca e foi aos poucos modificando sua identidade através de seu comportamento, suas experiências. Hoje, de acordo com um artigo publicado por Jelani Cobb no New Yorker, os critérios que excluem Rachel da sua nova identidade são menos sólidos dos que os critérios que a validam como tal. Ela obviamente é branca, não há como negar, mas ao mesmo tempo sua luta parece validá-la mais que a maioria das pessoas negras que não possuem histórico de ativismo pró igualdade racial. Recentemente seu irmão Ezra Dolezal a acusou de “black face”, um crime absurdo e curiosamente normal em festas universitárias por todo território americano, em que brancos pintam o rosto de preto e se apropriam da cultura para zombar dos estereótipos negros americanos. O filme “Dear White People” mostra o tamanho do problema que esse tipo de crime pode gerar. Nele, um grupo de ricos, jovens, brancos americanos realiza uma festa em uma república onde o tema é a cultura negra e estimula os alunos a pintar a cara, usar roupas largas e colares de ouro, trazer armas (de brinquedo) e usar todo e qualquer estereótipo negro espalhado dentro da cultura de massa. Lógico que isso causa revolta em uma república negra dentro da universidade e a coisa fica feia.
Rachel vem recebendo críticas de todos os lados. Seus pais soltaram uma foto dela adolescente e reiteraram “ela é branca”. Seu irmão a acusou publicamente. A comunidade negra não demorou para detonar ela, acusando-a de apropriação de identidade racial sob justificativa de desconhecer na pele a discriminação e injustiça provocadas por uma cor de pele diferente da branca. Ela teve que pedir demissão da NAACP por conta da polêmica. Apareceu em todos os jornais e revistas do mundo todo e muitos esperavam que ela pedisse desculpas, mas ela continuou firme com sua nova identidade. Talvez sua maior mensagem acabe sendo que, ao mentir sobre sua raça, também assume-se que a identidade racional é social e não pessoal. Veremos o desenrolar desse debate por muitos anos.
A verdade é que a cultura americana é muito louca. Quando Dave Chapelle lançou o Racial Draft em seu show, colocava brancos, negros e orientais no palco e pedia que cada raça escolhesse a personalidade que parecesse mais com a cultura da mesma. Assim Eminem foi escolhido pela comunidade negra, Wu Tang Clan foi escolhido pela comunidade oriental, Lenny Kravitz foi escolhido pela comunidade judaica. Lógico que em tom de comédia, como tinha que ser no Chapelle Show, mas isso coloca em pauta de forma genial um tabu americano: A dificuldade de identificação e compartimentalização, hoje discutida amplamente através da Caitlyn Jenner (ler artigo FODA da Clara Cavour aqui no Ornitorrinco). Jon Stewart fez um dos comentários mais lúcidos sobre toda a questão de Caitlyn, que também se aplica a Rachel de forma cômica. No vídeo do youtube, ele coloca todas as formas depreciativas em que Caitlyn já é julgada apenas 24 horas depois de aparecer na mídia. Algo muito parecido acontece com Rachel, que deve enfrentar um inferno nos próximos meses. BTW, o próprio Stewart faz uma análise (hilária) do caso Rachel aqui.
Não há problema ser branca e lutar por direitos das minorias assim como não há problema ser um homem feminista, uma trans cristã, um evangélico pró legalização da maconha. Quer ser, que seja. Eu acho errado mentir pra si mesmo, parecer algo que não é. Recentemente o filho de Tom Hanks resolveu assumir sua inegável identificação com a cultura hip-hop e disse que não vê problema em falar “nigger” ou “nigga” em suas letras, algo que gerou certo desconforto nos Estados Unidos. Engraçado que ninguém discute como Eminem deveria ter o mesmo tratamento que foi dado ao garoto, mas isso é outro assunto e sim, há motivos pra isso.
Mas há aí algo que Rachel não previu (ou se previu não pontuou ainda). A mídia que a coloca no centro das atenções está manipulando a informação de forma que o crime “black face” seja discutido e atenuado na mídia, dando precedente para que mais uma forma de preconceito seja estimulada por conta de uma distorção na notícia.
Seja como for, eu ainda não sei se a notícia é boa ou ruim. Com certeza Rachel errou ao mentir sobre ser negra. Ela não é negra. A construção da identidade dela foi branca assim como sua pele adolescente. Mas existe ali na notícia algo que não foi perfeitamente explorado, algo que vai ser esmiuçado nos próximos meses, algo que adormece entre as linhas da falsa verdade que envolve o caso.














