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Capítulo 71
Capítulo LXXI
Março
- Yay! Você veio!
Os olhos dele se arregalaram imediatamente quando noticiaram a presença da bela mulher, abraçando Missy fortemente na porta. Ele sentiu o sangue fugir de seu rosto, seu coração acelerar e suas mãos começarem a tremer – Deus, ele estava suando frio!
Daisy estava em meio a um abraço coletivo de seus amigos, que por acaso, também eram amigos dela. Ela tinha um enorme sorriso no rosto e como era de se esperar, estava linda! Linda de uma forma sem igual...
Moderna e feminina, bem do jeito que ele sempre gostou. Os cabelos estavam repicados em camadas e ela parecia encorpada e saudável, bem diferente das fotos e do estado que ela se encontrava, da última vez que ele a vira – na cama de um hospital.
Cap 71 - Parentesco
O Caio e a tal de Amanda ficaram um bom tempo abraçados e depois se soltaram.
Caio: Seu peito cresceu ein.
A gente entrou na casa e alguns foram tomar banho, mas mesmo assim todo mundo que tava na sala continuava observando a cena. Eu sentei no sofá e fiquei olhando pra eles.
A Mirella chegou por trás do sofá e falou comigo:
Mirella: Será que ele e ela já se pegaram?
Eu: Porra, até eu pegava ela.
A Amanda desviou o olhar do Caio e olhou pra mim.
Amanda: Pegava mesmo é?
O Caio riu e coçou a cabeça.
Caio: Minha namorada não né, Amanda.
Amanda: Você? Namorando?! - Ela explodiu numa gargalhada.
Caio: É. - O Caio virou pra mim - Tem quanto tempo mesmo, Tess?
Eu: Sei lá, vai fazer uns três meses.
Não sou do tipo de garota que comemora a cada semana a mais que o namoro dura.
A Amanda olhou pra mim.
Amanda: Hm, sua namorada é gostosa.
Caio: Amanda...
Amanda: Relaxa, Caio. Não vou roubar mais uma.
Mirella: Não to entendendo porra nenhuma.
O Caio sentou do meu lado e a Amanda sentou do outro.
Amanda: É que teve uma vez que o Caio tava pegando uma guria e ela trocou ele por mim.
Caio: A Amanda é sapata. Não gosta de pau.
Amanda: Não mesmo.
Caio: Porque ainda não viu o meu.
Amanda: Porque a gente é primo.
Luan: O QUE?! Você - Ele apontou pra Amanda - Gostosa desse jeito, não gosta de homem?
Amanda: Abro algumas exceções. - Ela olhou o Luan de cima em baixo - O que não é o seu caso.
O Luan murchou.
Como as coisas estavam - Mais ou menos - esclarecidas, levantei do sofá e fui pro banheiro do quarto tomar banho, porque tava louca pra dormir e tinha areia pra todos os lados no meu corpo.
Peguei uma roupa na minha mala e meu celular, foi aí que eu vi treze chamadas não atendidas do meu pai.
Eu: Merda.
A porta do quarto abriu e eu me virei pra olhar, era o Caio. Ele foi andando na direção do banheiro.
Eu: Ah não, Caio. Eu vou tomar banho agora.
O Caio olhou pra mim e deu um sorriso malicioso. Depois veio andando pro meu lado.
Caio: Nenhum de nós dois precisa tomar banho agora.
Sorri.
Eu: Não ta cansado da praia não é?
Caio: Eu nunca to cansado pra isso.
Ele me beijou e a gente começou a se agarrar. O Caio me jogou em um canto e a gente acabou derrubando o abajur da cabeceira, que espatifou no chão, mas anão ligamos. Arranquei a camisa dele e ele me jogou no sofazinho no canto e foi lá mesmo.
Depois a gente foi tomar banho - junto -, trocamos de roupa e dormimos. Dormi pra caralho, acordei com o Caio me cutucando e meu celular tocando.
Caio: Desliga essa porra.
Tateei a cabeceira procurando meu celular com preguiça demais pra abrir os olhos. Quando o achei, atendi.
Eu: Hm.
Pai: Menina, porque você não atendeu o celular antes?!
Eu: Tava no silencioso.
Pai: Sua sorte é que eu consegui falar com a Rachel.
Eu: E ta me ligando pra que então?
Pai: Mais respeito, Tessália.
Eu: Ê velho chato.
Desliguei o celular e virei pro lado. Aí eu vi o Caio, parecendo uma pessoa comportada enquanto dormia. Cheguei mais perto e mordi o lábio inferior dele, ele sorriu ainda de olhos fechados.
Eu: Ta acordado ou ta sonhando?
Caio: Sonhando.
Ele me pegou pela cintura e me puxou, me fazendo ficar em cima dele. Nesse momento, a porta do quarto abriu.
Milla: Opa. Achei que vocês estavam dormindo... Vem cá, vocês não cansam não?
Eu: O que você quer?
Milla: A gente pediu pizza, queria saber se vocês querem.
Saí de cima do Caio.
Eu: Que horas são?
Milla: Onze e meia da noite.
Ela fechou a porta. Eu levantei e calcei um chinelo enquanto o Caio fazia o mesmo. A gente saiu do quarto e foi pra cozinha, tava todo mundo sentado na mesa, menos a Rachel e o Lucas. Quando a prima do Caio viu a gente, deu um sorriso e falou:
Amanda: Ah, como o amor é lindo.
O Caio olhou pra mim.
Caio: E uma delícia.
A gente sentou junto com a galera na mesa e comemos pizza, depois todo mundo foi pra sala.
Eu sentei no sofá e o Caio abriu um armarinho na estante.
Caio: Ih, olha o que tem aqui.
Ele tirou duas manetes de lá. Foi aí que eu vi o video-game do lado da tevê na estante.
Eu: Porra, o que pode ser melhor do que isso?! - Pensei alto.
Caio: Eu pensei em filme pornô. Mas até que isso aqui da pro gasto.
Ele conectou as manetes no video-game, achou uns jogos no mesmo armarinho e a gente ficou um tempão jogando. O Caio ganhava de mim na maioria das vezes e a minha desculpa era sempre "Ah, você tem video-game na sua casa e eu não."
Uma das únicas vezes que eu ganhei, foi porque a Amanda sentou no colo do Caio e isso atrapalhou ele a jogar.
Amanda - Prima do Caio. Ela não é tão linda de rosto mas tem um corpo perfeito, e é disso que os homens gostam. Eu não gostei da intimidade dela com o Caio. Quer dizer, foda-se se eles são primos ou se ela não gosta de homem, ela ainda é gata e o Caio ainda é o Caio. Ela deve ter uns vinte anos e me lembra a Mirella, seja pelo corpo ou pelo jeito.
Já era madrugada quando a gente resolveu ir dormir e eu fiquei muito tempo deitada, olhando pro teto porque tava sem sono de tanto que tinha dormido depois da praia.
Virei pro lado, o Caio dormia. Tentei de tudo mas não consegui dormir. Então levantei e saí do quarto indo em direção a sala. Foi aí que eu vi o Renan, sentado no sofá da sala com uma garrafa de vodca pela metade na mão.
Eu: Renan?
Renan: E ae.
Com certeza ele tava bêbado.
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Capítulo 71 - Novo irmão.
O Fred pediu o lanche que ele queria, mas eu tava sem fome. Ele me olhou com uma cara estranha, mas nem me encheu muito o saco. Eu tava realmente preocupado com essa história de amnésia. Não é a primeira vez que eu me esqueço de tudo de tanto beber, mas foi o cúmulo. Eu não me lembro de nada, absolutamente nada. Foi como se o tempo não tivesse passado. Fiquei pensando nisso enquanto o Fred falava sem parar sobre qualquer coisa. Ele só ficou quieto quando o lanche chegou.
Eu: Tu come de um jeito muito gracioso. Eu disse depois de ele ter sujado a cara inteira de ketchup, maionese, mostarda e o que mais tivesse dentro daquele lanche. Ele sorriu com a boca toda suja. Fiz uma cara feia e desviei o olhar. Fred: Ei, Thommy. - me chamou com a boca cheia. Eu: Hm. Fred: Preciso comprar umas roupas. Eu: Legal. Deu mais uma mordida no pão. Fred: Vamo aí comigo. Eu: To de boa. Fred: Sério, cara. Vamo aí. Eu: Não compro roupa nem pra mim há uns 5 anos. Fred: Não é pra tu comprar pra mim, é só ir junto. Olhei pra cara dele. Não dava pra levar a sério um cara com maionese na bochecha e no nariz. Eu: Pára de ser gay. E limpa essa boca. Fred: Não é gay, pelo contrário! É pra pegar mulher. Eu: Claro. - não conseguiria ser mais sarcástico. Fred: Tu acha que eu brinco com esse assunto? - ele sorriu. - Acabei de te falar que a Vicky tá cedendo com essa história de moda. Mulher é tudo igual. Deu outra mordida e um gole de Coca. Reparei que tava olhando pra ele com uma cara estranha quando ele comentou. Fred: Que cara é essa? Me deixa comer. Eu: A Vicky nunca te pegaria se te visse comendo, falando nisso. Fred: Como se eu fosse chamá-la pra jantar. Quer coca? Eu: Não, valeu. Fred: Só se for pra comer ela.
Fred: Ah! E como foi no teu trabalho? Pensa rápido, pensa rápido, pensa rápido. Eu: Ahn... Fred: Legal? Eu: Sim. Fred: Várias minas? Eu: Não...? Er. Fred: Tu fez o quê? Gostaram de ti? Eu: Nada. Acho que gostaram. Fred: Nada? Ele voltou a comer, deixando aquele silêncio no ar e me obrigando a dizer alguma coisa. Eu: Fiz uns drinks. Fred: Drink? É uma balada? É! Me lembrei de que poderia contar essa parte da história pra ele. Eu: É, cara! - sorri. Fred: Que animal, velho! - ele sorriu de volta. - Bate aqui! Me estendeu aquela mão engordurada de lanche e ketchup. Eu: To de boa. Hahaha. Fred: HAHAHA! - se levantou e bateu a mão suja na minha cabeça. - Sua bicha! Eu: Hahah! Sai, caralho! É uma balada muito louca. A gente podia ir lá. Fred: Demorou! Tem festa hoje? Eu: Deve ter. To meio perdido depois da amnésia, nem sei que dia é hoje. Mas deve ter. Ele deu uma risadona de Fred. Essa história de Z Boy me dá um certo medo e receio, confesso. Mas tudo fica de boa quando penso no quanto a gente vai se divertir naquele lugar.
Contei pra ele mais ou menos como era lá dentro, e olhos dele brilhavam a cada palavra. Ele até ficou quieto pra me ouvir. Depois disso, ele teve uns surtos de "porra, que foda!", mas logo passou, e ele retomou o assunto de antes. Fred: Tu vai fazer o que hoje? Eu: Eu ia... Fred: Vamo comigo no shopping. Eu: No shopping ainda?! Tu ficou maluco? Fred: Vamo, Thommo! Eu: Claro que não. Eu odeio shopping. Por que tu não chama a Vicky pra ir contigo? Ele travou. Depois me apontou o dedo e sorriu. Fred: Tu é um cara bem esperto quando quer. Que idiota. Ele pegou o celular com a mão toda suja e discou. Fred: Alô? Vicky? (...) Oi! É o Fred. (...) É. Nem sei de onde ele tirou o telefone da guria, mas nem me preocupei muito em descobrir. Ele sempre dava um jeito pra conseguir esse tipo de coisa. Fred: Ah... É? (...) Bem louco. (...) É. (...) Ele vai chamar a mina ou não? Fred: Não, na verdade. Eu tô... Ele olhou em volta antes de responder. Fred: Na Argentina. Eu: O quê?! Fred: É, preciso desligar. Bom falar contigo. Desligou na cara da guria. Que maluco. Eu: Que isso, velho?! Fred: Vicky errada. - ele arregalou os olhos. Só o Fred pra ter mais de uma Vicky na lista de contatos. Sacudi a cabeça enquanto ele ligava pra outro número. Fred: Alô? Eu: É a certa? Fred: Oi, linda. Deve ser.
Ele ficou tentando convencê-la a ir com ele comprar umas roupas, mas ela não parecia estar muito a fim pelo tanto que ele tava insistindo. Eu até tava tentando prestar atenção na conversa, mas ele começou a falar sobre umas porras de marcas que eu nunca ouvi falar e que deviam custar o preço da minha casa com o meu pai dentro. Não tenho a mínima paciência pra essas porras de moda, roupas, e coisa e tal. E não tem nada a ver com o fato de eu não ter grana pra comprar coisas caras. Eu lembro que a Bruna ligava bastante pra essas porras e tava sempre com umas roupas boas, apesar de não ser rica igual ao Fred. Eu só não to nem aí mesmo. Tô sempre com uma camiseta branca ou preta, uma calça surrada, tênis e alguma jaqueta velha do meu pai. Fred: O Thommy vai junto. Eu: Quê?! Viado, acabei de falar que eu não queria ir. Porra, eu odeio shopping. Como eu odeio shopping. Não tem coisa mais odiosa que uma porra de um shopping. Ter, tem, mas nesse momento, o que eu mais odeio na vida é shopping. É uma puta barulheira, criança correndo e batendo com a testa no teu joelho, um monte de lojas coloridas e... Velhas, cara. Muitas velhas. Ainda se fossem só velhas, mas são velhas dondocas que passam a tarde tediosa fazendo compras. Como eu odeio shopping. Fred: Tá. Me liga se for. Eu: Eu não vou em caralho de shopping nenhum. Fred: Um beijo. Eu: Tu ouviu? Fred: Ela vai. Eu: Ótimo. Não preciso ir. Fred: Precisa. Eu: Pra que, caralho? Fred: Tu não entende nada de mina, hein? Puta merda, tem que te explicar tudo. Me senti o Matt, e quando ele ainda era virgem. Mas pra mim, realmente não fazia o menor sentido. Não ia ficar lá olhando vitrine enquanto o Fred xavecava a porra da mina.
Fred: Tu pensa o quê? Que eu ia ligar pra guria chamando pra ir pro shopping porque eu queria comer ela no provador? Eu: Sinceramente? Fred: Óbvio que não. Se eu disser que tu vai junto, ela vai pensar que tô chamando de boa, sem segundas intenções. Eu: E tu ganha o que com isso? Fred: Um "sim". Idiota. Por isso que tu não come ninguém. Eu: Não foi tu que falou que eu comi a tal da Luiza? Fred: Não, eu falei que tu pegou. Ele deixou uma nota na mesa pra pagar o lanche e nos levantamos. Fred: E tu nem lembra! - me deu um tapa na cabeça. Eu: O que eu ganho se for no shopping contigo? Fred: Além da minha ilustre companhia? Eu: Quero um LP do Iggy Pop. Fred: Por quê?! Tu nem tem um toca discos! Eu: Porque sim. Me olhou de cima a baixo de um jeito estranho, como se eu fosse um ET ou coisa assim. Fred: Tava esperando que tu fosse pedir uma mulher, sei lá. Ele chacoalhou a cabeça, parecendo estar desapontado comigo. Eu: Como se eu estivesse precisando. - sorri. Fred: Hahaha. Trouxa. Foi-se o tempo em que a gente apostava mulher. Quero dizer, ainda podemos fazer isso. Só acho que tô meio enferrujado. Namorar é uma bosta se tu for parar pra pensar. E eu prefiro nem pensar, antes que eu desista de ir na porra no shopping. Antes que eu desista de fazer qualquer coisa, na verdade. É incrível como, mesmo estando do outro lado do país, ela consegue fazer essas coisas comigo.
Tentei parar de pensar na Alícia me distraindo com as besteiras do Fred. Fica difícil depois de ter ouvido a voz dela há tão pouco tempo no telefone, mas me esforcei. Pegamos um metrô bizarro e depois seguimos andando até o shopping que ele curtia ir. Nesse meio tempo ele falou sobre gurias, sexo, gurias, gurias, música, sexo, gurias, sexo, gurias, sexo e sexo. Não exatamente nessa ordem. Já fiquei de mau humor assim que pisei na porra do shopping. É um antro de gente consumista e bizarra, e não é uma crítica. Não tem como ser outra coisa. Mal entrei no lugar e já fui bombardeado de coisas pra olhar, vitrines chamativas, uns balcões de loja no meio do corredor, propagandas, muitas cores, gente falando, uma merda. Só mulher pra curtir essas coisas. E o Fred. Eu: Já parou pra pensar que tu tem uns desvios de mulher? Fred: Quê? Eu: Tu pinta o cabelo, se preocupa com roupa, curte vir pro shopping... Fred: Isso e mais tudo que eu faço na vida só tem um objetivo, Thommy: pegar mulher. Se eu for uma mulher por dentro, tenho certeza de que sou lésbica. Muito bem colocado. Mas eu não pegaria o Fred se ele fosse uma guria. Imagina se o Fred fosse mulher... Hm. Eu só consigo pensar na Nath, só que mais vadia, louca e rica. Que merda eu tô pensando? Tinha que viajar nesses pensamentos antes que pulasse no pescoço do Fred pra matá-lo, de tanta raiva que eu tava sentindo por estar naquele lugar. Na boa, chego a ficar tonto. Passamos em frente a umas lojas com vitrines muito... Escrotas, na minha opinião. E o Fred sempre parava em frente a essas pra ficar olhando. Eu não dava palpite porque ficava com preguiça só de pensar. Só resolvi acelerar o processo. Eu: Por que tu não entra ao invés de ficar só olhando a vitrine? Fred: Silêncio.
Que porra do caralho. Ele parou numas novecentas vitrines, todas muito parecidas, com as roupas de estilo mais sem noção possível. Bem a cara de viado loiro dele. Mas estranhei quando ele ficou parado em frente à uma loja de tênis pra praticar esportes. Eu: Desde quando tu pratica algum esporte? Fred: Sabia que tu perde umas 200 calorias trepando por 30 minutos? Não deixa de ser um esporte. Eu: Mas tu não precisa estar de tênis. Fred: É. Mas sabia que só num orgasmo tu perde quase 100 calorias? Eu: Eu nem sei o que são calorias eu não dou a mínima pra elas. Fred: Uma punheta de 30 minutos queima até 150! Eu: Porra, quem bate uma por 30 minutos? Ele arqueou as sobrancelhas, depois voltou a encarar a vitrine. Ele tava com uma cara de quem não tava interessado só em tênis. Olhei na mesma direção que ele e vi uma porra de um tênis feio pra caralho. Não era possível. O Fred mal usa tênis, ele tá sempre de coturno ou com algum outro sapato estranho. Olhei mais atentamente pro tal tênis. Será que ele ia virar um cara esportista porque a Vicky curtia esportes também? Ela não tem cara de quem curte. Olhei, olhei, olhei. De repente, vi que ele deu um sorriso. Fred: Se liga. - ele apontou pra dentro da loja com a cabeça. Eu: Hm. Fred: Moreninha, barriga bonita, coxa grossa... Como eu consigo ser tão lento às vezes? Ou será que o Fred é que é rápido demais? Só nesse assunto. Fred: Ela vai se virar, olha lá. Ô, bunda boa também. A guria que tava lá dentro era bem bonita mesmo. Tava usando aquelas roupas apertadas de ginástica, provavelmente porque era vendedora da loja. Acho que as pessoas não costumam andar por aí vestidas desse jeito. Ela tava com o cabelo preso numa trança alta, deixando o rosto à mostra.
Fred: Ela já olhou pra cá duas vezes. Eu: Deve ser porque ela é vendedora e precisa tipo... Vender. Uau. Fred: Tu não sabe de nada. Eu: Ela só quer te atender, relaxa. Fred: Tá olhando de novo. O Fred viaja, puta merda. Ele continuou olhando pra mina por mais um tempinho. Eu desisti daquela porra toda e fiquei brisando na galera que passava no corredor atrás de nós. Como tem guria nova em shopping. É tipo o ponto de encontro das patricinhas mais novas. Futuras Naths e Clarissas. Saber que aquela guria bonitinha e loira andando pelo corredor vai tá dando pra caralho e cheirando cocaína pra impressionar os amigos daqui alguns poucos anos me deixa meio mal. Voltei a olhar pro Fred. Ele, que ainda tava olhando pra dentro da loja, arqueou as sobrancelhas, sorriu, ficou quieto, sorriu de novo e depois apontou pra direita com a cabeça. Eu: Whathafuck? Fred: Eu devia ter apostado contigo. Já volto. Sorriu mordendo os lábios e saiu pro lado que tinha apontado com a cabeça. Olhei pra uma placa que tava em cima de nós, que tava escrita "sanitários". Não demorou muito pra que a vendedora gostosa saísse da loja, olhando pros dois lados, e depois seguisse na mesma direção que ele. Não acredito que o viado do Fred ainda vai pegar essa gostosa do caralho! Comecei a rir sozinho.
Fiquei olhando pra vitrine de tênis enquanto ria do que tava acontecendo. Não era a primeira vez que o Fred pegava uma guria do nada, mas era sempre engraçado. Pensando nos tênis, cara, eu nunca vou ser um desses caras que acordam às 6h da manhã pra fazer uma caminhada matinal no parque. Nem de longe sou o cara mais saudável que conheço. Devo ter tanto problemas de saúde, inclusive, que prefiro nem pensar muito nisso. Nem me lembro qual foi a última vez em que estive num médico. Exceto pela vez em que desmaiei depois do soco do Kid ou daquela briga sem noção com o Gunz. Que dia bizarro. O Fred tava demorando mais do que eu gostaria. Comecei a brisar em outras vitrines. É engraçado como eles mostram os produtos de um jeito que te faça sentir que precisa deles. É pra isso que as pessoas trabalham. Pra comprar umas coisas idiotas que nunca vão usar. Não sou uma das melhores pessoas que conheço, mas tenho orgulho por não dar a mínima pra esse bang de dinheiro. Quero dizer, eu não acharia ruim se tivesse dinheiro suficiente pra ficar de boa pro resto da vida, mas também não faço questão. Tenho preguiça de gente com muito dinheiro, ou que se importa muito com isso. O Fred é um bom exemplo de moleque rico e legal, apesar de tudo. Enquanto pensava na utilidade de se comprar uma calça de 900 paus que tava na vitrine, meu celular tocou. Era a Vicky. Eu: Fala. Vicky: Já tô aqui no shopping. Onde vocês estão? b]Eu: Tô de frente pra calça mais cara que já vi. Vicky: Isso não ajuda muito. Olhei em volta pra ver se encontrava algum outro ponto de referência pra dizer, mas acabei encontrando a própria Vicky. Acenei pra ela. Eu: Tô te vendo. Ela me viu também, sorriu e veio em minha direção. A Vicky parecia aquelas bonequinhas de menina. Bem branquinha, loira, com umas roupas cheia de fru fru. Me cumprimentou com um beijo no rosto e perguntou do Fred. Puta merda.
Eu: Ele tá... Ela arqueou as sobrancelhas e inclinou a cabeça, esperando uma resposta. Eu: Experimentando calças. Vicky: Hm. E por que tu tá aqui fora? Eu: Não tenho paciência pra ficar esperando ele dentro da loja, sabe como é. Vicky: Imagino. Eu: Odeio shopping. Vicky: Tem cara mesmo. - ela sorriu. Ficamos olhando um pra cara do outro, sem muito assunto. Cadê o puto do Fred? Esse silêncio constragedor me incomoda muito. Fiquei olhando em volta pensando no que dizer, e ela pareceu fazer o mesmo. Vicky: Acho que vou ver uns sapatos. Eu: Tá. Vicky: Não quer vir junto? Onde eu fui me meter? Eu: Ahn... Como posso dizer "nem fodendo" sem parecer grosso? Soa meio impossível. Fred: Whazzuuuuup! Ele chegou abrindo os braços como se não tivesse acabado de ter o pau chupado no banheiro. Que bad. Passou um braço por cima dos ombros da Vicky e o outro por cima dos meus. Vicky: A calça não serviu? Fred: Que calç... Dei uma cotovelada na costela dele. Fred: AH! Não, nem serviu. Minha perna é muito grossa. Ele sorriu pra ela, que respondeu com uma cara estranha. Fred: Andei malhando. Eu: Tem alguma loja de CDs por aqui? Vou pra lá enquanto vocês... Fred: Tem um monte! Te vira aí, um abraço. Ele me soltou e saiu levando a Vicky. Ela olhou pra trás, parecendo querer me matar enquanto ele falava sem parar e apontava pra todos os lados. Sinto que ela tá com uma certa raiva de mim nesse momento. Faz parte. Não sabia se ia embora, se ficava por lá e esperava que me ligassem caso a Vicky perdesse a paciência com ele, pra variar. Olhei em volta. É, vou embora.
Quando eu tava saindo do shopping, meu celular tocou de novo. Caralho, tá parecendo telefone de puta essa porra. Na tela, o número apareceu como "desconhecido". Odeio atender celular, e uma porra de um desconhecido me desmotiva mais ainda. Mas como deixamos o Matt desmaiado em casa, acho que seria uma boa idéia atender. Eu: Alô? Uma voz grossa de homem atendeu. !: Thomaz? Eu: Quem é? !: Vai rolar uma festa no Z Club hoje. Meu coração se acelerou. Eu: Valeu por convidar. Eu não tinha nada mais idiota pra dizer? !: Não é um convite. Eu: ... !: Tu tem que vir. O chefe vem pra te conhecer. Eu: O Doctor? Eu já conheço o Doct... !: Não. O chefe. Esteja aqui quanto antes. Falou. Desligou na minha cara. Que merda é essa? Quem é o chefe? Eu, hein. Continuei meu caminho até o metrô pra poder ir embora pra casa. Reparei que minhas mãos tavam suando de nervosismo. Será que o cara tava falando do chefão dos Z Boyz? Por que ele iria querer me conhecer? Um cara desses tem mais o que fazer, imagino. Se bem que, num clube fechado desses, os caras devem ser todos conhecidos. Me lembrei do Digo falando sobre o quanto o cara era foda, coisa que me deixou ainda mais nervoso. Tentei pensar em outra coisa. Um casal idiota veio em minha direção na calçada e eu fiz com que eles separassem as mãos dadas pra que eu pudesse passar. Ouvi a guria reclamando sobre alguma coisa a ver com isso. Foda-se. Como se o fato de o cara estar segurando a mão dela provasse alguma coisa. Guria imbecil. Não gosto de ver casais imbecis na rua. Não gosto de saber deles. Reparei que nunca mais perguntei nada pro Matt sobre a Larissa, nem nada. Acho que tô evitando esse tipo de assunto. Me faz lembrar de coisas não muito boas. Ou que eram boas, e agora são ruins, porque se acabaram. Por que eu sempre volto a pensar nisso? Será que vou ter 99 anos e ainda vou me sentir mal quando ver um casal de mãos dadas?
Acho que não. Nunca vou chegar aos 99 anos. Fico feliz se passar dos 30. Não, fico triste se passar dos 30. Não me importo de morrer jovem. Acho que já me acostumei com a idéia. Tive a impressão de ter acendido e fumado uns dez cigarros no caminho pra casa. Do lado de fora, podia ouvir uma barulheira que tava rolando na nossa sala. Entrei e logo reconheci o sotaque de francês do Luc. Luc: E aí o Sick Boy ficou falando uma língua desconhecida com o cara. Sick Boy: Não é desconhecida, mano. Eu conheço. Luc: Claro, tu que inventou! Cheguei cumprimentando todo mundo. Confesso que não esperava ver aquela galera por lá. Tava o Sick Boy, o Luc, o Pizza, o Ale, o Tomate, o Dudu e, porra, o Gabriel, filho da mulher que meu pai tava pegando. Pelo visto ele tá brother da galera da pista. Olhei com uma cara assustada pra ele, que sorriu de volta pra mim e acenou. Luc: Senta aí, Thommo! Tamo acendendo. Ale: Mais um francês?! Luc: Em homenagem ao Thom! Hahaha! Pelas caras, as risadas e os olhos apertados e vermelhos, já tava todo mundo muito louco, menos o Gabriel. Eu precisava vazar dali pro Z Club. O cara de voz ameaçadora me disse pra ir pra lá quanto antes. Nem sei porque vim pra casa. Pizza: Tu fecha fumar um, Thommo? Eu: É... Sick Boy: Óbvio que fecha. Já to bolando. Nem dá pra discutir com eles. Me sentei no espaço entre o Gabriel e o Tomate. O Dudu ainda não me olhava na cara. Ficamos fumando ao som de ska. Era uma boa maneira de eu relaxar antes de ir conhecer o tal chefão. Logo o Felipe apareceu na sala com a gostosa da Marcela. É namorada dele, mas é gostosa. Vou fazer o quê? Ainda tava usando um decotão. Eu: Tá a fim, velho? - ofereci o beck pra ele. Felipe: Tô de boa. Tenho uma reunião da Atlética agora. Falou aí. Reunião da Atlética, sei. Devia estar indo pro Z Club também. Mal sabia ele.
Fumei até sentir meus olhos arderem. Que coisa boa. Isso porque só ia dar uma bolinha pra relaxar antes de partir pro Z Club. Não tem como. Fumar com os caras é muito, muito foda. Me faz lembrar de bons tempos, do quanto curto eles, sei lá, me sinto bem. Fico numa brisa muito boa. O Ale e o Sick Boy falam muita merda quando tão fumados, eu choro de rir. Resolvi encher o saco do Gabriel, que só tava dando risada. Eu: Tu tá andando com os caras agora, é? Gabriel: Às vezes. Tô aprendendo a andar de skate e aí vou lá pra pista. O Luc sempre me empresta o skate dele. Que da hora. Ele ainda tava a fim de andar, desde aquele dia em que o levei pra pista. Eu: Da hora, cara. O Luc é muito brother, diz aí. Gabriel: Ele é. Tá me ajudando com várias coisas. Eu: Sei como é. Ele curte dar uma de irmão mais velho. Ele concordou com a cabeça e nós dois rimos. Ele ficou contando de umas vezes em que o Luc brigou com uns moleques que encheram o saco dele na pista, essas coisas. Lembrei da época em que eu era pivete e o Luc sempre me defendia também. Até hoje ele tem dessas de me defender, na verdade. É muito engraçado como o Gabriel faz com que eu me lembre de mim mesmo. Eu: É bom ter um irmão mais velho, nem que seja de mentira. Sempre digo isso. Gabriel: É. Tem coisas que tu precisa perguntar pra alguém mais velho, e não pode ser a tua mãe. Eu: Pode crer. Hahaha! Tem coisa que tu só pergunta pro teu pai ou pro teu irmão mais velho, de verdade ou não. No meu caso, meu pai nunca foi um cara pra eu pedir conselho. Ele deu um sorriso meio forçado. Eu não sabia qual era a história da mãe dele com o pai dele. Nem sabia se ele tinha um pai. Acho que falei merda, mas ele se identificou. Ele olhou pra frente, meio chateado com a situação. Não sou muito sensível pra conseguir perceber quando alguém não tá bem, mas percebi que ele não tava. Não sei como.
Seja qual fosse a história que ele tinha o pai, não parecia muito boa. Sei como é não ter o pai que tu acha que merece. Não que tu precise de um pai legal pra ser feliz. Eu vivo bem sem o meu, passei bem até hoje. Inclusive, to melhor agora que to deixando ele pra trás, cada vez mais. Mas ainda assim, passei por maus momentos por causa dele. Ainda mais quando tu é mais novo, fica achando que precisa de um pai da hora pra conseguir ser alguém. Talvez eu não seja um cara muito certo por não ter tido um pai muito certo, mas agora não é hora de inventar desculpas. Eu sou o que sou. Gabriel: Tu ainda tá sem falar com o teu pai? Fiz que sim com a cabeça. Eu: Tem visto ele? Gabriel: Quase todos os dias. Olhei pro nada. Era tão ridículo pensar que meu pai tava tentando ser uma pessoa melhor com esse moleque. Eu: E o teu pai? Gabriel: Não sei muita coisa dele. A resposta dele foi suficiente. Eu não seria babaca de perguntar "sério?! Por quê?". Ele me falaria se quisesse. Acho importante respeitar o limite de intimidade das pessoas. Tem coisas que tu não gosta de falar pra ninguém. De um jeito engraçado, me identifiquei mais ainda com ele. O Luc devia tá sendo melhor pra ele do que eu imaginava. É ruim crescer sem ter um cara mais velho pra te dar um certo apoio. Alguém pra tu te inspirar, até copiar algumas coisas, te defender, te ensinar umas coisas. Como eu sempre digo, um irmão mais velho. Admiro o Luc pra sempre por ele ter sido esse cara pra mim. Por incrível que pareça, eu seria muito mais perdido sem ele. Eu: Ei. O Gabriel voltou a olhar pra minha cara. Eu: Posso ser teu irmão mais velho, se quiser.
Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso, e depois sorriu de um jeito legal, como se tivesse me agradecendo. Sorri de volta e dei uns tapas nas costas dele. Não sou um cara pra ninguém ter como exemplo, mas posso me esforçar pra ser um irmão mais velho legal. Sabe como é, pra ajudar a pegar as menininhas, apresentar umas bandas legais, essas coisas. Acho que vai me fazer bem. É difícil eu ir com a cara de moleques da idade dele, mas é um pivete gente boa. Resolvi encher o saco mais um pouco. Eu: E as menininhas? Gabriel: Já vai começar com essas frases de irmão mais velho? Eu: Hahahaha! Gabriel: Só me dão dor de cabeça. Eu: É o que elas fazem de melhor. Foi impossível não pensar na Alícia. Gabriel: Tem alguma te dando dor de cabeça agora? Eu: Sempre. E tu? Gabriel: Tem uma também. Eu: Sério, cara? Tu tem alguma namorada? Gabriel: Não! Não. É só amiga. Eu: Mas tu tá pegando? Ele fez que não com a cabeça. Eu: Pegou, então? Gabriel: Também não. Eu: E tá esperando o quê? Gabriel: Eu não sei. Ele entortou a cara. Parecia que nem ele tava entendendo o que dizia. Eu: Tu sabe que a guria não vai chegar em ti, né? Gabriel: Pois é. Meu celular tocou. Peguei do bolso, e na tela apareceu "desconhecido". Caralho! Me esqueci completamente das horas. Fodeu. Tava com medo, mas foi melhor atender. Eu: Alô? !: Tá vindo pra cá? Eu: Tô, eu tô chegando. !: Firmeza. Falou. Já vou chegar atrasado no primeiro encontro com o chefão. Bem a minha cara. Eu: Cara, depois tu me fala direito desse rolê, se quiser. Gabriel: Beleza. Legal falar contigo. Sorri pra ele, me despedi dos caras e saí vazado pro Z Club. Quero só ver que porra vai rolar por lá. Queria conversar com o Matt antes de ir, mas não podia. E nem sabia onde ele tava também. Fico sempre com um pressentimento ruim quando o Matt não tá por perto.
- FIM DA TERCEIRA TEMPORADA -
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