Ela ia sorrir, estava demorando um pouco, porém ia sorrir.
Eu estava sentada enquanto o Dylan fazia algumas manobras de skate, quando me deu uma puta vontade de ir no banheiro.
- EI, DYLAN! – eu o gritei, ele deu mais umas duas manobras e parou na minha frente
- e aí gata, o que deseja?
Ele largou o skate com um menino ali perto, me segurou pela mão e me arrastou pela multidão ate o fim do galpão, passamos por uma porta de ferro enferrujada e saímos em um beco vazio com alguns latões de lixo.
- ali – ele apontou pra uma porta na minha frente que eu não tinha percebido, o banheiro era nojento demais pra ser chamado de banheiro. Dei milhões de volta com papel higiênico no vaso ate poder ter coragem de fazer minhas higienes.
- nojento – eu murmurei assim que sai, Dylan olhava apreensivo pros dois lados como se esperasse algo
- ei, o que há? – eu segurei sua mão e ele deu um pulo
- nada, vamos – ele tentou me arrastar de volta, mas gemidos de dor e pancadaria me alertaram
- que barulho é esse Dylan?
- vamos ver, talvez alguém precise de ajuda – eu segui o som, no fim do beco tinha uma grade de ferro que o fechava deixando o sem saída. Um garoto de cabelos loiros e branco estava caído no chão choramingando.
Seu rosto sangrava, o olho inchado, era de dar pena. Olhei os outros.
Dois garotos da mesma altura, um tinha os cabelos cacheados e castanhos, usava uma camisa com estampa havaiana, o outro tinha os cabelos escuros e usava uma regata preta.
Segurei a respiração. Eram Hector e Travis.
- eu disse Tom, era ate ontem! Você não me dá atenção!
- eu dei, Roose, vamos... Me conhece! Sabe que eu vou pagar!
- não tenho tempo pra lenga-lenga – ele disse frio – o dinheiro, eu tenho a noite toda...
O garoto ao chão, que parecia se chamar Tom choramingou caído no chão.
- vamos... – Dylan sussurrou em meu ouvido não querendo chamar a atenção deles dois, segurou meu braço com força e me puxou pra trás
- não! – eu me soltei dele e caminhei em direção ao grupo
- é... Eu explico se sairmos daqui, vamos... – ele tentou me levar novamente
- Dylan, ele precisa de ajuda! – eu bati o pé, o estalo ecoou e Travis e Hector viraram
- mas o que... – Hector começou a falar, mas Travis logo o interrompeu
- eu disse pra não trazer ela aqui!
- eu tentei, mas ela é teimosa – Dylan cruzou os braços
- tsc – Travis massageou a testa – o que eu faço...
- nada, finge que ela não esteve aqui, vamos voltar ao trabalho – Hector murmurou já dando as costas e voltando ao Tom
- não! Ele... Ele esta machucado! Não podem... – eu corri entrando na frente do Hector
- Amber, vai embora – ele me olhou inexpressível, nem parecia ele
- Dylan, leve ela daqui – Travis murmurou atrás e eu bati o pé
- eu não vou! E parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui!
Eu fui ate o garoto que estava desacordado no chão, seu rosto estava inchado, sangrando e sua roupa toda ensanguentada.
- quanto ele deve? Eu pago.
- eu não vou aceitar – o Hector e o Travis disseram juntos
- mas vão ter que aceitar, eu não vou sair daqui!
Travis agarrou meu braço com tanta força que eu achei que fosse quebra-lo
- é melhor entrar, não vai querer me enfrentar
- se acha o valentão não é? – eu me encostei nele e meti o dedo na cara dele – eu não vou!
Eu o empurrei com toda a força que tinha, não resultou muito porque ele ficou imóvel, me abaixei e examinei o garoto.
- três mil – Hector disse – ele nos deve três mil.
- tem algum caixa por aqui por perto?
- você só pode estar brincando!
- vai querer a porra ou não?
- não – Travis me olhou com uma raiva imaginável, as veias do pescoço iam saltar e ele ia ter um derrame, agarrou novamente meu braço com a mesma força me levantando.
Dessa vez me arrastou pelo beco, mesmo eu forçando meus pés a ficarem, me jogou na porta que eu havia saído, fiquei sem equilíbrio e cai.
- é melhor entrar Welling, é a segunda vez que digo, não espere uma terceira
Ele me deu as costas, me levantei e tentei ir atrás dele, mas Dylan agarrou me – com carinho dessa vez – e me levou pro carro. Eu não havia notado que chorava ate o Dylan me olhar com o cuidado mais grande do mundo e tocar meu rosto com delicadeza.
- não chore Amber – ele cochichou
- estou com raiva – eu bati a mão na minha perna – como aquele imbecil pôde! – eu gesticulei com as mãos como se fosse estrangular alguém
- calma loira – ele sussurrou, ligou o carro e dirigiu em alta velocidade de volta pra casa
- você sabia, sabia e não quis me levar – eu disse enquanto íamos
- nunca dá certo quando alguém se mete no trabalho do Ro... Travis.
- Amber, conheço ele a muito tempo. As consequências que você poderia ter causado ali, ele podia...
- podia o que? Mais do que ele já havia feito com Tom?
Ele não me respondeu. 20min depois eu disse que estava com fome, paramos na lanchonete que paramos na ida e comemos algo. Eu não senti o gosto, estava com tanta raiva, nojo e repulso do Travis que só conseguia pensar em uma coisa: será que ele realmente era o que dizia ser?
Dylan parou na frente da casa dele e me olhou.
- é claro que vou – eu forcei o sorriso – desculpe estragar sua festa
- se quiser, te levo em uma amanha
- esta me convidando? – ele riu
- ótimo – ele beijou meu cabelo e saiu.
Eu dirigi pra casa o mais rápido possível, assim que cheguei o jipe amarelo do Travis estava estacionado em frente, estacionei do outro lado da rua. Desci do carro e ele e Hector vieram ao meu encontro.
- vão embora – eu murmurei
- só queremos conversar – Hector me olhou sorrindo amigável
- eu não confio mais em vocês
- em mim? – Hector disse com uma tristeza forçada
- boa noite – eu fui pra casa, Travis me segurou pelo braço com cuidado dessa vez e me olhou
- viemos falar e você vai ouvir – ele disse, estávamos no meio da rua, de madrugada. Pela primeira vez senti frio e medo ao lado dele – o que você viu, não deve ser comentado e nem lembrado. Amber, você vai ter que fingir que nunca viu aquilo...
- as consequências seriam graves se não fosse você
- já é a segunda vez que me diz isso, o que você faria?
- não importa. Preste atenção, amanha encontrarei Tom pra pegar o pagamento, tem uma pequena chance dele ter visto ou ouvido você, se Kurt souber, se ele lhe procurar, quero que me procure, ou Hector. Se qualquer outra pessoa estranha, se...
- já entendi, tenho que te procurar, mas por que eu faria isso?
- se acontecer, você vai fazer. Mesmo não querendo... – ele sussurrou – boa noite.
Entraram no carro sem me dizer mais nada e foram embora.
Acordei no outro dia com uma pequena dor de cabeça, tomei um banho, tomei café com um comprimido de analgésico e passei o fim da manha na varanda aproveitando um pouco da paz que aquilo me trazia. O calor era agradável, um pequeno sopro de brisa levava meus cabelos de leve, o céu estava sem nuvem alguma.
Não queria pensar nele, na noite passada, no que eu vi. Não queria e não podia.