Capítulo 53
O Renan parecia estar apostos, preparado, nos esperando e esperando para entrar em cena. Ele chegou perto de nós respirando fundo varias vezes, assim que entramos.
- Então vamos nessa... – Ele falou em meio a um suspiro.
A Rafa começou a rir, embora eu não achasse graça nenhuma. Estava ligeiramente assustada, afinal, era o sonho dela que estava começando a escorrer pelo ralo.
- Rafaela – A Marcela gritou – O Denis desapareceu... Tenho tentado ligar pra ele, mas até agora nada... Sabe o que pode ter acontecido?
Olhei de esgueira para ela e a vi balançar a cabeça devagar. A Marcela continuava olhando para ela intrigada, mesmo sabendo que não havia nada a ser feito.
- O Renan vai substituí-lo. – A Rafa explicou.
Com um olhar arrogante ela revisou o Renan de cima em baixo. Fiz o mesmo que ela notando que ele vestia bermuda, e uma camiseta de basquete duas vezes maior que seu tamanho. Ele continuava respirando fundo varias vezes seguidas.
- Então acho melhor vocês irem para o palco. – Ela comentou com desdém. – Vamos ter um longo trabalho pela frente.
A Rafa parecia relaxada, enquanto eu me sentia cada vez mais uma pilha de nervos.
Eles se encaminharam para o palco e eu fui me sentar em uma das poltronas da fileira da frente, ao lado da Mari.
- E aí Má! – Cumprimentei-a – não vai rolar ciúmes vai?
Ela riu de um jeito estranho. Parecia estar nervosa, tensa, com um pouco de medo. Deveria ser pela responsabilidade que o namorado dela estava se metendo.
- Você sabe cuidar do que é seu né? Acho que sem problemas.
Apesar da brincadeira ela não parecia realmente se divertir. Voltei meu foco para o palco quando ouvi a orquestra se aquietar.
- Tudo bem Renan – A Rafa começou a falar com um tom alto e firme. Os dois estavam de frentes um para o outro – Eu preciso que você entenda que há uma enorme diferença em dançar para vinte pessoas, e depois dançar para mil e quinhentas, que é o que o salão comporta.
Ainda suspirando ele afirmou com a cabeça.
- Não tenha medo de relar em mim, de tocar em mim – Ela grudou nas mãos dele e fez com que ele a envolvesse pela cintura – Eu preciso da sua força e firmeza entendeu?
- Sim senhora, senhora. – Ele brincou. – Não podemos dançar Lady Gaga? É sério, você tem que ver o meu desempenho de Bad Romance.
Ela afirmou com a cabeça suspirando fundo também, ignorando o comentário irônico dele. Seus olhos se fecharam por um momento enquanto ela tentava se concentrar.
- Você sabe os passos, sabe as ordens e sabe o tempo que a gente tem. É só se soltar.
Mais uma vez ele afirmou com a cabeça suspirando fundo pela ultima vez. Parece que o ensaio iria começar.
Ele fechou os olhos esperando que a orquestra começasse a tocar.
- Renan – Ela o chamou fazendo com que ele se sobressaltasse – O mais importante... Eu exijo que você se divirta.
Ela sorriu de modo gentil encorajando-o. O sorriso debochado de sempre brotou dos lábios dele e em segundo a cúpula que parecia circunda-los de tensa e nervosismo se desfez.
A Rafaela olhou para Marcela que fez sinal para que a banda começasse a tocar.
Era uma carta na manga que eles tinham, não seria som mecânico, seria um big band. Instrumentos de sopro com cordas fazendo em junção com a alma dela.
O ensaio começou e para minha surpresa ele ia fazendo os passos com tanta graciosidade que às vezes eu podia ver o Denis ali. Seus músculos expostos através da camisa regata fazia um contraste com o corpo magrelo e definido da Rafa fazendo com que eles quase flutuassem.
Era lindo, eu devia admitir. Havia um encanto ali, não visível, apenas era possível sentir. Tocava o coração. Era isso que ela precisa fazer essa noite, tocar o coração das pessoas.
Eu estava tão ligada na apresentação que mal notei o jeito desconfortável que a Mariana se mexia ao meu lado.
- Está tudo bem? – Perguntei baixinho.
- Está... Eu só... Sinto-me um pouco enjoada. – Respondeu.
Não era a primeira vez que ela se sentia assim. O Renan havia comentado que ela não estava bem e por isso não havia ido ao coquetel, e que por esse mesmo motivo iria procurar um médio assim que voltássemos do fim de semana.
Continuei observando-a na cara dura. Ela estava pálida e sem vida, além de estar sensível demais.
A música parou de tocar chamando minha atenção para o acontecimento principal outra vez. A Marcela se pôs de pé e aplaudiu os dois. O sorriso branco do Renan brilhou de orelha a orelha, satisfeito. A Rafa o abraçou de modo gentil e agradeceu pelo empenho dele.
Eles teriam uma pausa de alguns minutos e depois voltariam a ensaiar apenas mais uma vez. A Marcela queria que a Rafaela desancasse o máximo que pudesse.
- E ai o que você achou? – Ele perguntou pra Mari assim que desceu.
Antes que ela o respondesse se apoiou nos braços da poltrona e começou a beija-la por todo o rosto de modo frenético.
- Pra com isso Renan – Ela o empurrou pra trás com rispidez. – Não vê que me machuca.
Fiquei completamente sem graça e completamente surpresa. Olhei ao redor procurando pela Rafa para me tirar dali, mas a avistei conversando com o pessoal da orquestra.
- Olha – Ele respondeu irritado – Você tem que me dizer o que tá acontecendo com você. Se não me disse não posso te ajudar.
Eu podia contar nos dedos às vezes que eu o vira irritado. Seu deboche e bom humor pareciam ter sido posto nele através de agulhas em laboratório. Era bem mais que uma característica, ele não conseguia ser de outro jeito.
- Eu não preciso da sua ajuda. – Outra vez ela respondeu com grosseria.
Ele olhou de esgueira pra mim e eu simplesmente balancei a cabeça dizendo que eu não sabia de nada.
A Mari se levantou correndo em disparada em direção ao banheiro. Ele começou a ir atrás dela, mas eu o impedi.
- Deixa comigo camarada – Brinquei – Vai lá que você não vai dançar Lady Gaga essa noite.
Ele forçou um sorriso e afirmou com a cabeça. Segui em direção ao banheiro e o encontrei vazio. Ouvi o barulho da Mari em uma das divisões e encostei-me a pia para esperar por ela.
Depois do que pareceu minutos arrastado, ela saiu do banheiro e se mostrou surpresa a me ver ali. Com a mão na boca ela foi até a pia ao meu lado e começou a passar uma água no rosto. Senti meu coração gelar. Eu não disse nada, na verdade eu já nem queria estar ali.
- Preciso te contar uma coisa – Sua voz finalmente saiu.
A Mari se olhava no espelho enquanto eu sentia um desespero crescer no meu coração. Abri a boca com o cenho franzido, tentando encontrar uma saída.
- Ah não quero saber - Coloquei a mão no meu ouvido tampando-o – Quanto menos eu souber menos são as chances de eu ter que mentir pra alguém no futuro.
Ela segurou minhas mãos abaixando-as. Seu olhar era puro desespero.
- Por favor, Hanna, você é a minha melhor amiga. – Ela implorou.
Sua voz era séria e dramática. Duas características que não via muito nela. Parei com os meus protestos e a observei com algum momento.
A Rafa entrou no banheiro, acabando com o clima tenso que havia ali.
- Hm... – Ela falou confusa – Só pra te avisar que o ensaio acabou.
Afirmei com a cabeça em silencio. A Mari permaneceu intacta, sem olhar para qualquer direção. Levantei um pouquinho à cabeça dando sinal muito discreto pra Rafa nos deixar a sós.
- Te espero lá fora – Ela comentou saindo do local.
Assim que a porta do banheiro voltou a se fechar, respirei fundo percebendo que eu estava sem saída.
- Você não precisa dizer – Confessei – Eu já percebi.
Eu não era boba. Desde pequena eu sabia muito bem o que os sintomas como enjoos, inchaços, desejos e principalmente a menstruação atrasada indicava.
Ela não negou nada, nem me olhou, aquilo era um gesto silencioso de confirmar meus pensamentos. Suspirei sentindo o desespero tomar conta de mim, passei a mão pelo meu cabelo, depois pelo meu rosto, tentando me acalmar.
- Eu não sei como isso aconteceu – Ela voltou a falar.
- Ah não? – Perguntei irônica – Existem varias palavras pra isso, mas se quiser posso te explicar com todas as letras como é que...
Suas mãos pousaram firmes no meu braço, me interrompendo.
- O que eu faço... Diga pra mim, o que é que eu faço.
Desvencilhei-me das mãos dela que já começavam a me machucar. Dei alguns passos em circulo tentando pensar em alguma coisa.
- Tem que contar pra ele – Disse por fim.
- Não posso fazer isso – Protestou – Vou acabar com a vida dele.
Virei em sua direção, perplexa com seu comentário.
- Acabar com a vida dele? Então por que ta pedindo a minha ajuda? Quer abortar, ou sei lá, deixar a criança em um orfanato? Eu entendo bem disso.
- Não, eu só... Olha, por que ta fazendo isso comigo? É tão difícil pra mim quanto pra qualquer um.
Percebi o quão rude eu estava sendo.
- Desculpa, é só que... é difícil pra mim. – Confessei.
Eu esta de bem com a Paloma, e havia aceitado o meu passado, sem ficar me martirizando por ele, porém eu não parava de pensar que se a Paloma não tivesse sido irresponsável de engravidar antes da hora, nada daquilo teria acontecido comigo.
- Vai ficar tudo bem Mari – Falei depois de um tempo – É só mais um obstáculo pra chegar ao fim do túnel.
Ela riu de um jeito nervoso e se sentou no chão do banheiro, tentando se recuperar.
- Não me venha com esses conselhos filosóficos agora.
- Você tem que contar pra ele – Dessa vez eu quem segurou nos braços dela – Tem que dizer, e você vai fazer isso agora.
Antes que ela começasse a discutir, grudei em seu braço e comecei a arrasta-la para fora do banheiro.
- Para com isso... – Ela protestou baixinho enquanto eu a arrastava comigo – Que tipo de amiga é você?
Não as melhores eu sei. A minha opinião era que sempre deveríamos achar as opções que tínhamos e seguir por elas o mais rápido possível. Acabar com tudo de uma vez. Nesse caso, a nossa primeira e única opção era contar pra ele.
Avistei o Renan encostado em uma das colunas do teatro, com uma mochila nas costas, visivelmente esperando por ela.
Ele nos olhou intrigado ou perceber que eu a estava puxando.
- Tudo bem com vocês? – Ele perguntou cauteloso.
- A Mari tem algo pra te contar – Falei direta – E é muito importante que você escute com atenção ok?
Ele olhou pra ela, e depois pra mim. Por fim, afirmou com a cabeça e permaneceu em silencio.
Eu não queria ficar ali e presenciar aquela cena estranha que iria acontecer, não era o meu momento, e eu não era o tipo de pessoa curiosa. Se não me diz respeito, eu não tenho porque me meter.
Sai antes que ela começasse a falar. Avistei a Rafa conversando com algumas pessoas do lado de fora do teatro. Ela olhou por entre os ombros deles e me viu, fiz um sinal com a cabeça indicando para darmos o fora dali.
Seus braços envolveram meu pescoço e ela me beijou a testa de um jeito delicado.
- Temos a tarde livre eu acho... – Sussurrou.
- Teríamos se você não fizesse questão de falar com a Gabriella.
O sorriso debochado dela se desfez, e eu levei um tempo para notar que não era pelo meu comentário. Segui seu olhar por entre meu ombro e dei de frente para um outdoor gigante do outro lado da rua.
Era uma foto anunciando que a final do campeonato estadual aconteceria ali. De um lado do painel era ela, com as mãos na cintura, cabelo ao vento e um olhar presunçoso. No meio havia um ‘X’ gigante que a separava de outra menina.
Completamente diferente dela a menina era loira, dos cabelos lisos com as pontas cacheadas, um olho azul profundo. Ela estava de braços cruzados com um olhar irônico. Mesmo ali em uma foto congelada eu podia sentir a frieza que emanava da garota.
- Ela é bonita né? – A Rafa comentou olhando para a foto.
Ela parecia desapontada com a conclusão em que chegara.
- Hum... – Fingi analisar o painel – Não acho não. Ela é meio... Gordinha.
Eu estava mentindo e isso era obvio, mas era o melhor adjetivo que eu havia encontrado. Ela bufou uma risada chateada e antes que respondesse voltei a protestar.
- Não é sério... Eu acho as gordinhas lindas, mas ela é uma gordinha feia. Só isso.
Pelo canto do olho vi a Rafa me olhar debochada. Ela apoiou o braço no meu ombro descansando.
- Fala sério Hanna, você não sabe nem disfarçar.
- Que foi Rafaela? – Perguntei começando a andar – É a minha opinião, e você, tem que aprender a respeitar minha opinião se não esse relacionamento não vai ter futuro.
Dessa vez ela começou a gargalhar enquanto me acompanhava. A Marcela havia separado um apartamento onde ela poderia se instalar até o final das atividades do campeonato. Nós estávamos indo para lá, já que era naquele mesmo local que encontraríamos a Gabriella.
- Quem não te conhece que te compre. Então temos um relacionamento? – Ela perguntou me alcançando.
Sorri e afirmei com a cabeça.
- Hum, adorei saber disso – Seu tom malicioso pairou no ar – Por que, pessoas que se relacionam, podem ficar sozinhas em um apartamento sem problema algum.
Sozinhas? Pensei. Em um apartamento? Durante a tarde toda? Era demais para o meu autocontrole.















