Capítulo Extra
Sabia que estava sendo vigiada, e que ele estava tão desconfortável quanto ela. Mesmo sem observá-lo, ela o conhecia. Sabia que toda a sua arrogância era sua forma de defesa.
Bom, se ela - por ser uma simples criada - não pudesse fazê-lo agir diferente, pelo menos tinha alguém que a ajudaria.
Jeniffer lançou um olhar para a bandeja que pusera há pouco tempo sobre a mesinha, antes de repousar um pedaço de papel ao lado de uma taça de cristal. Ela teve o vislumbre de Adélia sentada em uma poltrona, ignorando o romance em seu colo e imaginando, com seu ar distraído, como seria aquela noite. Esperava ansiosamente por ele, para lhe agradecer ou o que quer que estivesse planejando. Mas também pensava no que faria se caso ele não aparecesse - o que a fazia se sentir arrependida de ter lhe mandado aquele bilhete.
Jeniffer estava apenas os observando, intervindo sempre que possível para aproximá-los - pelo menos por parte de Adélia, que era muito mais fácil de se trabalhar.
Ela até tentara, mas por mais que quisesse, seria impossível se aproximar de seu filho agora. Se tentasse por meio da verdade, correria um perigo enorme. Rafael estava corrompido, e a odiaria mais do que provavelmente odiava agora. E Adam… Bem, com toda certeza se vingaria dela.
Mas, se fosse discreta, como uma simples criada, talvez não chamasse atenção o suficiente para si. Mas aquilo lhe exigia muita paciência, e a esgotava de tal forma que estava quase perdendo o controle de tudo.
-Está dispensada - ele murmurou, ainda sendo grosseiro.
Jeniffer sentiu seu peito se apertar. Não gostava da atitude dele, e quis corrigi-lo. Mas que direito ela tinha? Ela o havia abandonado, amaldiçoado… Ele tinha muitas razões para odiá-la; mas ela não conseguia aceitar que Rafael fosse tão parecido com Adam.
Mal havia se dado conta, mas estava encarando-o. Suas mãos estavam fechadas em punho, e sua garganta fechada com um bolo amargo.
Estava a poucos passos dele; poderia contar toda a verdade, e depois sumir.
Sumir. Havia sido a única solução depois do que fizera. Havia passado a vida inteira fugindo, acorvadando-se.
Ele agora fingia que ela não estava mais lá. E ela aproveitou para observá-lo mais uma vez.
Ele era um pouco mais alto que ela. Seus cabelos estavam na altura dos ombros e mais claros que os dela - que agora estava castanho, por causa do disfarce.
Doía em Jeniffer encará-lo e ver o que o fizera. Era como dar de cara com sua pior parte, com seus terrores e demônios.
Era como dar de cara com ela mesma.
Rafael não a encarava mais naquele momento; tinha o olhar vidrado no bilhete que pusera em sua bandeja, como se fosse a coisa mais intrigante que já vira.
O mais discretamente que podia, ela deu-lhe as costas e saiu, deixando-lhe sozinho.
**
Jeniffer entrou sorrateiramente naquele quarto escuro, equilibrando-se na ponta dos pés para não fazer barulho. O vento que invadiu as enormes janelas abertas trouxe até ela um cheiro cítrico e familiar, misturado a lavanda das roupas de cama recém-trocadas.
A única luz que iluminava o ambiente era a da Lua, que parecia particularmente mais próxima aquela noite. Jeniffer andou pelo quarto, atenta a tudo o que a rodeava, aos mínimos detalhes da cena. Observou alguns quadros nas paredes, os móveis ricamente distribuídos e a lareira ainda quente, com poucas brasas esquentando o ambiente. Embora muito bem decorado, aquele quarto não era tão bom quanto o de Rafael. Era simples, em relação ao outro.
Jeniffer aproximou-se da cama, onde prendeu toda a sua atenção.
Ele estava dormindo, tão quieto e silencioso que a deixou hipnotizada por um tempo, presa no subir e descer de seu peito largo. Ela observou atentamente os traços de seu rosto, desenhando, com o dedo indicador, uma linha imaginária sobre seu nariz. Suas pálpebras tremeluziram quando ela tocou seus lábios travados em uma linha suave, diferente do modo costumeiro.
Adam estava mais velho agora; seu rosto, embora ainda guardasse os aspectos de quando era mais jovem, estava diferente. Mesmo enquanto dormia, seu rosto expressava a raiva que sentira durante toda a vida.
Jeniffer ficou curiosa. Desde que chegara ali, a única visita que Adam fizera fora antes de Adélia chegar e depois, durante aquela tarde. Sabia através de seu pai que ele fazia pouca questão de ver o filho, e só aparecia se algo realmente importante acontecesse.
Jeniffer prendera a respiração quando Adam se remexera na cama bruscamente e virava-se de frente para ela, piscando os olhos vagarosamente.
Antes mesmo que ele pudesse enxergá-la de fato, Jeniffer cobriu seus olhos com as mãos, aproximando seus lábios até os dele. Ela subiu por cima dele, montando-se por cima de sua cintura.
Adam, ainda semi-acordando, tentou processar o que lhe acontecia, debatendo-se debaixo da mulher que o agarrava pelo rosto. Pelo menos ele presumiu que fosse uma mulher. Ele deslizou as mãos por uma silhueta fina e pequena, com curvas demais para pertencer a um homem magro. Ele abriu os olhos repentinamente quando sentiu algo macio e quente tocar seus lábios, agarrando com mais força a cintura da mulher que esgueirava-se sobre ele.
Com uma mão, ele afastou os dedos que lhe cobriam os olhos, finalmente encarando-a com a maior nitidez que a pouca luz lhe fornecia.
Era ela.
Não conseguia acreditar.
-Você... – murmurou, rouco, com os olhos arregalados. – Marion...
-Shhh... – ela calou-o repousando um dedo indicador em seus lábios.
Ambos passaram alguns segundos se encarando; ele incrédulo, e ela, séria.
Adam sentiu seu peito martelar com força, não mais por conta do susto. Era ela, de verdade. E ele podia tocá-la...
Sem pensar duas vezes, ele puxou-a para mais perto de si, até que seus lábios se tocassem. Passara anos alimentando ódio por ela, prometendo vingar-se da forma mais dura e cruel que fosse capaz. Mas agora que estavam tão próximos...
Adam segurou seu rosto, trazendo-a para mais perto de si, enquanto implorava com a língua que ela o acolhesse junto com a sua. Com a mão livre, ele explorou seu corpo, tocando, apertando e beliscando cada pedaço da carne dela.
-Marion – ele murmurava seu nome, enquanto tentava beijá-la outra vez. – Por favor, minha Marion...
Ela agarrou suas mãos, prendendo-as acima da cabeça dele, para impedi-lo de tocá-la. Adam, por outro lado, ergueu a cabeça em busca dos lábios dela, implorando.
Marion o encarou, sentindo um embrulho no estômago. Seus olhos estavam fechados, e seus lábios repetiam a todo o momento seu nome, enquanto tentava beijá-la. Ela o observou se aquietar, como se houvesse voltado a cair no sono.
Ela engoliu em seco.
Ah, estava tão vulnerável... Podia vingar-se de qualquer forma, e Adam não reagiria.
Marion sentia seu coração bater mais forte, e o sangue em sua cabeça agitar-se com a adrenalina crescente do ato.
Estava prestes a matá-lo, e não poderia estar mais empolgada.
Ela desvencilhou-se das mãos dele, deixando-as no alto de sua cabeça, enquanto procurava uma arma. Seus olhos caíram direto sobre a bandeja de prata repousada ao lado de sua cama, num criado-mudo, com resto de comida sobre um prato e talheres brilhantes. Ela jogou-se por cima dele, alcançando a faca com esforço.
Não tinha ponta, mas era afiada o suficiente para um corte profundo.
Ela lançou um último olhar para ele, ainda vivo, posicionando a faca acima de sua cabeça para ganhar impulso na descida, em direção ao seu coração.
Marion fechou os olhos, ficando de joelhos entre ele, enquanto contava até três.
Seus braços desceram com toda a força, fazendo um barulho estranho ao encontrar o alvo. Quando abriu os olhos, deu de cara com o rosto amedrontado de Adam, que a encarava meio tonto, meio são, enquanto segurava suas mãos em punho.
Os dois ficaram se encarando por um momento, sem reação alguma.
Adam estava petrificado, sem conseguir acreditar no que acontecia.
-Marion? – Murmurou, chocado. Sua voz saiu rouca, gutural. Quase inaudível. – É você...
Marion, por outro lado, tentou livrar-se das mãos dele – que a impediu, segurando com mais força seu punho, até que ela gritasse e deixasse a faca cair. Com um golpe de profissional, Adam a derrubou sobre a cama, jogando todo o peso do corpo para cima dela, impedindo-a de escapar.
Ela debateu-se e gritou, tentando livrar-se dele. Mas Adam era mais forte, conseguindo prender suas mãos sobre sua cabeça, como ela fizera antes.
Ele não conseguia acreditar que era ela. Não podia ser real, não podia ser ela.
-Você disse que voltaria... – Ele murmurou, aproximando seus rostos. – Disse que voltaria para mim...
Marion debateu-se quando ele tentou beijá-la, mas não conseguia livrar-se do aperto dele – nem dos lábios.
Ela aquietou-se, deixando que ele a beijasse, que a tocasse e que confiasse nela.
O beijo começou muito sutil, apenas um tocar de lábios desconfiados. Adam finalmente entregou-se, soltando suas mãos para explorar novamente o corpo dela.
Seus dedos percorreram a cintura dela, explorando aquelas curvas tão familiares e delicadas. Depois, desceu até as coxas, e parou na bainha da fina camisola que usava, subindo-a.
Pele contra pele, língua contra língua, e um turbilhão de sensação o invadia – não recordava-se do ódio; sentia uma necessidade absurda de possuí-la, e deixava isso claro enquanto mordiscava sua orelha, traçando uma linha de beijos e mordidas desejosas do seu pescoço até seu ombro. Sentia raiva dela, e desejo. Quando voltou a beijar seus lábios, ela não o impedira. Não impedira que sua língua invadisse sua boca ou que seus dedos alcançassem seus seios.
Ambos, de repente, entraram no mesmo ritmo.
Adam a beijava ferozmente, massageava seus seios e suas nádegas, enquanto Marion acompanhava os movimentos de seu corpo, dando-lhe espaço para chegar aonde quisesse.
Adam ergueu-se sobre ela e, num movimento quase imperceptível, forçou a camisola dela mais para cima, na intenção de tirá-la. Mas Marion não se moveu; ao invés disso, ficou de joelhos em sua frente, segurando seu rosto e o beijando novamente, enquanto o fazia se deitar de costas, de forma que ficasse sobre ele novamente.
Adam a beijou com sofreguidão; estava totalmente entregue a ela. Não conseguia parar de beijá-la ou tocá-la, enquanto gemia e murmurava seu nome.
-Adam, meu amor... – Ela murmurou, em seu ouvido. Ele gemeu em resposta, abraçando-a. – Não voltei por você. Prometi isso há muito tempo, lembra-se? – Ela sorriu, mordiscando sua pele. – Vim apenas matá-lo.
Impiedosamente, Marion cravou os dedos ao redor do pescoço dele, pressionando com os polegares sua traquéia agitada. Adam segurou seus braços, puxando-a para longe, enquanto debatia-se para tirá-la de cima de si. Ele não sabia o que fazer. Com uma mão, ele a empurrava para longe, enquanto que com a outra, tentava segurar seus braços. Mas Marion estava em cima dele, depositando todo o peso do seu corpo sobre ele, impedindo-o de fazer qualquer coisa.
Adam pôs-se a gemer, enquanto debatia-se. Marion deliciava-se com o deleite dele, cravando suas unhas em sua carne.
Estava em êxtase, matando Adam com as próprias mãos, que mal notara o velho que surgira atrás de sim, puxando-a pelos cabelos longos e para longe de Adam.
Tudo acontecera muito rápido.
De repente, Marion ergueu-se feito uma loba e atacou o velho que socorria Adam, pulando sobre ele e o derrubando. Estava cega de ódio, e tentava atingi-lo a todo custo.
-Marion! – Ele sussurrava, feroz. – Sua puta!
Marion o atacou com mais fúria, arranhando-lhe e socando cada pedaço de carne que conseguia enxergar sob o frenesi.
-Eu vou matá-lo! – Ela dizia, cerrando os dentes. – Juro que vou!
Não sabia para quem era aquela ameaça, mas, quando parou para recobrar o fôlego, fora atingida com força no rosto, caindo no chão com um estrondo abafado.
Mal lembrara-se do que acontecera após seu desmaio, apenas que acordara com uma bolsa de gelo sobre o olho e seu pai ao seu lado, encarando-a com uma expressão feroz.
Assim que recobrou a total consciência, a mulher implorara seu perdão, o qual lhe fora negado.
“Lembre-se que, a partir de agora, você não se chama mais Marion” – Seu pai dissera, antes de deixá-la sozinha no quarto. “Se ama seu filho, se quer conquistá-lo... Terá que aceitar sua posição.” – Antes de fechar a porta, ele completara: “Boa noite, Jeniffer”.














