Capítulo Único
As folhas da enorme árvore voavam soltas pelo vento, anunciando o início de mais um outono. Ela parecia tão frágil sem as folhas verdes de sua copa para lhe proteger. Igualmente assim parecia Sarah, que a cada dia que se passava ficava mais fraca.
Enquanto Thomas segurava sua mão, as memórias de cada momento dos cinco anos que passaram juntos rondavam a mente dele. Thomas sorriu ao lembrar-se do dia em que se conheceram. Ela tinha apenas quinze anos de idade e toda a timidez da menina o fez se apaixonar no mesmo instante em que a vira. A cada dia que ela ia desabrochando, como uma rosa, o sentimento de ambos somente aumentava e nenhum deles nunca se imaginou sentindo seu coração bater tão rapidamente com apenas o sorriso do outro.
Sarah achava que vê-lo sofrer por ela era pior do que sentir na pele as consequências de sua doença.
A garota desviou seu olhar perdido da folha que havia caído da árvore frondosa, vista pela janela do pequeno quarto branco do hospital em que se encontrava, e encarou sua mão entrelaçada com a de Thomas.
- Como será o amanhã sem você? - ela disse docemente acariciando a mão do rapaz – Esse é o nosso último adeus? - ela perguntou com a voz fraca.
Thomas odiava ouvi-la falando assim. Ele só descobriu a doença de sua namorada quando a mesma desmaiou durante uma briga boba do casal. Lembrar dela lhe dizendo que iria morrer era horrível, mas pior ainda era pensar que não demoraria muito para que o inevitável acontecesse. Desde então, ele tentou fazer com que os dias da garota fossem perfeitos, não hesitou em realizar nenhum desejo da mesma. Ele havia se tornado seu salvador. Mesmo sabendo que foi ela que o salvou, dando sentido à sua existência.
Sarah se ajeitou em sua cama e olhou para os olhos brilhantes de Thomas que tanto amava.
- Thomas... - ela sussurrou – como foi o verão para você? - ela perguntou a ele com um sorriso singelo em seus lábios – Me responda como será o amanhã sem você?
Ele lhe respondeu apenas com o silêncio de seu medo em perdê-la. Fechou os olhos e uma lágrima escapou deles, escorrendo por sua face e deixando um gosto salgado em sua boca.
- Por favor, amor, não chore. - ela disse cada vez mais fraca – Thomas, olhe para mim. - ele abriu os olhos e fitou Sarah, tentando controlar suas lágrimas – Preste muita atenção no que eu vou te dizer, porque eu não sei se aguentarei até o final. - os olhos dela lacrimejavam pronunciando as palavras.
- Sarah, não diz...
- Thomas, por favor, me deixe falar. - ela implorou a ele, que apenas balançou a cabeça para que ela prosseguisse - Eu sempre estarei com você. Eu sou a âncora do seu sofrimento. - as lágrimas já dominavam a face de Sarah, que tentava lutar para poder dizer suas últimas palavras – Não há fim para o que eu irei fazer. Sabe por quê? - Thomas balançou a cabeça negativamente deixando algumas lágrimas escaparem – Porque eu te amo. – Ela apertou a mão dele e respirou profundamente – Eu te amo até a morte.
Sarah levou as mãos entrelaçadas até a sua boca e a beijou. Fechou os olhos uma vez, respirou fundo todo o ar que aguentava e abriu os olhos novamente. Thomas enterrou sua cabeça na beirada da cama, apertando fortemente suas mãos com a da menina. O sofrimento era profundo demais para tudo o que ele conseguia sentir. E as últimas palavras de Sarah ficavam ecoando em sua mente como um disco no replay. Ele tinha plena consciência de que aquelas feridas nunca curariam, porque a dor daquela perda seria maior do que aquele pequeno quarto branco podia suportar.
Ele levantou sua cabeça e encarou as montanhas que o sul da Califórnia proporcionava por trás daquela mesma árvore que, há alguns minutos atrás, os olhos de Sarah fitaram. Thomas olhou para a face molhada pelo choro da menina, acariciou-a e disse:
- Eu sempre estarei com você, ao lado da âncora do meu sofrimento. - ele sorriu tristemente ao pronunciar aquelas palavras ainda carregadas de dor – Tudo o que eu sei, ou tudo o que sempre soube é que eu te amo. E vou te amar até a morte. - ele se levantou e selou seus lábios com os dela – Como será o meu amanhã sem você?
Sarah deu um leve sorriso ao ouvir as palavras de Thomas. O aparelho de batimentos cardíacos ia diminuindo aos poucos e as lágrimas de Thomas aumentavam vendo o que estava acontecendo. Ela deu um pequeno sorriso antes de fechar os olhos novamente, mas desta vez, para sempre. Ele tentou chamar por algum médico, mas já era tarde demais, Sarah já havia partido.
Os médicos pediram para o garoto se retirar do quarto e assim ele o fez. Enquanto tentava prender o choro assistia a tentativa de reanimação de Sarah pelo vidro do quarto. Porém, a única coisa que viu foi os médicos cobrindo Sarah com o lençol. Suas lágrimas aumentaram incessantemente e sentiu suas pernas bambearem. Sentiu seu coração quebrar em dois e logo em seguida, um imenso vazio tomou conta de seu ser.
- Porque eu te amo... - foi a última coisa que disse antes de ser retirado do local por alguns enfermeiros que chegavam ao quarto da menina.
Thomas deixou o hospital aos prantos e nem mesmo os fracos raios solares conseguiram aquecer seu coração partido pela ausência de Sarah. Foi em direção ao seu antigo apartamento, porém parou na praça que havia na esquina de sua rua. Sentou em um dos bancos de madeira e desabou a chorar. Chorou todas as lágrimas cabíveis a ele. Chorou feito uma criança perdida dos pais. Enquanto deixava suas lágrimas escorrerem por sua face, sentiu uma leve brisa tocá-lo. Sorriu e pensou em Sarah.
- Eu sei, você sempre estará comigo. - ele sussurrou enquanto uma última lágrima morria em seus lábios.
Thomas havia feito uma promessa à menina, e não seria agora que iria quebrá-la. Levantou do banco e seguiu em direção à sua casa.
Ainda era cedo, mas Thomas tentaria seguir seu caminho como Sarah pediu que o fizesse, porque o fato de que ela era a âncora de seu sofrimento é a lembrança do quanto foram felizes juntos, e saber que Sarah foi feliz em seus últimos dias era o suficiente para fazer a dor valer à pena.
FIM












