Capítulo 28
Dava pra ver o alojamento inteiro e mais a parte dos palcos. Além de todo o mar de montanhas que nos circundavam. Era alto, muito alto, assim com também era lindo.
Andei um pouco mais a frente e me sentei. Pelo canto de olho observei a Mindy sentando do meu lado. Nós ficamos em silencio por algum tempo, até que a ouvi suspirar.
- Eu jamais poderia imaginar que você era a pedra preciosa da Rafaela. – Ela falou brincalhona.
Eu encolhi as pernas de modo confortável e me alto abracei. A voz dela era suave combinava bem com a vista a nossa frente.
- Ela quem é minha pedra preciosa, mágica e todos os substantivos bons do mundo. – Falei olhando além.
Pelo canto do olho pude ver ela me observando.
- Por quê? – Ela perguntou de repente.
Eu precisei observa-la por alguns segundos para perceber que ela falava serio. Busquei as palavras que melhor expressava os motivos dos meus sentimentos pela Rafa, mas isso era muito difícil.
- Por que ela estava lá. Sempre esteve lá e ela sempre está entende? Se eu respirar de modo diferente a Rafa vai ser a única pessoa no mundo que vai perceber, e vai saber exatamente por que eu deixei que ela aprendesse cada pedacinho de mim.
Voltei a olhar a vista. Notei que ela ainda não tirava os olhos de mim.
- Então ela é a sua melhor amiga. Você não acha que talvez esteja só confundindo os sentimentos?
Eu voltei a olha-la.
- Não. – Sorri – Quando eu imagino um futuro... eu não penso na Rafa sendo madrinha dos meus filhos, ou ir visitar a família dela no natal. Na verdade, eu fico com muita raiva de imaginar ela com uma família que não seja formada por mim. – Suspirei – Quando eu penso no futuro eu não tenho muitos planos, não sei dizer como as coisas vão ser... A única coisa que eu penso, e que eu peço aos céus, é que... Não importa o que eu faça, ou o que aconteça, que eu sempre faça e que sempre aconteça com ela ao meu lado.
Ela ficou quieta e parou de me observar, começou a olhar a vista assim como eu.
- Que sorte ela tem.
- Sorte quem tem sou eu.
Ela ficou quieta por mais alguns segundos até que novamente voltou a me observar. Fiquei apenas esperando a próxima pergunta.
- Não entendo, com tantos sentimentos recíprocos assim, por que vocês são tão distantes.
Arqueei as sobrancelhas, eu tinha tanto e ao mesmo tempo nada a responder.
- Na real mesmo? Eu acho que é pecado – Ela me olhou perplexa – eu literalmente acho que vou para o inferno se eu corresponder aos meus desejos.
Ela colocou as mãos no meu braço gentilmente.
- Posso te falar uma coisa? O pecado esta dentro do seu coração. Se você faz por maldade, e se faz mal a alguém, é pecado. Mas o amor? Ele é natural, acontece. Você sabe que não escolheu isso.
Pela primeira vez as palavras de alguém penetraram meu corpo. O pecado esta dentro do meu coração.
- Você acha mesmo? – Perguntei ainda refletindo sobre o que ela disse.
- Claro. É relativo. Todos nós pensamos que não temos coragem de matar ninguém, até que um dia um pedófilo passar na TV e a nossa primeira reação é querer mata-los. Você acha que é moda, ate que percebe que se sente do mesmo jeito. Ninguém pode te julgar, por que ninguém pode sentir o que você sente.
Olhei fundo nos olhos dela. Aqueles olhos cor de mel que pareciam jogar para dentro de mim cada grama das palavras dela. Eu sorri, agradecida.
- Obrigada – Sussurrei.
Os olhos dela pareciam continuar me inundando de maneira absurda. Subitamente ela se colocou de pé.
- Vou ir buscar alguma coisa pra gente comer. Não saia daqui ein.
- Não vou sair, logo é o por do sol.
Ela sorriu me deu as costas e saiu. Eu estiquei as pernas e continuei observando a vista maravilhosa. Consegui ouvir bem ao longe o barulho das pessoas na piscina. Estava totalmente absorta nas ultimas palavras da Mindy que me assustei quando meu colar brilhou.
O cheiro de cereja inundou o local. Eu continuei parada, sem olhar para trás. E onde quer que a Rafa esteja ela também estava parada.
- Não aguento mais ficar disputando sua atenção ou tentar diferenciar quem você realmente é de quem você finge que é. – Falei por fim.
Escutei os passos dela se aproximando.
- Não aguento mais ficar disputando seu tempo livre com o Diego.
Segurei a vontade de olha-la indignada. Fiquei completamente surpresa com esse comentário.
- Seu problema não é o Diego, seu problema é a confiança.
Escutei mais alguns passos.
- Me desculpa, mas isso é difícil pra mim. Eu tenho medo de fazer alguma coisa errada.
- Tipo beijar alguém? Ou fazer com uma pessoa tudo aquilo que você não faz comigo? – Ataquei.
- Não – A voz dela estava desesperada – Não é isso, é que... eu sei que se alguma coisa der errado, você vai embora. Tipo, não vamos ser mais melhores amigas, por que as coisas mudaram entre a gente.
Fiquei em silencio por um momento, tentando organizar os pensamentos.
- Deixa pra lá. – Falei por fim.
- Não – Escutei a voz dela mais perto – é isso que as pessoas fazem, elas deixam pra lá e meses depois completamente sufocadas pelos sentimentos elas cospem isso uma na cara da outra. Eu não quero que a gente seja igual a todo mundo.
Senti meu coração apertar. Eu amava com todo meu coração esse jeitinho dela de falar tudo que pensa de uma vez, sem parar para respirar.
- Se você não percebeu ainda, a gente é bem diferente das pessoas comum. Por vários aspectos.
Ela suspirou cansada e finalmente vi pelo canto de olho ela se sentando do meu lado.
- Acho que eu tenho que pedir desculpas por esses últimos meses né? – Ela perguntou.
- Você acha que deve?
Senti quando ela beijou meu rosto e me arrepiei quando senti a respiração dela no meu ouvido.
- Desculpa – ela sussurrou – Por tudo. Eu adoro você.
Mais uma vez senti minhas defesas caírem no chão. Ela me conhecia bem. E a verdade é que a ultima coisa que eu queria era brigar com a Rafa.
Não respondi nada, continuei observando as pessoas se movimentando lá em baixo, parecendo um monte de formiguinhas.
Olhei para a estrada que passava perto da torre do relógio que era a mesma que levava até o alojamento, avistei um carro conhecido. Meu coração gelou, eu sabia exatamente de quem era aquele carro. Finalmente a Gabriella chegou para a festa.
Olhei para a Rafa que me observava curiosa. Ela estava sorrindo, não com os lábios, mas com os olhos. Sufoquei o desespero ao imaginar alguém fazendo mal e ela para me atingir, eu não suportaria. Lembrei de repente de toda a conversa que tive no escritório da casa de campo e por mais que meu coração se quebrasse, aquela era a oportunidade que eu precisava, se eu esperasse mais, poderia ser tarde demais.
A Rafa deve ter interpretado meu olhar perdido de outro jeito, por que só voltei para o tempo real quando ela quase estava relando os lábios nos meus.
- Não faz isso – Me levantei.
Ela pareceu ficar completamente sem graça.
- Desculpa. Eu só achei que você estava em duvida de novo.
Usei toda força que restava em mim para começar o meu pequeno teatro.
- Rafa, isso não está dando certo. – Dei alguns passos para longe dela.
Eu escutei quando ela se levantou.
- Do que você esta falando?
- Não dá mais pra eu continuar com isso – Falei firme – Eu não posso te dar o que você quer, e não quero te prender mais nisso.
Ela pareceu ficar irritada.
- O que? O que você esta tentando fazer? Não jogue a responsabilidade pra cima de mim, eu estou muito feliz. Você sabe que eu estou.
- Você ta feliz com a sua vida. – Ataquei – com a dança e com as coisas que você vem alcançando. Eu só sou um atrasado.
Ela tentou falar algumas coisas, mas tropeçou nas palavras, ficou em silencio e começou de novo.
- O que esta acontecendo? Para com isso, não tem felicidade sem você – Ela tentou colocar as mãos em mim, mas eu me afastei.
Segurei a vontade de começar a chorar desesperadamente por estar me metendo naquilo. Sufoquei toda minha raiva da minha vida frustrada e tive uma ideia.
- Você lembra quando a Julia te falou que um dia eu ia ver que não é isso que eu quero pra mim? Que eu não iria querer ficar com você, que eu iria querer uma família?
Os olhos dela encheram de lagrimas e mais uma vez ela abriu a boca porem continuou muda.
- Co-como assim? O que leva você a achar que nós não podemos ter uma família?
Usei toda a força que eu tinha pra dizer a próxima frase.
- Eu não quero mais ter isso que a gente tem, por que eu vi... nessas ultimas semanas, que talvez eu ainda seja apaixonada pelo Diego. Desculpa.
Ela levantou as sobrancelhas perplexas, deu alguns passos na minha direção e mais uma vez eu me afastei.
- Não faz isso comigo – A voz dela não passava de um sussurro – Você me ama, eu conheço você. Se você está assustada com essa mudança, eu entendo, eu posso te ajudar.
- Não Rafa – Falei firme mais uma vez – Eu não quero mais. Acabou pra mim.
Ela fechou os olhos e um fio de lagrima escorreu dos seus olhos. Rapidamente ela o secou e voltou a me olhar, com um misto de fúria e decepção no olhar.
- Todo mundo faz isso, o mundo inteiro. Se amam, e depois simplesmente se deixam, se todo esse amor que eu sinto não nos impediu de ser iguais a eles, então foi tudo em vão. Você não devia ter me feito acreditar que poderia ser real.
Ela acreditou. Senti meu coração se partir em mil pedaços, tudo que eu tinha em mim ficou gelado e muito, muito dolorido.
- Desculpa por um momento eu achei que pudesse dar certo.
Ela começou a andar de um lado para o outro e eu decidi que tinha que sair dali antes que toda minha força fosse por água abaixo.
- Talvez tenha outro jeito, se você quer um tempo eu entendo. Pode ser que convivendo com nós dois agora, você veja que é tudo diferente.
- Não... – sussurrei – eu não quero conviver com você. Sabe, você foi a melhor amiga que eu já tive, eu quero que você seja feliz, então é por isso... que eu acho melhor a gente se afastar. Pra valer.
- Hanna, vamos conversar. Nada do que você diz faz sentido. – Ela começou a chorar pra valer.
Eu queria abraça-la e dizer que era tudo mentira, que eu queria sim formar uma família com ela e fazer todos os planos do mundo ao seu lado, porém eu não podia. Já tinha prejudicado gente de mais, e enquanto isso não acabasse eu não poderia fazer nada.
- Não se humilhe. – tentei falar com desdém.
Senti as lagrimas brotarem no meu olho. Dei as costas e comecei a seguir em direção as escadas.
- Não se esquece de tirar esse colar idiota – Ouvi o ultimo fio de voz dela antes de apenas ouvir seus soluços.
Enquanto eu descia as escadas quem se entregou aos soluços era eu. Levei a mão a boca tentando sufocar qualquer barulho, não podia dar pra trás agora.
Corri o máximo que pude até finalmente acabarem os lances de escadas, continuei correndo em direção ao alojamento.
- Hanna – Era a voz da Lahis, eu olhei – O que houve? Cadê a Rafa?
- Na torre do relógio. – Falei baixinho – acho que ela quer conversar com alguém, você pode... olha, será que você pode...
- Posso. – Ela me interrompeu e sem falar mais nada começou a andar até lá.
Eu continuei seguindo meu caminho. Dei a volta por todo o alojamento e fui ate as construções de trás. Eu queria chegar até a sala da Paloma, mas no meio do caminho encontrei exatamente as únicas pessoas que eu queria ver.
O Renan e a Mari estavam sentados em um dos banquinhos de pedras por ali, abraçados. Aquilo só serviu pra partir mais o meu coração. Levei a mão a boca de novo e comecei a chorar.
Senti quando ele me abraçou.
- Ei, vai ficar tudo bem. – Ele falou gentilmente – Você quer me contar o que aconteceu?
Afundada em seu peito eu fiz que não com a cabeça.
- Tudo bem. – Ele voltou a falar – Podemos ficar por aqui quanto tempo você precisar.
E nós ficamos. Odiava me sentir assim, fraca. Mas eu sabia que só precisava daqueles momentos, e que eu me reergueria e que logo aquele pesadelo iria acabar. Bom, pelo menos era isso que eu achava que iria acontecer.
Ficamos cerca de duas horas ali até que eu me acalmei, tomei um banho no quarto do Renan e fui encontrar com a Paloma. Já estava escuro e eu não queria ter que voltar para o quarto e topar com a Rafaela por lá, eu iria pedir pra dormir em outro quarto, e de preferência do outro lado do alojamento.
No bloco da direção não tinha muito movimento, então eu decidi subir de elevador dessa vez. Apertei o botão e esperei o elevador subir do subsolo até o térreo. Quando a porta abriu eu me assustei, e embora eu tivesse feito minha feição se recompor eu estava desesperada por ter que entrar no elevador e ficar sozinha com ela.
A Gabriella sorriu pra mim, como se estivesse me esperando. Suspirei fundo, fingindo estar cansada, dei uma passo a frente, entrei no elevador e apertei o andar da Paloma. Ela ficou em silencio, e eu também.
Torci mentalmente para que alguém aparecesse, mas ninguém apareceu então à porta se fechou, me deixando lá, naquele minúsculo espaço com uma doida, invejosa e dissimulada.
Em questões de segundo eu senti toda a raiva me inundar. Se eu fiz o que fiz com a Rafa, metade da culpa era dela. A Mindy tinha razão, a gente nunca acha que é capaz de matar alguém, até se ver em uma situação assim. Dei um passo para o lado e lutei com todas as minhas forças pra controlar a vontade de quebrar a cara dela.
Ela deve ter percebido o meu desconforto por que sua irritante risada chegou aos meus ouvidos, ela suspirou e o timbre da voz dela começou a se formar em uma frase.









