Meus olhos ardiam como se estivesse olhando para o fogo por muito tempo. Meus lábios estavam secos, mas não tanto como minha garganta. Não conseguia mover nenhuma parte do meu corpo, muito menos pensar em outra coisa a não ser em como me sair dessa.
O ventilador de teto do único motel que existia naquela cidade parecia deixar o ar bem mais quente, como se a temperatura não estivesse alta o suficiente para queimar meus miolos. Música country falava sobre voltar para casa, sentia as palavras tocarem minha alma a cada "come home to me".
Virei meu corpo para o lado e olhei a caixinha em minha mão esquerda. Sabia como isso funcionava, a partir do momento em que vomitava como uma vaca desde cheguei aqui. Minha preocupação era apenas uma única: a cor azul
Me apoiei nos cotovelos assim que a música acabou, precisava fumar. Olhei em minha volta e não tinha nenhum cigarro por perto, mas fumaria até um de palha se fosse preciso. Só queria sentir a fumaça sendo inalada até chegar em meus pulmões - futuro pulmões cancerígenos.
Não fui tão covarde dessa vez, era apenas um teste maligno que pode ou não ser errado. Aliás, desde quando Mellany Pierce não toma pílulas para que possa foder com Deus e o mundo?
Ri pelo nariz e levantei da cama, com um rangido fraco pelos ferros velhos do lastre. Minhas botas estavam perto, só que precisava sentir meus dedos tocando no chão gélido daquela pocilga. Um arrepio forte passou pela minha espinha deixando os pequenos pelos dos meus braços ouriçados. Empurrei com os dedos a porta que abriu lentamente. O teste estava em cima da pia, ainda longe demais para ver o resultado.
- Mellany! Você não deixa ninguém gozar dentro de você - murmurei na frente do espelho. Levei minhas mãos até meus cabelos enrolando eles para um coque. Peguei o teste levando-os a altura da luz para ficar mais claro.
Batidas na porta me fizeram esconder aquele troço no bolso de trás da calça, nunca me senti tão envergonhada como me sentia agora. Minhas bochechas queimavam. Andei rápido em direção a porta e abri até a metade que impedia pelo "pega ladrão".
Com sua testa vincada, as rugas abaixo dos olhos mostravam o quanto se preocupava em minha estadia ali, ou pior, ele pensava que poderia estar morta.
Deixei ele entrar no quarto, e pela sua expressão ele não era acostumado a dormir em motéis desde nível. Juntou suas mãos e ficou de pé atrás da porta.
- Como está seu avô? - Ele estava frio. Como nunca tinha visto antes.
-Eu não sei, desde quando sai de lá não tenho notícias. - Estava nervosa, minhas mãos tremem. Sabia que aquele era seu veredito, voltar ou não voltar.
-Suas coisas estão nas malas?
- Não tirei nada delas ainda.
- Onde estão? - Apontei para o lado esquerdo da cama, todas as minhas coisas estavam ali. Só usava roupas que tinha deixado em uma bolsa menor para facilitar minha vida.
- Isso significa que você veio me levar?
- Isso significa que sou seu pai, e amo você independente do que faça. - Respirou fundo -Mesmo ter feito o que fez com o filho da Pattie.
- Vai me condenar como todos? Deveria me entender, Justin é parte de mim.
- E você é parte dele! - Caminhou em direção as malas. - Nunca vi um homem se ajoelhar aos meus pés e pedir por uma mulher de volta.
- E-ele fez isso? - minha voz falhou.
- Chorou na minha frente, e se ajoelhou aos meus pés. Tive que ser forte Mellany. Senti pena daquele homem, foi horrível vê-lo debilitado de sanidade por sua causa.
- Não queria que isso acontecesse.
- Nem Pattie! - Pegou duas malas, elas eram com rodinhas, isso ajudaria bastante. Até porque só tinham três, mais uma mala de mão e minha bolsa.
- Emma sabe que vou voltar?
- Emma quer arrancar minha cabeça, provavelmente quando chegarmos você tenha uma recepção com velas, padre Simon para fazer o exorcismo e duas beatas rezando pela sua alma.
Fui até onde estava minhas botas, sentei na beirada da cama para calça-las. Puxei o teste do bolso e joguei em cima do criado mudo. Foda-se, eu não estava em maneira alguma com algo dentro de mim. Deus não é maluco o suficiente para me dar um filho, ele sabe a quem dá isso.
Peguei o resto das malas, deixando a bolsa em cima para levar tudo de uma vez para fora daquele quarto.
- Não, vamos de avião. Acha mesmo que vou demorar três dias com minha bunda sentada em um banco?
Sorri sem graça para ele fechando a porta logo atrás de mim. O corredor não era tão extenso se fosse contabilizar, tinham uns 15 quartos e 10 deles funcionavam como um verdadeiro motel, as paredes finas faziam os gemidos ecoarem como música alta de um som estéreo.
Parei na recepção para pagar, não funcionava por hora como os outros. Era por dia, cada dia 20 dólares. A mulher sorriu para mim mostrando os dentes amarelados.
- Pensei que ficaria mais tempo aqui.
- Meu pai veio me buscar.
- Pai? - Ela sorriu maliciosa. Estava insinuando que treparia com Luke?
- Mellany Pierce, Luke Pierce e provavelmente minha mãe está nos esperando no aeroporto. - Ela notou a arrogância vinda de minha parte e a cara de poucos amigos do meu pai.
- Seu troco são 10 dólares.
- Fica para você. – Dei as costas para ela. Deveria pegar a grana até porque dez dólares é um baseado na Sound, um suco no The Hell. Mas de onde veio essa grana eu tinha roubado muito mais! Não mando meus avós serem toscos e esconder dinheiro debaixo do colchão quando se tem uma neta como eu.
O taxi estava do lado de fora, o cara nos ajudou a colocar as malas. A única coisa que Luke trouxe foi uma bolsa transversal.
Sentei no banco de trás e logo em seguida ele entrou. Abriu sua bolsa e entregou minha antiga carteira que só servia para guardar meus documentos. Finalmente minha carta de motorista.
- Eu não estou ligando para o que vá fazer com ela, só não quero que se meta em confusões. – Ergueu meus chaveiros para cima mostrando a chave da minha moto. Meu coração disparou quando vi a chave da minha linda Stessie.
- Só quero que faça uma coisa. - Seu tom de seriedade me fez acabar com minha festinha interna.
- Fique longe disso. - Mostrou o março de cigarros que o próprio fumava escondido de Emma.
- Não tenho nada a perder nessa vida mais, mas você é nova, tem um futuro pela frente. E vai voltar a estudar, essa é uma das exigências de sua mãe.
- Otários! - ele respondeu antes que acabasse.
- Como quer que eu volte lá?
- Não vai voltar! Acabou dois meses antes de concluir o colegial. São dois meses de aula particulares com três professores.
- Depois disso pensaremos em algo para você. - Sorriu passando seu braço em volta do meu pescoço, e beijou minha testa. - Senti falta da minha garotinha em casa.
Sexta-feira 13, às 17:45 p.m.
Minha garganta estava seca devido a quantidades de vezes que havia vomitado durante o voo. O balançado do carro fazia meu corpo tremer assim como meu estomago que mal aceitou batatinhas e uma lata de refrigerante e já queria por tudo para fora. Coloquei as mãos na boca numa tentativa de impedir o enjoo. Minha testa suava.
- Está ansiosa para voltar que não para de tremer. Aquele rapaz te procurou várias vezes.
- O outro do cabelo bonito! Charles.
- Ele me ligou algumas vezes, você deu o número?
- Não! Que bom que ele ligou, Charles parece se preocupar muito com você. Ainda namoram?
- Pai! Eu já disse que Chaz é meu amigo.
- O padre também é seu amigo e hoje está morando já igreja para não olhar na cara de mulheres loiras com olhos claros e chorar.
- Você é exagerado. – Bufei, e em seguida limpei minhas mãos suadas no jeans da calça.
O bairro estava silencioso, aliás essa hora da noite todos estavam em casa esperando o jantar para depois irem ficar na varanda ou visitarem os amigos para saírem por ai.
No meu caso, pretendia amanhã essa hora estar bêbada em cima de Ryan, depois de ter chupado Chaz e de ter dado para o Xavier. É uma boa forma de dizer que estava com saudades deles.
Reconheci aquela moto preta na rua, o corpo magro e a jaqueta com estraches e o nome "heaven" nas costas. Abri a janela do carro no instante que passei pela moto. Mostrei o dedo do meio para ela e coloquei minha cabeça para fora.
- Mellany, coloca a cabeça dentro do carro. Quer morrer?
- Para o carro, pai. Para o carro – pedi. Ele negou com a cabeça, mas mesmo assim seguiu para o lado da calçada, parando o seu Sedan.
A moto parou bem atrás do carro, ainda com receio ou sem acreditar quem era. Abri a porta e desci com dificuldade. Não era todos os dias que me sentia mal em comer alguma coisa. Ela tirou o capacete e me olhava com suas mãos na moto, apertando como se pudesse querer sair dali o mais rápido possível.
- Eu queria matar você - Camila falou seca. - Eu quero te matar. Por que merda me abandonou?
- Não vai descer e vir até aqui? - Encostei na parte de trás do carro, Cams entortou os lábios e passou sua perna para o outro lado descendo da moto. Mesmo de pé ainda estava distante de mim.
- Vai surtar em saber que eu contei pra Pattie sobre você e Justin? Que eu fui até Justin pedir para ele te deixar em paz?
- Por que está falando comigo? Mesmo sabendo que fiz tudo isso?
- Puta merda! Eu estou aqui agora, não vai me abraçar? - Cams ficou sem reação com o eu que disse, realmente ela tinha fodido minha vida. Mas no final das contas minha vida sem ela não era a mesma, nada sem ela era a mesma coisa.
Senti seus braços em volta do meu corpo, seu rosto escondeu-se em meu pescoço aprofundando o abraço. As mãos apertavam cada vez mais contra ela, puxando-me como que fosse apenas sua. Não poderia negar que eu sentia falta dela, sentia falta de estar com ela, principalmente de acordar ao lado de Camila. Ela era minha melhor amiga, a qual poderia falar mal do cara que machucasse meu coração, no caso dela, aquela que bateria em alguém caso me machucasse.
A soltei de mim e peguei seus olhos marejados, não tinha certeza do que estava fazendo. Se meu pai não estivesse aqui tomaria aqueles lábios em vermelho matte para os meus.
- Agora. Na verdade estava indo para casa.
- Me desculpa. Por tudo. - Segurei seu rosto fazendo ela olhar para mim.
- Cala a sua maldita boca antes que te faça engolir os dentes. - Sorri, ela me retribuiu com um grande sorriso. Abracei Camila mais uma vez e só soltei pelas buzinadas irritantes que meu pai causava.
- Mellany! Vamos embora tenho que levar sua mãe à missa! - ele falou alto. Camila bufou e riu de lado.
- Onde acha que aquele maluco estaria? Adorando a deus com todas as suas forças e se chicoteando por bater punheta pensando em você. - Afastou-se pegando seu capacete.
- Vamos comigo? Não me faça encarar Pattie sem que eu queria quebra-la ao meio.
- Vai no carro com seu pai ou quer subir aqui? - Deu alguns tapas na parte do bando de trás. Sorri maliciosa e fui até a moto.
- Faz um mês que não sento em cima de uma dessas. - Camila subiu na moto, logo em seguida subi. O motor ligou e um arrepio pelas minhas costas me fez sentir-me viva. O sangue corria em minhas veias apenas por estar em cima de uma moto. Esta era minha paixão.
Camila estava segurando o acelerador, até parar no lado do carro.
- Aposto que chego mais rápido que você - zombei do meu pai, que sorriu para mim. Luke sabia o quanto isso me fazia bem, e não demorou a estar correndo atrás da gente como se fosse um carro de polícia.
O vento batia em meu rosto como doces tapas suaves, minhas mãos ao redor da cintura fina de Cams. Nada melhor do que sentir o vento em meu rosto, meus cabelos voando, as ruas passando como borrões.
Para passar na minha casa, passávamos na de Chaz. Ela começou a buzinar do começo da rua até quando saímos dela. Creio que eles entenderiam o recado. Fazíamos isso quando acontecia algo bom e não podíamos parar a moto.
Avistei a rua onde morava, minha casa não me interessava eu não queria ver Emma. A única coisa que queria ver era meu anjo. Assim que Camila parou sua moto, pulei de cima e sai correndo pelo jardim, pisando naquelas flores miseráveis que Pattie e Emma cultivavam pela primavera.
Corri para dentro de casa, sabia que todos estariam ali. E quando falo todos, me refiro a Pattie. Emma, padre Simon e Pattie estavam na sala. Como de costume tinha bastante comida. Esse padre só vinha aqui para comer.
- Onde está meu Justin? - foram as primeiras palavras que disse ao ver aquela mulher de baixa estatura.
- Menina, Mellany! - Padre Simon sorriu para mim, mas ainda mantinha o foco em Pattie.
- Mellany, querida! Estava com saudades de você e de suas perguntas desnecessárias. -Camila estava ao meu lado dentro da casa, com os braços cruzados.
- Igreja! Onde mais um padre feito Justin estaria? Hoje é dia da missa, todos nós vamos para ela daqui a pouco - Emma falou com um sorriso amistoso. Ela não me suportava, isso era nítido.
A buzina do carro de Luke me fez perder a concentração. Se todos iriam para missa era pra que eu tinha que ir. Camila afastou-se para atender seu celular. Voltei para fora pegando uma das minhas malas, precisava de um banho. Camila serviu sua ajuda para Luke, trazendo as malas para meu quarto.
Aquela merda sem meus dois pôsteres do Ghost B.C. parecia um quarto de uma criança de cinco anos de idade. Joguei a mala que estava comigo em cima da cama, a abri e comecei a jogar roupas por todo o lado até achar minha jaqueta. Peguei a bolsinha com minhas coisas e entrei no banheiro. Não fechei a porta, estava no meu quarto, foda-se o resto!
Água descia lentamente pelo meu corpo, enquanto queria que ela fosse rápida. O chuveiro estava correndo forte, mas para mim era como se não tivesse efeito. Este fora o banho mais rápido que tomei em toda a minha vida, sem nem molhar meus cabelos. Precisava de um bom banho de banheira para ficar longe do cheiro daquela maldita cidade no Arizona.
Todas as minhas malas estavam lá, e Camila também estava, passando pela porta e logo em seguida a trancando.
- Não deveria ficar assim na minha frente - Camila alertou, fechando a porta.
-De toalha. Sabe que isso é tentador. - Mordeu seu lábio inferior, sorri com malicia para Cams e fui em sua direção.
Puxei o prendedor de meus cabelos jogando-o no chão. Grandes olhos azuis se espantaram por alguns segundos. Coloquei minhas mãos por trás da porta, onde ela estava. A toalha não demorou muito para cair sozinha no chão. Inclinei meu corpo deixando meus seios desnudos encostarem no seu.
- É tão tentador assim? - murmurei a centímetros da sua boca. Sua respiração estava lenta, poderia sentir seu hálito quente perto dos meus lábios.
Ela cravou suas unhas em meu pescoço puxando-me para ela, os lábios macios agarraram aos meus. Um beijo lento onde não atreveu a enfiar sua língua em minha boca. Era apenas um selinho demorado, até suas mãos irem em meus ombros e me empurrarem para a porta, batendo minhas costas com força na mesma.
Seus dedos puxaram meu cabelo forte, ela lambeu meu lábio e depois os tomou para você. Sua língua estava em sincronia com a minha, sentia toda o desejo que ela tinha a me proporcionar. As mãos foram em meus seios, apertando fazendo-me soltar um pequeno gemido, entre o beijo.
Segurei em sua cintura, enquanto suas mãos desceram pela minha, chegando até a bunda, onde recebi um tapa.
- Eu quero você, Mellany - sussurrou em meu ouvido, passando a ponta do seu nariz pela minha pele. Segurei suas mãos tentando afasta-la de mim.
- Eu quero meu Padre. - Dei dois tapinhas devagar em seu rosto, a boca estava borrada pelo seu batom. Camila virou o rosto e afastou-se para se recompor.
- Coloque uma roupa, antes que eu não te deixe por. - Foi como uma ordem, já estava indo colocar minha calcinha, enquanto Camila estava de costas para mim tentando evitar contato visual.
Nada era em especial: calça preta, uma da mesma cor que chegava até acima do meu umbigo, uma jaqueta preta. Estava pouco me fodendo se ia pra igreja daquele jeito, não pretenderia ver meu anjo sem tentar tocá-lo.
A ansiedade em ver Justin era tão grande que minhas mãos tremiam e meus lábios ressecavam mesmo estando de batom.
Saímos do quarto sem falar nada, até porque sabia que se nesse momento fizéssemos algo seria foder.
- Pai, vou sair com a Cams – falei alto chamando sua atenção.
- Mal chegou e já vai sair? Não vai jantar?
- Como alguma coisa na casa de Chaz. - Vi ele sorri de lado. Sei não, mas ele parecia gostar mais de Chaz do que de mim.
- Suas chaves. - Jogou em minha direção, peguei no ar. Estava sentindo aquele belo gosto da vitória, minha mãe se mordia por isso, já Pattie estava sorrindo falso.
Passei minha mão no bolso sentindo a chave da minha bebezinha. Precisava sentar em cima dela. A garagem estava apenas com a porta encostada, meus olhos bateram de frente com minha moto, estava com uma placa de vende-se. Mas eles não poderiam tirar meu bebê de mim.
Fui rápido até a ela passando minha mão em cima do bando, o capacete estava atrás. Não precisava limpa-la pelo visto, Luke tinha feito isso antes de ir me buscar. O tanque estava cheio também, meu pai tinha feito um bom trabalho.
Subi em cima dela, girei a chave e senti seu ronco me dando as boas-vindas. Ela parecia me conhecer tão bem que já estava pedindo para que a mamãe o levasse para dar uma volta.
Foi o que eu fiz! Sai da garagem com um sorriso estampado no rosto até onde Camila estava com sua moto. Peguei meu capacete, colocand-o.
- Preciso ir em um lugar antes. Vai na frente e fala para o filho da puta que eu estou chegando. - Acelerei a moto, meu corpo impulsionou para trás e depois voltou ao normal como se fosse a minha primeira vez andando naquela belezinha.
São apenas sete quarteirões para ver meu anjo, mal poderia esperar até tê-lo em meus braços. Se fosse preciso assistiria milhões de missas só para no final poder beijar seus lábios e tê-lo para mim.
O sino não havia tocado, aliás não era nem sete da noite ainda. Lá estava aquela igreja, as portas abertas, escadarias iluminadas pelas lâmpadas de fora. Imagens de anjos na estrutura, o sino do outro lado. Tudo em cores marrons.
Deixei minha moto do lado esquerdo da igreja, era ali onde os padres ficavam. Tinha uma das portas que levava até a sacristia. Mas estava tudo apagado, apenas velas iluminavam aquele lugar.
Um sorriso bobo brotou dos meus lábios, velas e escuridão lembrava quando cheguei no céu e topei com São Pedro.
O barulho vinha da casa de trás, poderia escutar pessoas rindo tranquilamente. Reconhecia aquele riso vergonhoso a mil quilômetros de distância. Fui até o outro lado para entrar, a porta estava aberta. Tinham várias crianças que chegavam a ser de 10 e ir para sua adolescência aos 14, duas na frente olhavam para o homem sentado com papeis nas mãos lendo alguma coisa. Aproximei da soleira da porta e me encostei, a voz rouca e suave entrava em meus ouvidos como belas melodias.
- Eu não posso fazer isso! - ele disse divertido deixando os papéis de lado.
- Vamos, padre Justin! O antigo padre às vezes cantava músicas de fora para nós.
- Por que não tentamos alguma dos Newsboys? Your Love Never Fails, essa é uma boa música! - insistiu para as crianças. Algumas estavam tão entretidas no que fazia que não deram importância em ter alguém os observando de fora.
- O padre Simon não está aqui perto, por favor vamos cantar alguma coisa que não seja sobre Deus.
- Kate! Estamos na igreja, temos que cantar coisas sobre Deus! - Pegou o violão que estava no chão colocando em seu colo.
- Padre, por que não tentamos essa da folha? - Justin bufou e passou a mão esquerda entre seus cabelos, estavam em um corte baixo, fios desgrenhados, parecia que tinha raspado o cabelo a pouco tempo e deixado crescer de forma natural, fios pequenos e desgrenhados. Olhou a folha em sua mão e sorriu.
- Eu irei fazer, mas vocês têm que me ajudar. - Dedilhou o violão e parou. - Deus vai me castigar por isso! - brincou com eles.
O som saiu baixo, como se estivesse ainda procurando chegar perto do ritmo. Reconhecia aquelas notas, principalmente quando o assovio saiu de seus lábios em total sincronia com o ritmo.
Shed a tear cause I'm missing you
I'm still alright to smile
Girl, I think about you every day now
Was a time when I wasn't sure
But you set my mind at ease
There is no doubt you're in my heart now
Sua voz não chegava a ser como a do Axl, em hipótese alguma seria. Sentia toda a suavidade do seu timbre a falar cada palavra.
Said, "Woman, take it slow
And it'll work itse lf out fine
All we need is just a little patience
"Said, "Sugar, make it slow and we'll come together fine
All we need is just a little patience"
A conexão com seu violão era tão grande, chegava a me dar inveja como se quisesse estar em seu colo recebendo atenção que nenhuma outra pessoa já recebeu em sua vida.
'Cause I'd rather be alone
If I can't have you right now
Minhas memórias não falhavam ao lembrar no dia em que roubamos um disco vinil das coisas do seu pai, descemos até o porão para ouvir apenas uma única música, repetidamente várias e várias vezes.
But I can't speed up the time
But you know, love, there's one more thing to consider
Justin sabia aquela letra de cor! Não precisava nem da ajuda dos moleques cantando junto. Ele saberia tanto quanto eu cada acorde, cada nota, cada vírgula usada na letra da música.
Said, "Woman, take it slow And things will be just fine
You and I'll just use a little patience
Said, "Sugar, take the time
'Cause the lights are shining bright
You and I've got what it takes to make it"
Seus olhos estavam fechados, suas palavras saiam de forma dolorosa, a dor poderia ser sentida. Entrei na sala e caminhei até uma das cadeiras, ele não parou de tocar até o momento em que me sentei em umas das últimas cadeiras. Deixando minhas mãos em cima da bancada de madeira.
Ele ainda mantinha seus olhos fechados, os alunos da catequese apenas ficaram em silencio, nenhum deles acompanhava a música. Talvez fosse apenas Justin e seu violão naquela sala. E nada mais!
I've been walking the streets at night
Just trying to get it right
It's hard to see with so many around
You know, I don't like being stuck in the crowd
Minha respiração estava lenta, existiam milagres de borboletas em meu estomago. Apenas queria ascender um cigarro e deixa-lo cantar por horas até que todos os meus problemas fossem para o inferno, só me deixando flutuar com sua voz, sentir a mesma coisa que ele ao cantar.
And the streets don't change but, baby, the names
I ain't got time for the game
Cada " I need you" que saia de sua boca, eram como nós em minha garganta.
Justin abriu seus olhos, terminando a música. Ele não sorriu, não mostrou expressão alguma ainda estava com a cabeça baixa.
Comecei a bater palmas, aplaudindo sua performance assim como as crianças da catequese. Foi nesse momento que seus olhos bateram em mim, ele não conseguiu mover mais um músculo.
- Padre Justin? Está bem? - um garoto que aparentava ter 12 anos perguntou balançando suas mãos na frente do rosto de Justin.
O sino começou a tocar, eram 12 toques lentos, cada um pareciam facadas no seu estomago.
Seus olhos estavam em mim, mas sua mente estava em outro lugar. O estado de choque tinha o deixado paralisado.
- Padre, não vamos fazer a oração final? - Nesse momento ele piscou seus olhos algumas vezes e balançou a cabeça negativamente
- Não, eu preciso sair agora. - Estava quase jogando os papéis no chão, as mãos tremiam, seus lábios também.
Levantei da cadeira, acompanhando algumas das crianças que estavam perto de mim, até chegar a Justin.
Coloquei minhas mãos em seu colo e me abaixei para pegar uns dos seus papéis, ele parecia atordoado. As costas da mão esquerda bateu sem jeito na minha quase derrubando as folhas que acabava de apanhar do chão, ele estava gélido.
Olhei em nossa volta e aquelas crianças já tinham saído da sala, levantei deixando os papéis em cima de uma das carteiras.Justin por sua vez estava sentado, sem nenhuma ação.
- Eu senti sua falta, meu anjo - falei baixo, quase em um murmuro. Seu rosto levantou devagar, até que aqueles grandes olhos castanhos pareciam um navio perdido em um oceano.
- Não sabe o quanto senti sua falta. Eu errei com você. Sabia que iria embora no outro dia e fiz algo ruim, mas espero me redimir.
- Mellany, não podemos ficar sozinhos - ele murmurou.
- Sua mãe não está aqui para falar se podemos ou não ficar sozinhos. - Justin levantou da cadeira e olhou em direção da porta.
- Já passou pela sua cabeça de que fomos um erro? Satanás me colocou em prova e eu não passei! Cai em sua armadilha, fiz coisas absurdas. Agora que me redimi com Deus, você aparece para me destruir. - Justin estava nervoso, mal conseguia deixar suas mãos quietas.
- Justin, eu fui embora pelo...
- Porque deus quis. Não existe nada que não podemos interferir na vontade dele.
- Deus não quer que você se machuque. Deus não quer que você use um cilício na sua perna. Deus não é um monstro que tortura você - Soltei sem pensar as coisas que Chaz me contou pelo telefone, Justin abaixou sua cabeça e pegou o terço.
- Isso é mentira! Deus não me obriga a usar cilícios ou me machucar.
- Eu voltei Justin. Estou aqui na sua frente e você vem me falar que fomos um erro.
- Isso é errado, padres não podem se relacionar... - Coloquei minha mão na boca dele, segurando forte, não deixando com que falasse mais uma palavra. Empurrei seu corpo para cima de uma mesa de madeira que tinha ali. Joguei seu corpo forte contra a mesa e escutei um gemido de dor.
- Tira essa batina. - Soltei a mão da sua boca. Ele negou com a cabeça, segurei eu seus pulsos com força.
-Tira essa batina por bem ou por mal, se não fizer isso eu mesma faço! - O soltei e dei alguns passos para trás indo até a porta, fechei aquela porcaria e desliguei a luz. Já tinha iluminação o suficiente vindo de fora, ninguém precisaria me ver aqui dentro com ele.
- Não vou fazer isso, Deus vai me... - Sem nem pensar duas vezes dei um tapa na cara dele, fazendo com que sua boca ficasse entreaberta. Coloquei as mãos no seu peito e desci o tronco dele para que deitasse na mesa. Passei minhas pernas em volta do seu corpo travando minhas coxas em seus quadris.
- Deus, Deus, Deus. Esqueça ele, padre Justin! É assim que você quer que o chame? -Inclinei meu corpo por cima do seu, meus cabelos caíram por cima do seu rosto. Deixei meus lábios a centímetros do seu.
- Padre Justin, meu padre. -lambi a parte inferior dos seus lábios, foi como se tivesse apertado o botão para ligá-lo. Suas mãos seguraram em meus cabelos puxando minha cabeça para perto, sua língua entrou em minha boca, sedento de desejo. Minhas pernas fraquejaram ao sentir o toque de suas mãos em minha coluna descendo devagar dando apertos como se não quisesse parar com o beijo.
Não sentia nada além da sua língua junto da minha. Seu gosto, seu toque. Meu corpo flutuava em um universo desconhecido a cada vez que ele aprofundava o beijo, toda vez em que sua língua procurava a minha de forma suave.
Justin parecia incansável. Por um momento pensei em que já tinha nascido com o dom de beijar tão bem ao ponto de soltar milhões de calafrios pelo meu corpo.
Separamos nossos lábios, apenas por alguns instantes, respiração celerada sem conseguir falar nada um para o outro. Justin se mantinha firme com seus lábios entre abertos e a testa vincada. Passei minha mão em seu rosto, acariciando lentamente. Seus olhos fecharam com o toque da minha mão em sua pele.
- Você tem que ficar longe de mim - pediu com a voz manhosa, estava tão entregue poderia fazer o que quisesse com Justin agora.
- Não! Você é que tem que ficar longe de mim ou então não fique.
- Eu não quero ficar. - Deu um selinho em meus lábios, segurou firme em minhas costas sentando na mesa me deixando em seu colo.
- Você é meu padre, ninguém mais pode te tirar de mim. - Acariciei sua nuca com a ponta dos meus dedos, subindo para seus cabelos. O cheiro doce de Justin fazia me sentir em casa, no lugar onde fosse apenas meu, um lugar que ninguém mais poderia entrar. Os braços grandes me agarravam contra o peitoral robusto, fazendo me sentir apenas dele. É isso que eu sou... Apenas do meu anjo.
Mais uma vez fui tomada pela sua língua lambendo meu lábio inferior, pedindo passagem para um beijo, os lábios moviam-se em perfeita sincronia com os meus, eles tinham sido feitos um para o outro.
Naquele momento o mundo poderia acabar. Eu queria que ele acabasse pois nada mais importava estava apenas eu e meu Justin.